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O Pássaro Azul

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O Pássaro Azul

Capítulo 32 · O Pássaro Azul

Décimo Segundo Quadro - Parte 1

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DÉCIMO SEGUNDO QUADRO

O DESPERTAR

O mesmo interior do primeiro quadro, mas tudo, as paredes, a atmosfera, parece incomparavelmente, feericamente mais fresco, mais risonho, mais feliz. — A luz do dia filtra-se alegremente por todas as frestas das venezianas fechadas.

* * * * *

[À direita, ao fundo do aposento, em suas duas caminhas, Tyltyl e Mytyl dormem profundamente. — A Gata, o Cão e os Objetos estão no lugar que ocupavam no primeiro quadro, antes da chegada da Fada. — Entra a Mãe Tyl.]

A MÃE TYL, [com voz alegremente repreensiva.]

De pé, vamos, de pé, pequenos preguiçosos!... Não tendes vergonha?... Já soaram oito horas, o sol já está mais alto que a floresta!... Meu Deus! como dormem, como dormem!... [Ela se inclina e beija as crianças.] Estão todos rosados... Tyltyl cheira a lavanda e Mytyl a lírio-do-vale... [Beijando-os ainda.] Como são bons os filhos!... Mas não podem dormir até meio-dia... Não se pode fazer deles preguiçosos... E depois, deixaram-me dizer que isso não é lá muito bom para a saúde... [Sacudindo suavemente Tyltyl.] Vamos, vamos, Tyltyl...

TYLTYL, [despertando.]

Quê?... A Luz?... Onde está ela? Não, não, não vás embora...

A MÃE TYL

A Luz?... mas claro que ela está aí... Já faz bastante tempo... Está claro como ao meio-dia, embora as venezianas estejam fechadas... Espera um pouco que eu as abra... [Ela empurra as venezianas; a claridade ofuscante do pleno dia invade o aposento.] Pronto, aí está!... Que tens?... Pareces todo deslumbrado...

TYLTYL, [esfregando os olhos.]

Mamãe, mamãe!... És tu!...

A MÃE TYL

Mas claro que sou eu... Quem querias que fosse?...

TYLTYL

És tu... Mas sim, és tu!...

A MÃE TYL

Mas sim, sou eu... Não mudei de rosto esta noite... Que tens para me olhar como um maravilhado?... Talvez eu esteja com o nariz virado ao contrário?...

TYLTYL

Oh! como é bom te ver de novo!... Faz tanto tempo, tanto tempo!... Preciso te beijar agora mesmo... Mais, mais, mais!... E então, é mesmo minha cama!... Estou em casa!...

A MÃE TYL

Que tens?... Não acordaste ainda?... Não estás doente, ao menos?... Vamos, mostra a língua... Vamos, levanta-te logo, e depois veste-te...

TYLTYL

Olha! Estou de camisola!...

A MÃE TYL

Claro... Põe teu calção e tua jaquetinha... Estão ali, sobre a cadeira...

TYLTYL

Foi assim que fiz toda a minha viagem?...

A MÃE TYL

Que viagem?...

TYLTYL

Ora, sim, no ano passado...

A MÃE TYL

No ano passado?...

TYLTYL

Mas sim, pois!... No Natal, quando parti...

A MÃE TYL

Quando partiste?... Não saíste do quarto... Deitei-te ontem à noite, e te encontro esta manhã... Então sonhaste tudo isso?...

TYLTYL

Mas tu não compreendes!... Foi no ano passado, quando parti com Mytyl, a Fada, a Luz... ela é boa, a Luz! o Pão, o Açúcar, a Água, o Fogo. Eles brigavam o tempo todo... Não estás zangada?... Não ficaste triste demais?... E Papai, que disse?... Eu não podia recusar... Deixei um bilhete explicando...

A MÃE TYL

Que estás cantando aí?... Claro que estás doente, ou então ainda dormes... [Ela lhe dá um empurrão amistoso.] Vamos, acorda... Vamos, está melhor?...

TYLTYL

Mas, Mamãe, eu te asseguro... És tu que ainda dormes...

A MÃE TYL

Como! eu ainda durmo?... Estou de pé desde as seis horas... Fiz toda a arrumação e reacendi o fogo...

TYLTYL

Mas pergunta a Mytyl se não é verdade... Ah! nós tivemos aventuras!...

A MÃE TYL

Como, Mytyl?... Que foi?...

TYLTYL

Ela estava comigo... Revimos vovô e vovó...

A MÃE TYL, [cada vez mais atônita.]

Vovô e vovó?...

TYLTYL

Sim, no País da Lembrança... Ficava em nosso caminho... Eles morreram, mas passam bem... Vovó nos fez uma bela torta de ameixas... E depois os irmãozinhos, Robert, Jean, seu pião, Madeleine e Pierrette, Pauline e depois Riquette...

MYTYL

Riquette, ela anda de quatro!...

TYLTYL

E Pauline ainda tem sua espinha no nariz...

MYTYL

Também te vimos ontem à noite.

A MÃE TYL

Ontem à noite? Não é espantoso, pois eu te pus na cama.

TYLTYL

Não, não, nos jardins das Felicidades; estavas muito mais bela, mas te parecias contigo...

A MÃE TYL

O jardim das Felicidades? Não conheço isso...

TYLTYL, [contemplando-a, depois beijando-a.]

Sim, estavas mais bela, mas gosto mais de ti assim...

MYTYL, [beijando-a igualmente.]

Eu também, eu também...

A MÃE TYL, [comovida, mas muito inquieta.]

Meu Deus! que têm eles?... Vou perdê-los também, como perdi os outros!... [Subitamente aflita, chama.] Papai Tyl! Papai Tyl!... Vinde cá! Os pequenos estão doentes!...

[Entra o Pai Tyl, muito calmo, com um machado na mão.]

O PAI TYL

Que há?...

TYLTYL e MYTYL, [correndo alegremente para beijar o pai.]

Olha, Papai!... É Papai!... Bom dia, Papai!... Trabalhaste muito este ano?...

O PAI TYL

Pois então?... Que é isto?... Eles não parecem doentes; estão com ótima aparência...

A MÃE TYL, [lacrimosa.]

Não se deve confiar nisso... Será como os outros... Também tinham ótima aparência, até o fim; e depois o bom Deus os levou... Não sei o que têm... Deitei-os bem tranquilamente ontem à noite; e esta manhã, quando despertam, eis que tudo vai mal... Já não sabem o que dizem; falam de uma viagem... Viram a Luz, vovô, vovó, que morreram mas passam bem...

TYLTYL

Mas vovô continua com sua perna de pau...

MYTYL

E vovó com seus reumatismos...

A MÃE TYL

Ouves?... Corre buscar o médico!...

O PAI TYL

Mas não, mas não... Eles ainda não morreram... Vamos, vamos ver... [Batem à porta da casa.] Entrai!

[Entra a Vizinha, velhinha que se parece com a Fada do primeiro ato e que caminha apoiando-se num bordão.]

A VIZINHA

Muito bom dia e boas festas a todos!

TYLTYL

É a Fada Bérylune!

A VIZINHA

Venho buscar um pouco de fogo para o meu cozido da festa... Está bem friozinho esta manhã... Bom dia, crianças, tudo vai bem?...

TYLTYL

Senhora Fada Bérylune, não encontrei o Pássaro Azul...

A VIZINHA

Que diz ele?...

A MÃE TYL

Nem me fale, senhora Berlingot... Eles já não sabem o que dizem... Estão assim desde que acordaram... Devem ter comido alguma coisa que não fez bem...

A VIZINHA

Então, Tyltyl, não reconheces a velha Berlingot, tua vizinha Berlingot?...

TYLTYL

Mas sim, senhora... A senhora é a Fada Bérylune... Não está zangada?...

A VIZINHA

Béry... quê?

TYLTYL

Bérylune.

A VIZINHA

Berlingot, queres dizer Berlingot...

TYLTYL

Bérylune, Berlingot, como quiserdes, senhora... Mas Mytyl sabe bem...

A MÃE TYL

É isso o pior, é que Mytyl também...

O PAI TYL

Bah, bah!... Isso passará; vou dar-lhes algumas palmadas...

A VIZINHA

Deixai, não vale a pena... Conheço isso; são apenas algumas sonhices... Devem ter dormido num raio de lua... Minha netinha, que está muito doente, fica muitas vezes assim...

A MÃE TYL

A propósito, como vai tua netinha?

A VIZINHA

Mais ou menos... Não consegue levantar-se... O doutor diz que são os nervos... Ainda assim, sei muito bem o que a curaria... Ela me pedia isso ainda esta manhã, como presentinho de Natal; é uma ideia que ela tem...

A MÃE TYL

Sim, eu sei, é sempre o pássaro de Tyltyl... Pois bem, Tyltyl, não vais enfim dá-lo a essa pobre pequena?...

TYLTYL

O quê, Mamãe?...

A MÃE TYL

O Pássaro Azul

Sinopse

Tradução integral em português-BR de L'oiseau bleu, féerie em seis atos e doze quadros de Maurice Maeterlinck, preparada pelo Literunico a partir do texto francês em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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