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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 23 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo XXII — Fome estrema; tormentas e outros perigos, de que Deos prezervou-nos em nosso regresso á França

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§ 1. Ora, depois que todas as sobreditas couzas aconteceram, sahimos das brazas e cahimos na lavareda, como se costuma dizer.

Ainda distavamos da França mais de 500 legoas, quando a nossa provizão ordinaria de bolaxa e outros viveres e bebidas, que já era pouca, fi subitamente reduzida á metade.

O retardamento da viagem não proveio sómente do máo tempo e ventos contrarios, que tivemos: pois, como já dice, o piloto por não ter dirigido bem a derrota, enganou-se por tal forma que quando nos dice, que nos aproximavamos do cabo Finisterra ( que jaz na costa de Espanha), estavamos ainda n’altura das ilhas dos Açores[100], que ficam a mais de 300 legoas do dito cabo.

Este erro pois em materia de navegação deo cauza a que no fim do mez de Abril estivessemos interamente desfalcados de todos os viveres; de sorte que por ultimo já se sacudia e varria o paiol, isto é, o cubiculo caiado e engessado, onde guarda-se a bolaxa nos navios, no qual axavam-se mais vermes e bosts de ratos do que migalhas de pão, que todavia repartiamos ás colheradas, e mandavaos fazer pap, a qual eram tam preta e amarga como fuligem; por onde podeis avaliar, si teria agradavel paladar.

Aqueles que ainda tinham bugios e papagaios (pois muitos já anteriormente tinham comidos os seos) para ensinal-os a dizer palavras, que ainda não sabiam, os conservaram no gabinete da memoria, e os entregaram para servir de alimentação.

Em suma desde principio do mez de Maio todos os viveres ordinarios faltaram entre nós, e morreno dois marinheiros de idrofobia da fome, foram sepultados no mar, conforme o estilo maritimo.

§ 2. Durante a fome a tormenta continuou de dia e de noite por espaço de trez semanas; e por cauza do mar levantando e agitadissimo nào só fomos obrígados a ferrar todas as vélas e amarrar o leme, mas tambem, por não podermos dirigir o navio, foi precizo entregal-o á discriminação das onds e dos ventos; de maneira que isto impedio-nos em todo esse tempo, e com grande detrimento nosso, de poder pescar um só peixe.

Emfim eis-nos de novo expostos á repentina e orroroza fome, assaltados d’agua por dentro, e atormentados das vagas por fóra.

Como aqueles que não têm andado no mar, principalmente em tal emergencia, apenas viram metade do mundo, cumpre aqui repetir, que com razão dice e salmista a respeito dos marinheiros, que eles, fluctuando, subindo decendo em tam terrivel elemento, e subzistindo no meio da morte, viam relamente os maravilhas do Eterno.

Entretanto não pergunteis, si os marinheiros papistas, vendo-se em tal estremidade, prometiam, si conseguissem xegar á terra, oferecer a São Nicoláo uma imagem de cera do tamanho de um omem, e faziam outros estupendos votos; mais isto era gritar por Baal, que nada ouvia.

Nós outros aliás julgavamos muito melhor recorrer a aquele, cujo auxilio tantas vezes tinhamos experimentado, como o unico, que, sustendando-nos extraordinariamente durante a fome, podia mandar ao mar, e aplacar a tempestade, a ele por isso, e não a outros, nos dirigiamos.

§ 3. Ora, estavamos já tam magros e debilitados que apenas podiamos suster-nos de pé para fazer as manobras do navio; todavia a necessidade no meio d’esta asperrima fome sugeria a cada um pensar e refletir com madureza sobre o modo porque podesse enxer o ventre. Lembraram-se alguns de cortar pedaços de rodelas feitas de couro do animal xamado tapirussú, já mencionado n’esta istoria, e os fizeram fever n’agua, imaginando poder comel-os d’este modo; esta receita porém não aproveitou.

Assim feito o ensaio, quem tinha rodelas logo as aprezentava; e porque eram tam duras como couro seco de boi, foram todas cortadas em pedaços com fouces e outras ferramentas; e aqueles, que traziam pedaços em azelhas de seos pequenos sacos de pano, não lhes davam menos importancia do que entre nós os grandes uzurarios cá em terra dam ás suas bolsas rexeadas de escudos.

§ 4. Assim como Flavio Jozefo diz, que os sitiados na cidade de Jezuzalem alimentaram-se com as correiras e couro dos seos broqueis, assim tambem entre nós alguns xegaram a comer suas gravatas de marroquim e a sola dos sapatos; e os pagens e grumetes do navio, apertados pela furia da fome, comeram todos os xavelhos das lanternas, de que sempre existe grande numero nas embarcações, e quantas vélas de sebo puderam apanhar.

Não obstante porem a nossa debilidade; precizo era com supremo esforço estarmos constantemente tocando a bomba, sob pena de irmos ao fundo, e bebermos mais do que tinhamos para comer.

§ 5. Aos 5 dias de Maio, ao pôr do sol, vimos rutilar e voar no espaço aereo um grande clarão de fogo, que produzio tal reverbo nas vélas do nosso navio, que julgamos terem-se elas incendiado; todavia sem danificar-nos, passou em um momento.

Si me perguntarem donde podia isso proceder, responderei, quea razão será tamto mais dificil de dar, quanto estando nós na altura das terras novas, onde se pesca o bacalháo, e do Canadá, regiões onde ordinariamente faz estremo frio, não podemos dizer, que o fenomeno proviesse das exalações calidas existentes no ar.

E afim de que sofressemos por todos os modos, fomos n’essas paragens batidos pelo vento de nordeste, quazi o verdadeiro nordeste[101], o qual cauzou-nos tal frio, que durante mais de quinze dias não tivemos alivio.

§ 6. Aos 12 do dito mez de Maio, conforme a minha lembrança o nosso artilheiro, ao qual, antes de desfalecer, vi comer as tripas cruas de um papagaio, por fim morreo de fome, e foi, como os precetendes finados da mesma molestia, lançado e sepultado no mar; e a sua falta quanto ao seo encargo foi tam indifertente, que, si fossemos assaltados, vem vez de defender-nos, dezejariamos antes ser aprezados e levados por qualquer pirata que nos désse de comer; tam extenuados nos axavamos!

Como porém apouve a Deos afligir-nos em toda a prolongação da nossa viagem de regresso, vimos apenas um navio, do qual nem nos podemos aproximar, quando o avistamos, por não nos permitir a nossa fraqueza aparelhar e erguer as velas.

Ora, faltando totalmente as rodelas, de que falei, todos os couros até da cobertura dos bahús, com tudo quanto em nosso navio axou-se capaz de alimentar, pensavamos ter xegado ao termo da nossa viagem.

§ 7. Mas a necessidade, inventora de todas as artes, despertou no animo de alguns caçar os ratos e ratazanas, os ques mortos de fome, porque tinhamos-lhes tirado as migalhas e todas as demais couzas, que poderiam roer, corriam pelo navio em grande numero; foram tam perseguidos por meio de toda a sorte de rotoeiras ideadas pelo genio inventivo de cada um, e tam espreitados por olhos vigilantes como gratos, ainda quando sahiam de noite ao clarão da lua, que, por mais escondidos que estivessem, apenas algum escaparia vivo, como suponho.

Com efeito quando alguem apanhava um rato, julgava possuir couza mais valioza do que um boi em terra. Vi venderem cada peça por dois, trez até quatro escudos; e mais notavel é que tendo o nosso barbeiro apanhado dois de uma vez, um dos companheiros ofereceo-lhe que, si lhe quizesse ceder um, no primeiro porto, a que xegassemos, vestil-o-ia dos pés até á cabeça; o que todavia o barbeiro não quiz aceitar, preferindo a vida ao vestuario.

Em suma tivemos de cozinahr ratos n’agua salgada com intestinos e tripas; e quem podia apanhar estas viceras, dava-lhes mais apreço do que ordinariamente damos em terra aos lombos do carneiro.

§ 8. Para mostrar, que então nada pediamos, citarei entre outras couzas notaveis o seguinte.

O nosso contra-mestre apanhou um grande rato; e para cozinhal-o cortou-lhe as quatro patas brancas, as quaes deixou no convés; e logo um quidam as apanhou, apressadamente as foi assar nas brazas, e as comeo, dizendo nunca ter provado aza de perdiz mais saboroza.

E para tudo dizer em uma outra palavra, o que em tamanha penuria não teriamos comido ou antes devorado?

Pois em verdade para saciar-nos dezejariamos ossos velhos e outras iguaes imundices, que os cães carregam para os monturos; nem duvideis, que, si tivessemos ervas verdes, ou feno ou folhas de arvores, que aliás em terra poderiamos obter, nós as comeriamos como brutos animaes.

§ 9. N’isto não consite tudo: pois no espaço de trez semanas, porque durou esta rigoroza fome, não tivemos noticias de vinho nem de agua doce, que desde muito tempo era racionada, nem já nosrestava para beber sinão um pequeno tonel de cristre: em consquencia do que os mestres e guardiães o poupavam, e regravam tanto, que ainda quando algum monarca estivesse, não teria maior porção do que outro qualquer, a saber, um pequeno copo por dia.

Como eramos mais vexados pela sêde do que pela fome, não só quando xuvia estendiamos lençóes com uma bala de ferro no centro para distilar a agua da xuva, que d’este modo recolhiamos em vazilhas, mas tambem apanhavamos a agua, que escorria do convés; e embora esta agua fosse mais turva pelo alcatão e sugidade dos pés do que a que corre nas ruas, nem por isso a deixavamos de beber.

§ 10. Em concluzão direi, que embora a fome que no anno de 1573 sofremos durante o cerco de Sancerre, deva ser colocada na ordem das mais terriveis de que jamais tenhamos ouvido falar, como se póde ver na istoria que imprimi d’esse cerco; todavia não faltou agua nem vinho, não obstante ser mais longa, como ali notei; e posso dizer, que ela não foi tam rigoroza como a fome de que aqui se trata; pois ao menos em Sancerre tinhamos algumas raizes, ervas bravias, rebentos de videira, e outraa couzas, que em terra podiamos axar.

Aprouve a Deos abençoar as creações, e ainda aquelas que não entram no uso comum da alimentação dos omens, como péles, pergaminhos e outras iguaes mercearias, cujo catalogo fiz, e de que vivemos n’esse assedio; e como experimentei que isso tem valor em cazo de necessidade, devo declarar, que, si eu estivesse assediado em qualquer praça por amor de uma bôa cauza, não me renderia com temor da fome emquanto tivesse cabeções de couro de bufalo, vestuarios de camuraça e couzas similhantes, em que existe suco ou umidade.

No mar porém, na viagem de que falo, estivemos reduzidos á estremidade de só termos páo-brazil, madeira seca e sem umidade, e todavia muitos companheiros, urgidos pela mizeria, a mascavam na falta de outra couza: de sorte que o senhor Dupont, nosso condutor, mastigando um pedaço d’essa madeira em certa ocazião, dice-me, soltando grande suspiro: - Ah! de Leri, meo amigo, tenho em França uma partida de 4.000 francos; e prouvéra a Deos podesse eu dal-a para ter um pão grosseiro e um copo de vinho.

Quanto ao mestre Pedro Richier, atualmente ministro da palavra de Deos na Roxéla, dirá esse bom omem, que por debilidade esteve durante a viagem estendido a fio comprido no seo pequeno belixe, sem poder erguer a cabeça para orar a Deos, a quem, apezar de prostrado como estava, fervorozamente invocava.

§ 11. Ora antes de terminar este assunto, direi aqui de passagem ter não só observado nos outros, mas tambem sentido em mim, durante essas duas rigorozissimas fomes, porque passei, e de que ninguem escapava, que, quando os corpos se extenuam, a natureza desfalece, os sentidos se alienam, eo animo dezaparece: isto não só torna as pessoas ferozes, mas tambem produz certa colera, que bem podemos denominar uma especie de raiva; de sorte que mui acertada é a comun opinião, quando diz: - Fulano enraivece de fome, querendo assim significar que alguem sofre falta de alimento.

Como a experiencia faz mais compreensiveis os fatos, não foi sem razão, que Deos na sua lei, ameaçando seo povo de mandar-lhe a fome, si o não obedecesse, diz expressamente, que fará com que o omem tenro e delicado, isto é, de indole alias benigna e branda, e antes de esfomeado infenso e atos crueis, se desnaturará por forma tal, que, encarando o proximo e até a propria espoza e filhos, apetecerá comer-lhes as carnes.

Entre exemplos por mim citados na istoria de Sancerre, de pais e mãis, que comeram os proprios filhos, como soldados, que provando a carne de corpos umanos, mortos na guerra, depois confessaram, que, si a aflição continuasse, estavam deliberados a investir contra os vicos, posso assegurar, alem d’essas couzas prodigiozas, que duratne a nossa fome no mar andavamos tam prezarozos, que, si nos não contivesse o temor de Deos, não poderiamos falar uns com outros sem nos agastarmos; e o que peior era (e Deos nos queira perdoar) sem lançar olhadelas e esgares acompanhados de má dispozição tocante a esse acto barbaro.

§ 12. Ora, proseguindo na expozição do final da nossa viagem, cabe dizer, que iamos sempre em declinação, e a 15 e 16 de maio morreram dois marinheiros, que finaram-se da idrofobia da fome.

Imaginaram alguns d’entre os nossos companheiros, que, atento o prolongado tempo que sem vêr terra vagamos no mar, deviamos estar, para assim dizer, em novo diluvio, e os vimos lançar-se n’agua como alimentação dos peixes; então já não esperavamos outra couza sinão ir logo após eles.

Entretanto não obstante este padecimento e inexprimivel fome, durante a qual, como já dice, foram comidos todos os bugios e papagaios, que traziamos, eu pude todavia até então guardar cuidadozamente um papagaio, que tinha, tam grande como um prato, bom falador e de linda plumagem, e porque muito dezejava conserval-o para prezentear ao senhor almirante, o tive por cinco a seis dias escondido, sem poder dar-lhe comida alguma; mas tanto urgio a necessidade, e tal foi o receio de me o furtarem de noite, que passou pela sorte dos outros.

Lançadas fóra somente as penas, o corpo, tripas, pés, unhas e o bico adunco serviram para mim e alguns amigos meos irmos vivendo por trez ou quatro dias; todavia grandissimo foi o meo pezar, quando avistamos terra cinco dias depois de o ter morto; e como esta especie de aves passa bem sem beber agua, bastariam trez nózes para alimental-a por todo esse tempo.

§ 13. Mas para que ( dirá alguem), sem particularizar aqui o teo papagaio, com o qual nos não imporamos, nos conservarás sempre suspensos a respeito dos teos padecidos$ Duraram por muito tempo todos esses generos de alfições$ Nunca teriam fim na vida ou na morte$

Ah! eles findaram; pois Deos, que sustenta os nossos coros com outras couzas além do pão e da carne, apontou o porto com a mão e permitio por sua graça que aos 24 dias do mez de Maio de 1558 tivessemos vista de terras da baixa Bretanha, quando todos nós, estendidos no convéz, já quzi podiamos mover braços nem pernas.

Por muitas vezes tinhamos sido enganados pelo piloto, quem em vez de terra nos mostrará nuvens, que se desvaneciam no ar; por isso embora o marinheiro, que estava de vigia no cesto grande de gavea, gritasse por duas ou trez vezes: - Terra! Terra! pensamos ser gracejo; mas sendo o vento propicio e aprôando ao ponto divulgado, logo depois certificamo-nos ser na realidade terra firme.

§14. Emfim para consolação de tudo quanto acima tenho exposto a respeito das nossas aflições, para melhor explicar a angustioza estremidade, em que nos axamos, e quando já não tinhamos recurso em tamanha necessidade, Deos a piedou-se de nós e acudio-nos.

Rendemos-lhe graças por nosso proximo livramento; depois do que dice-nos o mestre do navio, em alta vóz, que, si continuassemos ainda por un dia n’esse estado, tinha deliberado e rezolvido, não lançar sortes, com em tal mizeria praticam comandantes de barcos, mas, sem dizer palavra, matar a um de nós para servir de alimento aos outros. o que nenhum susto me cauzou em relação á minha pessoa; poque embora não ouvésse em nenhum de nós a bordo farta gordura, todavia não seria eu o escolhido, si por ventura não quizessem comer sómente péle e ossos.

§ 15. Ora, como os nossos marinherinheiros tinham deliberado descarregar e vender o seo páo-brazil na Roxéla, quando estavamos a duas ou trez legoas da terra da Bretanha, o mestre do navio com o senhor Dupont e algumas outras pessoas deixaram-nos fundeados, e ofram n’um escaler a um lugar vizinho xamado Hodierne, afim de comprar viveres; e como dois companheiros nossos tambem se meteram n’esse escaler, dei-lhes dinheiro para trazerem-me refrescos: mas eles apenas viram-se em terra, pensando estar a fome encerrada no navio, abandonaram as malas e fatos deixados a bordo, e protestaram não pôr mais pés ahi; e com efeito seguiram róta batida, e nunca mais os vi.

§ 16. Em quanto estivemos ali ancorados, aproximaram-se alguns pescadores, aos quaes pedimos viveres; mas eles, julgando que nós zombavamos, ou que com esse pretesto queriamos incomodal-os, quizeram immediatamente retirar-se.

Forçados pela necessidade, fomos mais ligeiros do que os pescadores, e arrojamos-nos com tal impeto no batel, que pensaram logo ser saqueados; todavia sem lhes tirarmos couza alguma contra vontade, e não axando dorque buscavamos sinão alguns pedaços de pão negro, um mizeravel apareceo, que, não obstante a penuria em que lhe mostravamos estar, em vez de compadecer-se de nós, não teve duvida em receber de mim dois totões por um pequeno pedaço, que então em terra não valeira um vintem[102].

Ora, voltando a nossa gente com pão, vinho e outras provizões, não deixamos mofar nem azedar, como podeis imaginar.

§17. Pensavamos sempre em ir á Roxéla, e tinhamos navegando duas ou trez legoas, quando fomos advertidos pela gente de um navio, que comunicou-se comnosco, de que certos piratas assolavam toda a estensão d’esta costa.

Pelo que considerando que, depois de tamanhos perigos, de que Deos, por sua infinita graça, nos salvará, seria tental-o e procurar nosso infortnnio, arriscando-nos em azares novos, logo no mesmo dia 26 de Maio, sem demorarmos-nos em tomar terra, entramos na linda e espaçoza enseada de Blavet, paiz da Bretanha, aonde tambem xegava grande numero de navios de guerra, que regressavam de viagem a diversos paizes; e dando tiros de artilharia e fazendo as fanfarrices costumadas na entrada dos portos de mar, rejubilavam-se de suas vitorias.

§ 18. Entre outros navios avia um de São-Maló, cujos marinheiros tinham pouco antes capturado e conduziram um navio espanhol, que voltava do Perú, carregado de boas mercadorias avaliadas em mais de 60.000 ducados.

Isto já estava por toda França, e muitos negociantes parizienses, lionezes e outros aviam xegado a este lugar para as comprar; e sucedendo axarem-se alguns d’eles perto do nosso navio, quando saltavamos em terra, nã só deram-nos o braço para ajudarem a suster-nos, em razão da nossa debilidade, como tambem, sabendo dos nossos sofrimentos de fome, acertadamente nos exortaram a absternos de comer com demazia, e usar em principio pouco a pouco de caldos de galinha bem cozida, de leite de cabra, e de outras couzas proprias para nos alargar das tripas, que tinhamos assás comprimidas.

Com efeito aqueles que acreditaram no conselho, deram-se bem; mas quanto aos nossos marinheiros, que logo no primeiro dia quizeram farta-se, de vinte escapos da fome, mais de metade, creio eu, empanzinaram e morreram subitamente por comerem com excesso.

Quanto porém a nós outros quinze passageiros, que, como dice no principio do capitulo precedente, tinhamos embarcado na terra do Brazil, n’este navio, para regressar á França, não morreo nenhum no mar nem em terra.

§ 19. Bem certo é, que apenas tinahamos salvo a péle e os ossos; e si olhasseis para nós, direis, que eramos cadaveres dezenterrados. Apenas respiramos o ar da terra, ficamos possuidos de tal desgosto e aborrecemos por tal fórma os alimentos, que, falando particularmente de mim, quando xeguei á caza, e senti o xeiro de vinho, que me ofereciam em uma taça, cahi de costas sobre um bahú, e pensaram os circunstantes, que eu ali expiraria, atenta a minha fraqueza.

Todavia não me fez isto grande mal. Por mais de dezenove mezes não me tinha deitado á franceza, como oje se diz; e como puzeram-me em um leito, aconteceo, que contra a opinião d’aqueles que dizem, que, quando estamos acostumados a deitar-nos em cama dura, não podemos muito tempo depois repouzar em colxão macio, eu dormi tam profundamente d’esta primeira vez, que só despertei no dia seguinte ao nascer do sol.

§ 20. Depois de nos demorarmos trez ou quatro dias em Blavet, fômos para Hanebon, pequena cidade distante dali duas legoas, onde durante quinze dias de estada nos tratamos de acordo com o conselho dos medicos.

Por melhor regimen, que podessemos ter, quazi todos inxaram desde a planta dos pés até o cocuruto da cabeça; e apenas eu e mais dois ou trez inxamos da cintura para baixo sómente.

Além d’isso todos tivemos um fluxo de ventro, e tal desmanxo de estomago, que impossivel era conservar qualquer couza em nosso organismo, salvo certa receita, que nos ensinaram, saber, suco de hedera terestris e arroz bem cozido, o qual, tirado do fogo, devia ser abafado na panela com panos velhos, devendo-se depois tomar gemas de óvos e misturar tudo em um prato no rescaldo.

Comendo isso com uma colhér, como caldo, ficamos logo fortificados; e creio, que sem este recurso, que Deos nos sucitou, em poucos dias o mal nos teria arrebatado.

§ 21. Eis em suma qual foi a nossa viagem, a qual na verdade não se reputará entre as menores, si consideramos, que navegamos quazi 73 gráos, redundando tudo isso em perto de 2.000 legoas francezas, na direção do norte a sul.

Mas para dar a onra, a quem pertence, o que é ela em comparação da que fez o insigne piloto espanhol João Sebastião del cano, o qual circundou o globo, isto é, volteou toda a redondeza do universo (o que julgo não ter omem algun jamais feito antes d’ele), e estando de regresso em Espanha, mandou, com toda a razão, pintar o mundo com suas armas, em torno das quaes pôz esta diviza: Primus me circumdedisti, isto é, fôste o primeiro que me rodeaste.

§ 22. Ora, para completar a parte final da nossa redenção, cumpre dizer, que parecia devermos com este golpe estar izentos de todos os males; mas não teriamos evitado a propria ruina, si aquele que tantas vezes prezervou-nos dos naufragios, tormentas, aspera fome e outras mizerias, de que foramos assaltados no mar, não ddirigisse em terra aos nossos negócios.

Pois Nicoláo de Villegagnon, na ocazião do nosso embarque de regresso, sem que o soubessemos, como já fica notado, entregou ao mestre do navio, em que voltavamos (que ambem o ignorava), um processo, que fizera e organizára contra nós, com ordem expressa ao primeiro juiz, a quem fôsse aprezentado em frança, não só de prender-nos, mas tambem de mandar matar-nos e queimar como ereticos, que ele dizia sermos.

Aconteceo, que o senhor Dupont, nosso xefe, tinha conhecimento com algumas pessoas da justiça territorial afeiçoadas á religião, que professamos; e aberta a caixa coberta de panno encerado em que estavam o processo, e muitas cartas dirigidas a varias pessoas, foram entregues processo e cartas. Viram então então essas mesmas pessoas o que lhes era ordenado, e longe estiveram de tratar-nos como desejava o nosso perseguidor, pois bem pelo contrario obzequiaram-nos com bôa meza, ofereceram aos nossos companheiros necessitados recursos, e emprestaram dinheiro ao senhor dupont e a outros.

Eis como Deos, que surpreende os astuciozos em suas machinações, não só livrou-nos por meio d’essas boas pessoas do perigo, em que nos colocára a rebeldia de Nicoláo de Villegagnon, mas tambem, o que é de maior valor, permitio, que a traição uridda contra nós assim se descobrisse para confuzão do traidor, voltando-se tudo em nosso favor.

§ 23. Depois de recebermos este novo beneficio da mão de quem, como já dice, tanto no mar como em terra mostrou-se nosso protetor, os nossos marinheiros partiram d’esta cidade de hanebon com o fim de irem para a sua terra da Normandia; e nós, para sairmos dentre esses Bretões bretonizados, cuja linguagem entendiamos menos do que a dos selvagens americanos, dentre os quaes vinhamos, apressamos-nos em vir para a cidade de Nantes, da qual apenas distavamos 32 legoas.

Entretanto não corriamos na posta; e como em razão da nossa debilidade não tinhamos forças para dirigir os cavalos, em que montavamos, nem suportar o trote, cada um de nós tinha um omem para guiar a montaria pela brida.

E porque n’esse começo era-nos precizo como que renovar os corpos, não s´p apeteciamos tudo quanto nos vinha á fantasia, como dizem, que comumente sucede ás mulheres gravida, de que citaria exemplos extravagantes, si não temesse enfadar o leitor, mas tambem alguns aborreceram o vinho por modo tal, que passaram mais de um mez sem poder sentir-lhe o xeiro, e menos beber.

§ 24. Por cumulo de nossas mizerias, quando xegamos a Nantes, pareciamos ter os sentidos completamente transstornados, e passamos quazi oito dias com as ouçs tam duras, e com a vista tam obscurecida, que pensei ficar surdo e cego.

Todavia excelentes doutores medicos e outros notaveis personagens, que repetidamente nos vizitavam em nossas cazas, tiveram tal cuidado de nós, e nos socorreram tam benignos, que, quanto a mim especialmente, não me restou mal algum, e nates pelo contrario, passado quazi um mez, eu ouvia tam claro como nunca, ejamais tive vista mais perfeita.

É verdade, que em relação ao estomago, depois sempre o tive mui fraco e debilitado; e dano-se repetição do mal, no fim de quazi quatro annos, durante o cerco e a fome de Sancerre, como tantas vezes tenho declarado, posso dizer, que sentirei as suas consequencias por toda a minha vida. Assim depois de recuperarmos por um pouco as nossas forçs em Nantes, aonde fomos mui bem tratados, como já dice, cada um de nós deliberou segir para onde quizesse.

§ 25. Só resta agora para dar fim á prezente istoria saber qual a sorte dos nossos cinco companheiros, que, como acima ficou dito, voltaram para a terra do Brazil, depois do primeiro naufragio, de que estivemos ameaçados: e eis aqui por que mei soubemos do cazo.

Pessoas fidedignas, que deixamos n’esse paiz, donde voltaram quazi quatro mezes depois de nós, encontraram o senhor Dupont em Pariz, e asseguraram não só que, com grande pezar seo, tinham sido espectadores da sena do afogamento de trez d’eles no fortim de Coligni ordenado por Nicoláo de Villegagnon por cauza do Evangelho, a saber Pedro Bourdon, João Bordel, e Mateos Verneuil, mas tambem que tinham trazido por escrito tanto a sua confissão de fé, como todo o processo contra eles feito por Nicoláo de Villegagnon, eo entregaram ao dito senhor Dupont; o qual processo eu obtive logo depois.

Vendo assim que, emquanto rezistiamos ás ondas e tempestades do mar, esses fieis servos de Jesus Cristo suportavam tormentos e a morte cruel, que lhes infligia Nicoláo de Villegagnon; lembrando-me que da nossa companhia só eu (como vimos em lugar competente) sahira da lanxa, em que estava prestes para regressar com eles; tendo materia para dar graças a Deos por esta minha salvação individual, julgo-me mais obrigado que todos os outros a cuidar, que a confissão de fé d’esses trez bons personagens seja registrada no catalogo d’aqueles que em nosso tempo constantemente afrontaram a morte em testimunho do Evangelho; por isso a entreguei logo n’esse meso anno de 1558 ao impressor João crespin; o qual com a narração das dificuldades, que padeceram para aportar na terra dos selvagens depois que nos deixaram, a inserio no livro dos martires, ao qual envio o leitor. Si não fôra a sobredita razão, não faria menção aqui d’esta circunstancia.

Todavia direi ainda, que foi Nicoláo de Villegagnon quem primeiro derramou sangue dos filhos de deos n’esse paiz novamente conhecido; e assim por cauza d’esse acto alguem com inteira justiça e denominou Caim da America.

§ 26. Para satisfazer aqueles que quizeram perguntar o que lhe sucedeo, e qual foi o seo fim, direi, que o deixamos aclimado n’esse paiz no fortim de Coligni, e depois nada indaguei a seo respeito, nem ouvi dizer d’ele outra couza, sinão que, quando regressou á frança, depois de aver infamado o mais possivel, quer de palavra quer por escrito, aos sectarios da religião evangelica, morreo afinal revestido da sua antiga péle, em uma comenda da ordem de Malta, que fica perto de São João de Nemours.

Por via de um seo sobrinho, a quem vi com ele no dito fortim de Coligni, soube, que o tio deo tam má direção aos seos negocios, quer durante a molestia quer antes d’elas, e foi tam indisposto contra os parentes, que, sem estes darem motivo algum, nada aproveitaram dos seos bens, nem na vida nem depois da morte d’esse omem.

§ 27. Em concluzão: si não só em geral mas tambem em particular fui livre de toda a sorte de perigos, e de tantos ameaçados de morte, como n’esta istoria tenho mostrado, não poderei dizer com essa santa mulher, mãi de Samuel, que eu experimentei ser o Eterno quem faz viver e faz morrer $ quem faz descer á tumba e surgir d’elas certamente que sim.

Boas razões persuadem, que o omem aqui vive para o dia de oje; e si isto pertencesse á prezente materia, ainda acrescentaria, que por sua infinita bondade Deos salvou-me de muitas outras angustias, por que passei.

Finalmente ahi fica relatado quanto observei quanto observei tanto no mar indo e vindo da terra do Brazil xamada America, como entre os selvagens abitantes do mesmo paiz, o qual, pelos motivos já por mim amplamente expedidos, bem póde denominar-se mundo novo a nosso respeito.

Todavia bem sei, que, tendo assunto tam exelente, não tratei as materias, de que me ocupei, com o estilo e gravidade, que convinha; e entre outras couzas confesso ainda n’esta segunda edição ter algumas vezes amplificado muito um objeto, que devia ser rezumido, a e ao contrario caindo em estremidade oposta toquei mui brevemente em outros, que deviam ser com mais largueza deduzidos.

§ 28. Peço de novo aos leitores, que supram os meos defeitos de linguagem; e considerando quam penoza e dura foi a tarefa do relator d’esta istoria, receberam em compensação a minha boa vontade e o meo afecto.

Agora, ao rei dos seculos, immortal e invizivel, a Deos, único sabio, tributemos onra e gloria eternamente.

Amen.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

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