Universo da obra
Universo da obra
§ 1. Depois que os nossos navios entraram no porto d’este rio de Guanabara, mui perto da terra firme cada qual arranjou e troxe a sua pequena bagagem para os escaleres e fomos todos dezembarcar na ilha e fortim de Coligni.
E porque não viamos então livres dos riscos e perigos, de que tantas vezes estiveramos cercados no mar, e tambem por termos sido conduzidos tam felizmente ao porto dezejado, a primeira couza que fizemos, depois de por pé em terra, foi todos juntos dar graças a Deos.
Feito isto, fomos ter com Nicoláo de Villegagnon, que esperava-nos em lugar conveniente, saudamos todos uns aos outros; e ele com semblante rizonho, como parecia, recebeo-nos, abraçando e fazendo mui bom acolhimento.
§ 2. Depois d’isto o senhor Dupont, nosso condutor, com Pedro Richier e Guilherme Chartier, ministros do Evangelho, declararam. logo a cauza principal, que nos movera a fazer esta viagem, e passar o mar com tantas dificuldades para ir ter com ele, a saber, conforme as cartas por ele escritas para Genebra, que era para erigir n’esse paiz uma igreja reformada, concordante com a palavra de Deos; e ele respondendo ao esposto, uzou d’estas formaes palavras:
“Quanto a mim, tenho na verdade desde muito tempo, e de todo o meo coração dezejado tal couza, e recebo-vos de mui bôa vontade com estas condições; até porque dezejo, que a nossa igreja tenha fama de ser a mais bem reformada de todas. Desde já quero, que os vicios sejam reprimidos, que o luxo do vestuario seja reformado, e em suma que do meio de nós remova-se tudo quanto nos possa impedir de servir a Deos.”
Depois, levantando os olhos ao céo e juntando as mãos, dice: - Senhor Deos, rendo-te graças de me teres enviado o que desde tanto tempo tenho ardentemente pedido.
E de novo aos nossos companheiros dice: - Meos, filhos (pois quero ser vosso pai), assim como Jezus Cristo n’este mundo nada fez para si, e tudo fez por nós, assim tambem eu (esperando que Deos me conserve a vida até que nos fortifiquemos n’este paiz e possaes despensar-me) tudo quanto pretendo fazer aqui é para todos aqueles que vêem ao mesmo fim que vós viestes. Delibero constituir aqui um refugio para os pobres fieis, que fôrem perseguidos em França, na Espanha, e em outra qualquer parte de além-mar, afim de que, sem temor do rei, nem do imperador ou de outros potentados, possam servir a Deos com pureza, conforme a sua vontade.
Eis as primeiras propozições, que Nicoláo de Villegagnon dirigio-nos por ocazião da nossa xegada, que foi n’uma quarta feira decimo dia de Março de 1.557.
§ 3. Depois d’isto mandou logo retinir toda a sua gente (comnosco em uma pequena sala, que avia no meio da ilha, e depois que o ministro Pedro Richier invocou a Deos e cantou-se em côro o salmo quinto nas palavras: - Quero dizer etc., o dito ministro, tomando por tema estas palavras do salmo vegesimo setimo: - Pedi ao senhor uma couza que ainda reclamarei, e é que eu abite na caza do Senhor todos os dias de minha vida fez a primeira predica no fortim de Coligni na America.
Durante ela Nicoláo de Villegagnon, pretendendo espor a materia, não cessou de juntar as mãos, levantar os olhos para o céo, dar altos suspiros, e fazer varios outros gestos, com que cauzava admiração a todos nós.
Por fim acabadas as preces solenes, conforme o ritual costumado das igrejas reformadas em França, e determinado para elas um dia em cada semana, dissolveo-se a reunião.
§ 4. Nós, os recem-xegados, ficamos e jantamos n’esse dia na mesma sala, ondé por vianda tivemos farinha, feita de raizes, peixe moqueado, isto é, assado á maneira dos selvagens, e outras raizes cozidas no borralho (das quaes couzas e dos seos prestimos, para não interromper agora a minha espozição, falarei em outro logar), e por bebida, porque não existe n’esta ilha fonte, poço, nem rio, agua de uma cisterna ou antes de um esgoto de toda a xuva,que cahia na ilha, a qual era tam esverdinhada, porca e suja, como é um xarco antigo coberto de rans.
Verdade é, que esta agua tam fetida e corrompida ainda axavamos bóa em comparação da que bebiamos no navio, e como atraz fca dito.
Finalmente o nosso ultimo manjar, para refazer-nos dos trabalhos do mar, foi conduzirem-nos dali para carregar pedras e terra para esse fortim de Coligni, cuja construção proseguia.
Foi este o bom tratamento, que nos deo Nicoláo de Villegagnon desde o primeiro e grato dia da nossa xegada.
Além d’isso, à noite, quando tratou-se de arranjar apozento, o senhor Dupont e os dois ministros foram acomodados em uma tal qual no meio da illia, e afim de obzequiar a nós outros da religião, deram-nos um cazebre, que um selvagem escravo de Nicoláo de Villegagnon acabava de cobrir de ervas e construir o seo modo á borda do mar, e ahi, na fórma do costume dos Americanos, penduramos lençóes e leitos de algodão para nos deitarmos suspensos no ar.
§ 5. Assim logo no dia seguinte e nos posteriores, Nicoláo Villegagnon, sem necessidade forçoza, sem nenhuma atenção a esta mos mui debilitados pelo tranzito do mar, sem consideração ao calor que ordineriamente faz n’esse paiz, e sem atender á parca alimentação, que tinhamos, que era para cada um por dia duas taças de farinhadura, feita de raizes, de que acima falei, de parte da qual com essa agua turva da dita cisterna faziamos papa, como a gente do paiz, e o resto comiamos seco, obrigou-nos a carregar terra e pedras para o seo fortim e isto com tal deligencia que forçava-nos, apezar dos nossos incomodos e da nossa debilidade a rezistir ao labor desde a madrugada até a noite; e bem parecia, que ele tratava-nos um pouco mais rudemente que o dever de bom pai (como dicera na nossa xegada querer tratar-nos) exigiria para com os seos filhos.
Todavia, tanto pelo dezejo, que tinhamos, de que se concluisse tal edificio e refugio, que ele dizia querer fabricar para os fieis n’esse paiz, como porque o nosso mestre Pedro Richier, nosso mais antigo ministro, afim de mais encorajar-nos, dizia, que tinhamos axado novo em S. Paulo em Nicoláo Villegagnon (como de fato nunca ouvi alguem falar melhor da religião e reforma cristan como ele então fazia), não ouve nenhum de nós, que alegremente se não empregasse, para assim dizer, além de suas forças, por espaço de quazi um mez, na execução de um mister, a que aliás estavamos acostumados.
E posso afirmar, que Nicoláo de Villegagnon injustamente queixa-se; porque, emquanto professou o Evangelho n’esse paiz, tirou de nós todo o serviço, que exigio.
§ 6. Ora, para voltar ao assunto principal, devo dizer, que desde a primeira semana, em que xegamos. Nicoláo de Villegagnon não só constituio, mas tambem ele proprio estabeleceo esta ordem, a saber, que além das preces publicas que fazia todas as noites, depois de findo o trabalho, os ministros pregariam duas vezes no domingo e nos dias de trabalho durante uma ora; declarando tambem expressamente, que ele queria e dezejava, que sem contemplações umanas fossem fossem os sacramentos administrados conforme a palavra pura de Deos, e que no de mais fosse a diciplina ecleziastica aplicada contra os pecadores.
Conforme esta policia ecleziastica, no domingo 21 de Março, em que pela primeira vez celebramos a santa ceia do nosso senhor Jezus Cristo no fortim de Coligni, na America, os ministros, com a devida antecedencia, prepararam e catechizaram todos aqueles que deviam comungar, porque não tinham bôa opinião de um tal João Cointa, que ora apelidava-se senhor Eitor, ora doutor da Sorbona, o qual tinha passado o mar comnosco: foi rogado, que, antes de aprezentar-se á comunhão, fizesse confissão publica da sua fé; o que ele fez, e por este modo perante todos abjurou o papismo.
§ 7. Igualmente quando terminou o sermão, Nicoláo de Villegagnon, aparentando zêlo, levantou-se, e alegando que os capitães, mestres de navio, marujos e outras pessoas ahi prezentes ainda não tinham professado a religião reformada, nem eram capazes de tal misterio, os fez sahir, e não quiz, que vissem administrar o pão e o vinho.
Alé, d’isso ele proprio, conforme dizia, para dedicar o seo fortim a Deos e para fazer confissão de sua fé em face da igreja, ajoelhou-se em um coxim de veludo (que p pajem ordinarimente trazia atraz d’ele), e pronunciou em voz alta duas orações, das quaes obtive cópia; e afim de que cada um melhor compreenda quanto era ingrato conhecer o coração e o interior d’esse omem, aqui as ensiro palavra por palavra sem mudar uma só letra.
§ 8. “Meo Deos, abre os olhos e a boca do meo entendimento, prepara-os para te dirigir confissão, preces e ações de graças pelos excelentes bens, que nos tem feito! Deos onipotente, vivo e imortal, pai eterno de teo filho Jezus-Cristo, nosso senhor, que por tua providencia com teo filho governas todas as couzas no céo e na terra, assim como por tua bondade infinita fizeste ouvir os teos escolhidos desde a creação do mundo, especialmente por teo filho, que enviaste á terra, pelo qual te manifestas, tendo dito em voz alta: Ouvi-o e depois de tua acenção por teo espirito-santo difundido sobre os apostolos: reconheço de coração ante a tua magestade e perante a tua igreja, plantada por graça tua n’este paiz, que nunca axei, pela prova que fiz e pelo ensaio de minhas forças e prudencia, sinão que o exito, que podemos ter é tudo obra pura das trevas, sapiencia da carne, poluta no zêlo da vaidade, tendente apenas ao fim e utilidade do meo corpo.
Portanto protesto e confesso francamente, que sem a luz do teo espirito santo não sou idoneo sinão para pecar; e despojando-me de toda a gloria, quero, que se saiba de mim,que, si existe luz ou sentelha de virtude na obra pia, que por meo intermedio fizeste, a atribuo a ti só, fonte de todo o bem.
N’esta fé pois, meo Deos, te rendo graças de todo meo coração, por te averes didnado xamar-me dos negocios mundanos, entre os quaes vivia por apetite de ambição, aprazendo-te, por inspiração do teo espirito santo colocar-me no lugar, onde com toda a liberdade eu possa possa servir-te com todas as minhas forças para aumento de teo santo reino.
E assim faço para preparar lugar e morada pacifica para aqueles que estam privados de invocar publicamente o teo nome para santificar-te e adorar o teo nome em espirito e verdade, reconhecer teo filho nosso senhor Jezus Cristo, e ser o unico mediador, nossa vida e consolo, e o unico merito da nossa salvação.
Além d’isso eu te agradeço, oh! Deos de suprema bondade, porque, conduzindo-me a este paiz de ignorantes de teo nome e da tua grandeza, mas possuidos de Satan, como erança sua, tu me prezervaste da sua malicia, embora fôsse eu destituido de forças umanas; mas tu lhes incutiste terror de nós por fórma tal que com a simples menção nossa tremem de medo, e os despersaste para alimentar-nos com o seo trabalho.
E para refrear a sua brutal impetuozidade, os afliges com trez crueis molestias, preservando-nos d’elas; tiraste da terra os que nos eram mais perigozos, e, reduziste os outros a tal fraqueza, que nada ouzam enpreender contra nós.
Por cujo motivo tendo eu ocazião de lançar raizes n’este lugar e assim tambem a companhia, que te aprouve trazer aqui sem perturbação, estabeleceste o regimen de uma igreja para manter-nos em unidade e temor de teo santo nome, afim de guiar-nos para a vida eterna.
Ora, Senhor, pois que te aprouve estabelecer em nós o teo reino, peço-te por teo filho Jezus Cristo, de quem quizeste fazer ostia para confirmar-nos em tua predileção, que aumenteis as tuas graças e a nossa fé, fortificando-nos e iluminando-nos com teo santo espirito, para dedicar-nos ao teo serviço por tal fórma que todo o nosso es,ero empregue-se em tua gloria; queiras tambem, senhor e pai nosso, estender a tua benção sobre este sitio de Colignii e paiz da França antartica para que seja inespugnavel refugio daqueles que com bôa consiencia e sem ipocrizia ahi se abrigarem para dedicar-se comnosco á exaltação da tua gloria, e possamos, invocar-te no seio da verdade, sem a pertubação dos eréges.
Permití tambem, que o teo Evangelho reine n’este lugar, fortificando os teos servos para que não caiam no erro dos epicuristas e outros apóstatas; mas sejam constantes em perseverar na verdadeira adoração da divindade, conforme a tua santa palavra.
Praza a ti tambem, oh! Deos de suma bondade, proteger o rei, nosso soberano e senhor, segundo a carne, sua mulher, sua progenie e seo conselho, o senhor Gaspar de Coligni, sua mulher, e sua progenie, conservando-os na vontade de manter e favorecer esta tua igreja; e queiras a mim, teo umilissimo escravo, dar prudência para dirigir-me, de sorte que me não desvie do verdadeiro caminho possa rezistir a todos os obstaculos, que Satan me possa por na auzencia do teo auxilio; que te reconheçamos perpetuamente por nosso Deos mizericordiozo, justo, juiz, e conservador de todas as couzas com teo filho Jezus-Cristo, reinante comtigo, e teo Espirito-Santo, baixado sobre os apostolos.
Cria pois em nós um coração réto, mortifica-nos com o pecado, regenera-nos como omem interior para vivermos com justiça, sugeitando nossa carne para tornal-a idonea para as ações da alma inspirada por ti, e fazermos a tua vontade na terra, como no céo fazem os anjos.
Mas para que a urgencia de satisfazer as nossas necessidades nos não faça cair em pecado por desconfiança da tua bondade, queiras prover a nossa vida e conservar a nossa saude.
E assim comno a carne terrestre com o calor do estomago converte-se em sangue e nutrimento do corpo, assim tambem queiras nutrir e sustentar nossas almas com a carne de teo filho até consubstanciar-se ele em nós e nós n’ele; expelindo toda a malicia (pasto de Satan)e subrogando em lugar d’ela a caridade e fé, afim de sermos conhecidos de ti como teos filhos; e quando te ouvermos ofendido, permiti senhor de mizericordia, lavar os nossos pecados no sangue de teu filho, lembrando-te que somos concebidos na iniquidade, e que naturalmente pela dezobediencia de Adão em nós reside o pecado.
Além d’isso conhece, que a nossa alma não póde executar o santo dezejo de obedecer-te pelo orgão do corpo imperfeito e rebelde.
Igualmente pelos merecimentos de teo filho Jezus Cristo não nos imputes as nossas falhas, antes nos imputes as nossas faltas, antes nos imputes o sacrificio da tua morte e paixão; que pela fé temos sofrido com ele, tendo penetrado n’ele pelo recebimento do seo corpo no ministerio da eucaristia.
Da mesma forma concede-nos graça para que perdoemos aos que nos ofenderam, e em vez de vindança procuremos o seo bem, como si fossem nossos amigos, seguindo assim o exemplo de teo filho, que pedio por aqueles que o perseguiram.
E quando formos instigados pela lembrança dos bem, esplendores; pompas e onras d’este mundo, estando, aliás abatidos pela pobreza e pelo pezo da cruz de teo filho, seja a tua vontade exercer-nos para tornar-nos obedientes, e para que, engolfados na felicidade mundana, não nos rebelemos contra ti, sustenta-nos e adoça a agrura das aflições, afim de que estas não sufoquem a semente, que lançaste em nossos corações.
Nós te regamos tambem, pai celestial, que nos guardes das tentações, com que Satanás tenta desviar-nos; preserva-nos de seus ministros e dos selvagens insensatos, no meio dos quaes te aprouve trazer-nos e conservar; livra-nos dos apostatas da religião cristan espalhados no meio d’eles; e sejas servido xamal-os á tua obediencia, afim de que se convertam, o teu Evangelho se publique por toda a terra, e em todas as nações se anuncie a tua bemaventurança.
Que vivas e reines com o teu Filho e o Espirito-Santo por todos ao seculos dos seculos. Amen.”
§ 9. “Jezus-Cristo filho de Deos vivo, eterno e consubstancial, esplendor da gloria de Deos, sua imagem viva, por quem foram feitas todas as couzas, tu viste o genero umano condenado pelo infalivel juizo de Deos, teo pai, em consequencia da culpa de Adam o qual poderia gozar da vida do reino eterno, tendo sido creado por Deos de terra não poluida por semente, viril, donde se póde tirar necessidade de pecado, dotado de toda virtude, com liberdade de amplo arbitrio de conservar-se na sua perfeição, todavia incitado pela sensualidade da carne, solicitado e movido pelos inflamados dardos de Satan, deixou-se vencer, e assim incorreo na ira de Deos, do que seguia-se a infalivel perdição dos omens sem ti, senhor nosso: tu, movido por tua imensa e indivisivel caridade, te aprezentarste a Deos, teo pai, umilhando-te a ponto de substituires a Adam para sofrer todas as ondas do mar da indignação de Deos, teo pai, para a nossa purificação.
E assim como Adam fôra feito de barro não corrompido, sem semente viril, foste concebido do Espirito-Santo em uma virgem para ser feito e formado em verdadeira carne, como a de Adam, sujeita á tentação, e constantemente exercitada mais que a de todos os omens, sem pecado; e finalmente querendo admitir por ti em teo corpo o de Adam e toda a sua posterioridade, alimentando as suas almas com a tua carne e o teo sangue, te quizeste sofrer morte, afim de que, como membro de teo corpo, eles se alimentassem em ti, e agradassem a Deos, teo pai, oferecendo tua morte em satisfação das suas ofensas, como si fossem seos proprios corpos.
E assim como o pecado de Adam se inoculára na sua posteridade, e pelo pecado a morte, tu quizeste e impetraste de Deos, teo pai, que tua justiça fôsse imputada aos crentes, os quaes, pela manducação da tua carne e do teo sangue, tu fizeste uns comtigo, e transformaste em ti como alimentados por tua carne e subztancia, seo verdadeiro pão, para viverem eternamente como filhos da justiça e não da ira.
Ora, pois que aprouve-te fazer-nos tantos bens, e sentado á mão direita de Deos, teo pai, és ahi eternamente constituido nosso intercessor e soberano sacerdote, conforme a ordem de Melchizedec, tem piedade de nós, conserva-nos, fortifica e aumenta a nossa fé, oferece a Deos, teo pai, a confissão que faço de coração e boca, em prezença da tua igreja, santificando-me por teo espirito, como prometeste, dizendo: - Não vos deixarei orfão.
Aumenta a tua igreja n’este lugar, de modo que em plena paz aqui sejas adorado com pureza.
Que vivas e reines com ele e com o Espirito-Santo por todos os seculos eternamente. Amen.”
§ 10. Findas estas duas preces, Nicoláo de Villegagnon aprezentou-se logo na meza do Senhor, e recebeo de joelhos o pão e o vinho da mão do ministro.
Entretanto verificamos logo o justo conceito de um antigo escritor, quando dizia, que é dificil simular a virtude por muito tempo; e assim percebiamos, que avia apenas ostentação no seo procedimento. Embora ele e João Cointa tivessem abjurado publicamente o papismo, tinham todavia mais dezejos de discutir e contender do que de aprender e aproveitar; por isso não tardaram muito em mover disputas relativas á doutrina.
E principalmente sobre o ponto da ceia: ambos regeitavam a transubstanciação da igreja romana, como opinião que eles diziam abertamente ser grosseira e absurda, e tambem não aprovavam a consubstanciação; por isso consentiam, que os ministros ensinassem e provassem com a palavra de Deos, que o pão e o vinho não se convertiam realmente em corpo e sangue do Senhor, o qual por isso não se encerrava n’essas duas especies materiaes assim como Jezus-Cristo está no céo, donde aliás, por virtude do seo Espirito-Santo, comunica-se em alimento espiritual aos que recebem os sinaes da fé.
Ora, como quer que seja, Nicoláo de Villegagnon e João Cointa diziam estas palavras: - Este é o meo corpo, este é o meo sangue – e elas não podem significar sinão que ali se contém o corpo e o sangue de Jezus-Cristo.
§ 11. Si perguntardes porem: como pois as entendiam eles, visto dizeres, que rejeitavam as duas sobreditas opiniões da transubstanciação?
Como nada sei a esse respeito, por isso creio firmeque, eles nada entendiam; pois quando se lhes mostrava por outras passagens, que essas palavras e locuçõessam figuradas, isto é, que a Escritura costuma xamar e apelidar os sinaes do sacramento com o nome da couza significada, embora eles não podessem refutar com argumentos procedentes para provar o contrario, nem por isso deixavam de continuar obstinados; de tal sorte que sem saber como isto se fazia, queriam comtudo não só naturalmente, mas tambem espiritualmente comer a carne de Jezus Cristo; e o que era pior, á maneira dos selvagens xamados Goitacazes, de que atraz falei, os quaes mastigam e engolem a carne crua.
§ 12. Todavia Nicoláo de Villegagnon, aprezentando sempre rosto alegre e protestando não dezejar sinão ser bem instruido, mandou para a França o ministro Guilherme Chartier em um dos navios ( o qual, depois de carregado de páo-brazil e de outras mercadorias do paiz, partio a 4 de Junho com destinode voltar), afim de que sobre a contenda da ceia troxesse as opiniões dos nossos doutores e principalmente a do mestre João Calvino, a cujo parecer dizia ele querer submeter-se.
E com efeito por muitas vezes o ouvi dizer e repetir estas palavras: - O senhor João Calvino é um dos mais doutos personagens, que tem aparecido depois dos apostolos, e não li doutor, que, no meo entender, tenha melhor e mais puramente esposto e tratado a Escritura Santa do que ele o tem feito.
§ l3. Por isso para mostrar, que ele o acatava, na resposta dada ás cartas, que lhe trouxemos, não só lhe participou mui longamente qual o seo estado em geral, porém mui particularmente (como dice no prefacio e ainda se vê no fim do original da sua carta com data do ultimo de Março de 1557, que temos bem guardada) escreveo com tinta de páo-brazil e do seo proprio punho o seguinte:
“Acrecentarei o conselho, que me destes em vossas cartas, esforçando-me com toda vontade por não desviar-me d’ele em couza alguma. Pois de fato estou bem persuadido, que não póde aver outro mais santo, réto e perfeito. Por tanto mandamos lêr as vossas cartas em reunião do nosso conselho, e depois registal-as, afim de que, si nos desviarmos do bom caminho, sejamos pela leitura d’elas advertidos e apartados do estravio.”
Tambem um tal Nicoláo Carmeau, que foi portador d’essas cartas e que partira no primeiro dia de Abril no navio Rozee, ao despedir-se de nós, dice-me, que Nicoláo de Villegagnon lhe determinara, que vocalmente dicesse ao senhor João Calvino, que ele lhe rogava, que acreditasse, que, para perpetuar a memoria do conselho, que lhe dera, ia mandar graval-o em cobre; como tambem encarregara o dito Nicoláo Carmeau de lhe trazer de Françá algumas pessoas, omens, mulheres e meninos, prometendo satisfazer e pagar todas as despezas, que os sectarios da religião fizessem com o arranjo d’essa gente.
§ 14. Antes porém de passar adiante, não quero omitir aqui a menção de 10 rapazes selvagens de idade de 9 a 10 annos, e de menos, tomados na guerra pelos selvagens amigos dos Francezes, e vendidos como escravos a Nicoláo de Villegagnon, os quaes depois que o ministro Pedro Richier, no fim de uma predica, impôz as mão sobre eles, e todos rogamos a Deos lhes fizesse a graça de serem os primeiros d’esse pobre povo xamados ao conhecimento da sua salvação, foram embarcados nos navios, que, como dice partiram a 4 de Junho para irem para a França, onde os ditos rapazes xegaram e foram aprezentados ao rei Enrique Segundo, então reinante, sendo depois dados de mimo a varios magnatas, e entre outros deo um d’eles ao falecido senhor de Passi, que o andou batizar, e eu depois do meo regresso o reconheci em caza d’este senhor.
Além d’isso aos 3 dias de Abril, dois mancebos, criados de Nicoláo de Villagagnon, despozaram na ocazião da predica, á maneira das igrejas reformadas, duas d’essas raparigas, que tinhamos trazido de França para este paiz.
§ 15. Do que aqui faço menção, não só porque foram as primeiras nupcias e cazamentos feitos e solenizados ao modo cristão na terra da America, mas tambem porque muitos selvagens, que nos tinham vindo vêr, ficaram mais admirados de vêr mulheres vestidas (pois antes nunca tinham visto) do que de vêr as ceremonias ecleziasticas, as quaes aliás lhes eram totalmente desconhecidas.
Igualmente aos 17 de Maio João Cointa despozou outra rapariga, parenta de um tal Laroquete de Rouen, a qual transpassára o mar comnosco; mas tendo este falecido algum tempo depois da nossa xegada ali, deixou esta sua parenta como erdeira de toda a fazenda, que trouxera e consistia em grande quantidade de facas, pentes, espelhos, frizas de côr, anzóes de pescaria, e outros insignificantes objétos proprios do trafico com os selvagens; o que conveio a João Cointa, que soube arranjar tudo.
As outras duas raparigas (pois, eram cinco, como vimos no nosso embarque) foram tambem logo depois cazadas com dois interpretes da Normandia (truchemens), de sorte que não ficaram mais entre nós mulheres nem raparigas cristans por cazar.
§ 16. E para não calar o que era louvavel nem o que era censuravel em Nicoláo de Villegagnon, direi de passagem, que, por cauza de certos Normandos, que muito tempo antes d’ele xegar a esse paiz tinham se salvado de um navio, que naufragára, e aviam ficado entre os selvagens, onde viviam sem temor a Deos, e se amaziavam com mulheres e raparigas (como vi alguns que tinham filhos já de 4 a 5 annos de idade), tanto para reprimir isso como para obviar, que d’aqueles que faziam, sua rezidencia em nossa ilha e em nosso fortim não abuzassem por essa fórma, Nicoláo de Villegagnon, ouvido o parecer do conselho, prohibio, sob pena de morte, que ninguem, que tivesse o titulo de cristão, abitasse com as mulheres dos selvagens.
É certo que, a ordenançadeterminava, que, si algumas fossem atrahidas e xamadas ao conhecimento de Deos, seria permitido despozal-as, depois de serem batizadas.
Mas assim sendo, não obstante as admoestações por nós muitas vezes feitas a esse povo barbaro, não apareceo um só individuo, que deixasse o antigo vezo, e quizesse confessar Jezus Cristo como seo salvador; por isso em todo o tempo, em que lá estive, não vi Francez algum, que tomasse mulher selvagem.
§ 17. Todavia como esta lei tinha claro fundamento na palavra de Deos, foi por isso tam exatamente observada, que nenhum dos sequazes de Nicoláo de Villegagnon, nem nenhum dos nossos companheiros a transgredio; e embora depois do meo regresso eu tenha ouvido dizer, que ele, quando estava na America, poluia-se com as mulheres selvagens, darei testemunho, de que ninguem em nosso tempo d’isto o suspeitava.
E o que mais é: ele tam severamente, recomendava a observancia da sua ordenança, que em certa ocazião, algumas pessoas da sua maior confidencia tiveram de interceder por um trugimão, que, indo á terra firme, fôra convencido de ter copulado com uma mulher, de que outr’ora abuzava, afim de que fosse punido com a calceta no pé e posto entre os escravos, quando Nicoláo de Villegagnon, o queria enforcar.
Pelo que sei pois em relação a sua pessoa como a outros individuos, ele era louvavel n’este ponto; e prouvera a Deos, que para o adiantamento da igreja, e para o fruto, que muita gente agora receberia, ele se tivesse portado tam acertadamente em todas as outras couzas.
§ 18. Guiado porém no mais, como era, por um espirito contraditorio, não pôde contentar-se com a simplicidade, que a Escriptura mostra aos verdadeiros cristãos deverem ter a respeito da administração dos sacramentos: xegou o dia de pentecostes seguinte, em que celebramos a ceia pela segunda vez, e ele (infringindo dirétamente o que tinha dito, quando estatuio a ordem da igreja, como acima vimos, a saber, que queria, que todas as invenções umanas fossem regeitadas) alegou, que S. Cipriano e S. Clemente tinham escrito, que, na celebração da ceia cumpria pôr agua e vinho, e não só pretenidia obstinadamente, que isso se fizesse, mas tambem afirmava e queria, que crêssemos, que o pão consagrado aproveitava ao corpo e á alma.
Além d’isso sustentava, que cumpria pôr sal e oleo na agua do batismo, e que um ministro não podia cazar-se em segundas nupcias, citando a passagem de S. Paulo a Timoteo, quando diz, que o bispo seja marido de uma só mulher.
Em suma não querendo mais depender de outro conselho além do seo, aliás sem fundamento na palavra de Deos para o que dizia, rezolveo absolutamente mover tudo ao seo caprixo.
§ 19. Mas afim de que conheçam todos como ele argumentava tenazmente, aprezentarei aqui apenas uma d’entre muitas sentenças da Escriptura, que ele alegava; pretendendo com elas provar as suas propozições.
Eis pois o que um dia ouvi ele dizer a um dos seos sequazes: - Não leste no Evangelho do leprozo, que este dice a Jezus Cristo. Senhor, si quizeres, podes limpar-me, e que apenas Jezus dice: Quero, fica limpo, o leprozo, ficou são?
Assim (afirmava este bom espozitor) quando Jezus Cristo dice: Este é o meo corpo - cumpre crêr sem interpretação alguma, que ele ali está, e deixemos essa gente de Genebra falar.
Não é pois isto interpretar bem uma passagem por outra? É certamente tam cabido como o conceito d’aquele que nos debates de um concilio alegou, que como está, escrito: Deos creou o omen á sua imagem - convem por isso ter imagens.
Portanto julguemos agora por este exemplo da teologia escolar de Nicoláo de Villegagnon, que tamanho rumor revanta sobre a sua pessoa, si, tendo siencia tam perfeita da Escritura, não era bastante (como jata-se depois da sua apostazia) tanto para fexar a boca de João Calvino, como para fazer frente nas disputas a todos quantos não quizessem aceitar a sua doutrina.
Poderia acrecentar muitas outras proposições tam ridiculas como a precedente, que o ouvi proferir relativamente a esta materia dos sacramentos. Mas como, quando ele voltou á França, não só Pedro Richier (Petras Richelius) o pintou com todas as suas côres, mas tambem outros depois o almofaçaram e escovaram completamente, temo enfadar os leitores, e agora nada mais direi.
§ 20. N’esse tempo João Cointa, querendo tambemmostrar a sua sapiencia, começou a dar lições publicas: mas tendo principiado pelo Evangelho de S. João (materia tal e tam sublime como o sabem os que professam teologia) descorria tam a propozito as mais das vezes como comumente se diz das magnificat para matinas; todavia era n’esse o paiz unico sustentaculo de Nicoláo de Villegagnon para impugnar a verdadeira doutrina do Evangelho.
E aqui dirá talvez alguem: - Como pois calava-se então o frade franciscano André Tevet, que na sua Cosmografia tanto se queixa de que os ministros enviados á America por João Calvino, invejozos de seos bens, e ambicionando-lhe o encargo, o impedissem de ganhar as almas desgarradas do pobre povo selvagem, conforme os seos proprios termos?
Era mais afeiçoado aos barbaros do que á defeza da igreja romana, de que faz-se fortissima coluna?
§ 21. A resposta a este embuste de André Tevet n’este lugar será, como já em outra ocazião o dice, que ele estava de regresso em França antes da nossa xegada a esse paiz; por isso peço de novo aos leitores para notarem aqui de passagem, que, si ainda não fiz nem farei menção alguma d’ele em todo o prezento discurso a respeito das disputas, que Nicoláo de Villegagnon e João Cointa tiveram comnosco no forte de Coligni na terra do Brazil, é porque ahi nunca ele vio os ministros, de que fala, nem estes tambem o viram.
Esse bom catolico André Tevet, como já provei no prefacio d’este livro, não esteve ahi no tempo em que la estivemos; por tanto existia um intervalo de 2.000 leguas de mar entre nós e ele para impedir, que os selvagens por nossa cauza caissem sobre ele e o matassem (como contra a verdade ouzou escrever), e não precizava alimentar o munlo com taes frioleiras para alegar outro exemplo do seo zelo além do que diz ter tido na conversão dos selvagens si os ministros o não tivessem impedido pois de novo digo, que isto é falso.
§ 22. Ora, volto ao meo assunto. Logo depois d’esta ceia de pentecostes, Nicoláo de Villegagnon declarou abertamente ter mudado da opinião outr’ora manifestada a respeito de João Calvino, e sem esperar por sua resposta mandada pedir em França por via do ministro Pedro Chartier, dice, que ele era um máo eretico transviado da fé; e com efeito mostrou-nos desde então má vontade, e dizendo que queria, que a predica não durasse mais de meia óra do fim de Maio em diante, mui poucas vezes a ela assistia.
Direi em concluzão, que a dissimulação de Nicoláo de Villegagnon se nos patenteou tam clara, que, conforme vulgarmente se diz, conhecemos logo com que lenha ele se aquecia.
Agora si nos perguntarem o que motivou tal revolução direi, que alguns dos nossos sustentavam, que o cardeal de Lorena e outros personagens lhe aviam escrito de França pelo mestre de um navio, que n’esse tempo veio a,Cabofrio, 30 legoas aquem da ilha, onde estavamos, censurando-o acremente em suas cartas por aver deixado a religião catolica romana, e que, receiozo da arguição, mudára subitamente de opinião.
§ 23. Todavia depois do meo regresso ouvi dizer, que Nicoláo de Villegagnon ainda antes de partir de França, para melhor servir-se do nome e autoridade do falecido senhor almirante de Chastillon, e tambem para poder mais facilmente abuzar da igreja de Genebra em geral e de João Calvino em particular (tendo como vimos no começo d’esta istoria escrito a uns e a outros afim de obter gente que o buscasse) aconselhara-se com o dito cardeal de Lorena para mascarar-se com a religião.
Como quer que seja porém, posso assegurar, que na ocazião da sua rebeldia, como si tivesse um carrasco na consiencia, tornou-se tam pezarozo, que jurava a cada momento pelo corpo de Santiago (seo juramento ordinario), que quebraria a cabeça, braços e pernas do primeiro que o importunasse, e ninguem ouzava mais buscar a su a prezença.
E porque vem a propozito, referirei a maldade, que n’esse tempo o vi praticar com um Francez xamado Laroche, que ele conservava prezo em grilhões.
Tendo-o pois feito deitar de costas no xão mandou por um dos seos satelites dar-lhe tanta pancada no ventre, que o paciente quazi perde o folego e a respiração; e depois que o pobre omem ficou assim maxucado de um lado, esse desumano verdugo dizia: - Corpo de Santiago, frascario, faze outra!
E com incrivel piedade deixaria assim pelo corpo estendido, quebrantado e semi-morto, si d’ele não precizasse para trabalhar no oficio, pois era marcineiro.
Geralmente outros Francezes, que ele conservava prezos pelo mesmo motivo, porque prendera Laroche, a saber, por que em razão do máo tratamento, que lhes dava antes da nossa chegada a esse paiz, tinham conspirado entre si para lançal-o ao mar; e estando mais estragados do que si estivessem nas galés, alguns dentre eles, carpinteiros, amestrados, abandonaram a ilha e preferiram antes ir para terra firme viver com os selvagens (que aliás os tratavam mais umanamente) do que permanecer com ele.
§ 24. Talvez 30 ou 40 omens e mulheres selvagens Maracajás, que os Tupinambás, nossos aliados, tinham aprezado na guerra, e tinham vendido como escravos, eram ahi tratados ainda mais cruelmente.
E com efeito uma vez o vi mandar amarrar a um d’eles, xamado Mingau, em uma peça de artilharia; e por uma couza que nem repreenção merecia, mandou derreter toucinho, e derramar bem quente nas nadegas do paciente: por isso esta mizera gente dizia repetidas vezes em sua lingua: - Si pensassemos, que Paicolá (assim xamavam eles a Nicoláo de Villegagnon) nos trataria desse modo, deixariamos antes que os nossos inimigos nos comessem do que virmos procural-o.
Eis ligeiro traço da sua umanidade; e eu aqui pasaria sem falar mais d’ele, si já não tivesse mencionado, que, quando puzemos pé em terra na sua ilha, ele nos dice pozitivamente, que dezejava, que fosse reformada a super-fluidade dos vestuarios.
É preciso pois, que eu ainda diga qual o bom exemplo e a boa pratica, que n’este ponto mostrou.
§ 25. Ele não só tinha grande quantidade de roupas de seda e lan, que antes queria deixar apodrecer nas suas arcas, do que com elas vestir a sua gente (parte da qual aliás estava quazi toda nua), mas tambem possuia camelões de todas as côres. Mandou fazer para si seis trages de muda para todos os dias da semana; a saber: cazaca e calções todos iguaes, vermelhos, amarelos, pardos, brancos, azues e verdes: de sorte que, si isso assentava bem á sua idade, profissão e proeminencia, que pretendia ter, cada qual o póde de julgar. Nós conheciamos pouco mais ou menos pela côr do vestuario, que ele trajava de que umor estaria n’esse dia; como quando vemos a verdura e a amarelidão dos campos, assim podemos dizer, si temos ou não bôa estação.
Sobretudo porém quando vestia comprido cazaco de camelão amarélo, bandado de veludo preto, desvanecia-se com esse trage, e diziam os seos mais gracizos sequazes, que ele então parecia menino travesso.
Portanto si aquele ou aqueles que depois do seo regresso para cá o mandaram pintar nú como selvagem, em cima do fundo de grande marmita, tivessem noticia d’esse formozo cazaco, não duvidamos, que por joias e ornatos tambem lhe o dariam, como fizeram com a cruz e a flauta pendentes do pescoço.
Si alguem agora dicer, que não tenho razão para procurar couzas minimas (como na verdade confesso não valer a pena tocar principalmente n’este ultimo ponto), respondo a isto, que como Nicoláo de Villegagnon aprezentou-se Rolando furiozo contra os da religião reformada, especialmente depois do seo regresso á França, voltando-lhes assim as costas, parece-me dever cada um saber como ele portou-se em todas as religiões, que seguio; e acrece, que, pela razão já mencionada no prefacio, muito convem, que eu diga tudo quanto sei.
§ 26. Ora, finalmente depois que por via do senhor Dupont lhe fizemos saber, que, visto ele repudiar o Evangelho, não eramos mais os seos subditos, nem queriamos mais estar ao seo serviço, e menos queriamos continuar a carregar barro e pedra para o seo fortim, julgou ele, enxer-nos de pasmo, isto é, fazer-nos morrer de fome, si o podesse, e prohibio, que nos dessem mais de duas taças de farinha de raiz, que cada um de nós costumava receber por dia, como já dice.
Mas isto longe esteve de incomodar-nos, porque além de termos mais farinha por uma foice, ou por duas ou trez facas que davamos aos selvagens (os quaes frequetemente vinham nas suas pequenas barcas ver-nos na ilha, ou nós iamos procural-os nas suas aldeias) do que ele nos distribuia em meio anno, ficamos satisfeitissimos com tal recuza por ver-nos inteiramente fora da sua sugeição. Entretanto si ele fosse mais forte, e si parte da sua gente e alguns dos nossos principaes companheiros não tomassem o nosso partido, não duvidamos, que ele então arranjasse mal os nossos negocios, isto é, teria tentado domar-nos por força.
§ 27. E com efeito para tentar, si o poderia conseguir, quando em certa ocazião um fulano João Gardien e eu xegamos devolta de terra firme (onde d’esta vez estivemos entre os selvagens quazi 15 dias), fingio ignorar a permissão, que antes da nossa partida pediramos ao senhor Barré, seo lugar-tenente, e pretendeo assim, que transgrediramos a ordenança, que fizera prohibindo, que ninguem saisse da ilha sem licença; por cuja cauza não só nos quiz prender, mas, o que peior era, ordenara, que nos pozessem grilhões aos pés, como aos seos escravos.
E estivemos em tanto maior perigo quanto o senhor Dupont, nosso diretor (o qual, como alguns companheiros nossos diziam, atenta a sua qualidade, muito abatia-se ante ele), em vez de nos sustentar e impedir o ato, pedia-nos, que por um dia ou dois sofressemos a pena, porque nos faria libertar, quando passasse a colera de Nicoláo de Villegagnon.
Mas declaramos formalmente, que não suportariamos o castigo, tanto por que não tinhamos infringido a ordenança, como principalmente porque já lhe tinhamos declarado, que nada dependiamos d’ele, por ter ele rompido a promessa de manter-nos no exercicio da religião evangelica, não obstante o exemplo de tantos outros que, ele conservava em grilhões, e viamos diariamente diante de nossos olhos ser tam cruelmente tratados.
Ouvindo ele esta resposta, e sabendo tambem que, si quizesse passar além, estavamos 15 ou 16 companheiros tam unidos e ligados pela amizade, que quem ofendesse a um ofenderia a todos, como se diz, não nos forçou, abrandou e dezistio do intento.
§ 28. É além d'isto certo, como tantas vezes tenho mencionado, que os principaes da sua gente eram da nossa religião, e por consequencia estavam mal satisfeitos com ele por cauza da sua rebeldia; e si não temessemos, que o senhor almirante, que, sob a autoridade do rei (como em principio dice) o tinha mandado sem o conhecer tal qual agora se mostrava, se desgostasse, e si não atendessemos a outras considerações, alguns companheiros aproveitariam esta ocazião para acometel-o, e lançal-o ao mar, afim de que, diziam eles, a sua carne e largas espaduas servissem de alimento aos peixes.
Todavia a mor parte axava mais conveniente, que nos portassemos com moderação, desde que faziamos sempre e publicamente a predica (que ele não ouzava ou não podia impedir), e que, para obviar que ele nos perturbasse e embaraçasse, celebrassemos a ceia e fizessemos a predica dahi por diante de noite e sem sua siencia.
E porque depois da ultima ceia, que n’esse paiz celebramos, apenas ficou-nos um copo do vinho, que tinhamos trazido de França, e não tinhamos meio de aver esse licor de outra parte, moveo-se questão entre nós, a saber, si por falta de vinho poderiamos celebrar esta ceremonia religioza com outros licores.
§ 29. Alegavam alguns, entre outras passagens, que Jezus Cristo, na instituição da ceia, depois da ação de graças, dice expressamente: - Não beberei mais do fruto da vinha etc., e estes eram de opinião, que na auzencia ela do vinho, era melhor abster-se do sinal do que stibstituil-o.
Outros ao contrario diziam, que, quando Jezus Cristo instituto a ceia, estava no paiz da Judéa; por isso falava da bebida, que ali era uzual, e que, si estivesse em terra de selvagens, é verosímil, que tivesse não só feito menção da bebida, de que estes uzassem em vez de vinho, quando o não podessem alcançar, mas tambem na falta d’ela não duvidariam celebrar a ceia com as couzas mais comuns (em substituição do pão e do vinho) no alimento dos omens do paiz, onde estivessem.
Embora porém muitos se inclinassem a esta ultima opinião, ficou a materia indeciza; porquanto não xegamos até essa extremidade.
Todavia o cazo apenas produzio alguma divergencia entre nós; e logo por graça de Deos ficamos todos sempre em tal união e concordia, que eu dezejava, que todos, que oje professam a religião reformada, marxassem no mesmo ton, como nós então o fizemos.
§ 30. Ora, para concluir o que tinha de dizer a respeito de Nicoláo de Villegagnon, acrecentarei o seguinte. Aconteceo que ele, conforme o proverbio que diz, que quem quer desfazer-se de alguem procura ocasião, detestando cada vez mais a nós e a nossa doutrina, declarou que não nos queria mais sofrer nem tolerar no seo fortim nem na sua ilha, e ordenou no fim do mez de Outubro que nos retirassemos.
Verdade é (como acima mencionei), que tinhamos meios suficientes para o expulsarmos, si o quizessemos; mas tanto para lhe tirar todo o motivo e queixar-se de nós, como por que, entre as razões já mencionadas, estando a França e outros paizes na espectativa de termos ido além-mar viver na observancia da reforma do Evangelho, tememos lançar macula sobre a nova doutrina, e preferimos obedecer a Nicoláo de Villegagnon, e sem mais contestação deixar-lhe a praça.
§ 31. Assim depois de termos estado quazi oito mezes n’esta ilha e fortim de Coligni, que tinhamos ajudado a construir, nos retiramos e passamos para terra firme, na qual estivemos dois mezes, esperando que um navio vindo do Havre de Grace carregar páo-brazil, (com cujo mestre contratamos nosso transporte para França) se aprontasse para partir.
Acomodamos-nos na praia do mar do lado esquerdo da entrada d’este rio de Guanabara, no lugar xamado pelos Francezes Briqueterie (olaria), o qual apenas dista meia legoa do fortim.
E como de lá iamos e vinhamos frequentemente, comiamos e bebiamos entre os selvagens, os quaes foram para nós imcomparavelmente mais umanos do que aquele que nos não pode suportar, sem lhe termos aliás feito agravo algum. Por isso eles, por sua parte, para nos trazerem viveres e outras couzas, de que careciamos, vinham frequentemenete visitar-nos.
§ 32. Ora, tendo sumariamente descrito n’este capitulo a inconstancia e variação, que descobri em Nicoláo de Villegagnon em materia de religião; o tratamento, que nos deo a pretesto d’ela; suas disputas e ocazião que aproveitou para desviar-se do Evangelho; seos gestos e assersões ordinarias n’esse paiz; a dezumanidade, que empregava para com a sua gente, e como eleandava magistralmente trajado; adiarei o que tenho de dizerdo nosso embarque de regresso, quer em relaçao á licença, que nos concedeo, quer acerca da traição, que nos fez na ocazião da nossa partida da terra dos selvagens, afim de tratar de outros pontos.
Eu o deixarei por ora espancare atormentar a gente do seu fortim, o qual, juntamente com o braço de mar, em que está situado, vou primeiramente descrever.
Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.