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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 22 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo XXI — Nossa partida da terra do Brazil, xamada America, e tambem naufragios e primeiros perigos, de que escapamos no nosso regresso por mar

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§ 1. Para bem compreender o motivo da nossa partida da terra do Brazil, cumpre trazer á memória o que eu dice no fim do capitulo 6, a saber, que depois de estarmos oito dias na ilha, onde permanecia Nicoláo de Villegagnon, ele, incitado por sua rebeldia contra a religião reformada, arrogando autoridade sobre nós, e não podendo domar-nos pela força coagio-nos a sair dali; retiramos-nos por isso para a terra firme e buscamos o lado esquerdo ao entrar no rio de Ganabara, tambem xamado Geneure, na distancia de meia legoa do fortim de Coligni situado na dita olha, fixando-nos no lugar que xamamos Olaria (Briqueterie), onde estivemos quazi dois mezes em cazinholas, que os operarios francezes tinham construido para abrigo seo, quando iam á pescaria, ou iam tratar de quaesquer outros negocios.

Durante esse tempo os senhores de lachapelle e Boissi, que tinhamos deixado com Nicoláo Villegagnon, o abandonaram pela mesma cauza, pela qual o tinhamos feito, a saber, porque ele tinha voltado costas ao Evangelhos, vieram reunir-se á nossa companhia, e foam compreendidos no ajuste das 600 libras tornezas e viveres do paiz, que tinhamos prometido pagar e fornecer, como fizemos, ao mestre do navio, em que atravessamos o mar.

§ 2. Na fórma do que em outra parte prometi, cumpre, que eu, antes de proseguir, declare já comoNicoláo de Villegagnon portou-se para comnosco por ocazião da nossa partida da America.

Constituindo-se vice-rei d’esse paiz, todos os maritimos francezes, que por ali viajavam, não ouzavam fazer couza alguma sem o seo consetimento. Emquanto o navio em que regressamos, estava ancorado no porto d’esse rio Geneure, onde carregava para partir, não só Nicoláo de Villegagon mandou-nos licença assinda de seo punho, mas tambem escreveo uma carta ao mestre do dito navio, pela qual lhe declarava, que por cauza d’ele não opozesse dificuldade em transportar-nos.

Ahi dizia ele dolozamente: - Pois assim como alegrei-me com a sua vinda, pensando encontrar o que buscava, assim tambem fico contente, que eles voltem, visto não estarem de acordo comigo.

Sob este especiozo preteesto tinha traçado a traição, que ouvireis; e fooi, que, dando a esse mestre de navio uma pequena caixa envolta em pano encerado (por cauza do mar) contendo cartas dirigidas a varios personagens, incluiria tambem um processo formado contra nós e sem siencia nossa, com ordem expressa ao primeiro juiz, a quem fosse entregue em França, para prender-nos e fazer-nos queimar como ereticos, que ele dizia sermos.

D’esta sorte em recompensa dos serviços, que lhe tinhamos prestado, ele selava e firmava a nossa licença com esta deslealdade, a qual todavia Deos por sua admiravel providencia converteo em alivio nosso, e confuzão do traidor, como adiante se verá.

§ 3. Ora, depois que este navio, que denominava-se Jaques, carregou de páo-brazil, pimentão, algodão, bugios, saguis, papagaios e outras couzas raras da terra, com que a maior parte dos passageiros tinham-se premunido, embarcamos em regresso para a Europa a 4 de Janeiro de 1558, dia da natividade.

Antes porém de encetarmos a viagem, afim de dar melhor a entender, que Nicoláo de Villegaignon é a cauza única de não se terem os Francezes antecipado e permanecido n’esse paiz, não devo esquecer-me de dizer, que um tal Fariban de Rouan, que era o capitaão do navio, empreendeo a sua viagem, por solicitação de varios personagens notaveis, adeptos da religião reformada no reino de França, com o propozito de vir explorar a terra e escolher sitio para morar; e declarou-nos, que n’esse anno se ouveéra deliberado a passar 700 a 800 pessoas em grandes urcas[96] de Flandres para começar a povoação do lugar, onde estavamos, si não fôra a rebeldia de Nicoláo de Villegagnon.

Com efeito creio firmemente, que si isso não tivesse acontecido, e si Nicoláo de Villegagnon se tivesse mantido fiel, estariam ali mais de 10.000 Francezes, os quaes além da bôa defeza, que prestariam á nossa ilha e ao nosso fortim contra os Portuguezes, que jamais o teriam podido tomar, como o fizeram depois do nosso regresso, possuiriam agora sob a obediencia do rei estensa região na terra do Brazil, a qual n’este cazo com toda a razão poderia continuar a xamar-se França antartica.

§ 4. Volto agora ao meo assunto. Como o navio mercante, em que regressamos, era de mediana capacidade, o mestre d’ele, xamado martim Boudouin, do Havre de Grace, tinha apenas 25 marinheiros e mais 15 individuos da nossa companhia, formando tudo o numero total de 45 pessoas; e pondo-nos sob a proteção de Deos, começamos a navegar n’esse grande impetuozo mar Oceano do ocidente.

Não o fizemos todavia sem grandes temores e apreensões; poi, por cauza dos trbalhos passados na ida, muitos dentre nós, encontrando ali meios de servir a Deos, como dezejavamos, e tambem tendo experimentado a bondade e fertilidade da terra, não teriam deliberado regressaer á França, onde as dificuldades eram então, e ainda sam imcomparavelmente muito maiores, tanto em referencia á religião como a respeito das couzas concernentes a esta vida, si por ventura os não movêra o máo tratamento recebido de Nicoláo de Villegagnon.

Assim dizendo adeos á America, aqui confesso pelo que me respeita, que amei, e ainda amo a minha patria;todavia vejo a pouca e quazi nenhuma fidelidade, que ahi encontramos, e que o peior é, as deslealdades de que uzam uns para os outros, bem como que tudo entre nós agora está italianizado e só consite em dissimulações e palavras selvagens; por isso lamento muitas vezes não axar-me entre os selvagens, nos quaes, como amplamente demonstrei n’esta istoria nossos, os quaes para a propria condenação trazem o rotulo de cristãos.

§ 5. Ora no começo da nossa navegação era-nos precizo dobrar os grandes baixos, isto é, uma ponta de areia e pedras, avançada quazi trinta legoas pelo mar e assás temida dos marinheiros; e porque o cento servia mal para afastar-nos de terra sem costeal-a, com convinha, estivermos a ponto de arribar.

Todavia depois de andarmos vagando por espaço de sete a oito dias, e sermos atirados para um e outro lado por esse máo vento, que não nos adiantava a marxa, sucedeo, quazi á meia noite (mal muito peior do que os precedentes), que, fazendo os marinheiros o quarto do costume, abrisse agua na popa do navio, e embora ali se conservassem por muito tempo, até contarem mais de 4.000 zonxaduras (os que frequentam o amr Oceano com os Normandos compreendem bem este termo), não poderam esgotar nem estancar a agua.

§ 6. Assim ninguem deve perguntar, si o fato cauzou estrmo assombro a todos nós, quando fômos despertados e soubemos do perigo, que corriamos; e na verdade parecia tam evidente, que a todo o instante nos submergiriamos, que muitos, perdida toda a esperança de salvação, já faziam conta de morrer e ir ao fundo.

Todavia quis Deos, que alguns passageiros, em cujo numero entrei eu, rezolutos a prolongar a vida, quanto podessem, tomassem tal coragem, que com duas bombas sustentaram o navio até meio-dia, isto é, perto de doze oras, durante as quaes a gua entrou no navio com tanta abundancia, que, ainda sem descanso de um minuto, não o podemos esgotar com as ditas duas bombas; e porque a gua enxarcára o páo-brazil, de que o navio ia carregado, corria pelos canaes tam vermelha como sangue de boi.

§ 7. Durante esta diligencia requerida pela necessidade, empregavamos todo o esforço para volvermos á terra dos selvagens, a qual não disttava muito, e a avistamos quazi pelas onze oras do mesmo dia; e deliberados a salvar-nos, si podessemos, dirigimos-nos para o cabo fronteiro.

Entretanto os marinheiros e o carpinteiro, que estavam debaixo do convés, procurando os rombos e as fendas por onde entrava agua, que tam violenta nos salteava, tanto trabalharam com toucinho, xumbo, panos e buracos mais perigozos; de sorte que quando já não podiamos mais, fomos um pouco aliviados do nosso trabalho.

Todavia depois que o carpinteiro revistou bem o navio, dice, que este era muito velho e carcomido dos vermes, e não tinha rezistencia para fazer a viagem, que empreendiamos, e foi seo parecer, que voltassemos ao ponto, d’onde vinhamos, para ali esperarmos a vinda de outro navio de França, ou que fizessemos navio novo: o que foi muito debatido.

§ 8. Objetava porem o mestre, que bem via, que, si voltasse para terra, os marinheiros o abandonariam, e que prefeira (tam poouco assizado era) arriscar a vida a perder assim o seo navio e mercadorias, e concluiio no propozito de proseguir na sua derrota apezar do perigo manifesto.

Dice, que, si o senhor Dupont e demias passageiros, que estavam sob o seo governo, queriam regressar ao Brazil, lhes daria uma barca; ao que o senhor Dupont imediatamente respondeo, que estava rezolvido a seguir para França, e por isso aconselhava a todos os seos camaradas a fazer a mesma couza.

Então manifestou o mestre, que, alem do perigo da navegação, ele previa, que estariamos no mar por muito tempo, e que não avia bastantes viveres no navio para alimentar a todos que n’ele estavam; por isso seis companheiros, considerando por um lado o naufragio, e por outro a fome, que se nos antolhava, deliberamos voltar á terra dos selvagens, da qual apenas distavamos nove ou déz legoas.

§ 9. E com efeito para realizar este dezignio podemos apressadamente o nosso fato na barca, que nos foi dada, com alguma farinha de mandioca e bebidas. Quando nos despedimos dos nossos companheiros, um d’eles, penalizando pela minha partida, e impelido por singular afeição da amizade, que me votava, estendeo-me a mão para a barca, onde eu estava, e dice-me. – Peço-vos, que fiqueis comnosco; pois embora mais esperança temos de salvarnos do lado do Perú, ou em alguma ilha, que possamos encontrar, do que si retrocedermos para Nicoláo de Villagagnon, o qual, como podeis imaginar, jamais vos deixará aqui em socego.

O tempo não permitia longos discursos, e atentas estas observações deixei na barca parte da minha bagagem, subi aceleradamente para o navio, e d’este modo fui prezervado do perigo, que meo amigo previra, como vereis.

Quanto aos outros cinvo, ccujos nomes convem aqui especificar, a saber, Pedro Bourdon, Joaõ Bordel, Mateos Verneuil, André Lafon e Tiago Leballeur, despediram-se xorozos de nós e voltaram a terra do Brazil, onde aportaram com grande dificuldade; e voltando a ter com Nicoláo de Villegagnon, este mandou matar os trez primeiros por cauza da confissão do Evangelho, como no fim d’esta istoria direi.

§ 10. Assim preparados e dando vélas ao vento, buscamos novamente o mar n’esse velho e máo navio, no qual como em verdadeiro sepulcro, esperavamos mias a morte do que a vida.

E com efeito, além de passarmos os ditos baixos com muita dificuldade, tivemos continuas tormentas durante todo o mez de Janeiro, e o nosso navio não cessava de fazer grande quantidade d’agua; si não estivessemos sempre prontos para tocar a bomba, teriamos, para assim dizer, perecido cem vezes no dia. Assim por muito tempo navegámos entre tormentos afastado de terra firme mais de 200 leguas, quando avistamos uma ilha dezabitada, redonda como uma torre, a qual, no meo entender, teria meia legoa de circuito.

Quando a costeavamos e a deixavamos á esquerda, vimos, que a ilha era xeia de arvoredo verdejante n’este mez de Janeiro, e tambem observamos, que d’ela sahia multidão de aves, muitas das quaes vinham pouzar nos mastros do nosso navio, e deixavam-se apanahr á mão; de sorte que vendo isto assim de longe direis ser um pombal.

Esvoaçavam passaros pretos, pardos, esbranquiçados e de outras côres os quaes no vôo pareciam volumozos; mas quando apanhados e depenados, não aprezentavam mais carne do que um pardal.

§ 11. Na distancia de quazi duas legoas, á mão direita, divulgamos roxêdos levantados sobre o mar tam pontuados como sinos; o que incutia-nos grande temor de aver alguns á flôr d’agua, contra os quaes fôsse o nosso navio roçar, sendo nós obrigados a estancal-o, si tal acontecesse.

Durante toda a nossa viagem de cinco mezes, que passamos no mar em regresso, não vimos outra terra além d’elas ilhotas, as quaes os nossos mestres e pilotos não axaram ainda assinaladas nas uas cartas maritimas; e possivel é não terem jamais sido descobertas.

§ 12. No fim do mez de Fevereiro tinhamos xegado a 3 gráos da linha equinocial, pois perto de sete semanas tinham-se passado sem avermos feito a Terça parte do caminho, e entretanto os nosso viveres diminuiam assás, por isso estivemos em deliberação, si deviamos arribar ao cabo de São-Roque, abitado por certos selvagens, dos quaes, conforme diziam alguns dos nossos companheiros, não avia meio de obter refrescos.

Foi a maioria dos consultores de parecer, que, para poupar os viveres, era preferivel matar parte dos bugios e papagaios que traziamos e seguir avante; o que foi executado.

§ 13. Já declarei no capitulo 4 as aflições e trabalhos, que tivemos na ida, ao aproximar-se do equador; mas vendo por experiencia que sam menores os embaraços; voltando do lado do polo antarico para cá (o que mui bem sabem todos os que passaram a zona torrida), acrecentarei aqui o que me parece dever naturalmente cauzar taes dificuldades.

Ssupondo pois que esta linha equinocial, tirada de léste a oéste, seja como o dorso e espinhaço do mundo para aqueles que viajam do norte para o sul, e reciprocamente (pois bem sei, que não existe alto nem baixo, em uma bola considerada em si) digo, que para xegar ahi de uma outra parte, não basta somente o trbalho de subir a esta sumidade do mundo, mas tambem sucede, que as correntes maritimas, que podem vir dos dois lados sem alias as percebermos no meio de tamanho abismo das aguas, e tambem os ventos inconstantes que saem d’esse ponto, como de seo centro, e sopram em sentido oposto, repelem os navios em viagem de tal sorte que estas trez couzas, no meo entender, fazem com que o equador seja ssim de dificil accésso; e o que me confirma n’esta minha opinião é, que, quando na ida xegamos a quazi um gráo alem da linha equinocial, ou no regresso um gráo aquem d’ela, os marinheiros jubilozos por terem, para assim dizer, transposto este salto, agouram bem da viagem, e exortam-se a regalar-se com refrescos, isto é, com tudo aquilo que tinham sempre cuidadozamente guardado na incerteza de poderem ou não passar além.

De maneira que quando os navios estam no declicio do globo, como si corresse para baixo, não sam impedidos do modo porque o foram na subida.

§ 14. Acrecente-se a isto, que todos os mares comunicam-se uns com os outros, sem que pelo adimirável poder e providencia de Deos cubram a terra, embora eles sejam mais latos e funamentados n’ela, antes apenas as dividem em muitas ilhas e parcelas, as quaes igualmente considero estarem conjuntas e como ligadas por meio de raizes, si assim podemos falar, lançadas na profundeza e interior dos abismos: este grandiozo montão d’aguas, está assim suspenso com a terra girando sobre dois quicios (os quaes imagino nos dois quadrangulos opostos aos dos pólos, de sorte que os quatro formam dois cruzeiros em roda e em semi-circulo, que volteam toda a esfera) em peretuo movimento, como o demostram as marés e o fluxo e refluxo do mar, e como esse movimento geral tem seo ponto de partida debaixo da linha equinocial, é certo, que, quando o emisferio das aguas meridionaes, em relação a nós, avança, volvendo-se até as estremidades e limites, que lhe sam prescritos, o emisferio setentrional recúa outro tanto; por isso aqueles que estam no meio e na cintura da bola, sam sacudidos e agitados como si estivessem sobre algum ponto culminante ou alça, que constantemente abaixa e ficam d’este modo impedidos de avançar.

A tudo isto acrecento o que já apontei em outro lugar, a saber, que a intermperança do ar, e as calmarias, que frequentes reinam no equador, prejudicam-nos assás, e forçam-nos a permanecer por muito tempo nas suas proximidades e perto d’eles sem o podermos atingir.

§ 15. Eis sumariamente e de passagem o meo parecer sobre esta importante materia, que aliás julgo tam questionavel, que só a póde bem compreender quem creou esta grande machina redonda composta de agua e terra, e miracalozamente a sustem suspensa nos ares; por isso estou certo que nenhum omem, por mais sabio que seja, poderá discorrer em contrario sem estar sugeito á correção.

Na verdade poderiamos com aparente razão contraditar a maior parte dos argumentos, que formalizam nas escolas, e não sam aliás inuteis para aguçar as inteligencias; devendo-se todavia considerar tudo isso como couza secundaria e não como razão suprema, como pretendem os atêos.

Em concluzão nada absolutamente creio a este respeito sinão o que dizem as santas Escrituras; pois como elas procedem do espirito d’aqueles de quem toda a verdade depende, tenho por única indubitavel a autoridade d’elas.

§ 16. Proseguimos em nosso caminho e tendo-nos pouco a pouco e com dificuldade aproximado do equador, o nosso piloto alguns dias depois tomou altura no astrolabio, e assegurou, que estavamos exatamente n’essa zona e cintura do mundo no dia equinocial, em que o sol ahi entrava, a saber a 11 de Março;[97] o que dice nos ele por obzequio e como couza poucas vezes acontecia a outros navios.

Daqui já se vê, que n’este lugar tinhamos o sol no zenit e em linha vertical sobre a cabeça; e deixo cada qual julgar quam extremo e intenso calor sofriamos então.

Em outras estações o sol, correndo alternadamente de um e outro lado para os tropicos, desvia-se e afasta-se d’essa linha; portanto impossível é axar-se e parte alguma do mundo, quer no mar, quer em terra, onde faça mais calor do que no equador; e fico, para assim dizer, mais que maravilhado do que dice alguem, que reputo digno de fé, e escreveo acerca de certos Espanhoes. Refere esse escritor, que, passando taes individuos em certa região do Peru, ficaram surpreendidos de ver nevar sob a linha equinocial, e com grande fadiga e trabalho atravessaram montanhas situadas debaixo d’essa linha cobertas de neve, experimentando ahi frio tam violento que muitos d’eles ficaram enregalados.

§ 17. Não vejo fundamento na comun dos filozofos, a saber, que a neve forma-se na região media do ar, si atendermos, que o sol, dando perpetuamente aprumo n’esta linha equinocial e sendo portanto o ar sempre calido, não póde naturalmente sofrer, e menos congelar a neve; e nem a respeito de similhante clima se me póde objetar a latura das montanhas e a frialdade da lua, salvo a correção dos doutos.

Portanto concluo de minha parte, que este cazo é extraordinário e constitue excéção na regra de filozofia; assim creio, que não temos solução mais certa para esta questão sinão a que o propro Deos aprezentou a Job, quando, para mostrar que os omens, por mais subtis que sejam, não xegariam a compreender todas as usa magnificentissimas obras, e menos a perfeição d’elas, dice entre outras couzas: - Entraste nos tezouros da neve? Viste tambem kos tezouros do granizo?

Como si o Eterno, esse grande e excelentissimo obreiro, dicesse ao seo servo Job – Em que celeiro tenho eu essas couzas, conforme o teo entendimento? Darias a razão d’isso? Não, de certo; não te é possivel, pois não és bastante sabio.

§ 18. Voltando agora ao meo assunto, direi, que depois que o vento sudoéste impelio-nos e tirou-nos d’esses grandes calores, no meio dos quaes eramos assados como no purgatorio, avançavamos e começamos novamente a ver o nosso pólo artico, cuja elevação tinahmos perdido, avia mais de um anno.

Para evitar porém prolixidade, envio os leitores aos discursos já feitos anteriormente, quando tratei das couzas notaveis, que vimos na ida, e não reitero aqui o que já referi, quer sobre os peixes voadores, quer sobre outros peixes monstruozos e sarapintados de diversas especies, que se encontram na zona torrida.

Assim para prosseguir na narração dos estremos perigos, de que Deos nos livrou no mar durante a viagem de regresso, direi, que foi um d’eles a contenda entre o nosso contra-mestre e o nosso piloto, sucitada porque nem um nem outro, por mutuo despeito, desempenham os deveres de seo cargo.

A 26 de Março o dito piloto fazia o seo quarto, isto é, vigiando por trez óras, conservava levantadas e abertas todas as vélas, sem acautelar-se contra un grain, isto é, um furacão que se preparava, e deixou cair sobre as vélas (que deveriam ter com antecedenica mandado ferrar) com tal impeto que derriou o navio sobre o costado a ponto de margulhar os cestos de gavea e a ponta dos mastros, e atirou ao mar os cabos, copoeiras das aves e todos os mais objétos, que não estavam bem amarrados, os quaes perderam-se, e pouco faltou para virarmos de crena.

Todavia depois de cortadas a toda pressa as enxarcias e escotas da vela grande o navio aprumou-se pouco a pouco; mas, como quer que seja, o tivemos por perdido, e bem podemos dizer, que só por milagre o vimos salvo.

Entretanto nem por isso os dois cauzadores do mal quizeram conciliar-se, não obstante os rogos de todos; pois ao contrario, apenas passou o perigo, a sua ação de graças fi engalfinharem-se e baterem-se com tal furia, que julgamos, que se matassem na luta.

§ 19. Ainda tivemos novo perigo. Alguns dias depois correo o mar calmo; e o capinteiro e outor marinheiros, durante essa tranquilidade, pensameram em aliviar-nos e livrar-nos do trabalho, em que lidavamos de dia e de noite, tocando a bomba; por isso procuraram no porão do navio perto da quilha, despegou-se uma peça de madeira de quazi um pé em quadro, por onde a agua entrou em tanta quantidade e com tal rapidez, que obrigou os marinheiros a deixar o lugar, abandonando o carpinteiro, s subindo para o convez, onde estavamos, e sem poderem referir o fato, gritavam: - Estamos perdidos, estamos perdidos!

Pelo que vendo o capitão, mestre e piloto evidente perigo, trataram de dezamarrar e pôr ao mar com atoda a pressa a barca, e mandaram alijar os toldos do navio, que nos abrigavam, e grande quantidade de páo-brazil e outras mercadorias no valor de 1.000 francos, deliberados a deixar o navio e salvar-se na barca. O piloto, temendo que o grande numero de pessoas, que arrojavam-se na barca, fizesse carga excessiva, saltou n’ela com um grande cutelo na mão, e dice que cortaria os braços do primeiro que pretendesse entrar.

Assim vendo-nos dezemparados á mercê das ondas, conforme nos parecia, lembramos-nos do primeiro naufragio, de que Deos nos livrára; e rezolvidos a morrer e a viver, empregamos todas as forças em esgotar a agua afim de sustentar e impedir o navio de afundar-se: tanto trabalhamos que a agua não nos superou.

§ 20. Nem todos foram corajozos, pois a maior parte dos marinheiros, só entretidos em beber áfarta, e todos dezatinados, temiam por tal modo a morte, que não se importavam com couza alguma.

Estou certo, que si os rabelistas[98], escarnecedores e desprezados de deos, que em terra e sentados á meza tagarelam e motejam ordinariamnete dos naufragios e perigos, em que muitas vezes axam-se no mar os viajantes, aqui estivessem, os seos gracejos se transmudariam em pavorozo assombro; por isso não duvido, que muitos d’aqueles que lerem isto e os demais perigos de que já fiz e ainda farei menção, e pelos quaes passamos n’esta viagem, dirão conforme o proverbio: - Ah! quanto é bom plantar couves, e quanto melhor é ouvir discorrer sobre o mar e os selvagens do que ir vel-os!

Oh! quam sabio era Diogenes em apreciar aqueles que, tendo deliberado navegar, todavia não navegavam!

Entretanto ainda não estava tudo acabado; e porque, quando isto nos acontece, estavamos a mais de 1.000 legoas do porto, que buscavamos, ainda tivemos de sofrer muitos outros males e passamos or grande fome, a que muitos sucumbiram, como adiante vereis; todavia eis aqui como nos livramos do prezente perigo.

O nosso carpinteiro, mancebo animozo, não abandonara o porão do navio, como os marinheiros, antes eplo contrario meteo o seo capote de marujo no grande buraco que se abrira, e conservou-se com ambos os pés em cima d’ele para rezistir ao impulso d’agua, a qual, como depois dice, muitas vezes arredou com a sua impetuozidade. N’esta pozição gritou quanto pôde para os que, amedrontados, estavam no convez, pedindo que lhe levassem roupas, redes de algodão, e outras couzas proprias para impedir a entrada d’agua, quanto dôsse possivel, emquanto ele concertava a peça, que se tinha levantado; e sendo assim socorrido, fômos salvos por esforço seo.

§ 21. Depois d’isto tivemos ventos tam insconstantes, que o nosso navio era impelido e corria ora para léste, ora para oéste (que não era o nosso caminho, pois buscavamos o sul), e o nosso piloto, aliás pouco entendido no seo oficio, não soube mais dirigir o rumo, e assim navegamos incertos até sob o tropico de Cancer.

N’essa paragem, por espaço de quazi quinze dias, andamos por entre ervas, que fluctuavam no mar, tam espessas e em tamanha quantidade que, si as não tivessemos cortardo o maxado para abrir caminho ao navio, que com dificuldade as rompia, creio, que ali ficariamos detidos.

E porque essa relva tornava o mar algo turvo, ocorre-nos a idéa de estarmos em lagoas lamacentas, e conjeturamos, que deveriamos estar perto de ilhas; mas não obstante lançarmos a sonda com mais de 50 braças de corda, não axamos fundo nem margem, e ainda menos descobrimos terra alguma; a respeito do que, citarei o que o istoriador indiano escreveo sobre este objéto.

Ele diz: - Cristovão Colombo na primeira viagem que fez para o descobrimento das Indias, que foi no anno de 1492, refrescou em uma das ilhas das Canarias, e depois de ter singrado por muito dias encontrou tanta relva que parecia verdadeiro prado; o que incutio-lhe medo, embora nenhum perigo ouvésse.

Ora, para descrever estas ervas marinhas, de que fiz menção, cumpre dizer, que elas ligam-se entre si por longos filamentos como hedera terrestris, fluctuando no mar sem raizes, tendo as folhas mui similhantes ás da arruda dos jardins, baga redonda e não maior do que a do zimbro; sam de côr alvacenta ou esbranquiçada como feno seco; no demais, tanto quanto observamos, não offerecem perigo ao tacto, como sucede com certas imundices vermelhas, que varias vezes vi no mar, com o feitio de crista de galo, as quaes eram tam venenozas e pestilenciaes, que apens as tocavamos, a mão ficava rubra e inxada.

§ 22. Tendo agora falado da sonda, da qual muitas vezes ouvi refeir contos, que parecem extrahidos do livro das rócas[99], a saber, que os navegantes a deitam ao fundo do amr e trazem na extremidade d’ela terra, por meio da qual conhecem a região, onde se axam, cabe-me declarar, que isto é falso em relação ao mar do ocidente, e vou dizer o que vi, e para o que serve a sonda.

A sonda é um aparelho de xumbo do feitio do páo meião do jogo da malha, com que os rapazes ordinariamente folgam nas praças e nos jardins. Furado na extremidade despontada, os marinheiros passam e amarram a corda necessaria, e põem sebo ou outra qualquer gordura na extremidade inferior.

Quando se aproximam do porto ou julgam estar em sitio, onde possam ancorar, a soltam e deixam corrar para baixo; e quando a suspendem, si vêem cascalho pegando e seguro n’essa gordura, sinal é de aver bom fundo; mas si pelo contrario nada traz, concluem ser lama ou pedra, onde a ancora não póde agarrar e prender, vam sondar aidante.

Foi o que eu quis dizer de passagem para reparar o sobredito erro; pois além de testimunharem todods aqueles que têem estado no grande mar Oceano ser absolutamente impossivel axar-lhe fundo, ainda quando, para assim dizer, dispuzessemos de toda a cordoalha do mundo, é certo, que, quando venta, somos forçados a andar a rmo como as galés; donde se vê, digo que, sendo insondaveis esse pégos e abismos, é pêta dizer-se, que a sonda traz terra para conhecermos em que situação nos axamos.

Por tanto si isto acontece em outros mares, como no Mediterraneo, ou em terra, tranzitando nos dezertos da Africa, onde tambem o viajante dirige-se pelas estrelas e pela bussola, conforme vemos escrito, não o contexto; mas em relação ao mar do ocidente, sustento ser verdade o que acabo de dizer.

§ 23 Sahimos d’esse mar relvozo; e como temiamos ser ali encontrados por piratas, não só assestamos quatro ou cinco peças de artilharia de ferro, que estavam no nosso navio, mas tambem para defender-nos em cazo de necessidade preparamos alvanzias e outra munições belicas que tinhamos.

Todavia por cauza d’isto eis que novo perigo sobreveio: pois quando o nosso artilheiro secava a polvora em uma panela de ferro, deixou-a por tanto tempo no fogo que ela encandeceo, a polvora inflamou-se, e a flama correo de uma a outra estremidade do navio por tal fórma, que estragou velas e maçame, e por pouco não pegou fogo na gordura e breo, de que o navio estava untaado e alcatroado, com risco de sermos todos queimados no meio das aguas.

Com efeito um grumete e mais dois marjos ficaram tam maltratados das queimaduras, que um d’eles morreo pouco dias depois.

Por minha parte, si eu não tivesse tam rapidamente levado ao rosto e o meo boné de bordo, teria ficado com a face ofendida ou queimada; mas tendo-me assim abrigado livrei-me de ter a ponta das orelhas e os cabelos xamuscados; e isto aconteceo-nos talvez aos 15 de Abril.

§ 24. Tomemos folego aqui, e eis-nos até agora, por graça de Deos, não só escapos dos naufragios e das ondas, em que por muitas vezes julguei ficarmos submergidos, como estaes informados, mas tambem livres do fogo que quazi.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

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