Universo da obra
Universo da obra
TYLTYL
É pena...
A CRIANÇA
Trabalho nela todos os dias... Está quase acabada... Queres ver?...
TYLTYL
Claro... Onde está ela?...
A CRIANÇA
Ali, pode-se vê-la daqui, entre aquelas duas colunas...
OUTRA CRIANÇA AZUL, [aproximando-se de Tyltyl e puxando-o pela manga.]
Queres ver a minha, dize?...
TYLTYL
Mas o quê, que é?...
SEGUNDA CRIANÇA
Os trinta e três remédios para prolongar a vida... Ali, nesses frascos azuis...
TERCEIRA CRIANÇA, [saindo da multidão.]
Eu trago uma luz que ninguém conhece!... [Ilumina-se inteira com uma chama extraordinária.] É bastante curiosa, não?...
QUARTA CRIANÇA, [puxando Tyltyl pelo braço.]
Vem ver minha máquina que voa pelos ares como um pássaro sem asas!...
QUINTA CRIANÇA
Não, não; primeiro a minha, que encontra os tesouros escondidos na lua!...
[As Crianças Azuis se apressam ao redor de Tyltyl e Mytyl, gritando todas juntas: “Não, não, vem ver a minha!... Não, a minha é mais bela!... A minha é espantosa!... A minha é toda de açúcar!... A dele não é curiosa... ele tirou a ideia de mim!..., etc.”. Entre essas exclamações desordenadas, arrastam os pequenos Vivos para o lado das oficinas azuis; e ali, cada um dos inventores põe em movimento sua máquina ideal. É um turbilhão cerúleo de rodas, discos, volantes, engrenagens, roldanas, correias, objetos estranhos e ainda sem nome, envoltos pelos vapores azulados do irreal. Uma multidão de aparelhos bizarros e misteriosos se lança e plana sob as abóbadas, ou rasteja ao pé das colunas, enquanto crianças desenrolam mapas e planos, abrem livros, descobrem estátuas azuladas, trazem enormes flores, frutos gigantescos que parecem formados de safiras e turquesas.]
UMA PEQUENA CRIANÇA AZUL, [curvada sob o peso de colossais margaridas azuis.]
Olhai minhas flores!...3
TYLTYL
Que é isto?... Não as conheço...
A PEQUENA CRIANÇA AZUL
São margaridas!...
TYLTYL
Impossível!... São grandes como rodas...
A PEQUENA CRIANÇA AZUL
E como cheiram bem!...
TYLTYL, [aspirando-as.]
Prodigioso!...
A PEQUENA CRIANÇA AZUL
Elas serão assim quando eu estiver na Terra...
TYLTYL
Quando, então?...
A PEQUENA CRIANÇA AZUL
Daqui a cinquenta e três anos, quatro meses e nove dias...
[Chegam duas Crianças Azuis que carregam, como um lustre pendente de uma vara, um inverossímil cacho de uvas cujos bagos são maiores que peras.]
UMA DAS CRIANÇAS QUE CARREGAM O CACHO
Que dizes de meus frutos?...
TYLTYL
Um cacho de peras!...
A CRIANÇA
Mas não, são uvas!... Todas serão assim quando eu tiver trinta anos... Encontrei o meio...
OUTRA CRIANÇA, [esmagada sob uma cesta de maçãs azuis, grandes como melões.]
E eu!... Vede minhas maçãs!...
TYLTYL
Mas são melões!...
A CRIANÇA
Mas não!... São minhas maçãs, e ainda as menos belas!... Todas serão assim quando eu estiver viva... Encontrei o sistema!...
OUTRA CRIANÇA, [trazendo num carrinho de mão azul melões azuis maiores que abóboras.]
E meus pequenos melões?...
TYLTYL
Mas são abóboras!...
A CRIANÇA DOS MELÕES
Quando eu vier à Terra, os melões terão orgulho!... Serei o jardineiro do Rei dos Nove Planetas...
TYLTYL
O Rei dos Nove Planetas?... Onde está ele?...
O REI DOS NOVE PLANETAS, [avançando orgulhosamente. Parece ter quatro anos e mal consegue manter-se de pé sobre suas perninhas tortas.]
Aqui está!
TYLTYL
Ora! não és grande...
O REI DOS NOVE PLANETAS, [grave e sentencioso.]
O que farei será grande.
TYLTYL
Que farás?
O REI DOS NOVE PLANETAS
Fundarei a Confederação Geral dos Planetas solares.
TYLTYL, [desconcertado.]
Ah, realmente?
O REI DOS NOVE PLANETAS
Todos farão parte dela, exceto Saturno, Urano e Netuno, que ficam a distâncias exageradas e incomensuráveis.
[Retira-se com dignidade.]
TYLTYL
Ele é interessante...
UMA CRIANÇA AZUL
E vês aquele ali?
TYLTYL
Qual?
A CRIANÇA
Ali, o pequeno que dorme ao pé da coluna...
TYLTYL
Pois bem?
A CRIANÇA
Ele trará a alegria pura ao Globo...
TYLTYL
Como?...
A CRIANÇA
Por meio de ideias que ainda não se tiveram...
TYLTYL
E o outro, o gordinho que está com os dedos no nariz, que fará ele?...
A CRIANÇA
Deve encontrar o fogo para aquecer a Terra quando o Sol estiver mais pálido...
TYLTYL
E os dois que se dão as mãos e se beijam o tempo todo: são irmão e irmã?...
A CRIANÇA
Mas não, são muito engraçados... São os Enamorados...
TYLTYL
Que é isso?...
A CRIANÇA
Não sei... É o Tempo que os chama assim para zombar deles... Olham-se o dia inteiro nos olhos, beijam-se e dizem adeus um ao outro...
TYLTYL
Por quê?
A CRIANÇA
Parece que não poderão partir juntos...
TYLTYL
E o pequeno todo rosado, que parece tão sério e chupa o dedo, que é?...
A CRIANÇA
Parece que ele deve apagar a Injustiça na Terra...
TYLTYL
Ah?...
A CRIANÇA
Dizem que é um trabalho terrível...
TYLTYL
E o ruivinho que anda como se não enxergasse. Ele é cego?...
A CRIANÇA
Ainda não; mas ficará... Olha-o bem; parece que deve vencer a Morte...
TYLTYL
Que quer dizer isso?...
A CRIANÇA
Não sei ao certo; mas dizem que é grandioso...
TYLTYL, [mostrando uma multidão de crianças adormecidas ao pé das colunas, nos degraus, nos bancos, etc.]
E todos aqueles que dormem — como há os que dormem! — não fazem nada?...
A CRIANÇA
Pensam em alguma coisa...
TYLTYL
Em quê?...
A CRIANÇA
Ainda não sabem; mas devem levar alguma coisa à Terra; é proibido sair de mãos vazias...
TYLTYL
Quem proíbe?...
A CRIANÇA
É o Tempo, que fica à porta... Verás quando ele abrir... Ele é muito aborrecido...
UMA CRIANÇA, [acorrendo do fundo da sala, abrindo caminho pela multidão.]
Bom dia, Tyltyl!...
TYLTYL
Olha!... Como sabe meu nome?...
A CRIANÇA, [que acaba de acorrer e abraça Tyltyl e Mytyl com efusão.]
Bom dia!... Tudo vai bem?... — Vamos, abraça-me, e tu também, Mytyl... Não é espantoso que eu saiba teu nome, pois serei teu irmão... Só agora me disseram que estavas aqui... Eu estava lá no fim da sala, empacotando minhas ideias... — Dize a mamãe que estou pronto...
TYLTYL
Como?... Pretendes vir para nossa casa?
A CRIANÇA
Claro, no ano que vem, no domingo de Ramos... Não me atormentes muito quando eu for pequeno... Estou muito contente por vos ter abraçado de antemão... — Dize a papai que conserte o berço... — É bom em nossa casa?...
TYLTYL
Ora, não é ruim... E mamãe é tão boa!...
A CRIANÇA
E a comida?...
TYLTYL
Depende... Há até dias em que temos bolos, não é verdade, Mytyl?...
MYTYL
No Ano-Novo e no Catorze de Julho... É mamãe quem os faz...
TYLTYL
Que tens aí nesse saco?... Trazes-nos alguma coisa?...
A CRIANÇA, [muito orgulhosa.]
Trago três doenças: a escarlatina, a coqueluche e o sarampo...
TYLTYL
Pois bem, se é tudo isso!... E depois, que farás?...
A CRIANÇA
Depois?... Irei embora...
TYLTYL
Valerá muito a pena vir!...
A CRIANÇA
Acaso se tem escolha?...
[Nesse momento, ouve-se erguer-se e espalhar-se uma espécie de vibração prolongada, poderosa e cristalina, que parece emanar das colunas e das portas de opala tocadas por uma luz mais viva.]
TYLTYL
Que é isto?...
UMA CRIANÇA
É o Tempo!... Ele vai abrir as portas!...
Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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