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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 17 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo XVI — O que podemos xamar religião entre os selvagens Americanos erros em que os mantêem certos trapaceiros, que entre eles vivem, xamados carahibas; grande ignorancia de Deos, em que andam mergulhados

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§ 1. Embora a sentença de Cicero, a saber, que não existe povo tam bruto, nem nação tam barbara e selvagem, que não tenha idéa da existencia de alguma divindade, seja aceita e recebida por todos como maxima indubitavel todavia quando atentamente considero nos nossos Tupinambás da America, vejo-me algo embaraçado na aplicação d’essa maxima a similhante gente.

Pois além de não terem conhecimento algum do unico e verdadeiro Deos, sam taes, que não confessam, nem adoram deozes celestiaes nem terrestres, nada obstante o costume de todos os antigos pagões, a pluralidade de deozes e a respeito da opinião dos idólatras de oje, incluzive os indios do Perú, terra firme e distante quazi 500 legoas, sacrifidores ao sol e á lua.

Não têem ritual, nem lugar determinado de reunião para praticar qualquer serviço ordinario, por isso não oram em fórma religioza em publico ou em particular por cousa alguma.

Ignorantes da creação do mundo, não distingem os dias por denominações, nen fazem diferença entre uns e outros, bem como não contam semana, mezes, nem annos; apenas calculam o assinalam o tempo por luas.

§ 2. Quanto á escritura, quer santa quer profana, não só desconhecem o que ela seja, mas não possuem caracteres para significar couza alguma; o que ainda maior importancia tem.

Quando xeguei ao seo paiz, e comecei a aprender a sua linguagem, escrevia algumas sentenças, e depois as lia em prezença d’eles. Julgavam ser isso feitiçaria, e diziam uns aos outros: - Não é maravilha, que quem ontem não sabia dizer uma só palavra em nosso idioma, seja agora entendido por nós em virtude d’esse papel, que tem, e o faz falar assim?

Esta opinião é a mesma dos selvagens da ilha Espaniola, que foram os primeiros a emitil-a; pois o autor da istoria d’estes insulares diz, que os indios, conhecendo que os Espanhoes, sem se verem nem falarem, e apenas mandando cartas de um a outro lugar, entendiam-se, acreditavam ou que os Espanhóes tinham o don da proficia, ou que as missivas falavam, e acreceuta o mesmo autor: - De maneira que os selvagens, temerozos de serem descobertos e surpreendidos em qualquer falta, continham-se no dever, e não ouzavam mais mentir nem furtar ao Espanhoes.

Portanto digo, que, para quem quizesse aqui amplificar esta materia, aprezenta-se bonito assunto tanto para louvar e exaltar a arte da escritura, como para mostrar quanto as nações, que abitam essas trez partes do mundo, Europa, Azia e Africa, devem louvar a Deos pela superioridade sobre os selvagens d’esta quarta parte xamada America; pois quando estes não podem comunicar couza alguma sinão por via da palavra, nós ao contrario temos a vantagem de não mover-nos de um logar, e podermos por meio da escritura e das letras, que enviamos, declarar os nossos segredos a quantas pessoas nos apraz, embora estejam estas mesmas pessoas nas extremidades do mundo.

Assim além das siencias que aprendemos nos livros, que os selvagens certamente não possuem, acontece ainda, que a invenção da escritura, que nós temos, e de que eles estam inteiramente privados, deve ser posta na ordem dos singulares dons, que os omens de cá, receberam de Deos.

§ 3. Para voltar agora aos nossos Tupinambás, prosseguirei dizendo, que quando conversavamos com taes selvagens, e vinha a couza a propozito, lhe diziamos, que accreditavamos em um só Deos soberano, creador do mundo, o qual fez o céo e a terra com todas as couzas n’ele contidas, governa e tambem dispõe de tudo como lhe apraz.

Quando nos ouviam recordar esse artigo, olhavam uns para os outros, empregando esta intergeição de espanto: - Teh! que lhes é abitual, e significava a sua admiração.

Quando ouvem o trovão, a que xamam Tupan[82], ficam muito assustados, como adiante mais extensamente direi, e por isso de acordo com a sua rudeza aproveitamo a ocazião para dizer-lhes, que era Deos, de que lhe falavamos quem assim fazia tremer o ceo e a terra para mostrar a sua grandeza e poder.

A sua pronta resposta a isto era, que, si ele assim os intimidava, então não valia nada.

Eis aqui o deploravel estado, em que vive essa mizera gente.

Como então (dirá alguem) pode suceder, que esses Americanos vivam quaes brutos animaes, sem religião alguma?

Certamente pouco diferem do bruto, como já dice, e penso, que na terra não existe nação alguma, que mais afastada viva de qualquer idéa relizioza.

Entretanto em materia, começo por declarar, que reconheci, que alguma luz ainda lhes restava, no meio das espessas trevas da ignorancia, em que se conservam, e digo antes de tudo, que não so crêem na imortalidade da alma, mas tambem firmemente acreditam, que, depois da morte dos corpos, as almas que viveram virtuozameute, isto é, na conformidade das idéas barbaras, que vingaram-se bem, e comeram muitos inimigos, vam para além de altas montanhas, onde dansam em formozos jardins com as almas dos seos avós (sam os campos Elizeos dos poetas); ao contrario as almas dos cobardes, e das pessoas somenas, que não se importaram da defensão da patria, vam com Anhanga[83], nome dado ao diabo na sua linguagem, pelo qual, dizem, sam constantemente atormentadas.

§ 4. A este respeito cumpre notar, que essa pobre gente, durante a vida, é afligida por esse espirito maligno, a que tambem xamam kaegerre, e quando nos falavam, como muitas vezes prezenciei, sentindo-se atormentados e clamando subitamente como enraivados, diziam: - Ah! defendei-nos de Anhanga, que nos espanca.” E diziam, que realmente o viam, ora em forma de quadrudede, ora, de ave, ora de qualquer outra estranha figura.

Admiravam-se muito, quando lhes diziamos, que não eramos assaltados pelo espirito máo, e que essa izenção vinha do Deos, de quem tanto lhes falavamos, o qual, por ser sem comparação muito mais forte do que Anhanga, prohibia, que este nos molestasse e nos fizesse mal; por isso acontecia algumas vezes, que eles, sentindo-se vexados, prometiam crer na divindade como nós, mas conforme o provérbio que diz, que passado o perigo, zomba-se do santo, apenas viam-se livres, não recordavam-se mais das promessas.

Entretanto para mostrar, que o alegado sofrimento não é brinco infantil, como se diz, eu muitas vezes, os vi por tal modo apreensivos d’essa furia infernal, que quando se recordavam do que já tinham padecido, batendo com as mãos nas coxas e em estado de verdadeira aflição, com suores na fronte, queixando-se a mim ou a qualquer outra pessoa da mossa comitiva, diziam: - Mair atu-assap, acequeiei anhanga atupané[84], isto é, Francez meo amigo, (ou meo perfeito aliado) temo diabo (ou o espirito maligno) mais do que tudo.

Si porventura aquele a quem se dirigiam lhes dizia: - Nacequeiei Anhanga, isto é, eu não o temo, eles deplorando a sua condição respondiam: - Ah! quão felizes seriamos, si fossemos prezervados do mal como vós.” Ao que replicavamos: - É precizo confiar como nós n’aquele que é mais forte e mais poderozo do que o diabo.

Mas embora algumas vezes, vendo o mal proximo ou já realizado, protestassem crêr, tudo isso depois se lhes varria da lembrança, como já dice.

§ 5. Ora, antes de passar adiante, acrecentarei em referencia ao assunto da crença dos nossos Brazilienses americanos sobre a alma imortal, que o istoriador das Indias ocidentaes diz, que os selvagens da cidade de Cusco, capital do Perú, e os das circumvizinhanças professam igualmente a imortalidade da alma, e o que mais é, creem na resurreição dos corpos, não obstante a maxima sempre aceita geralmente pelos teologos, a saber, que todos os filozofos pagãos, e outros gentios barbaros tinham ignorado e negado a resurreição da carne. E eis o exemplo por ele citado.

Os indios (diz ele) vendo que os Espanhoes, quando abriam os sepulcros para apossar-se do ouro e das riquezas ali existentes, atiravam para aqui e para ali os ossos dos mortos, pediam que os não espalhassem assim, afim de que isto os não impedisse de resuscitar; pois (acrecenta, falando dos selvagens d’esse paiz) crêem na resurreição dos corpos e na imortalidade da alma.

Outro autor profano tambem afirma, que, em tempos idos certa nação pagan acreditava n’este artigo, e exprime-se d’este modo: - Depois que Julio Cezar venceo Ariovisto e os Germanos, que eram omens extraordinariamente grandes e mui valorozos, eles investiam intrepidamente, e não temiam a morte, esperando resucitar.

Isto quiz eu expressamente narrar aqui, afim de que entendam todos, que, si os mais endiabrados atêos, de que a nossa terra agora está coberta, têem de comum com os Tupinambés o quererem fazer crer, aliás de modo mais estranho e bestial do que os selvagens, que não existe Deos; ao menos estes lhes ensinam que existem diabos para atormentar, ainda cá n’este mundo, aos que negam Deos e o seo poder.

§ 6. Si replicarem, que não existem outros diabos além dos máos afectos dos omens, como alguns pretenderam sustentar, e que portanto é loucura persuadirem-se os selvagens de couzas fantasticas, eu responderei, que, si atendermos ao que já dice, e é mui verdade, a saber, que os Americanos sam real e vizivelmente atormentados pelos espiritos malignos, facil será julgar com quanto dezacerto é isto atribuido ás paixões umanas; pois por mais violentas que estas sejam, como afligiriam os omens d’este modo?

Deixo de falar da experiencia, que temos por cá d’essas couzas; e si não fosse lançar perolas aos porcos, que agora repilo, poderia alegar o que dice o Evangelho de tantos endemoniados, que foram curados pelo filho de Deos.

Demais como esses atêos negam todos os principios, e sam por isso indignos de se lhes alegar o que as Escrituras santas tam magnificamente dizem da imortalidade da alma, eu ainda lhes anteporei os nossos pobres Brazilienses, os quaes na sua cegueira ensinam, que no omem não só existe um espirito, que não morre com o corpo, mas tambem que, separado d’este, fica sugeito á felicidade ou infelicidade perpetua.

E quanto ao terceiro ponto relativo a ressurreição da carne, bem que esses cães se capacitem, que, quando o corpo morre, jamais se levanta, eu lhes oponho os indios do Perú; os quaes no meio da sua falsa religião, sem terem aliás outro criterio, além do senso natural para desmentir estes entes execrandos, erguer-se-ão como juizes contra eles.

E porque, como já dice, sam peiores do que os proprios diabos, os quaes, conforme diz Santo Iago, crêem na existencia de um Deos, e o temem, faço-lhes ainda mui grande onra em dar-lhes esses barbaros por doutores. Sem falar mais por ora de tam abominaveis creaturas, eu as envio diretamente ao inferno, onde colheráõ o fruto dos seos monstruozos erros.

§ 7. Assim para voltar ao meo objéto principal, que é proseguir no que podemos xamar religião entre os selvagens da America, digo antes de tudo, que, si bem examinarmos o assunto, veremos, que, em vez de ficarem tranquilos os selvicolas, quando ouvem o trovão, sam por irrezistivel potencia constrangidos a tremer; e daqui poderemos coligir, que não só verifica-se n’eles a sentença de Cicero, por mim já citada, afirmando não existir povo algum falto da noção da existencia da divindade, mas tambem que o temor d’aquele a quem não querem conhecer os torna completamente inescuzaveis.

Quando o apostolo disse, que Deos, permitindo outr’ora aos gentios diversas vias, beneficiando entretanto a todos com a xuva do céo, e dando fertilizadoras estações, nunca ficára sem testimunho, isto assás demonstra, que, si os omens não conhecem o seo creador, procede o fato da sua propria malicia.

E para mais os convencer diz em outro lugar, que aquilo que é invizivel em Deos, vê-se na creação do mundo.

Embora os nossos Americanos o não confessem de boca, sucede todavia estarem por si mesmos convencidos da existencia de alguma divindade; por tanto concluo, que não serão escuzados do pecado, quando não podem alegar ignorancia.

Além do que já dice acerca da imortalidade da alma, em que acreditam, do trovão, com que se aterram, e dos diabos e espiritos malignos, que os espancam e atormentam (que sam os trez pontos, que cumpre antes de tudo notar) mostrarei ainda em quarto lugar como esta semente de religião (si todavia as praticas dos selvagens merecem este titulo) brota e não póde extinguir-se n’eles, não obstante as obscuras trevas em que vivem submersos.

§ 8. Proseguindo n’esta materia cumpre saber, que os selvagens admitem certos falsos profetas xamados carahibas, os quaes, andam de aldeia em aldeia, como os tiradores de ladainha no papado, e fazem crer, que, comunicam-se com os espiritos, e que por esse meio não só podem dar força a quem lhes apraz, como vencer e supnatar os inimigos, quando vam á guerra; igualmente persuadem terem a virtude de fazer crecer e engrossar as raizes e os frutos, que a terra do Brazil produz, como alhures já dice.

Ouvi trugimões da Normandia por muito tempo rezidentes n’esse paiz dizerem que os nossos Tupinambás costumam reunir-se com grande solenidade de trez em trez ou de quatro em quatro annos, e como axei-me em uma d’essas reuniões, sem o pensar, como vereis, eis o que com verdade posso dizer.

Em ocazião em que eu o outro Francez xamado Tiago, Roussau, com um trugimão, percorriamos essa paiz, dormimos em certa noite n’uma aldeia xamada Cotina, e quando pela madrugada seguiamos caminho, vimos os selvagens dos sitios vizinhos xegarem de todas as partes, com os quaes os moradores d’esta aldeia, saindo de suas cazas, ajuntaram-se e foram imediatamente para uma grande praça reunidos em numero de 500 ou 600.

Paramos então, e voltamos para saber com que fim reunia-se esta assembléa, quando vimos os selvicolas de subito separarem-se em trez bandos, a saber, todos os omens ficaram em uma caza, as mulheres em outra, e os meninos em outra.

E como vi dez ou doze dos taes senhores carahibas, que estavam entre os omens, suspeitei, que fariam alguma couza extraordinaria, e pedi instantemente aos meos companheiros para demorar-nos ali a fim de vermos esse misterio; no que consentiram.

§ 9. Os carahibas, antes de separarem-se das mulheres e meninos, prohibiram-lhes severamente, que nao saissem das cazas, para onde iam, devendo de lá escutar atentamente, quando os ouvissem cantar, e tambem ordenaram, que nos conservassemos encerrados no apozento, em que estavam as mulheres.

Quando almoçavamos, sem sabermos ainda o que, pretendiam os selvagens fazer, começamos a ouvir na caza, onde estavam os omens (a qual não distava talvez trinta passos d’aquela em que estavamos) um surdo murmurio, como recitação de rezas devotas; o que ouvido pelas mulheres, que eram em numero de quazi 200, puzeram-se todas de pé, e atentas ajuntaram-se em um só feixe.

Depois os omens pouco a pouco levantaram a voz, e mui distintamente os ouvimos cantar todos reunidos, e repetir esta intergeição de encorajamento: - Hê, hê, hê, hê. Ficamos espantados quando as mulheres, respondendo do seo lado com voz tremula, e repetindo esta mesma intergeição: - Hê, hê, hê, hê, começaram a gritar por espaço de mais de um quarto d’ora, de tal modo que não sabianos o que fizessemos.

Elas assim urravam, saltavam com grande violência, agitavam as mamas e escumavam pela boca, e algumas cahiam desmaiadas como os pacientes da gota coral; por isso não posso deixar de crer, que o diabo lhes entrasse no corpo, e elas de repente se tornassem possessas.

Tambem viamos os meninos agitados e torturados da mesma fórma no apozento, em que estavam separados, e que ficava mui perto de nós; e embora por mais de seis mezes já eu frequentasse os selvagens, e já estivesse um tanto acostumado no meio d’eles, direi sem desfarçar couza alguma, que tive medo, e ignorando o exito do estranho cazo, dezejei antes axar-me no nosso fortim.

§ l0. Cessando o ruido e urros con fuzos, os omens fizeram pequena pauza, e ficando então as mulheres e meninos todos calados, e quietos, os ouvimos de novo cantar, resoando vozes com tão marivilhoza armonia, que, já acalmado do susto e ouvindo sons doces e graciozos, não me devem perguntar, si dezejei ver tudo de perto.

Quando porém quiz sair para aproximar-me, não só as mulheres me obstaram, mas tambem o nosso trugimão dice, que vivia n’esse paiz por seis ou sete annos, e nunca, se atrevera a estar no meio dos selvagens por ocazião d’estas festas; acrecentando que, si eu ali fosse, não obraria prudentemente, pois correria perigo.

Ezitei por um momento; todavia como interrogado o trugimão não me dava razão suficiente do seo dito, e eu confiava na amizade dos bons velhos moradores da aldeia, na qual eu anteriormente estivera por quatro ou cinco vezes, arrisquei-me a sair, parte por força, parte por vontade.

Aproximei-me pois do lugar, donde eu ouvia a cantilena: e como acontece serem as cazas dos selvagens mui compridas, arredondadas na parte superior como as latadas dos nossos jardins, e cobertas de ramos, cujas pontas tocam no sólo, abri com as mãos um buraco na coberta para ver a couza á minha vontade.

Fazendo isto, dei sinal com o dedo aos dois Francezes, que me observavam; e eles, com o meo exemplo, animaram-se, aproximaram-se sem embaraço nem dificuldade, e todos nós trez entramos na caza.

Vendo pois que os selvagens (em contrario do que pensava o trugimão) não se espantavam comnosco, antes conservavam os respectivos lugares e ordem de modo admiravel, e continuavam com as suas cantarias, acomodamos-nos mui bem em um lado da caza e os contemplamos com toda a satisfação.

§ 11. Quando acima falei das suas dansas nas ocaziões de beberronias e cauinagens, prometi mencionar tambem outra maneira de dansarem, afim de melhormente retratar os selvagens; e eis aqui o entono, gestos e garbo, que aprezentam.

Unidos uns aos outros, soltas as mãos, fixos no mesmo lugar, formados em roda, curvados para a frente, suspendendo algum tanto o corpo, movendo sómente a perna e o pé direito, tendo cada um a mão direita nos quadris e o braço e a mão esquerda pendentes, assim cantavam e dansavam.

Em razão do numero das pessoas, formavam trez rodas, no meio de cada uma das quaes estavam trez ou quatro dos taes carahibas, ricamente adornados de roupas, carapuças e braceletes feitos de lindas penas naturaes, novas e de diversas côres; tinham em cada mão um maracá, que faziam resoar em todo aquele ambito. Estes maracás sam campainhas feitas de certo fruto, maior do que o ovo do avestruz, e destinadas a esse uzo.

Não poderei dar melhor idéa dos taes carahibas no estado em que então se axavam do que comparando-os com esses esmoleres devotos, tocadores de guizos, que enganam a nossa pobre gente, e andam de lugar em lugar com relicarios de Santo Antonio e São Bernardo e outros similhantes instrumentos de idolatria.

Além da prezente descrição, quiz dar idéa da couza, aprezentando o seguinte dezenho[85] do dansarino tocador de maracá.

Os carahibas, avançando e saltando para diante e depois recuando para traz, não se mantinham sempre no mesmo lugar, como faziam os outros assistentes; e observei, que eles muitas vezes tomavam uma vara de madeira, do comprimento de quatro ou cinco pés, na extretremidade da qual avia certa porção de erva petun, já mencionada em outra parte, seca e aceza, voltava-se para todos os lados, e soprando a fumaça sobre os outros selvagens, dizia: - Para que vençaes os vossos inimigos, recebei o espirito da força.

E isto repetiram por muitas vezes os autuciozos carahibas.

§ 12. Ora estas ceremonias duraram perto de duas óras, e esses 500 ou 600 omens selvagens nunca cessaram de dansar e cantar, avendo tal melodia, que aqueles que os não ouviram não creriam jamais, que eles combinassem tam perfeito acôrdo, visto não saberem muzica.

E com efeito no começo d’esta algazarra, estando eu, na caza das mulheres, como dice, sofri algum susto; mas então tive em compensação tanta alegria, que fiquei absorto, ouvindo acordãos tam armonicos de tamanha multidão, sobre tudo pela cadencia do estribilho da balata, cin cada copla da qual todos, prolongando a voz, diziam: Heu, heuaú, heura, heuraura, heur, heura, ouêh. Quando d’isso me recordo, palpita-me o coração, e parece-me ainda estar ouvindo tudo.

Quando quizeram terminar, bateram com o pé direito no xão com mais força, e depois de cada um cuspir para a frente, todos unanimemente, com voz rouca, pronunciaram duas ou trez vezes: - Hê, hua, hua, hua. E assim findaram.

§ 13. E como então eu ainda não entendia bem a linguagem dos selvagens, e tinham eles dito muitas couzas, que eu não comprehendêra, pedi ao trugimão para me as esclarecer.

Dice-me, que primeiramente insistiram muito em lamentar os seos avós mortos, celebrados como valentes; mas por fim consolavam-se; porque depois da morte esperavam ir ter com os finados além de altas montanhas, onde dansariam e se regozijariam no meio d’esses seos avoengos.

Tinham depois ameaçado, que, a todo o trance, como afiançavam os seos carahibas, prenderiam e comeriam os Goitacazes[86], nação inimiga, e selvagens tam valentes, que os Tupinambás nunca os puderam submeter, como atraz fica dito.

Finalmente tinham em suas canções intrometido e celebrado, que as aguas em certa época tinham trasbordado por tal fórma, que cobriram toda a terra, afogando todos os omens do mundo excéto os seos avós, que salvaram-se nas mais altas arvores do seo paiz: e este ultimo ponto, que entre eles é a couza que mais os aproxima da Escritura Santa, muitas vezes depois os ouvi repetir.

Com efeito verosimil é, que de paes a filhos ouvissem contar alguma couza do diluvio universal e do tempo de Noé, e tinham corrompido e transformado a verdade em mentira, como costumam os omens; acrecendo que, privados de toda a especie de escritura, como acima vimos, lhes é dificil conservar a noticia das couzas com toda a pureza; por isso adicionaram essa fabula, como fazem os poetas, de se terem seos avós salvado nas arvores.

§ 14. Voltando aos nossos carahibas, cabe dizer, que n’esse dia foram bem recebidos por todos os selvagens, que os trataram magnificamente com as melhores viandas que tinham, sem esqecer-se de fazel-os, na forma costumada, beber e cauinar, e tambam eu e dois Francezes, meos companheiros, que inopinadamente axamos-nos n’esta confraria de bacanaes como já dice, tivemos por essa cauza boa xira com os nossos mussacás[87], isto é, bons paes de familia, que dam comida aos passageiros.

Além de tudo quanto acima fica exposto, convém dizer, que, passados os dias solenes, nos quaes os nossos Tupinambás de trez em trez annos; ou de quatro em quatro annos e algumas vezes depois de maior espaço praticam essas macaquices os carahibas vam de aldeia em aldeia, e enfeitam com as mais bonitas penas, que encontram em cada familia, trez ou quatro bagatelas xamadas maracás, ou quantas bem lhes parece. Assim adornados os maracás, infincam no vão a parte maior do páo que os atravessa, os dispõem em linha no meio das cazas, e ordenam depois, que lhes dêem comida e bebida.

De sorte que esses embusteiros fazem crer aos outros pobres idiotas, que esses frutos, especies de cabaça, assim cavadas. Enfeitadas e consagradas comem e bebem de noite; e como cada dono de caza acredita n’isso não deixa de pôr junto aos seos maracás farinha, carne e peixe, e tambem, a bebida xamada cauim.

§ 15. Ordinariamente os deixam assim infincados no sólo por quinze dias ou trez semanas, sempre servidos da mesma fórma; e depois de praticadas, estas bruxarias formam opinião tam extravagante sobre, esses maracás, que lhes atribuem santidade, e trazendo-os quazi sempre empunhados na mão, dizem, que, quando os fazem soar repetidas vezes, algum espirito lhes vem falar.

E estam encasquetados d'esse erro por tal fórma que, passando por suas cazas e compridos apozentos, viamos carnes bôas oferecidas a esses maracás, as tomavamos e comiamos como muitas vezes fizemos, julgavam os nossos Americanos, que isso nos cauzaria desgraças, e não se consideravam menos ofendidos do que se reputam os supersticiozos e sucessores dos sacerdotes do Baal de vêr tomar as oferendas consagradas aos seos bonifrates, das quaes entretanto, com dezonra de Deos, alimentam-se gorda e ociozamente com as suas marafonas e bastardos.

O que mais é: si aproveitavamos a ocaizião de advertil-os dos seos erros, e diziamos, que os carahibas não só os enganavam, quando os faziam acreditar, que os maracás comiam e bebiam, mas tambem os iludiam, quando falsamente se gabavam de serem eles que faziam os frutos e raizes crecer e engrossar, pois quem tudo isso fazia era o Deos, em quem nós criamos, e que anunciavamos; isto valia tanto como si para cá falassemos contra o papa, ou dicessemos em Pariz, que a reliquia de Santa Genoveva não faz xover.

Assim esses trapaceiros carabibas não nos aborreciam menos do que os falsos profetas de Jezabel (receiozos de perder seos gordos naos) odiavam ao verdadeiro servo de Deos Elias, quando descobria os seos abuzos; e começando por ocultar-se de nós, temiam vir ou dormir nas aldeias, onde sabiam, que estavamos.

§ 16. Os nossos Tupinambás, confórme o que dice no principio d’este capitulo, e nada obstante as cerimonias por eles praticadas, não adoram com a genuflexão ou outros meios externos aos seos carahibas, nem aos seos maracás, nem a quaesquer creaturas, e menos as suplicam e invocam; todavia para continuar a dizer quanto entre eles observei em materia de religião, citarei ainda um exemplo

Achava-me em outra ocazião com alguns meos patricios em uma aldeia xamada Ocarentin, distante duas legoas de Cotina de que já fiz menção, e quando ceavamos no meio de uma praça, os selvagens do lugar reuniram-se para contemplar-nos e não para comer, pois, si querem onrar a algum personagem, não comem com ele.

Os selvagens, orgulhozos de ver-nos na sua aldeia, davam-nos todas as possiveis demonstrações de amizade, e tendo cada um na mão um osso do focinho de certo peixe do comprimento de dois ou trez pés, formado á feição de serra, estavam em roda de nós, com o nossa guarda de arxeiros, para afugentar os meninos, aos quaes diziam na sua linguagem: - Miunçalha, retirae-vos, pois não sois dignos de aproximar-vos d’esta gente.

Toda essa turba não interrompeo uma só palavra da nossa conversação, e deixou-nos ceiar era paz; mas um velho, que observara termos orado a Deos no começo e no fim da refeição, perguntou-nos: - O que significa este procedimento, que acabaes de ter, tirando por duas vezes o xapéo sem proferir palavra alguma, excéto um que falava, quando todos os mais estavam calados? A quem dirigia-se o que ele dizia? Dirigia-se a vós, que estaes prezente ou a alguem que axa-se auzente?

§ 17. Aproveitamos a ocaziao, que tam a propozito se nos aprezentava, para falar-lhes da verdadeira religião, convindo acrecentar, que essa aldeia de Ocarentin é das maiores e mais povoadas d’esse paiz; e como parecia-me vêr esses selvagens mais bem dispostos e mais atentos em escutar-nos do que de costume, pedi ao nosso trugimão para ajudar-me a dar-lhes a entender o que eu ia dizer.

Depois de dizer em resposta á pergunta do velho, que era a Deos, a quem tinhamos dirigido as nossas preces, e que embora ninguem o visse, todavia tinha ele ouvido tudo perfeitamente, e conhecia o que pensavamos e tinhamos no coração, comecei a falar da creação do mundo, e sobretudo insisti no ponto de fazer os selvagens bem compreenderem, que, si Deos tinha feito o omem excelente sobre todas as outras creaturas, era para que o mesmo omem glorificasse ainda mais o seo creador; acrecentando que como o serviamos, ele prezervava-nos de perigo, quando atravessavam os mares, nos quaes, para ir buscal-os, andavamos ordinarimente quatro ou cinco mezes sem pôr pé em terra.

N’esta ocazião inculcamos, que não temiamos, como eles, ser atormentados por Anhanga n’esta vida nem na outra; e assim dizia-lhes eu, que si eles quizessem converter-se dos erros, em que os seos carahibas mentirozos e enganadores os mantinham, e deixar a barbaria de comer a carne dos seos inimigos, teriam as mesmas graças, que por experiencia conheciam, que nós gozavamos.

Em suma para dar-lhes noções da perdição do omem, e preparal-os para receber Jezus Cristo, aprezentavamos sempre comparações de couzas d’eles conhecidas, e empregamos mais de duas óras n’esta materia da creação, acerca da qual por brevidade não farei aqui mais longo discurso.

§ 18. Ora, todos com grande admiração prestavam ouvidos e escutavam atentamente; de modo que findo o pasmo do que tinham ouvido, apareceo outro velho, que tomou a palavra e dice: - Certamente tendes dito maravilhas, e couzas mui bonitas, que nunca tinhamos ouvido; todavia a vossa avarenga faz-me recordar o que muitas vezes ouvimos os nossos avós repetir, isto é, que desde muito tempo e desde certo numero de luas, que não podemos conservar na memoria, um Mair, isto é, Francez ou estrangeiro, vestido e barbado, como alguns de vós, veio a este paiz, e para os persuadir á obediencia do vosso Deos, falou-lhes a mesma linguagem, que agora nos dirigis; mas, conforme ouvimos de paes a filhos, nossos avós o não acreditaram.

Partindo este, veio outro, que, em sinal de maldição, deo-lhes a espada, com que depois d’isso nos matamos uns aos outros, de maneira que estamos em longa posse do seu uzo, e si agoea deixassemos o nosso costume, dezistissimos d’ele, todas as nações nossas vizinhas zombariam de nós. A isto replicamos com grande vehemencia, que não deveriam eles importar-se com o motejo dos outros, pois ao contrario, si quizessem, como nós, adorar e servir ao verdadeiro Deos do céo e da terra, que anunciavamos, derrotariam e venceriam a todos os inimigos, que agora os viessem tacar.

Em suma pela eficacia que Deos então outorgou ás nossas palavras, os Tupinambás ficaram tam abalados, que não só muitos prometeram d’ora em diante viver como ensinavamos e não comer mais carne dos seos inimigos; mas tambem logo depois d’esse coloquio, o qual durou muito tempo, como já dice, ajoelharam-se comnosco, e um dos nossos companheiros, dando graças a Deos, fez a prece em alta voz no meio d’essa turba, a quem o trugimão depois explicou tudo.

§ 19. Concluido isto, eles nos fizeram deitar, na forma do seo costume, em leitos de algodão suspensos no ar; antes porém de dormirmos, os ouvimos todos reunidos cantar, que para vingar-se dos inimigos, cada vez mais precizo se tornava agarral-os e comel-os, como antes sempre praticavam.

Eis aqui a inconstancia d’esse mizero povo, insigne exemplo da natureza corrompida do omem.

Penso todavia, que, si Nicoláo de Villegagnon se não rebelasse contra a religião reformada, e tivessemos ficado ficado por muito tempo n’esse paiz, teriamos atrahido e xamado alguns d’esses selvagens a Jezus Christo

Ora, acredito pelo que nos diceram ter sabido dos seos antepassados, que avia muitos centenares de annos um Mair, isto é, omem da nossa nação (sem discutir si seria Francez ou Alemão), tinha estado na sua terra, e lhes anunciára o verdadeiro Deos; talvez fosse algum dos apostolos.

Com efeito, ponho de parte livros fabulozos, e pondero, que, além da palavra de Deos e do que se tem escrito sobre as viagens e peregrinações d’esses varões santos, Niceforo, referindo a istoria de São Mateos, expressamente diz, que este apostolo pregou o Evangelho no paiz dos Canibaes, que comem gente, povo não mui afastado dos Brazilienses Americanos.

Considero porém miito melhor fundamento a passagem de São Paulo, constante do salmo 19, a saber: - A sua voz percorreo toda a terra e suas palavras xegaram ás extremidades do mundo.” Alguns bons expositores referem esta passagem aos apostolos; e atendendo que eles perlustraram varios paizes longinquos por nós desconhecidos; pergunto eu, que incongruencia averia em crer, que um ou muitos tenham estado na terra d’esses barbaros?

Isto até serviria de farol e geral expozição exigida por alguns autores para a sentença de Jezus Christo, quando declarou, que o Evangelho seria pregado em todo o mundo.

Não quero afirmar o contrario em relação ao tempo dos apostolos; assegurarei todavia, como já acima mostrei n’esta istoria, que vi e ouvi em nossos dias anunciar o Evangelho até aos antipodas; de sorte que, além de ser assim rezolvida a objeção formulada contra essa passagem. ainda daqui rezultará serem os selvagens menos escuzaveis no dia final.

§ 20. Quanto a outra assersão dos nossos Americanos, quando dizem, que os seos predecessores não quizeram acreditar n’aquele que lhes quiz ensinar o bom caminho, e veio outro, que por cauza d’essa recuza os amaldiçoou e deo-lhes espada, com que ainda matam-se todos os dias, lemos no Apocalipse, que ao personagem que estava montado no cavalo branco, que, na opinião de certos exegetas, significa perseguição por fogo e guerra, foi dado poder de tirar a paz da terra, para que se matassem uns aos outros, sendo lhe tambem dada uma grande espada.

Eis o testo, que na letra muito aproxima-se da asserção e da pratica dos nossos Tupinambás; todavia receiando transtornar o seo verdadeiro sentido, e para que se não julgue, que busco as cousas de mui longe, deixarei a outros a devida aplicação.

Entretanto recordando-me ainda de um exemplo, que poderá mostrar, que essas nações selvagens abitadoras da terra do Brazil, seriam assás doceis para aceitar o conhecimento de Deos, si tomassemos o trabalho de as doutrinar, eu aqui o aprezento.

§ 21. Com o fim de ir buscar viveres e outras couzas necessarias, passei um dia da nossa ilha para a terra firme, acompanhado por dois selvagens Tupiniquins[88] e por outro da nação xamada Oneanen, sua aliada, o qual com sua mulher viera vizitar os amigos e voltava para a sua terra.

Atravessava eu com eles uma grande floresta, contemplando arvores diversissimas, ervas verdejantes e flores odoriferas, e ouvindo o canto de infinidade de aves, que gorgeavam no meio do bosque, onde então resplandecia o sol. Assim digo, eu via-me como convidado a louvar a Deos por todas essas couzas, e tendo aliás o coração alegre, comecei em voz alta a cantar o salmo 104: Exulta, exulta, minha alma, etc.; que repeti todo.

Os trez selvagens e a mulher, que vinham atraz de mim, tiveram tamanho prazer (isto é, quanto ao son, porque quanto ao sentido nada percebiam), que, quando acabei, o Oneanem comovido de alegria, com face rizonha, avançou para mim e dice: - Na verdade cantaste maravilhozamente bem, o teo canto estridente fez-me recordar do cantar de uma nação nossa vizinha, e muito contente fiquei de ouvil-o. Mas (dice-me ele) nós entendemos a sua linguagem, não a tua; portanto rogo-te que nos digas de que trata a tua cantiga.

Como era eu o unico Francez ali prezente e so devia encontrar dois patricios no lugar, onde ia dormir, expliquei, como pude, que não só eu tinha louvado a Deos em geral, na formozura e governo das suas creaturas, mas tambem o tinha em particular aplaudido como o unico creador dos omens e de todos os animaes, e unico motor do crecimento das arvores, frutos e plantas espalhadas pelo mundo inteiro: expliquei mais, que a canção, que eu acabava de entoar, era ditada pelo espirito d’esse Deos magnifico, cujo nome eu tinha celebrado, e fôra primeiramente cantada, avia mais de 10.000 luas (pois assim os selvagens contam o tempo) por um dos nossos grandes profetas, o qual a deixára á posteridade para ter o mesmo uzo.

§ 22. Repito ainda aqui, que os selvagens não interrompem discurso, e sam mui atentos ao que se lhes diz. O meo interlocutor e os companheiros caminharam por espaço de mais de meia óra, ouvindo o meo discurso, e proferindo a costumada intergeição exclamativa: - Teh! e depois diceram: - Oh! como vós os Mairs (isto é, Françezes) sois felizes por saberdes tantos segredos ocultos a nós, entes mesquinhos, pobres e mizeraveis!

E como para agradar-me, dizendo: - Toma lá, porque cantas bem” fez-me dadiva de um agoti, que trazia, isto é, de um pequeno animal, que com outros descrevi no capitulo decimo.

Para melhor provar, que estas nações da America, por mais barbaras e crueis que sejam para com seos inimigos, nam sam tão ferozes, que não atendam ao que se lhes diz com boas razões, entendi dever ainda fazer esta digressão.

Com efeito quanto á indole dos omens sustento, que discorrem melhor do que o fazem a mor parte dos camponios e outras pessoas cá da Europa, gente aliás reputada como abil.

§ 23. Resta agora finalmente tocar na questão, que poderia sucitar-se n’esta materia, de que trato, a saber, donde procedem estes selvagens.

Sobre isto digo antes de tudo, que bem certo é, decenderem de um dos trez filhos de Noé; afirmar porém de qual d’eles, creio ser dificilimo, quer pela Escritura Santa, quer pelas istorias profanas.

Verdade é, que Moizés, fazendo menção dos filhos de Jafet, diz, que as ilhas foram abitadas por eles; mas (conforme todos explicam) o escritor ebrêo falou das terras da Grecia, Galia, Italia, e outras regiões nossas, que o mar separa da Judéa, e por isso sam consideradas ilhas por Moizés e assim não existiria fundado motivo para abranger a America, nem as terras, adjacentes a ela.

Dizer tambem que venham de Sem, do qual procede a geração bemdita e os Judeos, aliás corrompidos por tal fórma que com justiça fôram regeitados por Deos, em razão de diversas cauzas, que poderiamos alegar, ninguem o fará, conforme creio.

§ 24. Quanto ao que concerne á beatitude e felicidade eterna (que cremos e esperamos unicamente por Jezus Cristo), constituem os selvagens um povo maldito e dezamparado de Deos, não obstante as imperfeitas noções e sentimentos, que, têem da vida futura; e nem existe outro povo igual; pois a respeito da vida terrena já mostrei, e mostrarei ainda, que, quando os abitadores da Europa mostram-se avidos dos bens mundanos, os selvagens ao contrario os desprezam e vivem alegremente izentos de cuidados.

Parece, que a opinião mais provavel acerca da sua origem é, que decendem de Cam; e eis a meo vêr a conjectura mais verosimil, que podemos formar.

Atesta a Escritura Santa, que quando Jozué penetrou na terra de Canaan, e começou a ocupal-a, conforme a promessa de Deos feita a ele e aos patriarcas, e conforme a ordem especialmente a ele dada, os povos abitadores d’essa região intimidaram-se por tal fórma, que perderam toda a coragem. Assim poderia acontecer (o que digo sob correção), que os avós e antepassados dos nossos Americanos, expelidos de varias partes da terra de Canaan pelos filhos de Israel, tivessem embarcado em navios entregues á discrição do mar, e arrojados pelos ventos, fossem aportar ás terras da America.

Com efeito o autor espanhol da Istoria geral das Indias, varão versadissimo nas bôas siencias, é de opinião, que os indios do Perú, terra contigua ao Brazil, de que agora falo, sam decendentes de Cam, e sucederam-lhe na maldição lançada por Deos; couza, como acabo de dizer, que eu tambem tinha meditado e escrito nas memorias, que fiz da prezente istoria, mais de dezeseis annos antes de ter visto o seo livro.

Todavia como poderiam levantar-se objeções, sobre isto, e eu não queira aqui decidir couza diversa, deixarei cada um crêr no que lhe aprouver.

§ 25. Como quer que seja porem, por minha parte reputo rezolvido, que essa pobre gente decende da raça corrompida de Adam; e considerando-a aliás balda e destituida de todo o bom sentimento de Deos, não basta isso para que se abale a minha fé, a qual, graças a Deos, é firme e segura.

Menos dahi concluo com os atêos e epicuristas, ou que não existe Deos, ou então que ele não se importa com os omens; pois bem pelo contrario reconheço claramente a diferença existente entre as pessoas, que sam iluminadas pelo Espirito Santo e Escritura Santa, e os individuos que sam abandonados aos seos sentidos e deixados á sua cegueira; por isso confio muito mais na segurança da verdade de Deos.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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