Universo da obra
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ATO TERCEIRO
QUARTO QUADRO
O PALÁCIO DA NOITE
Uma vasta e prodigiosa sala de magnificência austera, rígida, metálica e sepulcral, dando a impressão de um templo grego ou egípcio, cujas colunas, arquitraves, lajes e ornamentos fossem de mármore negro, ouro e ébano. A sala tem forma de trapézio. Degraus de basalto, que ocupam quase toda a sua largura, dividem-na em três planos sucessivos que se elevam gradualmente para o fundo. À direita e à esquerda, entre as colunas, portas de bronze escuro. Ao fundo, porta monumental de bronze. Uma luz difusa, que parece emanar do próprio brilho do mármore e do ébano, ilumina sozinha o palácio.
* * * * *
[Ao erguer-se o pano, a Noite, sob a figura de uma mulher muito bela, coberta de longas vestes negras, está sentada nos degraus do segundo plano, entre duas crianças, uma das quais, quase nua, como o Amor, sorri num sono profundo, enquanto a outra permanece de pé, imóvel e velada dos pés à cabeça. — Entra, à direita, no primeiro plano, a Gata.]
A NOITE
Quem vem lá?...
A GATA, [deixando-se cair, acabrunhada, sobre os degraus de mármore.]
Sou eu, mãe Noite... Não posso mais...
A NOITE
Que tens, minha filha?... Estás pálida, emagrecida, e aí estás enlameada até os bigodes... Brigaste outra vez nas calhas, sob a neve e a chuva?...
A GATA
Como se se tratasse de calhas!... É do nosso segredo que se trata!... É o começo do fim!... Consegui escapar por um instante para vos prevenir; mas temo muito que não haja nada a fazer...
A NOITE
Quê?... Que aconteceu?...
A GATA
Já vos falei do pequeno Tyltyl, o filho do lenhador, e do Diamante maravilhoso... Pois bem, ele vem aqui reclamar-vos o Pássaro Azul...
A NOITE
Ainda não o tem em mãos...
A GATA
Tê-lo-á em breve, se não fizermos algum milagre... Eis o que se passa: a Luz, que o guia e que nos trai a todos, pois se pôs inteiramente do lado do Homem, a Luz acaba de saber que o Pássaro Azul, o verdadeiro, o único que pode viver à claridade do dia, se esconde aqui, entre os pássaros azuis dos sonhos, que se nutrem dos raios da lua e morrem assim que veem o sol... Ela sabe que lhe é proibido transpor o limiar de vosso palácio; mas envia aqui as crianças; e, como não podeis impedir o Homem de abrir as portas de vossos segredos, não sei bem como tudo isso acabará... Em todo caso, se eles tiverem a desgraça de pôr a mão no verdadeiro Pássaro Azul, nada mais nos restará senão desaparecer...
A NOITE
Senhor, Senhor!... Em que tempos vivemos! Não tenho mais um minuto de repouso... Já não compreendo o Homem, de alguns anos para cá... Aonde quer chegar?... É preciso então que ele saiba tudo?... Já se apoderou de um terço dos meus Mistérios; todos os meus Terrores têm medo e já não ousam sair; meus Fantasmas estão em fuga; a maior parte das minhas Doenças não vai bem...
A GATA
Eu sei, minha mãe Noite, eu sei; os tempos são duros, e estamos quase sós na luta contra o Homem... Mas ouço-os aproximarem-se... Só vejo um meio: como são crianças, é preciso causar-lhes tal medo que não ousem insistir nem abrir a grande porta do fundo, atrás da qual se acham os pássaros da Lua... Os segredos das outras cavernas bastarão para desviar-lhes a atenção ou aterrorizá-las...
A NOITE, [prestando ouvido a um ruído de fora.]
Que ouço?... Então são vários?
A GATA
Não é nada; são nossos amigos: o Pão e o Açúcar; a Água está indisposta e o Fogo não pôde vir, porque é parente da Luz... Só o Cão é que não está conosco; mas nunca há meio de afastá-lo...
[Entram timidamente, à direita, no primeiro plano, Tyltyl, Mytyl, o Pão, o Açúcar e o Cão.]
A GATA, [precipitando-se ao encontro de Tyltyl.]
Por aqui, por aqui, meu pequeno amo... Avisei a Noite, que está encantada em vos receber... É preciso desculpá-la, está um pouco adoentada; por isso não pôde ir ao vosso encontro...
TYLTYL
Bom dia, senhora Noite...
A NOITE, [ofendida.]
Bom dia? Não conheço isso... Bem poderias dizer-me: boa noite, ou ao menos: boa tarde...
TYLTYL, [mortificado.]
Perdão, senhora... Eu não sabia... [Apontando com o dedo as duas crianças.] São vossos dois meninos?... São muito gentis...
A NOITE
Sim, este é o Sono...
TYLTYL
Por que ele é tão gordo?...
A NOITE
É porque dorme bem...
TYLTYL
E o outro, que se esconde?... Por que vela o rosto?... Está doente?... Como se chama?...
A NOITE
É a irmã do Sono... É melhor não a nomear...
TYLTYL
Por quê?...
A NOITE
Porque é um nome que não se gosta de ouvir... Mas falemos de outra coisa... A Gata acaba de me dizer que vindes aqui procurar o Pássaro Azul?...
TYLTYL
Sim, senhora, se permitirdes... Quereis dizer-me onde ele está?...
A NOITE
Não sei nada disso, meu pequeno amigo... Tudo o que posso afirmar é que ele não está aqui... Nunca o vi...
TYLTYL
Sim, sim... A Luz me disse que ele está aqui; e ela sabe o que diz, a Luz... Quereis entregar-me vossas chaves?...
A NOITE
Mas, meu pequeno amigo, bem compreendes que não posso dar assim minhas chaves ao primeiro que chega... Tenho a guarda de todos os segredos da Natureza, sou responsável por eles, e me é absolutamente proibido entregá-los a quem quer que seja, sobretudo a uma criança...
TYLTYL
Não tendes o direito de recusá-las ao Homem que as pede... Eu sei...
A NOITE
Quem te disse isso?...
TYLTYL
A Luz...
A NOITE
Ainda a Luz! e sempre a Luz!... Afinal, de que se mete ela?...
O CÃO
Queres que eu as tome dela à força, meu pequeno deus?...
TYLTYL
Cala-te, fica quieto e trata de ser polido... [À Noite.] Vamos, senhora, dai-me vossas chaves, por favor...
A NOITE
Tens ao menos o sinal?... Onde está?...
TYLTYL, [tocando o chapéu.]
Vede o Diamante...
A NOITE, [resignando-se ao inevitável.]
Enfim... Eis a que abre todas as portas da sala... Pior para ti se te acontecer alguma desgraça... Não respondo por nada.
O PÃO, [muito inquieto.]
É perigoso?...
A NOITE
Perigoso?... Quero dizer que eu mesma não sei bem como poderei sair-me, quando certas dessas portas de bronze se abrirem sobre o abismo... Há ali, ao redor da sala, em cada uma dessas cavernas de basalto, todos os males, todos os flagelos, todas as doenças, todos os espantos, todas as catástrofes, todos os mistérios que afligem a vida desde o começo do mundo... Tive bastante trabalho para encerrá-los ali com a ajuda do Destino; e não é sem esforço, garanto-vos, que mantenho um pouco de ordem entre essas personagens indisciplinadas... Vê-se o que acontece quando uma delas escapa e aparece na terra...
O PÃO
Minha grande idade, minha experiência e minha dedicação fazem de mim o protetor natural destas duas crianças; por isso, senhora Noite, permiti-me fazer-vos uma pergunta...
A NOITE
Fazei.
O PÃO
Em caso de perigo, por onde se deve fugir?...
A NOITE
Não há meio de fugir.
TYLTYL, [tomando a chave e subindo os primeiros degraus.]
Comecemos por aqui... Que há atrás desta porta de bronze?...
A NOITE
Creio que são os Fantasmas... Há muito tempo que não a abro e que eles não saem...
TYLTYL, pondo a chave na fechadura.
Vou ver... [Ao Pão.] Tendes a gaiola do Pássaro Azul?...
O PÃO, batendo os dentes.
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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