Universo da obra
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SÉTIMO QUADRO
O CEMITÉRIO
É noite. Luar. Um cemitério de aldeia. Numerosas tumbas, montículos de relva, cruzes de madeira, lajes funerárias, etc.
* * * * *
[Tyltyl e Mytyl estão de pé junto a um cipo funerário.]
MYTYL
Tenho medo.
TYLTYL, [bem pouco tranquilo.]
Eu nunca tenho medo...
MYTYL
São maus, os mortos, dize?...
TYLTYL
Ora não, já que não vivem...
MYTYL
Tu já viste algum?...
TYLTYL
Sim, uma vez, antigamente, quando eu era muito pequeno...
MYTYL
Como são, dize?...
TYLTYL
São todos brancos, muito quietos e muito frios, e não falam...
MYTYL
Vamos vê-los, dize?...
TYLTYL
Claro, já que a Luz prometeu...
MYTYL
Onde é que estão, os mortos?...
TYLTYL
Aqui, sob a relva ou sob estas grandes pedras.
MYTYL
Ficam aí o ano inteiro?...
TYLTYL
Sim.
MYTYL, [mostrando as lajes.]
Estas são as portas de suas casas?...
TYLTYL
Sim.
MYTYL
Eles saem quando faz bom tempo?...
TYLTYL
Só podem sair à noite...
MYTYL
Por quê?...
TYLTYL
Porque estão de camisola...
MYTYL
Saem também quando chove?...
TYLTYL
Quando chove, ficam em casa...
MYTYL
É bonito na casa deles, dize?...
TYLTYL
Dizem que é muito estreita...
MYTYL
Eles têm criancinhas?...
TYLTYL
Claro; têm todas as que morrem...
MYTYL
E de que vivem?...
TYLTYL
Comem raízes...
MYTYL
Nós os veremos?...
TYLTYL
Claro, já que se vê tudo quando o Diamante é girado.
MYTYL
E que dirão?...
TYLTYL
Não dirão nada, já que não falam...
MYTYL
Por que não falam?...
TYLTYL
Porque não têm nada a dizer...
MYTYL
Por que não têm nada a dizer?...
TYLTYL
Tu me aborreces...
[Um silêncio.]
MYTYL
Quando girarás o Diamante?...
TYLTYL
Bem sabes que a Luz disse para esperar até meia-noite, porque então os incomodamos menos...
MYTYL
Por que os incomodamos menos?...
TYLTYL
Porque é a hora em que saem para tomar ar.
MYTYL
Não é meia-noite?...
TYLTYL
Vês o mostrador da igreja?...
MYTYL
Sim, vejo até o ponteirinho...
TYLTYL
Pois bem! Vai soar meia-noite... Pronto!... Exatamente... Ouves?...
Ouvem-se soar as doze badaladas da meia-noite.
MYTYL
Quero ir embora!...
TYLTYL
Não é o momento... Vou girar o Diamante...
MYTYL
Não, não!... Não faças isso!... Quero ir embora!... Tenho tanto medo, irmãozinho!... Tenho um medo terrível!...
TYLTYL
Mas não há perigo...
MYTYL
Não quero ver os mortos!... Não quero vê-los!...
TYLTYL
Está bem, não os verás; fecharás os olhos...
MYTYL, [agarrando-se às roupas de Tyltyl.]
Tyltyl, não posso!... Não, não é possível!... Eles vão sair da terra!...
TYLTYL
Não tremas assim... Eles só sairão por um momento...
MYTYL
Mas tu também estás tremendo!... Eles serão assustadores!...
TYLTYL
É tempo, a hora passa...
[Tyltyl gira o Diamante. Um minuto terrível de silêncio e imobilidade; depois, lentamente, as cruzes vacilam, os montículos entreabrem-se, as lajes se erguem.]
MYTYL, [aninhando-se contra Tyltyl.]
Eles saem!... Estão aqui!...
[Então, de todas as tumbas escancaradas sobe gradualmente uma floração, a princípio tênue e tímida como um vapor de água, depois branca e virginal e cada vez mais densa, cada vez mais alta, superabundante e maravilhosa, que pouco a pouco, irresistivelmente, invadindo todas as coisas, transforma o cemitério numa espécie de jardim feérico e nupcial, sobre o qual não tardam a erguer-se os primeiros raios da aurora. O orvalho cintila, as flores desabrocham, o vento murmura nas folhas, as abelhas zumbem, os pássaros despertam e inundam o espaço com os primeiros arroubos de seus hinos ao sol e à vida. Estupefatos, deslumbrados, Tyltyl e Mytyl, de mãos dadas, dão alguns passos entre as flores, procurando o rastro das tumbas.]
MYTYL, [procurando na relva.]
Onde estão eles, os mortos?...
TYLTYL, [procurando igualmente.]
Não há mortos...
PANO
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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