Leia agora
História de uma viagem feita à terra do Brasil

Universo da obra

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 8 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo VII — Descrição do rio Guanabara, tambem denominado Geneure, na America, da ilha e do fortim de Coligni, que n’ela foi edificado, e juntamente das outras ilhas circumvizinhas

8 de 24 ≈ 11 min de leitura

§ 1. Este braço de mar e rio de Guanabara, assim xamado pelos selvagens, e Geneure pelos Portuguezes (pois assim o denominam, porque, como dizem, o descobriram no dia primeiro de Janeiro) fica, aos 23 gráos além da linha equinocial, e sob o tropico de Capricornio; e como tinha sido um dos portos de mar da terra do Brazil mais frequentado em nossos tempos pelos Francezes, julgei não ser fóra de propozito fazer aqui particular sumaria descrição d’ele.

Sem pois deter-me sobre o que outros já escreveram, começo por dizer (tendo estado e navegado n’ele quazi um anno), que penetra no interior das terras, e tem quazi dôze legoas de comprimento, e em alguns lugares sete ou oito de largura; e quanto ao mais, embora as montanhas, que por todas as partes o rodeiam, não sejam tam altas como as que cercam o grande e espaçozo lago d’agua doce de Genebra, todavia a terra firme aproxima-se por todos os lados, e o torna por sua situação assás similhante a este.

§ 2. Quem deixa o mar grande, preciza costear trez pequenas ilhas dezabitadas, contra, as quaes os navios, si não sam bem dirigidos, correm grande perigo de bater e despedaçar-se, e a embocadura é bastante penoza.

Depois d’isto é precizo passar um estreito, que não xega a ter um quarto de legua de largura, e é limitado do lado esquerdo, ao entrar, por uma montanha e roxedo piramidal, que não é sómente de maravilhoza e excessiva altura, mas tambem, ao vel-a de longe, dir-se-ia, que é artificial; e com efeito por ser ela redonda, e similhante a uma grossa torre, nós os Francezes, por modo iperbolico, a denominavamos Pote de manteiga (Pot de beurre).

Pouco adiante subindo o rio, está um roxedo bastante razo, que pode ter 100 ou 120 passos de circunferencia, ao qual tambem denominavamos Ratier, sobre o qual Nicoláo de Villegagnon em sua xegada, depois de dezembarcar as suas alfaias e sua artilharia, pensou em fortificar-se; mas dahi o expelio o fluxo e o refluxo do mar.

Uma legoa adiante está a ilha, onde estacionavamos, a qual, como alhures mencionei, era dezabitada antes de Nicoláo de Villagagnon xegar n’esse paiz; mas como aliás não tinha sinão meia milha franceza de circuito, e era seis vezes mais comprida do que larga, cercada, como era, de pequenos roxedos á flor d’agua, que impedem os navios de aproximar-se mais perto do que o alcance do canhão, é naturalmente fortissima.

E com efeito ninguem pode n’ela atracar, ainda em pequenos barcos, sinão do lado do porto, o qual fica da parte oposta á entrada do mar alto; e si fosse bem guarnecida, não seria possivel forçal-a nem surpreendel-a, como depois do nosso regresso os Portuguezes o fizeram, por culpa dos que lá deixamos.

§ 3. Além d’isso nas extremidades d’ela estam dois montes, em cada um dos quaes Nicoláo de Villegagnon mandou fazer uma cazinhola assim como tambem mandára edificar a sua caza de rezidencia em uma pedra de 50 ou 60 pés de altura, que fica no meio da ilha.

De um e outro lado d’este roxedo, tinhamos aplainado e preparado pequenos espaços, nos quaes estavam construidos não só a sala, onde nos reuniamos para a predica e para a refeição, como tambem varias camaras, nas quaes nos alojavamos, e nos acommodavamos quazi 80 pessoas (incluzive a comitiva de Nicoláo de Villegagnon), que rezidiamos n’este lugar.

Notai porém, que á excéção da caza situada sobre o roxedo, na qual algum madeiramento existe, e de alguns baluartes, nos quaes estava posta a artilharia, e que sam revestidos de alvenaria, tudo o mais consiste em cazebres ou antes camarotes, e como foram os selvagens os architetos d’eles, por isso os construiram ao se modo, isto é, de madeiras toscas com a cobertura de ervas.

Eis em poucas palavras qual era o artificio do fortim, que Nicoláo de Villegagnon denominou Coligni, na França antartica, pensando fazer couza agradavel ao senhor Gaspar de Coligni, almirante de França, sem o favor e auxilio do qual, como eu dice em principio, ele jámais teria meios de fazer a viagem, nem de edificar fortaleza alguma no Brazil.

§ 4. Mas intentando ele assim perpertuar o nome d’este excelente varão, cuja memoria na verdade será para sempre onrada entre, os omens de bem, deixo ao criterio de todos avaliar, si Nicoláo de Villegagnon, além de rebelar-se contra a religião (com desprezo da promessa por ele feita antes de sair de França de estabelecer o puro serviço de Deos n’esse paiz), abandonando a praça aos Portuguezes, que agora sam possuidores d’ela, deo motivo para os seos triunfos, para onra do nome de Coligni, e para gloria do nome de França antartica dado a esse paiz.

Sobre tal assunto direi, que não cesso de admirar muito o procedimento de André Tevet no anno de 1558, quazi dois annos depois do seo regresso d’America; pois provavelmente para agradar ao rei Enrique Segundo, então reinante não só em uma carta, que mandou levantar d’esse rio Guanabara e do fortim de Coligni, fez pintar ao lado esquerdo d’ele, na terra firme, uma cidade a que xamou Ville-Henri, mas tambem a inclue na sua Cosmografia, embora depois tivesse muito tempo para pensar, que isso era pura zombaria.

Pois quando partimos d’essa terra do Brazil, mais de 18 mezes depois de André Tevet, sustento, que não existia fórma alguma de edificios e menos qualquer aldeia, nem cidade no sitio, onde ele nos forjou e assinalou uma cidade inteira fantastica.

Por isso ele mesmo incerto como ele devia proceder a respeito do nome, d’ esta cidade imaginaria, á maneira dos que disputam, si convém dizer barrete vermelho, ou vermelho barrete, tendo apelidado Ville-Henri na sua primeira carta, e Henriville na segunda, leva-nos a conjeturar, que tudo quanto ele dice não passa de imaginação e couza por ele suposta; de sorte que sem temor de equivoco póde o leitor escolher d’estes dois nomes o que quizer, e axará sempre a mesma couza, a saber, nada mais do que a pintura.

Assim concluo, que André Tevet desde então não só escarneceo do nome de rei Enrique Segundo, como fez Nicoláo de Villegagnon com o de Coligni dado ao fortim, mas tambem que com esta reiteração profanou a memoria do seo principe, quanto lhe foi possivel.

§ 5. E afim de prevenir quanto ele poderia alegar em contrario, negando formalmente que o lugar por ele inculcado não é o sitio denominado Briqueterie (olaria), no qual os nossos operarios construiram algumas xoupanas, confesso, que n’esse ponto existe uma montanha, a qual os Francezes, que primeiro ali se acomodaram, xamaram Mont-Henri, em lembrança do seo soberano senhor, assim, como em nosso tempo denominamos outra montanha Corguillerai, em razão do sobrenome de Filipe de Corguillerai, senhor Dupont, que nos conduzira além-mar; si porém tanta diferença existe de uma montanha para uma cidade, como realmente existe, entre um sino e uma igreja, segue-se que André Tevet, assinalando essa cidade Ville-Henri ou Henriville nas suas cartas, deslembrou-se, ou quiz exagerar a couza.

E para que ninguem pense, que falo diversamente da verdade, apelo novamente para todos aqueles que fizeram esta viagem; e até para a gente de Nicoláo de Villegagnon, muitos dos quaes ainda sam vivos, a saber, si avia aparencia de cidade, onde pretenderam situar aquela que eu despeço como as ficções dos poetas.

§ 6. Como André Tevet quiz sem cauza alguma, como fica dito no prefacio, escaramuçar com os meos companheiros e comigo, si ele axar esta especial refutação das suas obras sobre a America de dura digestão, e vir que, defendendo-me contra as suas calunias, lhe arrazei aqui uma cidade, saiba, que não estam notados todos os seos erros, os quaes bem me recordo, e os apontarei pelo miudo, si ele não se contentar com o pouco que menciono n’esta istoria.

Peza-me, que, interrompendo tantas vezes o meo assunto, seja ainda agora obrigado a fazer esta digressao; constituo porém os leitores por meos juizes, para decidirem em vista dos motivos sobreditos, si tenho razão ou não.

§ 7. Proseguirei pois no que resta escrever, tanto do nosso rio de Guanabara, como do que n’ele está situado.

Quatro oa cinco legoas adiante do fortim supramencionado, existe outra ilha formoza e fertil, com quazi seis legoas de circuito, a qual xamavamos Ilha-grande. E porque n’ela estam muitas aldeias abitadas por selvagens xamados Tapinambás, aliados dos Francezes, ordinariamente iamos em nossos escaleres ali buscar farinha e outras couzas necessárias.

Além d’esta existem n’este braço de mar outras pequenas ilhas dezabitadas, nas quaes entre outras couzas axam-se volumozas e mui saborozas ostras: os selvagens mergulham nas praias do mar e trazem grandes pedras, ao redor das quaes está, uma infimidade de pequenas ostras, a que xamam leripés, tam agarradas ou antes tam coladas ao calháo, que precizo é arrancal-as á força. Ordinariamente mandavamos cozinhar grandes paneladas d’estas ostras, em algumas das quaes, quando abriamos e comiamos, axavamos pequenas perolas.

§ 8. Este rio está xeio de varias especies de peixes, como adiante mais amplamente direi; convindo desde já menccionar excelentes sargos, tubarões, arraias, golfinhos e outros peixes medios e miudos, alguns dos quaes descreverei minuciosamente no capitulo dos peixes.

Não quero principalmente deixar de fazer aqui menção das orriveis e espantosas baleias as quaes mostrando-nos diariamente suas grandes barbatanas fóra d’agua, e folgando n’este vasto e profundo rio, aproximavam-se tanto da nossa ilha, que as podiamos alcançar com tiros de arcabuz.

Todavia, como têem o couro assás duro, e toucinho espesso, não creio, que as balas penetrassem a ponto de ofendel-as; e assim elas proseguiam em seo caminho, e por certo não morreriam.

§ 9 Emquanto estivemos além-mar, apareceo um d’estes cetaceos na distancia de 10 ou 15 legoas do nosso fortim, na direção de Cabo-frio, e aproximou-se tanto da terra que não teve bastante agua para voltar ao alto mar, encalhou e ficou em seco na praia.

Mas ninguem animava-se a aproximar-se da baleia antes de a verem morta; e emquanto debatia-se, não só fazia estremecer a terra ao redor d’ela, mas tambem ouvia-se o arruido e estrondo por mais de duas legoas ao longo da costa.

Não obstante muitos selvagens e muitos dos nossos companheiros irem ali e trazerem quanto lhes aprouve, ainda assim ficaram mais de dois terços do cetaceo, que se perderam e apodreceram no lugar do encalhamento.

A carne fresca não era muito boa, e pouco comemos da que trouxeram para a nossa ilha; e afóra alguns pedaços de gordura, que derretiamos para nos servirmos do azeite, que que produzia, para alumiar-nos de noite, deixamos a carne restante em pilhas exposta á xuva e ao vento, e a consideramos apenas como esterco. Todavia a lingua, que era a melhor couza, foi salgada em barris e mandada para a França ao senhor almirante.

§ 10. Finalmente (como já indiquei) na terra firme circunvizinha d’este braço de mar existem na extremidade e no fundo mais dois formozos rios d’agua doce, afluentes d’ele, nos quaes naveguei com outros Francezes em bateis perto de 20 legoas pelo interior das terras, e estive em muitas aldeias entre os selvagens, que os abitam de um e outro lado.

§ 11. Eis abreviadamente o que observei neste rio de Geneure ou Guanabara, da perda do qual e do fortim, que edificáramos, tanto mais me lastimo, quanto é certo, que, si tudo fosse bem acautelado, como podia sel-o, constituiria não só bom e aprazivel abrigo, mas tambem, grande comodidade da navegação n’esse paiz para todos os viajantes da nossa nação franceza.

Em distancia de 28 ou 30 legoas para adiante, no rumo do Rio da Prata e do estreito de Magalhães, existe outro grande braço de mar, a que os Francezes xamam rio de Vases (lama), no qual aportam, quando viajam n’esse paiz; o que tambem fazem na enseada de Cabo-frio, na qual, como já dice, aportamos e dezembarcamos primeiramente na terra do Brazil.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de História de uma viagem feita à terra do Brasil

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral História de uma viagem feita à terra do Brasil Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capa de História de uma viagem feita à terra do Brasil
Continue a leitura Capítulo VII — Descrição do rio Guanabara, tambem denominado Geneure, na America, da ilha e do fortim de Coligni, que n’ela foi edificado, e juntamente das outras ilhas circumvizinhas Capítulo 8 · 8 de 24 · ≈ 11 min
Todos os capítulos 24 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir