Universo da obra
Universo da obra
Eu preferiria sair por ali...
A FADA, [zangando-se ainda subitamente.]
É absolutamente impossível, e é um hábito revoltante!... [Indicando a janela.] Sairemos por ali... Então!... Que estais esperando?... Vesti-vos imediatamente... [As crianças obedecem e vestem-se depressa.] Vou ajudar Mytyl...
TYLTYL
Não temos sapatos...
A FADA
Isso não tem importância. Vou dar-vos um chapeuzinho maravilhoso. Onde estão vossos pais?...
TYLTYL, [mostrando a porta à direita.]
Estão ali; dormem...
A FADA
E vosso vovô e vossa vovó?...
TYLTYL
Morreram...
A FADA
E vossos irmãozinhos e irmãzinhas... Tendes alguns?...
TYLTYL
Sim, sim; três irmãozinhos...
MYTYL
E quatro irmãzinhas...
A FADA
Onde estão?...
TYLTYL
Morreram também...
A FADA
Quereis revê-los?...
TYLTYL
Oh, sim!... Agora mesmo!... Mostrai-os!...
A FADA
Não os trago no bolso... Mas isto vem a calhar maravilhosamente; vós os revêreis ao passar pelo País da Lembrança. Fica no caminho do Pássaro Azul. Logo à esquerda, depois da terceira encruzilhada. — Que fazíeis quando bati?...
TYLTYL
Brincávamos de comer bolos.
A FADA
Tendes bolos?... Onde estão?
TYLTYL
No palácio das crianças ricas... Vinde ver, é tão bonito!...
[Ele arrasta a Fada até a janela.]
A FADA, à janela.
Mas são os outros que os comem!...
TYLTYL
Sim; mas, já que se vê tudo...
A FADA
Não lhes tens rancor?...
TYLTYL
Por quê?...
A FADA
Porque comem tudo. Acho que fazem muito mal em não te dar um pouco...
TYLTYL
Mas não, já que são ricos... Hein? Como é bonito na casa deles!...
A FADA
Não é mais bonito que na tua.
TYLTYL
Ora!... Aqui em casa é mais escuro, menor, sem bolos...
A FADA
É absolutamente a mesma coisa; é que tu não enxergas...
TYLTYL
Mas sim, enxergo muito bem, e tenho olhos muito bons. Leio as horas no mostrador da igreja, que papai não vê...
A FADA, [zangando-se subitamente.]
Eu te digo que tu não enxergas!... Como é que me vês?... Como é que sou feita?... [Silêncio constrangido de Tyltyl.] Então, responderás, para que eu saiba se vês?... Sou bela ou feia?... [Silêncio cada vez mais embaraçado.] Não queres responder?... Sou jovem ou velha?... Sou rosada ou amarela?... Talvez eu tenha uma corcova?...
TYLTYL, [conciliador.]
Não, não, ela não é grande...
A FADA
Mas sim, a julgar pelo teu ar, diriam que é enorme... Tenho o nariz adunco e o olho esquerdo furado?...
TYLTYL
Não, não, eu não digo... Quem foi que o furou?...
A FADA, cada vez mais irritada.
Mas ele não está furado!... Insolente! miserável!... É mais belo que o outro; é maior, mais claro, é azul como o céu... E meus cabelos, vês?... São louros como os trigais... parecem ouro virgem!... E tenho tantos, tantos, que a cabeça me pesa... Escapam por todos os lados... Vês aqui em minhas mãos?...
[Ela estende duas magras mechas de cabelos grisalhos.]
TYLTYL
Sim, vejo alguns...
A FADA, [indignada.]
Alguns!... Feixes! braçadas! tufos! ondas de ouro!... Sei muito bem que há pessoas que dizem não ver nada; mas tu não és dessas más pessoas cegas, suponho?...
TYLTYL
Não, não, vejo muito bem os que não se escondem...
A FADA
Mas é preciso ver os outros com a mesma ousadia!... São bem curiosos, os homens... Desde a morte das fadas, já não enxergam absolutamente nada e nem sequer desconfiam... Felizmente, trago sempre comigo tudo quanto é preciso para reacender os olhos apagados... Que é que tiro de meu saco?...
TYLTYL
Oh! que lindo chapeuzinho verde!... Que é que brilha assim na cocarda?...
A FADA
É o grande Diamante que faz ver...
TYLTYL
Ah!...
A FADA
Sim; quando se tem o chapéu na cabeça, gira-se um pouco o Diamante: da direita para a esquerda, por exemplo, olha, assim, estás vendo?... Ele então aperta uma saliência da cabeça que ninguém conhece, e que abre os olhos...
TYLTYL
Isso não machuca?...
A FADA
Ao contrário, é fada. Vê-se no mesmo instante o que há dentro das coisas; a alma do pão, do vinho, da pimenta, por exemplo...
MYTYL
Também se vê a alma do açúcar?...
A FADA, [subitamente zangada.]
Isso nem se discute!... Não gosto de perguntas inúteis... A alma do açúcar não é mais interessante que a da pimenta... Eis aqui, dou-vos o que tenho para ajudar-vos na busca do Pássaro Azul... Sei muito bem que o Anel-que-torna-invisível ou o Tapete Voador vos seriam mais úteis... Mas perdi a chave do armário onde os guardei... Ah! quase me esquecia... [Mostrando o Diamante.] Quando se o mantém assim, vês... mais uma voltinha, e se revê o Passado... Ainda uma voltinha, e vê-se o Futuro... É curioso e prático, e não faz barulho...
TYLTYL
Papai vai tomá-lo de mim...
A FADA
Ele não o verá; ninguém pode vê-lo enquanto estiver sobre tua cabeça... Queres experimentá-lo?... [Ela põe em Tyltyl o chapeuzinho verde.] Agora, gira o Diamante... Uma volta e depois...
[Mal Tyltyl girou o Diamante, uma súbita e prodigiosa mudança se opera em todas as coisas. A velha fada transforma-se de repente numa bela e maravilhosa princesa; as pedras de que são feitas as paredes da cabana iluminam-se, tornam-se azuis como safiras, ficam transparentes, cintilam, deslumbram como as pedras mais preciosas. O pobre mobiliário anima-se e resplandece; a mesa de madeira branca afirma-se tão grave, tão nobre quanto uma mesa de mármore; o mostrador do relógio pisca o olho e sorri com amenidade, enquanto a porta por trás da qual vai e vem o pêndulo se entreabre e deixa escapar as Horas, que, de mãos dadas e rindo às gargalhadas, põem-se a dançar ao som de uma música deliciosa. Legítimo espanto de Tyltyl, que exclama, mostrando as Horas.]
TYLTYL
Que são todas essas belas damas?...
A FADA
Não tenhas medo; são as horas de tua vida, felizes por estarem livres e visíveis por um instante...
TYLTYL
E por que as paredes estão tão claras?... São de açúcar ou de pedras preciosas?...
A FADA
Todas as pedras são iguais, todas as pedras são preciosas: mas o homem só vê algumas...
[Enquanto assim falam, a féerie continua e se completa. As almas dos Pães-de-quatro-libras, sob a forma de homenzinhos em malhas cor de côdea de pão, atônitos e enfarinhados, desembaraçam-se da arca de pão e saltitam ao redor da mesa, onde são alcançados pelo Fogo, que, saído da lareira em malha enxofre e vermelhão, os persegue, contorcendo-se de rir.]
TYLTYL
Que são esses homenzinhos feios?...
A FADA
Nada de grave; são as almas dos Pães-de-quatro-libras, que aproveitam o reino da verdade para sair da arca onde se achavam apertadas...
TYLTYL
E o grande diabo vermelho que cheira mal?...
A FADA
Chiu!... Não fales tão alto, é o Fogo... Ele tem mau gênio.
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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