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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 5 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo IV — Equador ou linha equinocial, e tambem tempestades, inconstancia dos ventos, calôres, sêde e outros incomodos, que tivemos e passamos nas vizinhanças e sob a mesma linha

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§ 1. Para voltar á nossa navegação direi, que, faltando-nos bom vento aos 3 ou 4 gráos áquem do equador, tivemos então não só tempo muito máo, e entremeado de xuvas e calmaria, mas tambem dificil e mui perigoza navegação nas proximidades da linha equinocial, e ahi observei, que, por cauza da inconstancia dos diversos ventos que sopram conjuntamente, não obstante andarem os nossos trez navios mui perto uns dos outros, não podiam os diretores do rumo e do leme serrar marxa uniforme e cada navio era impelido por vento diferente; de tal sorte que, como em um triângulo, um ia para léste, outro para o norte, e outro para o oéste.

Verdade é, que isso não durava muito, pois subtamente levantavam-se tufões, a que os marinheiros da Normandia xamam grains (borrasca), os quaes depois de nos esbarrarem algumas vezes completamente, de repente davam com tal violencia sobre as nossas velas, que maravilha não nos virarem cem vezes os mastros para baixo e a quilha para cima, isto é, revolverem tudo ás avessas.

§ 2. Além d’isso a xuva. debaixo e nas vizinhanças d’esta linha não só fétida xeira mal, mas tambem é tam contagioza, que, si cáe nas carnes de alguem, levanta pustulas e grossas empôlas, e até manxa e estraga as roupas.

Ainda mais: o sol é ardentissimo, e além dos fortes calores, que, padecíamos, ainda sucedia não termos fora das duas parcas comidas, agua doce nem outra bebida com suficiencia; por isso eramos tam cruelmente vexados pela sêde, que por minha parte, e por têl-a experimentado, faltou-me quazi o folego e a. respiração, e perdi a falta por espaço de mais de uma ora. E eis por que em taes necessidades n’essas longas vagens os marinheiros ordinariamente dezejam, como suprema ventura, ver o mar convertido em agua doce.

§ 3. Si alguem, para não imitar a Tantalo morrendo de sêde no meio d’agua, perguntar si não seria possivel em tal extremidade beber ou pelo menos refrescar a boca com agua do mar, responderei a quem inculcar a receita de fazel-a coar em cêra, ou destilal-a por outra qualquer fórma (acrecendo que os abalos e movimentos de navios flutuantes no mar não permitem fazer fornos, nem prezervar as garrafas de quebrarem-se), que a questão não é delibar e menos engolir; salvo si querem lançar as tripas e os intestinos logo depois de a ingerir no estomago.

Todavia quando a vemos em vidro, ela é tão clara, pura e limpida esteriormente, como nenhuma agua de fonte nem de róxa o será.

E alèm d’isso (couza que admiro, e entrego á disputa dos filozofos), si meteis n’agua do mar toucinho, ou outras carnes e peixes por mais salgados que sejam, perderão o sal melhormente e mais depressa do que se consiguirá n’agua doce.

§ 4. Ora, proseguirei no meo assunto dizendo, que o cumulo da nossa aflição nessas zona ardente foi tal, que, por cauza das grandes e continuas xuvas, que tinham penetrado até os paióes, estragou-se e mofou a nossa bolaxa; e como cada um de nós tinha mui pouca munição, e eramos obrigados não só a comel-a apodrecida, mas tambem não esperdiçal-a, sob pena de perecer á fome, engoliamos os vermes (que constituiam metade da ração) fazendo de tudo migalhas ou bolas.

Além d’isso a nossa aguada estava tam corrompida, e por isso tam xeia de bixos, que, tirada a agua das vazilhas, onde estava depozitada a bordo, não avia quem a não repugnasse; mas o que era muito peior era, que, quando a bebiamos, precizavamos ter a taça em uma das mãos, e tapar o nariz com a outra.

§ 5. O que porém direis vós, delicados senhores, que quando vos molesta o calor, depois de mudar a camiza e ter-vos penteado bem, tanto apreciaes repouzar em elegante sala fresca, sentido em boa cadeira, ou em leito macio, e que tambem não sabeis tomar a vossa refeição, si acazo não estiverem a louça bem luzidia, os copos bem enxaguados, os guardanapos brancos como a neve, o pão limpo da codea, a carne, por mais delicada que seja, bem preparada e servida, e o vinho ou outra qualquer bebida limpida como esmeralda? Querereis embarcar para viver por tal maneira?

Como não vol-o aconselho, e menos dezejos ainda tereis, quando ouvirdes o que nos aconteceo no regresso d’America, por isso eu vos pediria, que, quando se falasse de mar e sobretudo de taes viagens, não conhecendo vós as couzas sinão pelos livros, ou o que ainda peior é, tendo sómente ouvido falar aqueles que nunca as experimentaram, não vendaes os vossos cacaréos (como geralmente se diz) aos devotos de São Miguel, isto é, que n’este ponto vos demoreis um pouco, e deixeis discorrer aqueles que padeceram taes trabalhos e têem pratica das couzas, as quaes, a falar verdade, não se podem bem insinuar no cerebro nem no entendimento dos omens, sem que eles (como diz o proverbio) comam pão amassado pelo rabo do demo.

§ 6. Ao que acrecentarei tanto sobre o primeiro assunto, em que toquei relativamente á variedade dos ventos, tempestades, xuvas, insétos, calores, como relativamente ao que em geral se vê no mar, principalmente sob o equador, que vi um dos nossos pilotos xamado de João de Meun, de Onfleur, o qual embora não soubesse A nem B, tinha-se todavia, por longa experiencia de suas cartas, do astrolabio, e da balestilha, aperfeiçoado tanto n’arte da navegação, que em qualquer momento, e especialmente durante as tormentas, faria calar um douto personagem (que não nomearei), o qual no nosso navio em tempo calmo triunfava no ensino da teoria.

Não se julgue por isso, que eu condene, ou queira de qualquer modo censurar as siencias, que se adquirem e aprendem nas escolas e pelo estudo dos livros; não é esta sem sujeitar-me a minha intenção; pedirei porém, sem sugeitar-me á opinião de outrem, que jamais se me alegue razão contra a experiência. Peço pois aos leitores, que me tolerem, si, recordando-me do nosso pão podre e das nossas aguas fétidas, e tambem dos outros incomodos, por que passamos, e comparando isto com a opipara meza d’esses grãos senhores, tenho-me um pouco exacerbado contra eles na prezente digressão.

§ 7. Por cauza das sobreditas dificuldades, e pelas razões adiante mais amplamente espostas, muitos navegantes, depois de consumirem todos os viveres n’essas paragens, isto é, na zona torrida, sem poderem ultrapassar o equador, viram-se forçados a arribar e regressar do ponto, a que tinham xegado.

Quanto a nós, depois da mizeria já relatada, parámos, volteámos e retrocedêmos por espaço de sete semanas nas adjacencias d’essa linha; finalmente pouco a pouco d’ela nos aproximámos, e quiz Deos, a nossos rogos, mandar-nos vento de nordeste, e no quarto dia de Fevereiro investimos sobre ela.

§ 8. Esta linha denomina-se equinocial, não so por que em todos os tempos e estações os dias e as noites sam sempre iguaes, mas tambem por que, quando o sol está sobre ela, o que acontece duas vezes no anno, a saber, a 11 de Março e a 13 de Setembro[1] os dias e as noites sam tambem iguaes em todo o mundo; de tal sorte que os abitantes dos dois pólos artico e antartico somente n’estes dois dias do anno partecipam do dia e da noite, e logo no seguinte dia uns e outros (cada um por sua vez) perdem o sol de vista por meio anno.

N’este sobredito dia pois, 4 de Fevereiro, em que passamos pelo centro, ou antes cintura do mundo, os marinheiros praticaram as ceremonias por eles costumadas em tam dificil e perigoza passagem.

Para lembrança dos que nunca passaram o equador, os amarram com cordas e mergulham no mar, ou com trapos passados no fundo das caldeiras lhes tisnam e sujam o rosto, si o paciente não se resgata e livra-se d’isso, como eu fiz, pagando-lhes o vinho.

§ 9. Assim sem interrupção singramos com bom vento nordeste até 4 gráos alem da linha equinocial. Dahi começamos a ver o pólo antartico, que os marinheiros da Normandia xamam estrêla do sul, perto da qual, como então observei, estam outras estrelas em cruz, a que xamam cruzeiro do sul.

Provavelmente por isso alguem já escreveo, que os primeiros navegantes, que em nossos tempos fizeram esta viagem, referia, que perto d’este pólo antartico ao sul, avista-se quazi sempre uma nubecula branca e quatro estrelas em cruz com mais trez, que se assimilham ao nosso setentrião.

Ora, muito tempo já avia, que tinhamos perdido de vista o pólo antartico; e aqui direi de passagem, que, não so, conforme alguns pensam (e parece tambem provar-se pela esfera) não podemos ver os dois pólos, quando estamos debaixo do equador, mas tambem não podemos ver nem um, nem outro, e e precizo estar afastado quazi 2 gráos do lado do norte do sul para ver o artico ou o antartico.

§ 10. No decimo terceiro dia do dito mez de Fevereiro, quando o tempo estava limpo e claro, depois de terem os nossos pilotos e mestres de navio tomado altura com o astrolabio, asseguraram-nos, que tinhamos o sol no zenit, e a zona tam réta e diréta sobre a cabeça que mais não podia ser.

E de fato, embora por experiência colocassemos no convés punhaes, facas, ponteiros e outros objétos, os raios solares davam por tal sorte a prumo, que n’esse dia, principalmente ao meio-dia, não vimos sombra alguma em nosso navio.

Quando xegamos aos 12 gráos, tivemos tormenta, que durou por trez ou quatro dias. E depois d’isto (caindo no extremo oposto) o mar ficou tam manso e calmo, que durante esse tempo os nossos pareciam fixos n’agua; e si o vento se não levantasse para nos fazer passar alem, nunca nos abalariamos dali.

§ 11. Ora, em toda a nossa viagem não tinhamos ainda visto balêias; mas n’essas paragens não so vimos balêias, como as tivemos assás perto para bem observal-as, e apareceo-nos uma, que, surgindo perto do nosso navio, cauzou-me tamanho susto, que realmente emquanto a não vi demover-se, pensei ser um roxedo, contra o qual o nosso navio ia bater e despedaçar-se.

Observei, que quando ela quiz mergulhar, levantou levantou a cabeça fóra d’agua, e lançou o ar pela boca mas de duas pipas d’agua; depois sumio-se, e fez tal e tam medonho redemoinho, que novamente temi, que, arrastados após ela, nos submergissemos n’essa voragem. E na verdade (como nos Salmos e em Job se diz) é um orror ver esses monstros marinhos folgar a belprazer n’essa imensidão das aguas.

§ 12. Vimos tambem golfinhos, que, acompanhados por varias especies de peixes, todos dispostos e ordenados como uma companhia de soldados em seguimento do seo capitão, pareciam de eôr avermelhada dentro d’agua, e um ali esteve, que por seis ou sete vez, como si nos quizesse comprazer e agradar, girou e volteou ao redor do nosso navio.

Em compensação d’isso fizermos toda a diligencia para apanhal-o; mas ele, fazendo déstra retirada com o seo regimento, impedio-nos de o aprezar.

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Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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