Universo da obra
Universo da obra
[Tyltyl abre a porta de par em par. Imediatamente, as Estrelas, sob a forma de belas jovens veladas por clarões multicores, escapam de sua prisão, espalham-se pela sala e formam, nos degraus e ao redor das colunas, graciosas rodas banhadas por uma espécie de luminosa penumbra. Os Perfumes da Noite, quase invisíveis, os Fogos-Fátuos, os Vaga-lumes, o Orvalho transparente juntam-se a elas, enquanto o Canto dos Rouxinóis, saindo em ondas da caverna, inunda o palácio noturno.]
MYTYL, [arrebatada, batendo palmas.]
Oh! as lindas damas!...
TYLTYL
E como dançam bem!...
MYTYL
E como cheiram bem!...
TYLTYL
E como cantam bem!...
MYTYL
Que são aqueles ali, que quase não se veem?...
A NOITE
São os Perfumes de minha sombra...
TYLTYL
E os outros, lá longe, que são de vidro fiado?...
A NOITE
É o Orvalho das florestas e das planícies... Mas já basta... Eles nunca acabariam... É o diabo fazê-los entrar de novo, uma vez que se puseram a dançar... [Batendo palmas.] Vamos, depressa, Estrelas!... Não é momento de dançar... O céu está coberto, há grandes nuvens... Vamos, depressa, entrai todos, senão irei buscar um raio de sol...
[Fuga apavorada das Estrelas, dos Perfumes, etc..., que se precipitam na caverna, fechada sobre eles. Ao mesmo tempo, extingue-se o Canto dos Rouxinóis.]
TYLTYL, [indo à porta do fundo.]
Eis a grande porta do meio...
A NOITE, gravemente.
Não abras esta...
TYLTYL
Por quê?...
A NOITE
Porque é proibido...
TYLTYL
Então é ali que se esconde o Pássaro Azul; a Luz me disse...
A NOITE, [maternal.]
Escuta-me, meu filho... Fui boa e complacente... Fiz por ti o que até agora não fiz por ninguém... Entreguei-te todos os meus segredos... Gosto muito de ti, tenho piedade de tua juventude e de tua inocência, e falo contigo como uma mãe... Escuta-me e acredita em mim, meu filho: renuncia, não vás mais adiante, não tentes o Destino, não abras essa porta...
TYLTYL, [bastante abalado.]
Mas por quê?...
A NOITE
Porque não quero que te percas... Porque nenhum daqueles, ouves?, nenhum daqueles que a entreabriram, ainda que fosse da espessura de um fio de cabelo, voltou vivo à luz do dia... Porque tudo quanto se pode imaginar de espantoso, porque todos os terrores, todos os horrores de que se fala na terra, nada são comparados ao mais inocente dos que assaltam um homem assim que seu olho roça as primeiras ameaças do abismo ao qual ninguém ousa dar um nome... A tal ponto que eu mesma, se te obstinares, apesar de tudo, em tocar nessa porta, te pedirei que esperes até que eu esteja ao abrigo em minha torre sem janelas... Agora cabe a ti saber, cabe a ti refletir...
[Mytyl, toda em lágrimas, solta gritos de terror inarticulados e procura arrastar Tyltyl.]
O PÃO, [batendo os dentes.]
Não o façais, meu pequeno amo!... [Lançando-se de joelhos.] Tende piedade de nós!... Eu vos peço de joelhos... Vedes que a Noite tem razão...
A GATA
É a vida de todos nós que sacrificais...
TYLTYL
Devo abri-la...
MYTYL, [sapateando entre soluços.]
Não quero!... Não quero!...
TYLTYL
Que o Açúcar e o Pão tomem Mytyl pela mão e fujam com ela... Eu vou abrir...
A NOITE
Salve-se quem puder!... Vinde depressa!... É tempo!...
[Ela foge.]
O PÃO, [fugindo desatinado.]
Esperai ao menos que estejamos no fim da sala!...
A GATA, [fugindo igualmente.]
Esperai!... esperai!...
Eles se escondem atrás das colunas, no outro extremo da sala. Tyltyl fica sozinho com o Cão, junto à porta monumental.
O CÃO, [ofegante e soluçando de terror contido.]
Eu fico, eu fico... Não tenho medo... Eu fico!... Eu fico junto de meu pequeno deus... Eu fico!... Eu fico...
TYLTYL, [acariciando o Cão.]
Está bem, Tylô, está bem!... Beija-me... Somos dois... Agora, cuidado conosco!... [Ele põe a chave na fechadura. Um grito de pavor parte do outro extremo da sala, onde se refugiaram os fugitivos. Mal a chave toca a porta, as altas folhas desta se abrem pelo meio, deslizam lateralmente e desaparecem, à direita e à esquerda, na espessura dos muros, descobrindo de súbito, irreal, infinito, inefável, o mais inesperado dos jardins de sonho e de luz noturna, onde, entre as estrelas e os planetas, iluminando tudo que tocam, voando sem cessar de pedraria em pedraria, de raio de lua em raio de lua, feéricos pássaros azuis evoluem perpetuamente e harmoniosamente até os confins do horizonte, inumeráveis a ponto de parecerem o sopro, a atmosfera azulada, a própria substância do jardim maravilhoso. — Tyltyl, deslumbrado, arrebatado, de pé na luz do jardim:] Oh!... o céu!... [Voltando-se para aqueles que fugiram.] Vinde depressa!... Eles estão aqui!... São eles! são eles! são eles!... Enfim os temos!... Milhares de pássaros azuis! Milhões!... Bilhões!... Haverá até demais!... Vem, Mytyl!... Vem, Tylô!... Vinde todos!... Ajudai-me!... [Lançando-se entre os pássaros.] Apanham-se às mãos cheias!... Não são ariscos!... Não têm medo de nós!... Por aqui! por aqui!... [Mytyl e os outros acorrem. Todos entram no jardim deslumbrante, exceto a Noite e a Gata.] Estais vendo!... São demais!... Vêm para minhas mãos!... Olhai só, comem os raios da lua!... Mytyl, onde estás?... Há tantas asas azuis, tantas penas que caem, que já não se vê nada!... Tylô! não os mordas... Não lhes faças mal!... Apanha-os muito docemente!
MYTYL, [envolta em pássaros azuis.]
Já apanhei sete!... Oh! como batem as asas!... Não consigo segurá-los!...
TYLTYL
Eu também não!... Tenho demais!... Eles escapam!... Tornam a voltar!... Tylô também tem alguns!... Vão nos arrastar!... nos levar para o céu!... Vem, saiamos por aqui!... A Luz nos espera!... Ela ficará contente!... Por aqui, por aqui!...
[Eles escapam do jardim, as mãos cheias de pássaros que se debatem, e, atravessando toda a sala no alvoroço das asas azuladas, saem à direita, por onde haviam entrado, seguidos do Pão e do Açúcar, que não apanharam pássaros. — Ficando sozinhas, a Noite e a Gata sobem para o fundo e olham ansiosamente para dentro do jardim.]
A NOITE
Eles não o apanharam?...
A GATA
Não... Eu o vejo ali, naquele raio de lua... Não puderam alcançá-lo, ele se mantinha alto demais...
[O pano cai. Logo depois, diante do pano caído, entram simultaneamente, à esquerda, a Luz; à direita, Tyltyl, Mytyl e o Cão, correndo todos cobertos dos pássaros que acabam de capturar. Mas estes já parecem inanimados e, com a cabeça pendente e as asas quebradas, não são mais, em suas mãos, que despojos inertes.]
A LUZ
Então, apanhastes o pássaro?...
TYLTYL
Sim, sim!... Quantos quisemos... Há milhares!... Ei-los!... Tu os vês!... [Olhando os pássaros que estende para a Luz e percebendo que estão mortos.] Ora!... Eles já não vivem... Que lhes fizeram?... Os teus também, Mytyl?... Os de Tylô também. [Atirando com cólera os cadáveres dos pássaros.] Ah! não, isto é feio demais!... Quem os matou?... Sou infeliz demais!...
[Ele esconde a cabeça sob o braço e parece todo sacudido por soluços.]
A LUZ, [apertando-o maternalmente nos braços.]
Não chores, meu filho... Não apanhaste aquele que pode viver em pleno dia... Ele foi para outro lugar... Nós o reencontraremos...
O CÃO, [olhando os pássaros mortos.]
Pode-se comê-los?...
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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