Universo da obra
Universo da obra
Vede!... Eles vos dão o exemplo... Vinde, estão vos esperando... Não admitimos recusa... Far-se-vos-á uma doce violência... Vamos, Felicidades Gordas, ajudai-me!... Empurremo-los à força para a mesa, para que sejam felizes apesar de si mesmos!...
[Todas as Felicidades Gordas, com gritos de alegria e saltitando o melhor que podem, arrastam as crianças, que se debatem, enquanto o Riso-Espesso agarra vigorosamente a Luz pela cintura.]
A LUZ
Gira o Diamante, é tempo!...
[Tyltyl faz o que a Luz ordena. Logo a cena se ilumina com uma claridade inefavelmente pura, divinamente rosada, harmoniosa e leve. Os pesados ornamentos do primeiro plano, as espessas tapeçarias vermelhas se desprendem e desaparecem, revelando um fabuloso e doce jardim de paz ligeira e serenidade, uma espécie de palácio de verdura de perspectivas harmoniosas, onde a magnificência das folhagens, poderosas e luminosas, exuberantes e, no entanto, disciplinadas, onde a embriaguez virginal das flores e a fresca alegria das águas que correm, escorrem e jorram por toda parte parecem levar até os confins do horizonte a própria ideia da felicidade. A mesa da orgia desaba sem deixar vestígios; os veludos, os brocados, as coroas das Felicidades Gordas, ao sopro luminoso que invade a cena, erguem-se, rasgam-se e caem, ao mesmo tempo que as máscaras hilariantes, aos pés dos convivas aturdidos. Estes desincham a olhos vistos, como bexigas estouradas, entreolham-se, piscam sob os raios desconhecidos que os ferem, e, vendo-se enfim tais como são em verdade, isto é, nus, hediondos, flácidos e lamentáveis, põem-se a soltar urros de vergonha e de pavor, entre os quais se distinguem muito nitidamente os do Riso-Espesso, que dominam todos os outros. Só a Felicidade-de-nada-compreender permanece perfeitamente calma, enquanto suas colegas se agitam desatinadamente, procurando fugir, esconder-se nos cantos que esperam mais sombrios. Mas já não há sombra no jardim deslumbrante. Assim, a maioria decide atravessar, como último recurso, a cortina ameaçadora que, à direita, num ângulo, fecha a abóbada da caverna dos Infortúnios. Cada vez que uma delas, em pânico, levanta uma ponta dessa cortina, ouve-se erguer-se do fundo da gruta uma tempestade de injúrias, imprecações e maldições. Quanto ao Cão, ao Pão e ao Açúcar, de orelha baixa, eles se juntam ao grupo das crianças e, muito envergonhados, se dissimulam atrás delas.]
TYLTYL, [olhando fugir as Felicidades Gordas.]
Meu Deus, como são feias!... Para onde vão?...
A LUZ
Ora, creio que perderam a cabeça... Vão refugiar-se junto aos Infortúnios, onde muito temo que sejam retidas definitivamente...
TYLTYL, [olhando ao redor, maravilhado.]
Oh! o belo jardim, o belo jardim!... Onde estamos?...
A LUZ
Não mudamos de lugar; foram teus olhos que mudaram de esfera... Vemos agora a verdade das coisas; e vamos perceber a alma das Felicidades que suportam a claridade do Diamante.
TYLTYL
Como é belo!... Como está belo!... Dir-se-ia pleno verão... Olha! parece que se aproximam e que vão ocupar-se de nós...
[De fato, os jardins começam a povoar-se de formas angélicas, que parecem sair de um longo sono e deslizam harmoniosamente entre as árvores. Estão vestidas de túnicas luminosas, em sutis e suaves matizes: despertar de rosa, sorriso de água, azul de aurora, orvalho de âmbar, etc...]
A LUZ
Eis que avançam algumas Felicidades amáveis e curiosas que nos darão informações...
TYLTYL
Tu as conheces?...
A LUZ
Sim, conheço-as todas; venho muitas vezes à casa delas, sem que saibam quem sou...
TYLTYL
Há tantas, tantas!... Saem de todos os lados!...
A LUZ
Havia muitas mais antigamente. As Felicidades Gordas fizeram-lhes muito mal.
TYLTYL
Ainda assim, restam bastantes...
A LUZ
Verás muitas outras, à medida que a influência do Diamante se espalhar pelos jardins... Há na Terra muito mais Felicidades do que se crê; mas a maioria dos Homens não as descobre...
TYLTYL
Eis algumas pequenas que avançam, corramos ao encontro delas...
A LUZ
É inútil; as que nos interessam passarão por aqui. Não temos tempo de conhecer todas as outras...
[Um bando de Pequenas Felicidades, saltitando e rindo às gargalhadas, acorre do fundo das verduras e dança uma roda ao redor das crianças.]
TYLTYL
Como são lindas, lindas!... De onde vêm, quem são?...
A LUZ
São as Felicidades das crianças...
TYLTYL
Pode-se falar com elas?...
A LUZ
É inútil. Elas cantam, dançam, riem, mas ainda não falam...
TYLTYL, fremente.
Bom dia! Bom dia!... Oh! aquela gordinha ali, que ri!... Que belas faces têm, que belos vestidos!... São todas ricas aqui?...
A LUZ
Mas não; aqui, como em toda parte, há muito mais pobres que ricas...
TYLTYL
Onde estão as pobres?...
A LUZ
Não se pode distingui-las... A Felicidade de uma criança está sempre revestida do que há de mais belo na terra e nos céus.
TYLTYL, [não conseguindo mais ficar quieto.]
Eu queria dançar com elas...
A LUZ
É absolutamente impossível, não temos tempo... Vejo que elas não têm o Pássaro Azul... De resto, estão com pressa, vês, já passaram... Elas também não têm tempo a perder, pois a infância é muito breve...
[Outro bando de Felicidades, um pouco maiores que as precedentes, precipita-se no jardim e, cantando a plenos pulmões: “Ei-los! ei-los! Eles nos veem! Eles nos veem!...”, dança ao redor das crianças uma alegre farândola, ao fim da qual aquela que parece ser a chefe do pequeno grupo avança para Tyltyl, estendendo-lhe a mão.]
A FELICIDADE
Bom dia, Tyltyl!...
TYLTYL
Mais uma que me conhece!... [À Luz.] Começam a conhecer-me um pouco por toda parte... Quem és tu?...
A FELICIDADE
Não me reconheces?... Aposto que não reconheces nenhuma daquelas que estão aqui?...
TYLTYL, [bastante embaraçado.]
Ora não... Não sei... Não me lembro de vos ter visto...
A FELICIDADE
Ouvis?... Eu tinha certeza!... Ele nunca nos viu!... [Todas as outras Felicidades do bando caem na gargalhada.] Mas, meu pequeno Tyltyl, tu não conheces senão a nós!... Estamos sempre ao teu redor!... Comemos, bebemos, despertamos, respiramos, vivemos contigo!...
TYLTYL
Sim, sim, perfeitamente, eu sei, lembro-me... Mas gostaria de saber como vos chamais...
A FELICIDADE
Vejo bem que não sabes nada... Sou a chefe das Felicidades-de-tua-casa; e todas estas são as outras Felicidades que nela habitam...
TYLTYL
Então há Felicidades em casa?...
[Todas as Felicidades caem na gargalhada.]
A FELICIDADE
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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