Universo da obra
Universo da obra
§ 1. Afim de obviar repetições, que evito quanto posso, envio os leitores para o terceiro, quinto e setimo capitulo d’esta istoria, bem como para os outros lugares, em que fiz menção das baleias, verdadeiros monstros marinhos, dos peixes voadores e de outros de varias espécies, e tratarei n’este capitulo principalmente dos mais frequentes entre os nossos Americanos, e dos quaes todavia ainda não falei.
§ 2. Começarei dizendo que os selvagens dam a todos os peixes a denominação genérica de pirá; quanto porém ás especies, têem duas qualidades de sargos verdadeiros, a que xamam curiman[54] e parati, os quaes, quer cozidos, quer assados (sobretudo o segundo) sam excelentes e saborozos.
Estes peixes andam abitualmente em bandos, como sucede cá na Europa, onde os vi no Loire e em outros rios de França subir do mar. Os selvagens, quando os vêem em cardumes compactos, aproximam-se de repente, atiram sobre eles grandes frexas tam certeiras, que em poucos momentos fisgam muitos peixes, os quaes assim feridos não podem ir ao fundo. Então os frexadores os vam apanhar a nado.
A carne d’estes peixes é sobre todas mui friavel; e quando os selvagens os apanham em grande quantidade, os secam no moquem, esmigalham, e reduzem á farinha.
§ 3. O camurupim-uassu[55] é um peixe mui grande (pois uassu em linguagem brazilica significa grande ou volumozo, conforme a acentuação que se lhe dá) do qual os nossos Tupinambás, quando dansam e cantam, fazem menção, dizendo e repetindo muitas vezes d’este modo: Pirá-uassu a uêh: camurupim-uassu a uêh etc., etc. – e é mui bom de comer.
Existem outros dois peixes xamados uára e acarauassú, que sam quazi da mesma grandeza que o precedente, porém melhores, e até direi, que o uára não é menos delicado do que a nossa truta.
Temos outro peixe xamado acarapeh; é xato, e cozido desprende gordura amarela, que lhe serve de molho. A carne é optima.
Temos também o acara-buten, peixe viscozo de côr trigueira ou avermelhada, o qual sendo muito menor do que os supramencionados, não tem gosto agradavel ao paladar. Outro peixe xamado pira-ipoxi[56] é do comprimento da enguia, e não é bom; ipoxi na linguagem indigena quer dizer isto mesmo.
Emquanto ás arraias, que os selvagens pescam no rio de Geneure, e nos mares adjacentes, sam mais amplas do que as que vemos na Normandia, na Bretanha e n’outros lugares cá da Europa, têem dois xifres compridos, cinco ou seis gretas no ventre (parecendo artificiaes), cauda longa e fina; sam timiveis e venenozas.
Um dia apanhamos uma arraia; e na ocazião de metel-a na embarcação picou a perna de um companheiro nosso, e imediatamente tornou-se vermelho e inxado o lugar ofendido.
Eis ahi o que podemos sumariamente dizer a respeito de alguns peixes d’agua salgada da America, cuja multidão aliaz é inumeravel.
Os rios d’agua doce d’esse paiz estam xeios de uma infinidade de peixes medianos e pequenos, que os selvagens geralmente xamam pirá-mirim (pois mirim no seo idioma quer dizer pequeno); mas apenas descreverei ainda duas especies enormemente disformes.
O primeiro, xamado tamuatá pelos selvagens, não tem ordinariamente sinão meio pé de comprimento, tem a cabeça mui grande, isto é, monstruoza em comparação do resto do corpo, duas barbatanas debaixo das guelras, os dentes mais aguçados de que os do lucio, as arestas penetrantes, e todo o corpo armado de escamas tam resistentes que não creio que uma cutilada lhes faça móça, como sucede com o tatú, animal terrestre, conforme já dice alhures: a carne é mui tenra, boa e saboroza.
Os selvagens denominam pana-pana outro peixe, que é de grandeza mediana; quanto porém á fórma tem corpo, cauda, e pele similhante ao precedente, e tam aspera a mesma pele como a do tubarão. Tem aliás a cabeça tam xata, sarapintada e mal conformada que, estando fóra d’agua, divide-se e separa-se em duas, como si a tivessénios propositalmente partido, e assim oferece o mais orrendo aspecto de uma cabeça de peixe.
§ 4. Quanto ao modo de pescar dos selvagens, cumpre notar, que já dice, que eles apanham o sargo a frexadas, e isto deve entender-se acerca de todas as outras especies de peixe, que podem distinguir n’agua, convindo observar que omens e mulheres da America todos sabem nadar como cães d’agua para irem buscar n’agua a caça e a pesca; assim tambem os meninos apenas começam a caminhar, metem-se nos rios e nas praias e mergulham como patinhos.
Para exemplo d’isto, referirei brevemente, que, em um domingo pela manhan, passeavamos na plataforma do nosso fortim, quando vimos no mar virar uma canoa de casca de páo (feita como adiante descreverei), na qual estavam mais de trinta individuos selvagens, grandes e pequenos, que vinham vêr-nos.
Pressurozos acudimos com um escaler em socorro dos periclitantes; mas axamos todos rizonhos nadando nas ondas, dizendo-nos um d’eles: - E onde ieis tão apressadamente, vós outros Mairs? (assim xamam os francezes).
Respondemos: - Vinhamos para salvar-vos, e tirar-vos d’agua.
Ao que replicou: - Na verdade agradecemos a vossa bôa vontade; mas pensaveis, que, por termos cahido no mar, estavamos em perigo de afogar-nos? Pois sem tomar pé, nem chegar a terra, ficariamos oito dias em cima d’agua, como agora vêdes, por tanto temos muito mais medo, que algum peixe grande nos puxe para o fundo do que tememos afundar-nos.
E os outros nadavam; todos como verdadeiros peixes, advertidos pelo companheiro da cauza, da nossa vinda repentina, zombavam, e pozeram-se a rir tanto, que os viamos e ouviamos soprar e roncar em cima d’agua, como um bando de golfinhos.
Com efeito embora estivessemos ainda a mais de um quarto de legoa de distancia do fortim, comtudo só quatro ou cinco quizeram entrar no nosso batel, mais por conversar comnosco do que por temor do perigo.
Observei, que os outros adiantando-se algumas vezes a nós, não só nadavam tam desafrontados e galhardos quanto queriam, mas tambem descansavam sobre as aguas, quando bem lhes aprazia.
Submergiram-se algumas rêdes de algodão, viveres e outros objetos, que vinham na canôa, e traziam para nós, mas nem por isso se importaram mais do que nós nos importariamos com a perda de uma maçan; pois diziam, que em terra tinham couzas iguaes.
§ 5. Sobre este assunto da pesca dos selvagens, não quero omitir a narração do que ouvi um d’eles contar, a saber; que estando em certa ocazião com outros em um d’esses barcos de casca de páo muito amarados, e fazendo aliás tempo calmo, veio um grande peixe, que segurou-o com as garras, e queria ou viral-o, ou meter-se dentro do barco, conforme lhe pareceo.
Vendo isso (dizia ele) cortei-lhe, rapidamente a mão com uma fouce, e caindo e ficando a mão no nosso barco, vimos, que ela tinha cinco dedos como a mão de um omem; e o peixe excitado pela dôr, que sentio, mostrou fora d’agua a cabeça de fórma umana e soltou pequeno gemido.
Sobre tam estranho conto d’este Americano, deixo o leitor filozofar, e atendendo á comum opinião, que admite no mar todas as especies de animaes terrestres, e especialmente em vista do que escreveram alguns autores sobre os tritões e sereias, julgar si era um tritão, sereia, macaco ou bugio marinho este, cuja mão o selvagem afirmava ter cortado. Todavia sem condenar a existencia de taes couzas direi francamente, que durante nove mezes de permanencia no alto mar sem pôr pé em terra sinão uma vez, e durante as navegações costeiras que por vezes fiz, não observei couza igual a isto; nem vi, no meio de uma infinidade de especies de peixes, que apanhamos, peixe algum que se aproximasse da fizionomia umana.
§ 6. Para terminir o que tinha de dizer a respeito da pescaria dos nossos Tupinambás, cumpre declarar, que além d’este modo de flexar os peixes, de que tantas vezes tenho falado, eles tambem acomodam espinhas á feição de anzoes, seguindo o seo antigo metodo, fabricam linhas de uma planta xamada tucum[57], que desfia-se como o canhamo, e é muito mais forte, e com isso pescam de cima das ribanceiras e margens das aguas.
Tambem penetram no mar e rios d’agua doce em jangadas, denominadas piperis, e compostas de cinco ou seis páos redondos mais grossos do que o braço de um omem, juntos e bem ligados com vergonteas retorcidas. Sentados n’esta armadilha com as pernas estendidas, dirigem-se para onde querem com um pequeno bastão xato, que lhes serve de remo.
Como estes piperis não têem mais de uma braça de comprimento e apenas quazi dois pés de largura, não rezistem a qualquer tormenta, e mal póde cada um suster um omem; de sorte que quando os nossos selvagens em tempo bom estam nús e separados pescando no mar, direis ao vel-os de longe, que sam macacos ou antes (tão pequenos parecem) rans aquecendo sol em axas de lenha no meio das aguas.
Todavia como estas jangadas, arranjadas como canudos de orgãos, sam assim fabricadas, fluctuam n’agua como, uma pranxa grossa, penso, que si cá as construissemos teriamos meio bom e seguro de passar os rios, os pantanos e lagos d’aguas mortas ou de fraca corrrenteza; junto aos quaes vemo-nos ás vezes bem embaraçados, quando temos pressa de tranzito.
§ 7. Ora, além de quanto fica relatado, acrecentarei que, quando os selvagens nos viam pescar com redes, que tinhamos trazido, e que eles xamam pussa-uassú[58], mostravam grande satisfação de ajudar-nos, e vêr-nos apanhar tanto peixe de um só jacto, e si por ventura nós os deixavamos manejar as redes, eles por si já sabiam pescar com elas.
Depois que os francezes traficam além-mar, os Brazilienses colhem vantagens das mercadorias, que recebem, e muito louvam os traficantes, porque nos tempos passados os indigenas eram obrigados (como já dice) a por espinhas de peixe na ponta das suas linhas de pesca em lugar de anzóes, e agora têem a vantagem da gentil invenção d’esses pequenos ganxos de ferro tam adaptados ao mister da pescaria.
Por isso, como alhures dice, os rapazes d’essa terra aprenderam a dizer aos estrangeiros, que andam por lá: - De agatorem amabe pinda, isto é: - Tu és bom da-me anzóes. Pois agatorem no seo idioma quer dizer bom, amabe dá-me, e pinda anzol.
Si não se lhes dá o que pedem, a caniçalha, voltando subitamente o rosto, repete com insistência: - De- engaipa ajuca, istoé, - Tu não prestas, devemos, matar-te.
§ 8. Sobre este assunto direi, que si quizermos ser primos (como comumente dizemos) quer dos grandes quer dos pequenos, cumpre não negar-lhes nada.
Verdade é, que não sam ingratos, principalmente os velhos, pois, quando nem no obzequio pensamos, lembram-se do donativo, e agradecidos vos retribuirão com alguma couza.
Como quer que seja porém, observei, que os selvagens amam as pessoas alegres galhofeiras e liberaes, e ao contrario aborrecem os taciturnos, avaros e melancolicos portanto posso assegurar aos somiticos, vizionarios e forretas, e aos que comem o pão no saco como se costuma dizer, que não serão bem vindos entre os nossos Tapinambás, pois estes por natureza detestam tal qualidade de gente.
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