Leia agora
História de uma viagem feita à terra do Brasil

Universo da obra

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 2 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo I — Motivo e ocazião, que nos fez empreender esta longinqua viagem á terra do Brazil

2 de 24 ≈ 9 min de leitura

§ 1. Como alguns cosmografos e outros istoriadores do nosso tempo já escreveram sobre o comprimento, largueza, formozura e fertilidade d’esta Quarta parte do mundo, xamada America ou terra do Brazil, e tambem sobre as ilhas proximas e terras adjacentes inteiramente desconhecidas dos antigos, e sobre diversas navegações, que para ahi se fizeram n’estes primeiros 80 annos depois do seo descobrimento, não me demorarei em tratar d’este argumento com extensão e generalidades; minha intenção e meo objeto será n’esta istoria sómente declarar o que pratiquei, vi, ouvi e observei, quer no mar e em terra, indo e vindo, quer entre os selvagens americanos, no meio dos quaes andei e vivi quazi um anno.

E afim de que tudo seja melhormente conhecido e entendido de cada leitor, começando pelo motivo, que nos levou a empreender tam penoza e longinqua viagem, direi brevemente qual foi a ocasião d’ela.

§ 2. No anno de 1555 um fulano Nicoláo de Villegagnon, cavaleiro da ordem de Malta, tambem conhecida por ordem de São João de Jeruzalém, desgostozo da França, e axando-se tambem descontente da Bretanha, onde então residia, manifestou em diversos lugares do reino de França a varios personagens notaveis de todas as graduações, que desde muito tempo não só tinha extremo dezejo de retirar-se para algum paiz longinquo, onde podesse livre e puramente servir a Deos, conforme a reforma do Evangelho, mas tambem que dezejava ahi preparar pouzo para todos aqueles que quizesses para ahi retirar-se com o fim de evitar perseguições; as quaes de fato eram taes, que n’esse tempo muitas pessoas, de todos os sexos e condições, eram em todos os lugares do reino, por edictos do rei e por decizões dos parlamentos, queimadas vivas, sendo seos bens confiscados, por causa de religião.

Declarava além d’isso Nicoláo de Villegagnon, tanto vocalmente a aqueles que viviam perto d’ele, como por cartas que dirigia a alguns particulares, que tinha ouvido falar e referir tam bôas noticias de formozura e fertilidade da parte da America xamada terra do Brazil, que, para habituar-se ahi e efectuar o seo dezignio, tomaria de bôamente este caminho.

§ 3. E de fato sob este pretesto conseguio a vontade de alguns grandes senhores da religião reformada, os quaes dominados pelo mesmo aféto, que ele dizia ter, dezejavam axar similhante refugio: entre estes figurava o finado senhor Gaspar de Coligni, de feliz melhoria, almirante de França, o qual, bem visto e bem aceito, como era, do rei Enrique Segundo, então reinante, reprezentou, que si Nicoláo de Villegagnon fizesse essa viagem, poderia descobrir muitas riquezas e outras comodidades em proveito do reino; em vista do que mandou-lhe dar o rei dois bons navios aparelhados e providos de artilharia, e dez mil francos para os gastos da viagem.

Assim Nicoláo de Villegagnon, antes de partir de França, prometeo a alguns onrados personagens, que o acompanharam, que estabeleceria puro serviço de Deos no lugar em que rezidisse, e depois de prover-se de marinheiros e artistas, que trouxe comsigo, no mez de Maio do dito anno de 1555, sahio ao mar, onde sofreo muitas tormentas; mas emfim, não obstante todas as dificuldades, em Novembro seguinte xegou ao dito paiz.

§ 4. Xegado ahi, dezembarcou e tratou primeiramente de alojar-se em um roxêdo na embocadura de um braço de mar ou rio d’agua salgada, xamado pelos indigenas Guanabára, o qual (como em lugar competente descreverei) fica aos 23 gráos alem do equador, isto é, quazi debaixo do tropico do Capricornio; porem as ondas do mar dali o expeliram.

Assim foi constrangido a retirar-se dali, avançou quazi uma legoa buscando as terras, e acomodou-se em uma ilha antes dezabitada, na qual, tendo dezembarcado a artilharia e demais bagagem, começou a construir uma fortificação, afim de ficar em maior segurança, tanto contra os selvagens como contra, os Portuguezes, que viajam e já têm fortalezas n’esse paiz.

§ 5. Ora dahi, fingindo sempre arder em zelo por adiantar o reino de Jezus Cristo, e persuadindo-o com empenho á sua gente, quando os seos navios ficaram carregados e prestes para regressar á França, descreveo e mandou em um deles expressamente ema pessoa a Genebra, requisitando igreja e ministros do dito lugar para ajudarem e socorrer, quando lhes fosse possivel, n’esta sua tam santa empreza.

Mas sobretudo afim de proseguir e avançar com diligencia na obra, que empreendera, e que dezejava, conforme dizia, continuar com todas as suas forças, pedia instantemente não só que lhe enviassem ministros da palavra de Deos, mas tambem que, para melhormente reformar a si e a sua gente, e para xamar os selvagens ao conhecimento da sua salvação, algumas outras pessoas bem instruidas na religião cristan acompanhassem os ditos ministros, afim de virem ter com ele.

§ 6. A igreja de Genebra, recebidas as suas cartas e ouvidas as suas noticias, rendeo primeiramente graças a Deos pela amplificação do reino de Jezus Cristo em paiz tam longinquo, em terra estranha e no meio de uma nação, que inteiramente ignorava o verdadeiro Deos.

Depois para satisfazer a requizição de Nicoláo de Villegagnon, o finado senhor almirante, a quem para o mesmo efeito tambem escrevera, solicitou por cartas a Filipi de Corguillerai, senhor Dupont (que avia-se retirado para perto de Genebra, e fôra seo vizinho em França, perto de Chastillon sur Loing) para empreender a viagem, afim de dirigir aqueles que se quisessem encaminhar para Nicoláo de Villegagnon n’essa terra do Brazil. O dito senhor Dupont foi tambem solicitado pela igreja pelos ministros de Genebra, embora já fosse velho e caduco; mas ainda animado pelo grande dezejo que tinha de empregar-se em tam boa obra, e pospondo e abandonando todos os outros seos negocios, e até deixando seos filhos e sua familia para ir para tam longe accedeo em fazer o que lhe requeriam.

§ 7. Feito isto, tratou-se em segundo lugar de axar ministros da palavra de Deos. Portanto depois que Dupont e outros seos amigos falaram a alguns escolares, que então estudavam teologia em Genebra, os ministros Pedro Richier, já idozo, tendo então 50 annos, e Guilllerme Chartier, lhe prometeram, que, no cazo de se conhecer por via ordinária da igreja, que eles eram aptos para esse encargo, estavam prontos pala dezempenhal-o.

Assim depois que entes dous sacerdotes aprezentaram-se aos ministros de Genebra, que os ouviram sobre a expozição de certas passagens da Escritura-santa, e os exortaram acerca dos demais deveres, voluntariamente aceitaram, com o seo condutor Dupont, transpor o mar para irem ter com Nicoláo de Villegagnon, afim de anunciarem o Evangelho n’America.

§ 8. Ora, faltava ainda axar outros personagens instruidos nos principaes pontos da fé, e tambem artistas peritos nas suas artes, como Nicoláo de Villegagnon pedia; mas para a ninguem iludir, Dupont alem de declarar longo e fastidiozo caminho, que convinha fazer, a saber, quazi 150 legoas por terra, e mais de 2.000 por mar, acrecentava, que, xegando a essa terra da America, cumpria contentar-se com o alimento de certa farinha feita de raizes, em lugar de pão, e quanto a vinho, nem noticias d’ele, pois ahi não crecea parreira; emfim dizia, que como em novo mundo (conforme advertia carta de Nicoláo de Villegagnon conviria uzar ahi de modo de vida e de viandas inteiramente diferente dos da nossa Europa: todos aqueles, digo eu, que amavam mais a teoria do que a pratica d’essas couzas, e não apeteciam, mudar de ares, nem suportar as ondas do mar e o calor da zona tórrida, nem ver o pólo Antártico, não quizeram entrar em liça, nem alistar-se, nem embarcar-se em tal viagem.

§ 9. Todavia depois de muitos convites e solicitações por todos os lados, alguns, como me parece, mais corajozos do que os outros aprezentaram-se para acompanhar a Dupont, Pedro Richier e Guilherme Chartier, e esses foram: Pedro Bordon, Mateos Verneuil, João du Bordel, André Lafon, Nicoláo Denis, João Gardien, Martin David, Nicoláo Raviquet, Nicoláo Carmeau, Tiago Rousseau, e eu João de Leri, que, tanto pela boa vontade que Deos me déra para servir á sua gloria, como por curiozo de ver o novo mundo fiz parte da comitiva de sorte que fômos, em numero de 14 os que partimos da cidade de Genebra aos 16 de Setembro do anno de 1556.

Seguimos e fômos passar por Chastillon sur Loing, no qual lugar axamos o senhor almirante, e este não só nos encorajou cada vez mais a proseguir na nossa empreza, mas tambem fez promessa de nos coadjuvar pelo lado da marinha; e aprezentando muitas razões, deu-nos esperança de que Deos nos concederia a graça de vermos o fruto do nosso trabalho.

§ 10. Encaminhamos-nos dahi para Paris, onde, durante um mez em que ahi permanecemos, alguns gentis omens e outras pessoas, advertidas do motivo da nossa viagem, reuniram-se á nossa companhia.

Dahi passamos a Rouen, e dirigindo-nos a Oufleur, porto de mar, que nos era assinalado no paiz da Normandia, ahi fizemos os nossos preparativos, esperamos, que se aprestassem os nossos navios para a partida, e demoramos-nos quazi um mez.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de História de uma viagem feita à terra do Brasil

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral História de uma viagem feita à terra do Brasil Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 2 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capa de História de uma viagem feita à terra do Brasil
Continue a leitura Capítulo I — Motivo e ocazião, que nos fez empreender esta longinqua viagem á terra do Brazil Capítulo 2 · 2 de 24 · ≈ 9 min
Todos os capítulos 24 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir