Universo da obra
Universo da obra
Mas não, eu o tenho sempre, mas não se vê, porque nada se vê quando os olhos estão fechados... Todas as mães são ricas quando amam seus filhos... Não há mães pobres, não há mães feias, não há mães velhas... O amor delas é sempre a mais bela das Alegrias... E quando parecem tristes, basta um beijo que recebam ou que deem para que todas as suas lágrimas se transformem em estrelas no fundo de seus olhos...
TYLTYL, [olhando-a com espanto.]
Mas sim, é verdade, teus olhos estão cheios de estrelas... E são mesmo teus olhos, mas são muito mais belos... E é tua mão também, ela tem seu anelzinho... Tem até a queimadura que fizeste certa noite ao acender a lâmpada... Mas é muito mais branca, e como tem a pele fina!... Dir-se-ia que se vê luz correr por ela... Ela não trabalha como a de casa?...
O AMOR MATERNO
Mas sim, é exatamente a mesma; então não tinhas visto que ela se torna toda branca e se enche de luz assim que te acaricia?...
TYLTYL
É espantoso, mamãe, é mesmo tua voz também; mas falas muito melhor que em nossa casa...
O AMOR MATERNO
Em nossa casa há muito que fazer, e não se tem tempo... Mas o que não se diz, ouve-se mesmo assim... Agora que me viste, reconhecer-me-ás sob meu vestido rasgado, quando voltares amanhã à choupana?...
TYLTYL
Não quero voltar... Já que estás aqui, quero ficar aqui também, enquanto aqui estiveres...
O AMOR MATERNO
Mas é a mesma coisa; é lá que estou, é lá que estamos... Vieste aqui apenas para perceber isso e para aprender enfim como deves me ver quando me vês lá... Compreendes, meu Tyltyl?... Crês estar no céu; mas o céu está em toda parte onde nos abraçamos... Não há duas mães, e tu não tens outra... Cada criança só tem uma, e é sempre a mesma e sempre a mais bela; mas é preciso conhecê-la e saber olhar... Mas como fizeste para chegar aqui e encontrar uma estrada que os Homens procuram desde que habitam a Terra?...
TYLTYL, [mostrando a Luz que, por discrição, afastou-se um pouco.]
Foi ela que me conduziu...
O AMOR MATERNO
Quem é?...
TYLTYL
A Luz...
O AMOR MATERNO
Nunca a vi... Disseram-me que ela vos amava muito e que era muito boa... Mas por que se esconde?... Nunca mostra o rosto?...
TYLTYL
Mas sim, mas ela tem medo de que as Felicidades tenham medo, se enxergarem claro demais...
O AMOR MATERNO
Mas então ela não sabe que só esperamos por ela!... [Chamando as outras Grandes Alegrias.] Vinde, vinde, minhas irmãs! Vinde, acorrei todas, é a Luz que vem enfim visitar-nos!...
[Frêmito entre as Grandes Alegrias, que se aproximam. Gritos: “A Luz está aqui!... A Luz, a Luz!...”]
A ALEGRIA-DE-COMPREENDER, [afastando todas as outras para vir beijar a Luz.]
Sois a Luz, e nós não sabíamos!... E há anos, anos, anos que vos esperamos!... Reconheceis-me?... Sou a Alegria-de-compreender, que tanto vos procurou... Somos muito felizes, mas não vemos além de nós mesmas...
A ALEGRIA-DE-SER-JUSTO, [beijando a Luz por sua vez.]
Reconheceis-me?... Sou a Alegria-de-ser-justo, que tanto vos rogou... Somos muito felizes, mas não vemos além de nossas sombras...
A ALEGRIA-DE-VER-O-QUE-É-BELO, [beijando-a igualmente.]
Reconheceis-me?... Sou a Alegria-das-belezas, que tanto vos amou... Somos muito felizes, mas não vemos além de nossos sonhos...
A ALEGRIA-DE-COMPREENDER
Vede, vede, minha irmã, não nos façais esperar mais... Somos bastante fortes, somos bastante puras... Afastai, pois, esses véus que ainda nos ocultam as últimas verdades e as últimas felicidades... Vede, todas as minhas irmãs se ajoelham a vossos pés... Sois nossa rainha e nossa recompensa...
A LUZ, [apertando seus véus.]
Minhas irmãs, minhas belas irmãs, obedeço ao meu Mestre... A hora ainda não chegou; talvez soe um dia, e eu voltarei a vós sem temores e sem sombras... Adeus, erguei-vos, abracemo-nos ainda como irmãs reencontradas, enquanto esperamos o dia que logo aparecerá...
O AMOR MATERNO, [beijando a Luz.]
Fostes boa para meus pobres pequenos...
A LUZ
Serei sempre boa ao redor daqueles que se amam...
A ALEGRIA-DE-COMPREENDER, [aproximando-se da Luz.]
Que o último beijo seja pousado em minha fronte...
[Elas se abraçam longamente, e, quando se separam e erguem a cabeça, veem-se lágrimas em seus olhos.]
TYLTYL, [espantado.]
Por que chorais?... [olhando as outras Alegrias.]
Olha! vós também chorais... Mas por que todo mundo tem os olhos cheios de lágrimas?...
A LUZ
Silêncio, meu filho...
PANO
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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