Universo da obra
Universo da obra
ATO SEGUNDO
SEGUNDO QUADRO
NA CASA DA FADA
Um magnífico vestíbulo no palácio da Fada Bérylune. Colunas de mármore claro com capitéis de ouro e de prata, escadarias, pórticos, balaustradas, etc.
* * * * *
[Entram ao fundo, à direita, suntuosamente vestidos, a Gata, o Açúcar e o Fogo. Saem de um aposento de onde emanam raios de luz; é o guarda-roupa da Fada. A Gata lançou uma gaze leve sobre sua malha de seda negra; o Açúcar vestiu uma túnica de seda, metade branca e metade azul-clara; e o Fogo, coroado de penachos multicores, um longo manto carmesim forrado de ouro. Atravessam toda a sala e descem ao primeiro plano, à direita, onde a Gata os reúne sob um pórtico.]
A GATA
Por aqui. Conheço todos os desvios deste palácio... A Fada Bérylune o herdou de Barba-Azul... Enquanto as crianças e a Luz visitam a filhinha da Fada, aproveitemos nosso último minuto de liberdade... Fiz-vos vir aqui para vos falar da situação que nos foi criada... Estamos todos presentes?...
O AÇÚCAR
Eis o Cão que sai do guarda-roupa da Fada...
O FOGO
Como diabo ele se vestiu?...
A GATA
Tomou a libré de um dos lacaios da carruagem de Cinderela... Era bem o que lhe convinha... Tem alma de criado... Mas escondamo-nos atrás da balaustrada... Desconfio estranhamente dele... Seria melhor que não ouvisse o que tenho a vos dizer...
O AÇÚCAR
É inútil... Ele nos farejou... Olha, lá vem a Água saindo ao mesmo tempo do guarda-roupa... Deus! como é bela!...
[O Cão e a Água juntam-se ao primeiro grupo.]
O CÃO, saltitando.
Pronto! pronto!... Como estamos bonitos! Olhai só estas rendas, e depois estes bordados!... É ouro, e dos verdadeiros!...
A GATA, [à Água.]
É o vestido “cor-do-tempo” de Pele de Asno?... Parece-me que o conheço...
A ÁGUA
Sim, era ainda o que me caía melhor...
O FOGO, [entre os dentes.]
Ela não trouxe o guarda-chuva...
A ÁGUA
Que dissestes?...
O FOGO
Nada, nada...
A ÁGUA
Pensei que faláveis de um grande nariz vermelho que vi outro dia...
A GATA
Vejamos, não briguemos; temos coisa melhor a fazer... Já não esperamos senão o Pão: onde está ele?...
O CÃO
Ele não acabava nunca de fazer espalhafato para escolher o traje...
O FOGO
Grande coisa, quando se tem ar de idiota e se carrega uma barriga enorme...
O CÃO
Finalmente, decidiu-se por uma veste turca, ornada de pedrarias, uma cimitarra e um turbante...
A GATA
Ei-lo!... Vestiu a mais bela túnica de Barba-Azul...
[Entra o Pão, no traje que acabam de descrever. A túnica de seda cruza-se penosamente sobre sua enorme barriga. Segura com uma das mãos o punho da cimitarra passada no cinto e, com a outra, a gaiola destinada ao Pássaro Azul.]
O PÃO, [balançando-se vaidosamente.]
Então?... Que achais de mim?...
O CÃO, [saltitando ao redor do Pão.]
Como é belo! como é tolo! como é belo! como é belo!...
A GATA, [ao Pão.]
As crianças estão vestidas?...
O PÃO
Sim, o senhor Tyltyl tomou a jaqueta vermelha, as meias brancas e o calção azul do Pequeno Polegar; quanto à senhorita Mytyl, está com o vestido de Gretel e as pantufas de Cinderela... Mas a grande questão foi vestir a Luz!...
A GATA
Por quê?...
O PÃO
A Fada achava-a tão bela que não queria vesti-la de modo algum!... Então protestei em nome da nossa dignidade de elementos essenciais e eminentemente respeitáveis; e acabei por declarar que, nessas condições, eu me recusava a sair com ela...
O FOGO
Era preciso comprar-lhe um quebra-luz!...
A GATA
E a Fada, que respondeu?...
O PÃO
Deu-me alguns golpes de bastão na cabeça e na barriga...
A GATA
E então?...
O PÃO
Fui prontamente convencido; mas, no último momento, a Luz decidiu-se pelo vestido “cor-de-lua” que se achava no fundo do cofre dos tesouros de Pele de Asno...
A GATA
Vejamos, já se falou bastante; o tempo urge... Trata-se do nosso futuro... Ouvistes, a Fada acaba de dizê-lo: o fim desta viagem marcará, ao mesmo tempo, o fim da nossa vida... Trata-se, portanto, de prolongá-la tanto quanto possível e por todos os meios possíveis... Mas há ainda outra coisa; é preciso que pensemos no destino da nossa raça e no destino de nossos filhos...
O PÃO
Bravo! bravo!... A Gata tem razão!...
A GATA
Escutai-me... Todos nós aqui presentes, animais, coisas e elementos, possuímos uma alma que o homem ainda não conhece. É por isso que conservamos um resto de independência; mas, se ele encontrar o Pássaro Azul, saberá tudo, verá tudo, e estaremos completamente à sua mercê... Foi o que acaba de me ensinar minha velha amiga, a Noite, que é ao mesmo tempo a guardiã dos mistérios da Vida... É, portanto, de nosso interesse impedir a todo custo que se encontre esse pássaro, ainda que seja preciso chegar a pôr em perigo a própria vida das crianças...
O CÃO, indignado.
Que está dizendo esta aí?... Repete um pouco, para eu ouvir bem o que é?
O PÃO
Silêncio!... Não tendes a palavra!... Eu presido a assembleia...
O FOGO
Quem vos nomeou presidente?...
A ÁGUA, [ao Fogo.]
Silêncio!... De que vos meteis?...
O FOGO
Meto-me no que é preciso... Não tenho observações a receber de vós...
O AÇÚCAR, [conciliador.]
Permiti... Não azedemos a discussão... A hora é grave... Trata-se, antes de tudo, de entrarmos em acordo sobre as medidas a tomar...
O PÃO
Compartilho inteiramente a opinião do Açúcar e da Gata...
O CÃO
Isso é idiota!... Há o Homem, eis tudo!... É preciso obedecer-lhe e fazer tudo o que ele quiser!... Só isso é verdadeiro... Só conheço a ele!... Viva o Homem!... Na vida, na morte, tudo pelo Homem!... O Homem é deus!...
O PÃO
Compartilho inteiramente a opinião do Cão.
A GATA, [ao Cão.]
Mas dão-se as razões...
O CÃO
Não há razões!... Amo o Homem, isso basta!... Se fizerdes alguma coisa contra ele, primeiro vos estrangularei, e irei revelar-lhe tudo...
O AÇÚCAR, [intervindo com doçura.]
Permiti... Não amarguemos a discussão... De certo ponto de vista, ambos tendes razão... Há o pró e o contra...
O PÃO
Compartilho inteiramente a opinião do Açúcar!...
A GATA
Acaso todos nós aqui, a Água, o Fogo, e vós mesmos, o Pão e o Cão, não somos vítimas de uma tirania sem nome?... Lembrai-vos do tempo em que, antes da vinda do déspota, errávamos livremente pela face da Terra... A Água e o Fogo eram os únicos senhores do mundo; e vede em que se tornaram!... Quanto a nós, os mesquinhos descendentes das grandes feras... Atenção!... Finjamos que nada há... Vejo avançarem a Fada e a Luz... A Luz pôs-se do lado do Homem; é nossa pior inimiga... Ei-las...
[Entram à direita a Fada e a Luz, seguidas de Tyltyl e de Mytyl.]
A FADA
Então?... Que é isto?... Que fazeis neste canto?... Tendes ar de conspirar... É tempo de nos pormos a caminho... Acabo de decidir que a Luz será vossa chefe... Todos lhe obedecereis como a mim mesma, e confio-lhe minha varinha... As crianças visitarão esta noite seus avós, que estão mortos... Não as acompanhareis, por discrição... Elas passarão a noite no seio de sua família falecida... Enquanto isso, preparareis tudo o que for necessário para a etapa de amanhã, que será longa... Vamos, de pé, a caminho, e cada qual a seu posto!...
A GATA, [hipocritamente.]
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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