Leia agora
O Pássaro Azul

Universo da obra

O Pássaro Azul

Capítulo 22 · O Pássaro Azul

Nono Quadro - Parte 1

22 de 33 ≈ 8 min de leitura

NONO QUADRO

OS JARDINS DAS FELICIDADES

Quando se abre o pano, descobre-se, tomada nos primeiros planos dos jardins, uma espécie de sala formada por altas colunas de mármore, entre as quais, mascarando todo o fundo, estão estendidas pesadas tapeçarias de púrpura, sustentadas por cordames de ouro. Arquitetura que recorda os momentos mais sensuais e mais suntuosos da Renascença (veneziana ou flamenga, Veronese e Rubens). Guirlandas, cornucópias, torsões, vasos, estátuas, douraduras prodigalizadas por toda parte. — Ao centro, maciça e feérica mesa de jaspe e vermeil, atravancada de candelabros, cristais, baixelas de ouro e prata, e sobrecarregada de iguarias fabulosas. — Ao redor da mesa, comem, bebem, urram, cantam, agitam-se, espojam-se ou adormecem, entre as caças, os frutos miraculosos, os gomis e as ânforas derrubadas, as mais Gordas Felicidades da terra. São enormes, inverossimilmente obesas e rubicundas, cobertas de veludos e brocados, coroadas de ouro, pérolas e pedrarias. Belas escravas trazem sem cessar pratos emplumados e bebidas espumantes. — Música vulgar, hilariante e brutal, em que predominam os metais. — Uma luz pesada e vermelha banha a cena.

* * * * *

[Tyltyl, Mytyl, o Cão, o Pão e o Açúcar, a princípio bastante intimidados, apertam-se, à direita, no primeiro plano, ao redor da Luz. A Gata, sem nada dizer, dirige-se ao fundo, também à direita, ergue uma cortina escura e desaparece.]

TYLTYL

Quem são esses senhores gordos que se divertem e comem tantas coisas boas?

A LUZ

São as mais Gordas Felicidades da Terra, aquelas que se podem ver a olho nu. É possível, embora bastante pouco provável, que o Pássaro Azul se tenha perdido por um instante entre elas. Por isso, não gires ainda o Diamante. Vamos, por formalidade, explorar primeiro esta parte da sala.

TYLTYL

Pode-se aproximar?

A LUZ

Certamente. Não são más, embora vulgares e, de ordinário, bastante mal-educadas.

MYTYL

Que bolos bonitos elas têm!...

O CÃO

E caça! e salsichas! e pernas de cordeiro e fígado de vitela!... [Proclamando.] Nada no mundo é melhor, nada é mais belo e nada vale o fígado de vitela!...

O PÃO

Exceto os Pães-de-quatro-libras amassados com fina flor de trigo! Elas têm alguns admiráveis!... Como são belos! como são belos!... São maiores que eu!...

O AÇÚCAR

Perdão, perdão, mil perdões... Permiti, permiti... Eu não desejaria melindrar ninguém; mas não estais esquecendo as Confeitarias, que são a glória desta mesa, e cujo brilho e magnificência superam, se ouso exprimir-me assim, tudo o que há nesta sala e talvez em qualquer outro lugar?...

TYLTYL

Como parecem contentes e felizes!... E gritam! e riem! e cantam!... Creio que nos viram...

[Com efeito, uma dúzia das mais Gordas Felicidades levantou-se da mesa e avança penosamente, sustentando o ventre, em direção ao grupo das crianças.]

A LUZ

Não temas nada, elas são muito acolhedoras... Provavelmente vão convidar-te para jantar... Não aceites, não aceites nada, para não esqueceres tua missão...

TYLTYL

Quê? Nem mesmo um bolinho? Parecem tão bons, tão frescos, tão bem cobertos de açúcar, ornados de frutas cristalizadas e transbordantes de creme!...

A LUZ

São perigosos e quebrariam tua vontade. É preciso saber sacrificar alguma coisa ao dever que se cumpre. Recusa polidamente, mas com firmeza. Ei-las...

A MAIS GORDA DAS FELICIDADES, [estendendo a mão a Tyltyl.]

Bom dia, Tyltyl!...

TYLTYL, [espantado.]

Então me conheceis?... Quem sois?...

A FELICIDADE GORDA

Sou a mais gorda das Felicidades, a Felicidade-de-ser-rico, e venho, em nome de minhas irmãs, rogar-vos, a vós e à vossa família, que honreis com vossa presença nossa refeição sem fim. Encontrar-vos-eis em meio a tudo quanto há de melhor entre as verdadeiras e gordas Felicidades desta Terra. Permiti que vos apresente as principais dentre elas. Eis meu genro, a Felicidade-de-ser-proprietário, que tem o ventre em forma de pera. Eis a Felicidade-da-vaidade-satisfeita, cujo rosto é tão graciosamente inchado. [A Felicidade-da-vaidade-satisfeita saúda com ar protetor.] Eis a Felicidade-de-beber-quando-já-não-se-tem-sede e a Felicidade-de-comer-quando-já-não-se-tem-fome, que são gêmeas e têm pernas de macarrão. [Elas saúdam, cambaleando.] Eis a Felicidade-de-nada-saber, que é surda como uma solha, e a Felicidade-de-nada-compreender, que é cega como uma toupeira. Eis a Felicidade-de-nada-fazer e a Felicidade-de-dormir-mais-do-que-é-necessário, que têm mãos de miolo de pão e olhos de geleia de pêssego. Eis, enfim, o Riso-Espesso, que é fendido até as orelhas e ao qual nada pode resistir...

[O Riso-Espesso saúda, contorcendo-se.]

TYLTYL, [apontando com o dedo uma Felicidade Gorda que se mantém um pouco à parte.]

E aquela ali, que não ousa aproximar-se e nos dá as costas?...

A FELICIDADE GORDA

Não insistais, ela está um pouco constrangida e não é apresentável às crianças... [Tomando as mãos de Tyltyl.] Mas vinde, pois! Recomeça-se o festim... É a décima segunda vez desde a aurora. Só se espera por vós... Ouvis todos os convivas que vos reclamam em altos brados?... Não posso apresentá-los todos, são extremamente numerosos... [Oferecendo o braço às duas crianças.] Permiti que vos conduza aos dois lugares de honra...

TYLTYL

Muito vos agradeço, senhor Felicidade Gorda... Lamento vivamente... Não posso por enquanto... Estamos com muita pressa, procuramos o Pássaro Azul. Não saberíeis, por acaso, onde ele se esconde?

A FELICIDADE GORDA

O Pássaro Azul?... Esperai... Sim, sim, lembro-me... Falaram-me dele antigamente... É, creio, um pássaro que não é comestível... Em todo caso, nunca apareceu em nossa mesa... Isto basta para dizer que é tido em medíocre estima... Mas não vos preocupeis; temos tantas outras coisas bem melhores... Ireis misturar-vos à nossa vida, vereis tudo o que fazemos...

TYLTYL

Que fazeis?

A FELICIDADE GORDA

Ora, ocupamo-nos sem cessar em nada fazer... Não temos um minuto de repouso... É preciso beber, é preciso comer, é preciso dormir. É extremamente absorvente...

TYLTYL

Isso é divertido?

A FELICIDADE GORDA

Ora, sim... É preciso que seja, não há outra coisa nesta Terra...

A LUZ

Acreditais?...

A FELICIDADE GORDA, [indicando a Luz com o dedo, baixo, a Tyltyl.]

Quem é essa jovem mal-educada?...

[Durante toda a conversa precedente, uma multidão de Felicidades Gordas de segunda ordem ocupou-se do Cão, do Açúcar e do Pão, e os arrastou para a orgia. Tyltyl percebe de súbito estes últimos que, à mesa, confraternizados com seus anfitriões, comem, bebem e se agitam loucamente.]

TYLTYL

Vede, Luz!... Eles estão à mesa!...

A LUZ

Chama-os de volta! senão isto acabará mal!...

TYLTYL

Tylô!... Tylô! aqui!... Queres vir para cá imediatamente, ouviste!... E vós, lá, Açúcar e Pão, quem vos permitiu abandonar-me?... Que estais fazendo aí, sem autorização?...

O PÃO, [de boca cheia.]

Não poderias falar conosco mais polidamente?...

TYLTYL

Quê? É o Pão que se permite tratar-me por tu?... Mas que te deu?... E tu, Tylô!... É assim que se obedece? Vamos, vem cá, de joelhos, de joelhos!... E mais depressa que isso!...

O CÃO, [a meia voz e da extremidade da mesa.]

Eu, quando estou comendo, não estou para ninguém e já não ouço nada...

O AÇÚCAR, [melifluamente.]

Perdoai-nos; não saberíamos deixar assim, sem ofendê-los, anfitriões tão amáveis...

A FELICIDADE GORDA

O Pássaro Azul

Sinopse

Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

O Pássaro Azul

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

O Pássaro Azul

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de O Pássaro Azul

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Pássaro Azul Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 22 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de O Pássaro Azul

Capa de O Pássaro Azul
Continue a leitura Nono Quadro - Parte 1 Capítulo 22 · 22 de 33 · ≈ 8 min
Todos os capítulos 33 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir