Universo da obra
Universo da obra
§ 1. Tenho já falado tanto dos animaes quadrupedes como das aves, peixes, reptis e couzas dotadas de vida, movimento e sensibilidade, existentes n’America; e antes de falar da religião, guerra, policia, e outros modos de proceder dos nossos selvagens, de que ainda não tratei, as arvores, ervas, plantas, frutos, raizes, e em suma tudo quanto comummente se diz ter alma vegetativa vivente n’esse paiz.
E porque entre as arvores mais notaveis prezentemente conhencidas entre nós, o páo-brazil (do qual esse paiz tomou o nome por nosso respeito) é uma das mais apreciadas por cauza da tinta, que d’ele se extrae farei, farei a sua descrição em phmeiro lugar.
§ 2. Esta arvore pois, que os selvicolas xamam arabutan[59], crece ordinariamente e esgalha tanto como o carvalho das nossas florestas, e axam-se algumas tam grossas, que trez omens não abarcariam o tronco.
A respeito de arvores grossas, o escritor da Istoria geral das Indias ocidentaes diz, que n’essas regiões foram vistas duas arvores cujos troncos tinham extraordinaria grossura: um tinha mais de oito braços de circunferencia e outro de dezeseis, de sorte que, diz ele, na primeira arvore, que era tam alta, que ninguem lhe poderia alcançar o cimo com uma pedra atirada pela simples força do braço umano, um cacique, por segurança propria, fabricara uma xoçazinha; do que riam-se, os Espanhoes ás gargalhadas vendo-o ali pouzado como cegonha. Mencionavam tambem a segunda como couza maravilhoza.
O sobredito autor ainda refere, que, existe no paiz da Nicaraguaa arvore xamada cerba, a qual engrossa tanto, que quinze omens a não poderiam abarcar.
Voltando ao páo-brazil, direi, que tem a folha como o do buxo, todavia de côr puxando mais para o verde claro, e esta arvore não frutifica.
§ 3. Dezejo aqui fazer menção do modo de carregar os navios com esta mercadoria.
Notae, que tanto por cauza da dureza e consequente dificuldadesde cortar essa madeira, como porque, não existem cavalos, asnos, nem outros animaes para carregar, carrear ou arrastar fardos n’esse paiz, é indispensavel, que muitos omens façam este serviço; si os estrangeiros, que viajam por ali, não fossem ajudados pelos selvagens, não poderiam em um anno carregar qualquer navio mediano.
Os selvagens, mediante alguns vestidos de friza, camizas de pano de linho, xapeos, facas e outras veniagas que se lhes dá, como maxados, cunhas de ferro, e outras ferramentas ministradas por Francezes e outros Europeos, cortam, serram, raxam, toram e desbastam o páo-brazil, e depois o transportam nos ombros nús, e muitas vezes de duas e trez legoas de distancia, por montes e lugares escabrozos até a borda do mar junto aos navios ali ancorados, onde os marinheiros o recebem.
Digo propozitalmente, que os selvagens, depois que os Francezes e Portuguezes frequentam o seo paiz, cortam o páo-brazil; pois antes, conforme ouvi os velhos dizerem não tinham industria alguma para derrubar uma arvore, sinão pôr-lhe fogo ao pé.
Ca da Europa pensam muitas pessoas, que os toros redondos, que vêmos nas cazas dos negociantes sam da grossura das arvores; mas para mostrar, que taes pessoas enganam-se, observarei já ter dito axarem-se arvores mui grossas, e acrecentarei, que os selvagens desbastam os tóros, e os arredondam, afim de lhes ser mais facil o carreto e o manejo nos navios.
§ 4. Como durante o tempo que estivemos n’esse paiz fizemos boas fogueiras com o páo-brazil, observei, que não era umido (como a maior parte das outras madeiras), antes era naturalmente sêco; por isso queimado expede mui pouca ou quazi nenhuma fumaça.
Direi mas, que, indo um dos nossos companheiros lavar nossas camizas, deitou por ignorancia do efeito, cinzas de páo-brazil na lixivia; e em lugar de alvejal-as, tornou-as tam vermelhas, que, não obstante lavarem-se e ensaboarem-se depois, não axamos meio de tirar-lhes a coloração, de maneira, que tivemos de as vestir e uzar d’elas com essa tintura.
Si aqueles que mandam de propozito branquear suas camizas ou outras roupas, alcatroadas, duvidam d’isto, façam a experiência; e para mais brevemente conseguil-o, poderão mandar lustrar os seos coleirinhos, ou grandes babados (de mais de pé e meio de largura como oje uzam) tingindo-os de verde, si assim lhes aprouver.
§ 5. Os nossos Tupinambás ficam pasmos de vêr os Francezes e, outros estrangeiros ter o trabalho de ir buscar o seo arabutan, isto é, páo-brazil. Uma vez um velho fez-me esta pergunta: - O que quer dizer virdes vos outros, Mairs e Peros, isto é, Francezes e Portuguezes, de tam longe buscar lenha para vos aquecer? Não tendes páo na vossa terra?
E respondi, que tinhamos, e em grande quantidade, mas não da qualidade dos seos, nem tinhamos páo-brazil, que nós não queimavamos, como ele supunhantes; o queriamos para fazer tinta, e empregar como eles faziam, uzando d’ela para tingir os seos cordões de algodão, plumas e outras couzas.
Replicou o velho imediatamente: - E porventura precizaes de muito? Sim (dice-lhe eu no intuito de interessal-o); pois no nosso paiz existem negociantes, que têem mais frizas, panos vermelhos e até (procurando sempre falar-lhe de couzas suas conhecidas) facas, tezouras, espelhos e outras mercadorias, do que nunca vistes por cá; e tal negociante por si só comprará todo o páo-brazil, com que muitos navios voltam carregados do teo paiz.
E o meo selvagem dice: - Ah! ah! tu me contas maravilha! E depois tendo compreendido bem o que eu acabava de dizer, interrogou-me de novo e dice: - Mas esse omem tam rico, de que me falas, não morre? Sim, sim (dice-lhe eu); morre como os outros.
E como sam grandes discursadores os selvagens e proseguem mui bem em qualquer assunto até o fim, de novo perguntou-me: - E quando ele morre, para quem fica o que ele deixa? Respondi: - Para seos filhos, si os tem; na falta d’estes para seos irmãos ou mais proximos parentes.
Na verdade (dice então o velho, que, como julgareis não era nenhum tôlo) agora conheço, que vós outros Mairs, isto é, Francezes, sois grandes loucos; pois é precizo trabalhar tanto em passar o mar, onde sofreis tantos incomodos, como nos dizeis, quando aqui xegaes, para amontoar riquezas. Dara vossos filhos ou para aqueles que, vos sobrevivem? A terra, que vos nutrio, não é tambem suficiente para nutril-os? Temos (acrecentou ele) paes, maes e filhos, aos quaes amamos e prezamos; mas como estamos certos de que, depois da nossa morte, a terra que nos nutrio, tambem os nutrirá, por isso descansamos sem o minimo cuidado.
Eis aqui sumariamente o discurso, que ouvi da boca de um pobre selvagem americano.
§ 6. Assim esta nação, que reputamos barbara, zomba desdenhozamente d’aqueles que com perigo de vida passam os mares para ir buscar páo-brazil afim de enriquecer-se; e por mais obtuza que seja, atribuindo maior importancia á natureza e á fertilidade da; terra do que nós damos ao poder e providencia de Deos, insurge-se contra esses rapinadores denominados cristãos, de que a terra cá pela Europa está tam repleta, quanto vazia está lá na região dos selvicolas.
Os Tapinambás, como já dice, odeiam mortalmente os avarentos; e prouverá a Deos, que fossem todos os avaros lançados entre os selvagens, que serviriam de demonios e furias para atormentar os nossos insaciaveis abismos, que nunc, temem bastante, e só cuidam de sugar o sangue e a substancia alheia.
Precizo era, que eu fizesse esta digressão para vergonha nossa, e para justificação dos selvagens pouco cuidadozos das couzas d’este mundo.
E bem a propozito poderia eu ainda acrecentar o que o istoriador das Indias ocidentaes escreveo acerca de certa nação de selvagens abitadores do Perú. Diz ele, que quando os Espanhoes começaram a navegar para esse paiz, os selvagens, vendo-os barbados, delicados e mimozos, temiam, que os corrompessem, e mudassem os seos antigos costumes, por isso não os queriam receber, e os xamavam escumu do mar, gente sem paes, omens sem descanso, que não páram em parte alguma para cultivar a terra e ter o que comer.
§ 7. Continuando agora a falar das arvores d’esta terra da America direi, que axam-se n’ela quatro ou cinco especies de palmeiras, das quaes as mais comuns sam as denominadas geraú e iri pelos selvagens; e como nunca vi támaras em nenhuma d’elas, creio, que as não produz.
É verdade, que o iri produz frutos redondos como abrunho, pequenos e reunidos, bem similhantes a um bom caxo de uvas; e cada penca tem pezo tal que um omem pode levantar e trazer na mão, mas so presta o caroço, que não é maior do que o da cereja.
Entre as folhas superiores das palmeiras novas brota um renovo, que cortavamos para comer, e dizia o senhor Dupont, que sofria de emorroidas, que esse palmito servia de remedio: sobre este ponto reporto-me aos medicos.
§ 8. Outra arvore existe xamada airi pelos selvagens, a qual tem as folhas como a palmeira, o caule rodeado de espinhos finos e penetrantes como agulhas, e dá fruto de mediana grandeza, no qual se contém com caroço branco como neve, que aliás não é comivel.
No meo entender esta arvore é uma especie de ebano; pois além de ser preto e servir aos selvagens para fazerem espadas e clavas e pontas de frexas (que descreverei. Quando falar das suas guerras), é mui polido e luzente, quando trabalhado em obra; sendo tam pezado que posto n’agua vai ao fundo.
§ 9. Antes de passar adiante, convém dizer, que existem muitas especies de madeiras de côr n’esta terra da America, ignorando eu o nome de todas essas arvores.
Entre elas vi algumas tam amarelas como o buxo; utras naturalmente violetas, das quaes troxera eu para a França algumas amostras; outras brancas como o papel; outras tam vermelhas como o páo-brazil, das quaes os selvagens fazem bastões e arcos.
Existe tambem uma arvore xamada copahiba[60], a qual parece na forma com a nogueira, sem aliás dar nozes; a taboa sendo empregada em obras de marcenaria, aprezenta os mesmos veios da nogueira, como observei.
Igualmente existem algumas, que têem as folhas mais espessas que a moeda de tostão; outras as têem da largura de pé e meio; e ainda existem muitas outras especies, que seria fastidioso mencionar com miudeza.
§ 10. Cumpre porém dizer, que n’esse paiz existe uma arvore, que dá bonita madeira, a qual recende agradavel xeiro, quando os marceneiros a lavravam ou cepilhavam, e si tomavamos nas mãos cavacos ou fitilhas, sentiamos o verdadeiro odor da roza fresca.
Existe outra ao contrario, denominada aouai pelos selvagens, que fede e exhala xeiro de alho tam ativo, que, quando a cortam e põem no fogo, ninguem póde ficar ao pé: esta arvore tem as folhas quazi como as das nossas macieiras.
No demais porém o fruto (algum tanto parecido com a castanha d’agua) e o caroço contido no fruto, é bam venenozo, que quem o comesse sentiria o efeito imediato de verdadeiro veneno.
Todavia como este fruto é aquele de que alhures dice, que os nossos Americanos fazem as campainhas, que, põem ao redor das pernas, por essa razão o têem em grandissima estimação.
§ 11. E cumpre aqui notar, que embora esta terra do Brazil produza mui bons e excelentes frutos, com o veremos n’este capitulo, todavia muitas arvores existem, que dam frutos formozissimos, e entretanto inaceitaveis ao paladar.
Especialmente nas praias do mar vivem muitos arbustos, que dam frutos quazi similhantes ás nossas nesperas, porém mui perigozos de comer.
Por isso os selvagens vendo os Francezes e outros estrangeiros aproximar-se d’essas arvores para colher o fruto, dizem-lhes em sua lingua: - Ipahi, isto é, não é bom, advertindo-os assim para acautelarem-se.
O iuarare[61] tem a casca de meio dedo de espessura, é mui agradavel ao paladar, principalmente quando tirada fresca da arvore, e é uma especie de guaiaco, conforme vi afirmarem dois botanicos, que comnosco atravessaram o mar.
Com efeito os selvagens a empregam contra uma infermidade por eles xamada pian, a qual, como logo direi, é tam perigoza entre eles como entre nós é a bexiga.
§ 12. A arvore xamada xoane[62] pelos selvagens é de grandeza media, tem as folhas verdes similhantes ás do loreiro; dá um fruto do tamanho da cabeça de um menino, e aprezenta a fórma de um ovo de avestruz todavia não serve para se comer.
Como porém este fruto tem a casca dura, os Tupinambás o conservam inteiro, o perfuram ao comprido e através, e fazem d’ele o instrumento xamado maracá (do qual já fiz, e ainda farei menção).
Para fazerem as taças, em que bebem, e outras pequenas vasilhas, de que se servem para outros uzos, escavam esse fruto, e o dividem pelo meio.
§ 13. Continuando a falar das arvores da terra do Brazil, mencionarei uma xamada sapucaia[63] pelos selvagens, que dá um fruto maior do que os dois punhos juntos; é formado á feição de uma taça, na qual encerram-se pequenos caroços como amendoas e quazi do mesmo gosto.
O casco d’este fruto é mui apropriado para fazer vazos; e julgo ser o que xamamos côco da India: estes vazos, quando torneados e ajeitados ao feitio conveniente, encastoam-se usualmente em prata lá na Europa.
Quando estavamos no ultramar, um certo Pedro Bourdon, excelente torneiro, fez mui bonitos vazos e outros utensílios d’esses frutos da sapucaia, e de varias madeiras de côr, e prezenteou com alguns d’eles a Nicoláo de Villegagnon, que muito os apreciava; todavia o pobre omem foi tam mal recompensado, que foi um dos que o verdugo mandou submergir e afogar no mar por cauza do Evangelho, como em lugar competente direi.
§ 14. N’esse paiz existe tambem uma arvore, que crece tam alta como lá na Europa a sorveira, e dá um fruto xamado cajá[64] pelos selvagens, o qual é do tamanho e figura de um ovo de galinha.
Quando esta fruta amadurece, fica mais amarela do que o marmelo, e não só tem bom sabor, como dá um caldo acidulo, aliás agradavel ao paladar. Aquecido este licor constitue refresco tam excelente que não é possivel axar melhor; todavia é assás dificil tirar as frutas das grandes arvores, que as produzem, e quazi não tinhamos outro meio de obtel-as, sinão quando os macacos subiam para comel-as, e as derribavam em grande quantidade.
§ 15. A pacoveira[65] é um arbusto, que geralmente crece de dez a doze pés de altura; mas quanto ao tronco, embora alguns sejam tam grossos como a côxa de um omem, é todavia tam mole que com uma espada bem afiada derribareis e poreis por terra uma d’essas plantas com um só golpe.
Quanto ao fruto, que os selvagens xamam pacova, tem mais de meio pé de comprimento, e é de fórma mui similhante ao pepino, sendo amarelo como este, quando maduro. Crecem os frutos sempre 20 ou 25 unidos e juntos em um só caxo, e os nossos Americanos os colhem em grandes pencas, que possam sustentar nas mãos, e assim as trazem para suas cazas.
É boa essa fruta; e quando xega á madureza, tira-se-lhe a casca como a do figo fresco, e sendo gomoza como este, direis, ao comel-a, que saboreaes um figo.
Por esta razão nós os Francezes davamos a essas pacovas o nome de figos. É verdade, que tinham gosto mais doce e mais saborozo do que os melhores figos de Marselha; portanto deve a pacova contar-se como um dos bonitos e excelentes frutosd’essa terra do Brazil.
Contam as istorias, que Catão, voltando de Cartago para Roma, trouxera figos de espantoza grandeza; como porém os antigos não mencionam figos iguaes aos de que agora trato, é verosimil, que os figos africanos não seriam da qualidade dos figos americanos.
As folhas da pacoveira sam na forma mui similhantes ás do lapathum aquaticum; sam porém tam excessivamente grandes, que cada uma tem ordinariamente seis pés de comprimento e mais de dois de largura e creio, que na Europa; na Azia, nem n’Africa, se axarão folhas tamanhas.
Ouvi um boticario assegurar ter visto uma folha de tussilagem; que tinha uma auna e um quarto de largura, isto é, trez aunas e trez quatos de circunferencia, por ser a folha redonda; mas ainda assim não aproxima-se da nossa pacoveira.
É certo, que as folhas da pacoveira não sam espessas á proporção do tamanho, e antes sam mui delgadas, comtudo estam sempre erectas; e quando o vento é um pouco impetuozo (como frequentemente sucede n’essa terra da America), somente o talo central da folha oferece rezistencia; por isso todas as mais partes aderentes despedaçam-se por tal forma que, si a virdes de longe, julgareis ao pimeiro lance de vista serem grandes penas de avestruz, de que estam vestidos os arbustos.
§ 16. Quanto á arvore do algodão, que crece em mediana altura, existem muitas na terra do Brazil; a flor aparece em pequenas campanulas amarelas, como as das aboboras da Europa; mas quando o fruto está formado tem a configuração aproximada da feinte des costeaux das nossas florestas, e quando está maduro, fende-se em quatro partes, e o algodão (que os Americanos xamam ameni-ju) sae em frocos ou capulhos, grossos como a péla, no meio dos quaes estam varios caroços pretos mui unidos em forma de rin, da grossura e compri mento de uma fava. As mulheres indigenas preparam mui bem e fiam o algodão para fazer camas do feitio já em outra parte descrito.
§ 17. Embora antigamente não existissem larangeiras nem limoeiros n’essa terra d’America, como ouvi dizer, todavia apenas os Portuguezes plantaram e edificaram nas praias e adjacencias do mar, que frequentavam, essas plantas multiplicaram admiravelmente e produzem laranjas (que os selvagens xamam morgonia) doces do tamanho de dois punhos, e limões ainda maiores e em maior abundancia.
§ 18. Acerca da capa de assucar, crece mui bem e em grande quantidade n’esse paiz; todavia nos outros os Francezes, quando eu lá estava, ainda não tinhamos gente e as couzas necessarias para extrair o assucar (como têem os Portuguezes nos sitios por eles posseados), conforme acima dice no capitulo nono, a propozito das bebidas dos selvagens; por isso somente faziamos infuzão n’agua para a fazer assucarada, ou então quem queria xupava e bebia o suco.
Sobre este assunto observarei uma couza, de que muitas pessoas talvez se admirem. E é, que não obstante ser o assucar, como todos sabem, de natureza extremamente doce, algumas vezes cortavamos as canas, as deixavamos abolorecer, e depois de assim detioradas, as punhamos de molho n’agua por algum tempo; e o caldo azedava por tal modo que servia-nos de vinagre.
§ 19. Em certos lugares dos bosques crecem muitas canaranas e taquaras, tam grossas como a perna de um omem, mas, á similhança da pacoveira, têem o tronco tam mole que de um só golpe de espada podemos facilmente derribar um pé; e quando secam sam tam duras, que os selvagens as lascam em pedaços, e as afeiçoam em fórma de lancetas, ou lingua de serpentes, com que armam e guarnecem as pontas das suas frexas, que, desparadas com violencia, matam qualquer animal silvestre.
E a propozito de canas e canaranas, Calcondilo na sua istoria da guerra dos Turcos refere, que na India oriental existem plantas d’esta especie de tam excessiva grandeza e grossura, que d’elas fazem-se barcas para passagem dos rios, e até diz ele, que carregam bem quarenta moios de trigo, contendo cada moio seis alqueires, segundo a medida dos Gregos.
§ 20. A almecega procede de pequenos arbustos indigenas da terra da America, os quaes com uma infinidade de ervas e flores odoriferas espalham na terra bom e suave aroma.
No lugar onde estavamos, a saber, debaixo do Capricornio, aparecem grandes trovões, que os selvagens xamam tupan, xuvas torrenciaes, e fortes ventanias, todavia não gela, nem neva, nem jamais graniza; por consequencia as arvores não sam acometidas nem deterioradas pelo frio e por tempestades, como o sam as planta na Europa por isso o arvoredo está sempre coberto de verde folhagem, e tambem durante o anno inteiro, as florestas permanecem verdejantes como em França, se conserva o loureiro.
§ 21. E já que toco n’este objeto, convem dizer, que quando no mez de Dezembro temos aqui os dias mais curtos, e tranzidos de frio sopramos os dedos e temos o caramelo pendente do nariz, é então que os nossos Amerícanos têem os seos dias mais longos, e sofrem o maximo calor no seo paiz, como eu e meos companheiros de viagem experimentamos; por isso nos banhavamos no natal para refrescar-nos.
Todavia os dias não sam tam longos, nem tam curtos debaixo dos tropicos, como os temos no nosso clima, conforme o podem compreender os entendidos na esfera; e assim não só os abitantes dos tropicos têem dias mais iguaes, como tambem as estações ahi sam incomparavelmente muito mais temperadas, embora, o contrario d’isso julgassem os antigos.
Eis o que cabia-me dizer a respeito das arvores da terra do Brazil.
§ 22. Quanto ás plantas e ervas, que agora quero mencionar começarei por aquelas, cujos frutos e efeitos me parecem mais excelentes.
Primeiramente a planta, que produz o fruto xamado ananás pelos selvagens, é de figura similhante à espadana, tendo as folhas um pouco concavas, estriadas nas bordas assimilhando-se muito com as do aloes.
Crece em touceira como grande cardo, e o fruto, que é do tamanho de um melão mediano e do feitio da pinha, sae da planta como as nossas alcaxofras, sem pender nem inclinar-se para um ou outro lado.
Quando esses ananazes amadurecem, ficam de côr amarelo-azulada e têem xeiro, da frambroeza tam ativo, que ao longe o sentimos, quando percorremos os bosques onde eles crecem; si os levamos á boca, oferecem sabor tam doce, que não vemos n’este paiz confeitos que os excedam, em doçura: reputo este fruto como o mais primorozo da America.
Com efeito, quando lá estive, expremi um ananás, que deo perto de um copo de suco; e este licor não me pareceo insalubre.
Entretanto as mulheres selvagens nos traziam grandes alcofas, que xamam panacús[66], xeias de ananazes, de pacovas, de que já falei, e de outras frutas, que aviamos d’elas por um alfinete ou por um espelho.
§ 23. A respeito de plantas oficinaes, que a terra do Brazil produz, uma existe entre outras, que os nossos Tupinambás xamam petun. Esta planta aprezenta a fórma da azedeira, pouco mais alta do que esta, e tem folhas mui similhantes e parecidas com as da consolida maior.
Esta erva, por cauza da singular virtude a ela atribuida, goza de grande estimação entre os selvagens,e eis aqui como uzam d’ela.
Depois de a colherem, a penduram em pequenas porções, e secam em suas cazas. Feito isto, tomam quatro ou cinco folhas, que envolvem em uma grande folha de palma, dando-lhe o feitio de cartuxo de especiaria; então xegam fogo á ponta mais fina, a acendem e põem a outra ponta na boca para tirar a fumaça, que, não obstante lhes sair pelas ventas e pelos opercuros dos labios, todavia os sustenta de tal forma, que passam trez ou quatro dias sem alimentar-se com outra qualquer couza, principalmente si vam á guerra, e si a necessidade obriga-os a essa abstinencia.
Verdade é, que os selvagens tambem uzam do petun outro motivo, qual é o de fazer distilar os umores superfluos do cerebro; por isso não vereis os nossos Brazilienses sem terem o competente cartuxo de erva pendente ao pescoço. Quando conversam têem por garbo sorver a fumaça; a qual, fexada a boca repentinamente, lhes sae pelas ventas e pelos operculos labiaes, como de um turibulo, conforme já fica dito. O xeiro não é dezagradavel.
Entretanto não vi as mulheres uzarem d’esta erva, nem sei qual a razão d’isso; direi porém, que experimentei a fumaça do petun, e conheci, que ela sacia e mitiga a fome.
§ 24. Atualmente cá na Europa denominam petun á nicotiana ou á erva da rainha; esta porém é bem diversa d’aquela de que falo; pois estas duas plantas nada têem de comum na forma, nem na essencia, com o petun. Afirma o autor da Maison Rustique (liv. 2 cap. 79), que a nicotiana, cujo nome diz ele proceder do senhor Nicot, que primeiro a mandou de Portuoal para França, fôra trazida da Florida, distante mais de 1.000 leguas da terra do Brazil, pois toda a zona torrida fica de permeio entre os dois paizes. Acontece também, que por mais indagações que tenha feito em varios jardins, onde gabavam-se de possuir o petun, o não vi até agora em nossa França.
Não pense quem de novo nos prezenteou com o seo angoumoise, dizendo ser verdadeiro petun, que ignoro o que ele escreveo; e si o original da planta por ele mencionada assimilha-se ao dezenho anexo á sua Cosmografia, digo acerca d’esse petun o mesmo que acerca da nicotiana; e n’este cazo não lhe concedo o que ele pretende, a saber, que foi ele o primeiro portador da semente do petun á França, onde julgo, que dificilmente poderia esse vegetal vingar por cauza do frio.
Tambem vi alem-mar uma especie de couve a que os selvagens xamam cajuá[67], e da qual algumas vezes fazem sôpa. Esta planta tem folhas largas e similhantes ás do nenufar, que vegeta nas lagôas do nosso paiz.
25. Alem da mandioca e do aipim, de que as mulheres dos selvagens fabricam farinha, como dice no capitulo nono, existem outras raizes bulbozas xamadas etic[68], as quaes crecem em tamanha abundancia na terra do Brazil, como no Limosin e na Saboia crecem os rabanetes: é frequente axarem-se tam grossas como os dois, punhos da mão juntos, tendo o comprimento de pé e meio, pouco mais ou menos.
Vendo-as arrancadas fóra da terra, e considerando a similhança d’elas, julgamos ao primeiro lance de vista, que sam todas da mesma especie; existe porém grande diferença; pois cozinhadas umas tornam-se rôxas como certas partinacas do nosso paiz, outras ficam amarelas, como marmelos e outras esbranquiçadas; portanto julgo aver trez especies.
Como quer que seja porém, posso assegurar, que, sendo assadas no borralho, principalmente as que amarelecem, não sam menos saborozas do que as nossas melhores peras.
As folhas alastram pelo xão como a hedera terrestris, e sam mui similhantes ás do pepino ou ás dos maiores espinafres, que se encontram por cá, embora não sejam tam verdes; pois emquanto á côr puxa mais para a vitis alba.
Como estas plantas não dam semente, as mulheres selvagens, empenhadas em propagal-as, apenas (obra maravilhoza, na agricultura) as cortam em pequenos pedaços, como aqui praticamos com a cenoura para fazer salada, e os semeam pelos campos; e d’este modo no fim de algum tempo obtêem (obra espantoza d’agricultura) tantas raizes de etic quantos pedacinhos semearam.
Todavia é o melhor maná d’esta terra do Brazil, e quando percorremos o paiz, quazi não vemos outra couza; creio por isso, que na maior parte rebenta sem trabalho algum do omem.
Os selvagens tambem possuem uma especie de fruta xamada manobi. As plantas crecem na terra, como trufas, ligam-se entre si por meio de delgados filamentos; a fruta tem caroço do tamanho da avelan, cujo sabor imita.
É de côr parda, e a casca não é mais dura do que a vagem da ervilha; dizer agora porem, si tem folhas e pevides, confesso não o ter bem observado, nem me recordo, embora por muitas vezes tivesse comido tal fruta.
§ 26. Existe tambem abundancia de pimentão, de que os nossos comerciantes somente servem-se para a tinturaria; mas os selvagens o pilam e maxucam com sal, que sabem optimamente fabricar, retendo agua do mar e fossos. A essa mistura xamam ionquet e d’ela uzam como nós uzamos do sal em nossas mezas; sem todavia praticar como nós com a carne, peixe ou outras viandas, salgando os pedaços antes de meter na boca, pois eles tomam primeiro o bocado em separado, depois tiram com dois dedos de cada vez uma porção d’esse ionquet, e engolem para dar sabor á comida.
Finalmente crece nesse paiz uma especie de favas grossas como um dedo polegar, as quaes os selvagens xamam comanda-uassú[69], e vegetam pequenas ervilha brancas e pardas xamadas comanda-mirim.
Crecem tambem limões redondos denominados morugans[70], mui doces e suaves ao paladar. § 27. Eis aqui não tudo quanto se poderia dizer das arvores, ervas, e frutos d’essa terra do Brazil, mas tudo quanto observei durante quazi um ano de minha estadia ali. Direi em concluzão, que, não existem n’America quadrupedes, aves, peixes, nem outros animaes em tudo e por tudo similhantes aos animaes da Europa, como acima declarei; que tambem não vi arvores, ervas, nem frutas, que não divergissem das nossas, excéto trez ervas, a saber, a beldroega, o mangericão, e o féto, que vivem em diversos lugares, como tudo cuidadozamente observei nas digressões, que fiz pelos bosques e campos d’esse paiz. Por isso quando a imagem d’esse novo mundo, que Deos me permitio vêr, aprezenta-se ante meos olhos, e contemplo a serenidade do ar, a densidade dos animaes, a variedade das aves a formozura das arvores e das ervas, a excelencia das frutas, e em geral as riquezas, com que decora-se essa terra do Brazil, imediatamente acode-me á lembrança esta exclamação do profeta contida no salmo 104: O seigneur Dieu, que tes oeuvres divers Sont merveilleux par le mond univers:
Ó que tu as tout fait par grand sagesse! Bref, la terre est pleine de ta largesse.
Felizes pois seriam os povos de tal terra, si conhecessem o autor creador de todas essas couzas; como porém assim não sucede, vou tratar das materias, que nos devem mostrar quam longe d’isso estam.
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