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O Pássaro Azul

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O Pássaro Azul

Capítulo 17 · O Pássaro Azul

Quinto Quadro - Parte 3

17 de 33 ≈ 8 min de leitura

Vejamos, vejamos... Será mesmo necessário chegar a esses extremos? Eles ainda são tão jovens... Poder-se-ia simplesmente impedi-los de fazer mal, retendo-os prisioneiros num cercado que me encarrego de construir, plantando-me ao redor...

O CARVALHO

Quem fala assim?... Creio reconhecer a voz melíflua da Tília...

O ABETO

Com efeito...

O CARVALHO

Há então um renegado entre nós, como entre os Animais?... Até aqui só tínhamos a deplorar a defecção das Árvores frutíferas; mas estas não são verdadeiras Árvores...

O PORCO, [revirando olhinhos glutões.]

Eu acho que é preciso primeiro comer a menininha... Deve ser bem tenra...

TYLTYL

Que está dizendo esse aí?... Espera um pouco, espécie de...

A GATA

Não sei o que eles têm; mas isto toma mau rumo...

O CARVALHO

Silêncio!... Trata-se de saber quem dentre nós terá a honra de desferir o primeiro golpe; quem afastará de nossas copas o maior perigo que corremos desde o nascimento do Homem...

O ABETO

É a vós, nosso rei e nosso patriarca, que cabe essa honra...

O CARVALHO

É o Abeto que fala?... Ai de mim! Sou velho demais! Sou cego, enfermo, e meus braços entorpecidos já não me obedecem... Não, é a vós, meu irmão, sempre verde, sempre ereto, é a vós, que vistes nascer a maior parte destas Árvores, que cabe, em minha falta, a glória do nobre gesto de nossa libertação...

O ABETO

Eu vos agradeço, meu venerável pai... Mas, como já terei a honra de sepultar as duas vítimas, temeria despertar o justo ciúme de meus colegas; e creio que, depois de nós, o mais antigo e o mais digno, aquele que possui a melhor clava, é a Faia...

A FAIA

Sabeis que estou carcomida e que minha clava não é segura... Mas o Olmo e o Cipreste têm armas poderosas...

O OLMO

Eu não pediria coisa melhor; mas mal consigo manter-me de pé... Uma toupeira, esta noite, virou-me o dedão do pé...

O CIPRESTE

Quanto a mim, estou pronto... Mas, como meu bom irmão, o Abeto, já terei, se não o privilégio de sepultá-los, ao menos a vantagem de chorar sobre sua tumba... Seria acumular ilegitimamente... Perguntai ao Álamo...

O ÁLAMO

A mim?... Pensais nisso?... Mas minha madeira é mais tenra que a carne de uma criança!... E depois, não sei o que tenho... Tremo de febre... Olhai minhas folhas... Devo ter apanhado frio esta manhã, ao nascer do sol...

O CARVALHO, [explodindo de indignação.]

Tendes medo do Homem!... Até essas criancinhas isoladas e sem armas vos inspiram o terror misterioso que sempre fez de nós os escravos que somos!... Pois bem, não! Basta!... Já que é assim, já que a hora é única, irei sozinho, velho, entrevado, trêmulo, cego, contra o inimigo hereditário!... Onde está ele?...

[Tateando com seu bastão, avança para Tyltyl.]

TYLTYL, [tirando o canivete do bolso.]

É comigo que esse velho aí quer brigar, com seu grande bastão?...

[Todas as outras Árvores, soltando um grito de pavor ao verem o canivete, a arma misteriosa e irresistível do Homem, interpõem-se e retêm o Carvalho.]

AS ÁRVORES

O canivete!... Cuidado!... O canivete!...

O CARVALHO, debatendo-se.

Deixai-me!... Que me importa!... O canivete ou o machado!... Quem me retém?... Como! estais todos aqui?... Como! todos vós quereis?... [Atirando o bastão.] Pois bem, seja!... Vergonha para nós!... Que os Animais nos libertem!...

O TOURO

É isso!... Eu me encarrego!... E com uma só chifrada!...

O BOI e A VACA, [retendo-o pela cauda.]

De que te metes?... Não faças tolices!... É um mau negócio!... Isto acabará mal... Somos nós que pagaremos o pato... Deixa disso... Isto é assunto para os Animais selvagens...

O TOURO

Não, não!... É assunto meu!... Esperai!... Mas segurai-me, ou faço uma desgraça!...

TYLTYL, [a Mytyl, que solta gritos agudos.]

Não tenhas medo!... Põe-te atrás de mim... Tenho meu canivete...

O GALO

É valente, o pequeno!...

TYLTYL

Então, está decidido, é a mim que querem?...

O BURRO

Mas é claro, meu pequeno; levaste tempo para perceber!...

O PORCO

Podes rezar tua oração, vai, é tua última hora. Mas não escondas a menininha... Quero regalar os olhos com ela... É ela que comerei primeiro...

TYLTYL

Que vos fiz eu?...

O CARNEIRO

Nada, meu pequeno... Comeste meu irmãozinho, minhas duas irmãs, meus três tios, minha tia, vovô, vovó... Espera, espera, quando estiveres no chão, verás que eu também tenho dentes...

O BURRO

E que eu tenho cascos!...

O CAVALO, [pateando orgulhosamente.]

Ides ver o que ides ver!... Preferis que eu o rasgue com belos dentes ou que vo-lo derrube a coices?... [Avança magnificamente sobre Tyltyl, que o enfrenta erguendo o canivete. De repente, o Cavalo, tomado de pânico, vira as costas e foge a toda pressa.] Ah! mas não!... Isto não é justo!... Assim não vale!... Ele se defende!...

O GALO, [não podendo ocultar sua admiração.]

Ainda assim, o pequeno não tem sangue de barata!...

O PORCO, [ao Urso e ao Lobo.]

Precipitemo-nos todos juntos... Eu vos apoiarei por trás... Nós os derrubaremos e repartiremos a menininha quando ela estiver no chão...

O LOBO

Distraí-os por ali... Vou fazer um movimento envolvente...

[Ele contorna Tyltyl, ataca-o por trás e quase o derruba.]

TYLTYL

Judas!... [Reergue-se sobre um joelho, brandindo o canivete e cobrindo como pode sua irmãzinha, que solta uivos de aflição. — Vendo-o meio caído, todos os Animais e as Árvores se aproximam e procuram golpeá-lo. A escuridão se faz subitamente. Desvairado, Tyltyl chama por socorro.] Socorro! Socorro!... Tylô! Tylô!... Onde está a Gata?... Tylô!... Tylette! Tylette!... Vinde! vinde!...

A GATA, [hipocritamente, à parte.]

Não posso... Acabo de torcer a pata...

TYLTYL, [aparando os golpes e defendendo-se como pode.]

Socorro!... Tylô! Tylô!... Não posso mais!... São muitos!... O Urso! o Porco! o Lobo! o Burro! o Abeto! a Faia!... Tylô! Tylô! Tylô!...

[Arrastando seus laços rompidos, o Cão salta de trás do tronco do Carvalho e, atropelando Árvores e Animais, lança-se diante de Tyltyl, a quem defende com furor.]

O CÃO, [distribuindo enormes dentadas.]

Aqui estou! aqui estou, meu pequeno deus!... Não tenhas medo! Vamos a eles!... Tenho bons golpes de boca!... Toma, isto é para ti, Urso, bem no teu grande traseiro!... Vamos, quem quer mais?... Isto é para o Porco, e isto para o Cavalo e a cauda do Touro! Pronto! Rasguei a calça da Faia e a saia do Carvalho!... O Abeto dá o fora!... Ainda assim, está fazendo calor!...

TYLTYL, [esgotado.]

Não posso mais!... O Cipreste me deu um grande golpe na cabeça...

O CÃO

Ai! Foi um golpe do Salgueiro!... Ele me quebrou a pata!...

TYLTYL

Eles voltam à carga! Todos juntos!... Desta vez, é o Lobo!...

O CÃO

Espera, deixa-me estreá-lo!...

O LOBO

Imbecil!... Nosso irmão!... Seus pais afogaram teus filhotes!...

O CÃO

Fizeram muito bem!... Tanto melhor!... É que se pareciam contigo!...

TODAS AS ÁRVORES e TODOS OS ANIMAIS

Renegado!... Idiota!... Traidor! Felão! Tolo!... Judas!... Deixa-o! É a morte! Vem para nós!

O CÃO, [ébrio de ardor e devoção.]

Não! não!... Sozinho contra todos!... Não, não!... Fiel aos deuses! aos melhores! aos maiores!... [A Tyltyl.] Cuidado, aí vem o Urso!... Desconfia do Touro... Vou saltar-lhe à garganta... Ai!... Foi um coice... O Burro me quebrou dois dentes...

TYLTYL

Não posso mais, Tylô!... Ai!... Foi um golpe do Olmo... Olha, minha mão sangra... Foi o Lobo ou o Porco...

O CÃO

O Pássaro Azul

Sinopse

Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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