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O Pássaro Azul

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O Pássaro Azul

Capítulo 5 · O Pássaro Azul

Ato Primeiro - Primeiro Quadro - Parte 3

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[Este diálogo não interrompeu a féerie. O Cão e a Gata, deitados em círculo ao pé do armário, soltando simultaneamente um grande grito, desaparecem por um alçapão, e em seu lugar surgem duas personagens, uma das quais traz uma máscara de buldogue, e a outra uma cabeça de gata. Imediatamente, o homenzinho de máscara de buldogue — a quem de agora em diante chamaremos o Cão — precipita-se sobre Tyltyl, a quem abraça violentamente e cobre de ruidosas e impetuosas carícias, enquanto a mulherzinha de máscara de gata — a quem chamaremos mais simplesmente a Gata — passa um pente nos cabelos, lava as mãos e alisa os bigodes, antes de se aproximar de Mytyl.]

O CÃO, [uivando, saltando, atropelando tudo, insuportável.]

Meu pequeno deus!... Bom dia! bom dia, meu pequeno deus!... Enfim, enfim podemos falar! Eu tinha tantas coisas a te dizer!... Por mais que eu ladrasse e abanasse a cauda!... Tu não compreendias!... Mas agora!... Bom dia! bom dia!... Eu te amo!... Eu te amo!... Queres que eu faça alguma coisa espantosa?... Queres que eu me sente bonito?... Queres que eu ande sobre as mãos ou que dance na corda?...

TYLTYL, à Fada.

Que é esse senhor com cabeça de cão?...

A FADA

Mas então não vês?... É a alma de Tylô, que libertaste...

A GATA, [aproximando-se de Mytyl e estendendo-lhe a mão, cerimoniosamente, com circunspecção.]

Bom dia, senhorita... Como estais bonita esta manhã!...

MYTYL

Bom dia, senhora... [À Fada.] Quem é?...

A FADA

É fácil de ver; é a alma de Tylette que te estende a mão... Abraça-a...

O CÃO, [atropelando a Gata.]

Eu também!... Eu abraço o pequeno deus!... Abraço a menininha!... Abraço todo mundo!... Que maravilha!... Vamos nos divertir!... Vou meter medo em Tylette!... Uu! uu! uu!...

A GATA

Senhor, não o conheço...

A FADA, [ameaçando o Cão com sua varinha.]

Tu, fica bem quieto; senão voltarás ao silêncio até o fim dos tempos...

[Entretanto, a féerie prosseguiu seu curso: a Roca pôs-se a girar vertiginosamente em seu canto, fiando esplêndidos raios de luz; a Fonte, no outro ângulo, põe-se a cantar com voz agudíssima e, transformando-se em fonte luminosa, inunda a pia de lençóis de pérolas e esmeraldas, através dos quais se lança a alma da Água, semelhante a uma jovem escorrente, desgrenhada, chorosa, que vai imediatamente brigar com o fogo.]

TYLTYL

E a dama molhada?...

A FADA

Não tenhas medo, é a Água que sai da torneira...

[O Pote de Leite se vira, cai da mesa, quebra-se no chão; e do leite derramado ergue-se uma grande forma branca e pudibunda, que parece ter medo de tudo.]

TYLTYL

E a dama de camisola que tem medo?...

A FADA

É o Leite, que quebrou o seu pote...

[O Pão de Açúcar colocado ao pé do armário cresce, alarga-se e rompe seu invólucro de papel, de onde emerge um ser adocicado e hipócrita, vestido com uma blusa metade branca e metade azul, que, sorrindo beatamente, avança para Mytyl.]

MYTYL, [com inquietação.]

Que quer ele?...

A FADA

Ora, é a alma do Açúcar!...

MYTYL, [tranquilizada.]

Ele tem balas de açúcar?...

A FADA

Ora, não tem outra coisa nos bolsos, e cada um de seus dedos é uma delas...

[A Lâmpada cai da mesa, e assim que cai, sua chama se ergue de novo e se transforma numa virgem luminosa, de incomparável beleza. Está vestida de longos véus transparentes e deslumbrantes, e permanece imóvel numa espécie de êxtase.]

TYLTYL

É a Rainha!

MYTYL

É a Santíssima Virgem!...

A FADA

Não, meus filhos, é a Luz...

[Entretanto, as panelas, nas prateleiras, giram como piões holandeses; o armário de roupa estala suas portas e começa um magnífico desenrolar de tecidos cor de lua e de sol, aos quais se misturam, não menos esplêndidos, trapos e andrajos que descem a escada do sótão. Mas eis que três pancadas bastante rudes são dadas na porta da direita.]

TYLTYL, [assustado.]

É papai!... Ele nos ouviu!...

A FADA

Gira o Diamante!... Da esquerda para a direita!...

[Tyltyl gira vivamente o diamante.] Não tão depressa!... Meu Deus! É tarde demais!... Tu o giraste bruscamente demais. Eles não terão tempo de retomar seus lugares, e teremos muitos aborrecimentos... [A Fada volta a ser velha; as paredes da cabana apagam seus esplendores, as Horas entram de novo no relógio, a Roca para, etc. Mas na pressa e no desalinho geral, enquanto o Fogo corre loucamente pelo aposento, à procura da lareira, um dos Pães-de-quatro-libras, que não conseguiu reencontrar lugar na arca, rompe em soluços, soltando rugidos de pavor.] Que há?...

O PÃO, [todo em lágrimas.]

Não há mais lugar na arca!...

A FADA, [inclinando-se sobre a arca.]

Mas há, mas há... [Empurrando os outros pães que retomaram seu lugar primitivo.] Vamos, depressa, apertai-vos...

[Batem outra vez à porta.]

O PÃO, [desatinado, esforçando-se em vão para entrar na arca.]

Não há meio!... Ele me comerá primeiro!...

O CÃO, [saltitando ao redor de Tyltyl.]

Meu pequeno deus!... Ainda estou aqui!... Ainda posso falar! Ainda posso te abraçar!... Mais! mais! mais!...

A FADA

Como, tu também?... Ainda estás aí?...

O CÃO

Tive sorte... Não consegui voltar ao silêncio; o alçapão fechou-se depressa demais...

A GATA

O meu também... Que vai acontecer?... É perigoso?

A FADA

Meu Deus, devo dizer-vos a verdade: todos os que acompanharem as duas crianças morrerão ao fim da viagem...

A GATA

E os que não as acompanharem?...

A FADA

Sobreviverão alguns minutos...

A GATA, [ao Cão.]

Vem, voltemos ao alçapão...

O CÃO

Não, não!... Não quero!... Quero acompanhar o pequeno deus!... Quero falar com ele o tempo todo!...

A GATA

Imbecil!...

[Batem outra vez à porta.]

O PÃO, [chorando lágrimas ardentes.]

Não quero morrer ao fim da viagem!... Quero voltar imediatamente para minha arca!...

O FOGO, [que não cessou de percorrer vertiginosamente o aposento, soltando assobios de angústia.]

Não encontro mais minha lareira!...

A ÁGUA, [que tenta em vão voltar para a torneira.]

Não consigo mais voltar para a torneira!...

O AÇÚCAR, [que se agita em torno de seu invólucro de papel.]

Rasguei meu papel de embrulho!...

O LEITE, [linfático e pudibundo.]

Quebraram meu potinho!...

A FADA

Como são tolos, meu Deus!... Como são tolos e poltrões!... Preferiríeis então continuar vivendo em vossas caixas feias, em vossos alçapões e em vossas torneiras, a acompanhar as crianças que vão procurar o Pássaro?...

TODOS, [com exceção do Cão e da Luz.]

Sim! sim! Agora mesmo!... Minha torneira!... Minha arca!... Minha lareira!... Meu alçapão!...

A FADA, [à Luz, que olha sonhadoramente os destroços de sua lâmpada.]

E tu, Luz, que dizes?...

A LUZ

Acompanharei as crianças...

O CÃO, [uivando de alegria.]

Eu também! eu também!...

A FADA

Isto é muito bom. De resto, é tarde demais para recuar; já não tendes escolha, saireis todos conosco... Mas tu, Fogo, não te aproximes de ninguém; tu, Cão, não atormentes a Gata; e tu, Água, mantém-te direita e trata de não escorrer por toda parte...

[Golpes violentos são ainda dados à porta da direita.]

TYLTYL, [escutando.]

É papai de novo!... Desta vez ele se levanta, ouço-o andar...

A FADA

O Pássaro Azul

Sinopse

Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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