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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 4 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo III — Bonitos, albacores, dourados, golfinhos, peixes-voadores, e outros de varias especies que vimos e apanhamos na zona torrida

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§ 1. Desde então tivemos mar xam, e vento tam bonançozo que fomos impelidos até 3 ou 4 gráos aquem da linha equinocial.

N’estas paragens apanhamos muitos golfinhos. Dourados, albacores bonitos e grande quantidade de, outras especies de peixes; e como eu sempre julgára, que os marinheiros, dizendo que avia uma especie de peixes voadores, contavam petas, a experiência então mostrou-me, que o fato era verdadeiro.

Começamos pois a ver sair do mar e levantar-se no ar cardumes de peixes voando fóra d’agua (como em terra vemos as cotovias e estorninhos) quazi da altura de uma lança, e algumas vezes na distancia de perto de 100 passos; e acontecendo frequentemente baterem alguns d’eles nos mastros dos nossos navios e cahirem no convés. nós assim facilmente os apanhavamos ás mãos.

§ 2. Para descrever este peixe, conforme o que observei n’uma infinidade, que vi e examinei, indo e regressando da terra do Brazil, direi, que é de fórma mui similhante ao arenque, embora um pouco mais comprido e mais redondo; tem pequenas barbatanas nas fauces, azas como as do morcego, e quazi tam extensas como o corpo, e é de muito bom gosto e sabor ao paladar.

Alem d’isso, como os não vi aquem do tropico de Cancer, penso (sem todavia pretender afirmar o contrario), que, amando o calor e vivendo sob a zona torrida, não ultrapassam para umas outra banda dos polos.

Outra couza ainda observei; e é, que esses pobres peixes voadores, quer estejam n’agua, quer no ar, nunca ficam em socego; pois estando no mar os albacores e outros peixes grandes os perseguem para os comer, e fazem-lhes continua guerra; e si para evitar o dano, buscam salvar-se no vôo, certas aves marinhas os pream e d’eles se alimentam.

§ 3. E para dizer tambem alguma couza d’estas aves que assim vivem de preza no mar, sam tão mansas, que muitas vezes acontecera pouzarem nas bordas, cordas e mastros dos nossos navios, deixando-se apanhar com a mão; e por tel-as comido, e tel-as visto por fóra e por dentro, dou aqui a descrição d’elas.

Sam de plumagem parda, como os gaviões; mas quanto ao esterior parecem tamanhas como gralhas, acontecendo todavia que quando depenadas não aprezentam mais volume do que um pardal; de sorte que maravilha serem tão diminutas no corpo, e poderem prear e comer peixes maiores e mais volumozos do que elas; alem d’isso possuem apenas uma tripa, e têem pés xatos como os adens.

§ 4. Voltando agora a falar dos outros peixes, de que já fiz menção, direi, que o bonito que é dos melhores no paladar, é quazi da feição das nossas carpas comuns; todavia não tem escamas, e em nossa viagem vi muitos, que por espaço de quazi seis semanas não sahiam de roda dos nossos navios, aos quaes verosimilmente assim acompanhavam por cauza do breo e alcatrão, de que sam untados.

§ 5. Quanto aos albacores, embora sejam mui similhantes aos bonitos, todavia, tendo eu visto e contido bem boa porção d’eles, que tiniram perto de cinco pés de comprimento, e tão grossos como o corpo de um omem, posso dizer, que não existe comparação entre uma e outra especie a respeito da grandeza.

Alem d’isso como este peixe albacor não é fibrozo, e pelo contrario se esmigalha e tem a carne tão friavel como a truta, aprezentando apenas uma espinha em todo o corpo e mui poucas visceras, devemos colocal-o entre os melhores peixes do mar.

Com efeito como não tinhamos com suficiencia as couzas precizas para bem preparal-o (como não têem todos os passageiros de longas viagens) nós o preparavamos, simplesmente com sal, para assar grandes postas em brazas, e o axavamos estremamente bom e saborozo guizado d’este modo.

Portanto si os senhores gulozos, que não se querem arriscar no mar e todavia (como geralmente se diz, que fazem os gatos sem molhar as patas) querem comer bom peixe, terão em terra tam facilmente como no mar, mandando-o preparar com molho da Alemanha, ou de qualquer outro modo; e duvidareis, que não lamberiam bem os dedos? Digo, si por ventura o tivessem em terra; pois, como referi do peixe voador, não penso, que estes albacores, que têem os seos pouzos principalmente entre os dois tropicos e no alto mar, aproximem-se tanto das praias, que os pescadores os possam trazer sem se estragarem e corromperem.

O que digo todavia é em relação a nós, abitantes deste clima; porque emquanto aos Africanos, que vivem nas praias do lado de léste, e emquanto aos moradores do Perú e vizinhanças do lado do oéste, bem póde suceder, que os tenham facilmente.

§ 6. O dourado, que no meo intender é assim xamado, porque n’agua parece amarélo, e reluz como ouro puro, aproxima-se na configuração algum tanto do salmão; todavia difere d’este em ser como deprimido no dorso.

No demais porém, por tel-o provado, reputo, que esse peixe não só é melhor do que todos os supramenciona dos, mas tambem que nem na agua salgada nem na agua doce axar-se-á outro mais delicado.

§ 7. Emquanto aos golfinhos, sam de duas qualidades, pois quando uns têem o focinho quazi tam xato como bico de pato, outros ao contrario o têem tam redondo e rombo, que, quando põem as ventas fóra d’agua, parece-nos ver uma bóla.

Por isso em razão da similhança, que estes ultimos têem com os capuxinhos, quando escavamos no mar, os xamavamos cabeça de frade.

Quanto ao resto da fórma das duas especies, vi alguns de cinco a seis pés de comprimento, os quaes tinham a cauda mui larga e aprezentavam todos um furo na cabeça, por onde não só recebiam ar e respiravam, mas tambem, nadando no mar, lançavam algumas vezes agua por essa abertura.

Mas sobretudo quando o mar começa a agitar-se, esses golfinhos, surgindo repentinamente á tona d’agua mesmo de noite, no meio das ondas e das vagas encrespadas, tornam o mar quazi verde, e parecem verdes.

Apraz ouvil-os soprar e roncar de tal modo que dirieis serem realmente porcos terrestres. Quando os marinheiros os vêem d’esta sorte nadar e mover-se presagiam e asseguram proxima tempestade; o que muitas vezes vi acontecer.

E assim em tempo regular, isto é, estando o mar simplesmente ondulado, os viamos algumas vezes em tamanha abundância, que todo o mar em redor de nós, quanto a vista podia alcançar, parecia constar da golfinhos; e como não se deix apanhar tam facilmente como muitas outras especies de peixes, nem sempre os tinhamos, quando queriamos.

§ 8. Para melhor satisfazer ao leitor n’este ponto, vou ainda declarar o meio, de que vi uzarem os nossos marinheiros para os apanhar.

Um d’eles, mais acostumado e déstro em tal pescaria, conservava-se de espreita junto ao mastro do gurupés na prôa do navio, tendo na mão um arpão de ferro, encabado em uma vara da grossura e comprimento de uma lança, e amarrado em quatro ou cinco braças de corda; e quando via aproximarem-se os bandos, escolhia o golfinho, que lhe ficava ao alcance, e arremessava esta machina com tal vigor, que, si acertava o golpe, não deixava de ferral-o.

Ficando assim ferida a preza, o arpoador solta e deixa correr a corda, cuja ponta retem firme; depois do que o golfinho, debatendo-se e visgando-se cada vez mais, perde n’agua o sangue, e debilita-se. Então os outros marinheiros vêem em auxilio do companheiro com um ganxo de ferro, a que xamam gafe (tambem encabado em comprido varapáo) e á força de braços o puxam para bordo. Na nossa ida, apanhámos talvez 25 por este modo.

§ 9. A respeito das partes interiores e do intestino do golfinho, direi, que si como ao cerdo, em lugar das quatro pernas, se separarem as quatro rebarbas, e tirarem-se as tripas (ou a fressura, si o quizerem) e as costelas, aberto e pendurado, direis ser um verdadeiro porco terrestre: tem figado com o mesmo gosto; verdade é, que a carne fresca é muito adocicada, e não é saboroza.

Quanto ao toucinho, todos os que eu vi, não tinham mais de uma polegada de gordura, e creio, que nenhum excederá de dois dedos.

E ninguem se engane, quando os negociantes e peixeiros de Paris e de outros lugares apregoam o seo toucinho de quaresma, que tem mais de quatro dedos de espessura; pois com certeza o que vendeu é toucinho de baldeia.

Como no ventre de alguns golfinhos, que apanhamos, axaram-se filhotes (os quaes assámos como leitões) sem nos determos no que outros já escreveram em contrario, penso, que os golfinhos, como as porcas, geram seos fetos, e não se reproduzem por meio de ovos, como quazi todos os outros peixes.

Entretanto si alguem me quizesse arguir, louvando-se para este fato antes n’aqueles que viram a experiencia, do que, n’aqueles que somente leram os livros, eu não quereria outra decizão; e ninguem me impedirá de crer no que vi.

§ 10. Apanhamos igualmente muitos tubarões, que emquanto estam no mar, embora esteja este tranquilo e socegado, parecem verdes; e vê-se, que têem mais de quatro pés de comprimento com grossura proporcional; todavia por não ser a carne boa, os marinheiros só a comem em cazo de necessidade e na falta de peixe melhor.

Quanto ao mais esses tubarões têem a péle tão rija e aspera como uma lima, a cabeça xata e larga, e a boca tam rasgada como a do lobo, ou do dogue d’Inglaterra; e não só sam por isto monstruozos, mas tambem por terem os dentes cortantes e mui aguçados sam tam perigozos, que, si apanham algum omem pela perna ou por outra qualquer parte do corpo, levam o sacabocado, ou o arrastam para o fundo d’agua.

§ 11. Por isso quando os marinheiros algumas vezes banhavam-se no mar em tempo de calma, os temiam muito; e acontecia, que quando os pescavamos (e varias vezes o fizemos com anzóes de ferro da grossura de um dedo) e estavamos no tombadilho do navio, não nos descuidavamos menos do que em terra fariamos entre, cães bravios e perigosos.

Como pois esses tubarões não sam bons para alimento, e quer estejam prezos, quer estejam n’agua, não fazem sinão mal, depois de termos, como a brutos nocivos, pungido e atormentado aqueles que podiamos apanhar, como si fossem mastins raivozos, ou os matavamos com golpes de vergas de ferro, ou então cortavamos-lhes as barbatanas, e amarrando-lhes na cauda um arco de pipa, os atiravamos ao mar; e porque, antes de poderem mergulhar, ficavam por muito tempo flutuando e debatendo-se em cima d’agua, tinhamos assim bom divertimento.

§ 12. Embora muito falte ás tartarugas, que vivem n’esta zona torrida, para serem tam exorbitantemente grandes e monstruozas que com um só casco d’elas se possa cobrir uma caza abitavel, ou fazer um barco navegavel, como Plinio diz axarem-se taes nas costas das Indias e nas ilhas do Mar-vermelho, todavia encontram-se algumas tam compridas, largas e grossas, que não é facil fazel-o acreditar a quem as não vio; por isso de passagem aqui farei menção d’elas.

E sem fazer longo discurso, deixarei por um exemplo o leitor julgar quaes elas podiam ser, dizendo que entre outras uma foi apanhada no navio do vice-almirante de tal grandeza, que 80 pessoas, que estavam no dito navio, jantaram d’ela fartamente (vivendo como no mar se costuma em taes viagens).

A conxa oval superior, que foi tirada para mimozear ao senhor de Santa Maria, nosso tinha mais de dois pés e meio de largura, sendo forte e espessa correspondentemente. No demais a carne aproxima-se muito da do vitélo; e sobretudo quando é lardeada e assada, oferece ao paladar o mesmo gosto d’esse animal.

§ 13. Eis pouco mais ou menos como vi apanhal-as no mar.

Em tempo bom e calmo (pois do contrario pouco aparecem) elas sobem e permanecem em cima d’agua, e apenas o sol aquece-lhes as costas e o casco, e elas não podem mais suportar o calor, viram-se e voltam ordinariamente o ventre para cima afim de refrescar; então os marinheiros, vendo-as d’este modo, aproximam-se na sua barca o mais placidamente possivel, e quando estam perto, as suspendem pelos dois cascos com esses ganxos de ferro, de que falei, e então á força de braços ás vezes de quatro e cinco omens as puxam e trazem comsigo no batel.

§ 14. Eis aqui sumariamente o que pretendi dizer das tartarugas e dos peixes, que então apinhamos pois adiante ainda falarei dos golfinhos, das balêias, e de outros monstros marinhos.

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Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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