Universo da obra
Universo da obra
Não é que eu tenha medo, mas não credes que seria preferível não abrir e olhar pelo buraco da fechadura?...
TYLTYL
Não vos pedi opinião...
MYTYL, [pondo-se a chorar de repente.]
Tenho medo!... Onde está o Açúcar?... Quero voltar para casa!...
O AÇÚCAR, [apressado, obsequioso.]
Aqui, senhorita, estou aqui... Não choreis; vou cortar um de meus dedos para vos oferecer um bastão de açúcar...
TYLTYL
Acabemos com isto...
[Ele gira a chave e entreabre prudentemente a porta. Logo escapam cinco ou seis Espectros, de formas diversas e estranhas, que se espalham por todos os lados. O Pão, apavorado, deixa cair a gaiola e vai esconder-se no fundo da sala, enquanto a Noite, perseguindo os Espectros, grita a Tyltyl:]
A NOITE
Depressa! depressa!... Fecha a porta!... Eles escapariam todos e já não poderíamos apanhá-los!... Aborrecem-se lá dentro, desde que o Homem já não os leva a sério... [Ela persegue os Espectros, esforçando-se, com o auxílio de um chicote formado de serpentes, por reconduzi-los à porta de sua prisão.] Ajudai-me!... Por aqui!... Por aqui!...
TYLTYL, [ao Cão.]
Ajuda-a, Tylô, vai logo!...
O CÃO, [saltando e latindo.]
Sim! sim! sim!...
TYLTYL
E o Pão, onde está?...
O PÃO, do fundo da sala.
Aqui... Estou perto da porta para impedi-los de sair...
[Como um dos Espectros avança desse lado, ele foge a toda pressa, soltando uivos de pavor.]
A NOITE, [a três Espectros que agarrou pelo colarinho.]
Por aqui, vós outros!... [A Tyltyl.] Reabre um pouco a porta... [Ela empurra os Espectros para dentro da caverna.] Pronto, está bem... [O Cão reconduz mais dois.] E ainda estes aqui... Vamos, depressa, ponde-vos em ordem... Bem sabeis que só saís agora no Dia de Todos os Santos.
[Ela torna a fechar a porta.]
TYLTYL, [indo a outra porta.]
Que há atrás desta?...
A NOITE
Para quê?... Já te disse: o Pássaro Azul nunca veio por aqui... Enfim, como quiseres... Abre-a, se isso te agrada... São as Doenças...
TYLTYL, [com a chave na fechadura.]
É preciso tomar cuidado ao abrir?...
A NOITE
Não, não vale a pena... Elas estão bem tranquilas, as pobrezinhas... Não são felizes... O Homem, de algum tempo para cá, faz-lhes uma guerra tão grande!... Sobretudo desde a descoberta dos micróbios... Abre, pois, e verás...
[Tyltyl abre a porta de par em par. Nada aparece.]
TYLTYL
Elas não saem?...
A NOITE
Eu te prevenira: quase todas estão adoentadas e muito desanimadas... Os médicos não são gentis com elas... Entra um instante, e verás...
[Tyltyl entra na caverna e sai logo em seguida.]
TYLTYL
O Pássaro Azul não está lá... Têm ar bem doente, vossas Doenças... Nem sequer levantaram a cabeça... [Uma pequena Doença, de pantufas, robe de quarto e gorro de algodão, escapa da caverna e põe-se a saltitar pela sala.] Olha!... Uma pequena que foge!... Que é isto?...
A NOITE
Não é nada, é a menor delas, é o Resfriado de Cabeça... É uma das que menos se perseguem e das que melhor passam... [Chamando o Resfriado de Cabeça.] Vem cá, minha pequena... É cedo demais; é preciso esperar a primavera...
[O Resfriado de Cabeça, espirrando, tossindo e assoando o nariz, volta para a caverna, cuja porta Tyltyl fecha.]
TYLTYL, [indo à porta vizinha.]
Vejamos então esta... Que é?...
A NOITE
Cuidado... São as Guerras... Estão mais terríveis e mais poderosas do que nunca... Deus sabe o que aconteceria se uma delas escapasse!... Felizmente, são bastante obesas e carecem de agilidade... Mas estejamos prontos para empurrar a porta todos juntos, enquanto tu lançarás um rápido olhar dentro da caverna...
[Tyltyl, com mil precauções, entreabre a porta de modo que haja apenas uma pequena fresta onde possa aplicar o olho. Imediatamente, firma-se contra ela, gritando:]
TYLTYL
Depressa! depressa!... Empurrai, pois!... Elas me viram!... Vêm todas!... Estão abrindo a porta!...
A NOITE
Vamos, todos!... Empurrai firme!... Vejamos, Pão, que estais fazendo?... Empurrai todos!... Que força elas têm!... Ah! pronto! Conseguimos... Elas cedem... Já era tempo!... Viste?...
TYLTYL
Sim, sim!... São enormes, espantosas!... Creio que não têm o Pássaro Azul...
A NOITE
Claro que não o têm... Elas o comeriam imediatamente... Então, já te basta?... Vês bem que não há nada a fazer...
TYLTYL
É preciso que eu veja tudo... A Luz o disse...
A NOITE
A Luz o disse... É fácil dizer quando se tem medo e se fica em casa...
TYLTYL
Vamos à seguinte... Que é?...
A NOITE
Aqui encerro as Trevas e os Terrores...
TYLTYL
Pode-se abrir?...
A NOITE
Perfeitamente... Estão bastante tranquilas; é como as Doenças...
TYLTYL, [entreabrindo a porta com certa desconfiança e arriscando um olhar na caverna.]
Elas não estão ali...
A NOITE, [olhando por sua vez dentro da caverna.]
Então, Trevas, que fazeis?... Saí um instante, isso vos fará bem, vos desembotará. E os Terrores também... Não há nada a temer... [Algumas Trevas e alguns Terrores, sob a figura de mulheres cobertas, as primeiras de véus negros, os últimos de véus esverdeados, arriscam lastimosamente alguns passos fora da caverna e, a um gesto apenas esboçado por Tyltyl, tornam a entrar precipitadamente.] Vamos, comportai-vos... É uma criança, não vos fará mal... [A Tyltyl.] Tornaram-se extremamente tímidos; exceto os grandes, aqueles que vês ao fundo...
TYLTYL, [olhando para o fundo da caverna.]
Oh! como são assustadores!...
A NOITE
Estão acorrentados... São os únicos que não têm medo do Homem... Mas fecha a porta, para que não se zanguem...
TYLTYL, [indo à porta seguinte.]
Olha!... Esta é mais sombria... Que é?...
A NOITE
Há vários Mistérios atrás desta... Se fazes absoluta questão, podes abri-la também... Mas não entres... Sê bem prudente, e depois preparemo-nos para empurrar a porta, como fizemos com as Guerras...
TYLTYL, [entreabrindo-a com precauções inauditas e passando medrosamente a cabeça pela fresta.]
Oh!... Que frio!... Meus olhos ardem!... Fechai depressa!... Empurrai, pois! Está empurrando de volta!... [A Noite, o Cão, a Gata e o Açúcar empurram a porta.] Oh! eu vi!...
A NOITE
O quê, então?...
TYLTYL, [transtornado.]
Não sei, era espantoso!... Estavam todos sentados como monstros sem olhos... Quem era o gigante que queria agarrar-me?...
A NOITE
Provavelmente o Silêncio; ele guarda esta porta... Parece que era assustador?... Ainda estás todo pálido e trêmulo...
TYLTYL
Sim, eu não teria acreditado... Nunca tinha visto... E minhas mãos estão geladas...
A NOITE
Será bem pior daqui a pouco, se continuares...
TYLTYL, [indo à porta seguinte.]
E esta?... É também terrível?...
A NOITE
Não, há um pouco de tudo... Ponho aí as Estrelas sem uso, meus perfumes pessoais, alguns Clarões que me pertencem, tais como fogos-fátuos, vermes-luzentes, vaga-lumes; também se guarda aí o Orvalho, o Canto dos Rouxinóis, etc.
TYLTYL
Justamente, as Estrelas, o Canto dos Rouxinóis... Deve ser esta.
A NOITE
Abre, pois, se quiseres; tudo isso não é muito maldoso...
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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