Universo da obra
Universo da obra
§ 1. TUPINAMBÁ. Eré-ioubé. Vieste.
FRANCEZ: Sim, vim.
T. Teh! Auge-ny-po. Muito bem.
T. Mara-pe-dereré? Como te xamas?
L. Lery oussou. Ostra grandre.
T. Ere-iacassopienc? Feixaste teo paiz para vir morar aqui?
F. Pa. Sim.
T. Eori-deretani ouani repiac. Vem ver o lugar, onde devemos morar.
F. Augé-bé. Muito bem.
T. I-endé-repiac? Aout i-euderépiac aouté éhérare.
Teh! Ouéreté kernois Lery-ousson yeméen! Ah pois veio para cá, meu filho lembrando-se de nós.
T. Eréon dé carameino? Trouxeste as tuas caixas? Entendem por isto quaesquer outras vazilhas de guardar fato, que alguem possa ter.
F. Pa arout. Sim; eu as trouxe.
T. Mobouy? Quantas?
Podemos por palavras exprimir quantas tivermos até o numero 5, nomeando-as assim:
Augé-pé 1, mocouein 2, mossaput 3, oiocondic 4, ecoinbo 5.
Si tiveres duas, bastará nomear quatro ou cinco. Bastará dizer mocouein por trez e quatro.
Similhantemente si tens quatro dirás oiocondic.
E assim por diante; mas si passar o numero 5, deves mostrar pelos teos dedos e pelos dedos das pessoas prezentes para contemplar o numero, que quizeres significar. Pois não têem outro modo de contar.
T. Maé péréro, de caramémo poupé? Que couza trazes dentro das tuas caixas?
F. A-aub. Vestimentas.
T. Mara-caé? De que qualidade ou cor?
F. Sobouy-été, azul. Pirenc, vermelho. Ioup, amarelo. Son, preto. Sobouy-masson, verde. Pirienc, de muitas côres. Pagassou-aue, rôxo. Tin, branco. E entende-se de camizas.
T. Mae-pamo? O que mais?
F. A cang aubé-roupé. Xapeos.
T. Seta-pé? Muitos?
F. Icatoupané. Tantos que não podemos contar.
T. Ai-pogno? É tudo?
F.Erimen. Não de modo nenhum.
F. Esse non bat. Nomeio tudo.
F. Coromo. Espera um pouco.
T. Nein. Ora, sus.
F. Mocap ou mororocap. Arma de fogo, como arcubus grande ou pequeno; pois mocap siginifica toda a especie de arma de fogo, quer canhões de navio, quer outros quaesquer.
Parece algumas vezes, que pronunciam Bocap ( com b), e seria bom escrever palavra com M B.
Mocap-coui é polvora, ou póde fogo, e tambem falca, polvarinho, etc.
T. Mara-vaé? Quaes sam?
F. Tapiroussou-alc. Xifre de boi.
T. Augé-gaton-tegué. Muito bem dito.
Máe pé seporyt rem? O que daremos por isto?
F. Arouri. Apenas os trouxe. Como si dicesse: Não tenho pressa em desfazer-me d’isto. Como dando a entender ser bom.
T. Hé! É uma intergeição, que costumam proferir quando pensam no qhe se lhes diz, querendoreplicar de bôa vontade. Todavia calam-se, afin de não parecerem impotunos.
F. Arrou itaygapen. Trouxe espadas de ferro.
T. Naoepiac-icho pené? Não as verei?
F. Bégoé irem. Dia de descanso.
T. Néréroupé guya-pat? Nâo trouxestes inxós.
F. Igatou-pé? Sam bonitas?
F. Guiapav-été. Sam inxós exelentes.
T. Aua-pomoquem? Quem as fez?
F. Quem as fez foi aquele que sabeis, que assim se xama?
T. Augé-terah Pagé ouassou remynogneu. E faz muito bem.
T. Acepiah mo men. Ah! Eu as veria de bôa vontade.
F. Karanmoussee. Em outra ocazião.
T. Tacépiah taugé. Queria ver agora.
F. Embereingué. Espere ainda.
T. Eréroupè itaxé amo. Trouxestes facas?
F. Aroureta. Trouxe com abundancia.
T. Cecouarantin vaé. Sam facas de cabo fendido.
F. En-eu non ivetin. De cabo branco.
Ivèpép. Navalhas.
Taxe miri. Facas pequens.
Pinda. Anzoes.
Montemonton. Facões.
Arroua. Espelhos.
Knap. Pentes.
Mourobouy eté. Colares ou braceletes azues.
Cepiah yponyéum. Não temos costume de vêr. Sam os mais bonitos que temos visto depois que começaram a vir cá.
T. Easo ia-voh de caramemo t’acepiah dè maè. Abre a tua caixa para eu vêr as tuas fazendas.
F. Aimossaénen. Não posso. Acepiah-ouca iren desne. Mostrarei, quando eu vier aqui.
T. Narour ichop’ iremmae desnem? Não te trago fazenda algumas vezes?
§ 2. F. Mae pererou polat. O que queres trazer?
T. Sceh de. Não sei, mas tu?
F. Soo. Quadrupedes.
Ourá. Aves.
Pirá. Peixe.
Ouy. Farinha.
Ietio. Nabo.
Commenda-ouassou. Favas grandes.
Commenda-miri. Favas pequenas.
Morgonia-ouassou. Laranjas e limões.
Maé tironem. Todas ou muitas couzas.
T. Mara-vaé soo ereiusch? De que qualidade de quadrupede queres comer?
F. Nacepiah que von gonacuré. Nâo quero dos d’este paiz.
T. Aa sienon desne. Eu os nomearei.
F. Tapiroussou. Animal assim chamado por eles, semi-asno, semi-vaca.
Seo uassou. Especie de veado e corsa.
Taiassú. Javali do paiz.
Agouti. Animal avermelhado do tamanho de um bacorinho de trez semanas.
Pague. É um animal do tamanho de um leitão de mez, raiado de branco e preto.
Tapiti. Especie de lebre.
F. Esse non ooca y chesne. Nomêe as aves.
T. Iacou. É ave do tamanho do capão, similhante á galinha de Guiné,e da qual existem trez especies, a saber: iacoutin, iacoupem e iacou-ouassou; sam de mui bom sabor, e tam apreciaveis como outras aves.
Moutou. Pavão selvagem, de que existem duas especies, pretos e pardos, tendo o corpo da grandeza do pavão europeo (ave rara).
Inambou-oassú. É uma perdiz grande; do tamanho da acima nomeada.
Inambou. É uma perdiz grande; do tamanho das nossas em França.
Pegassou. Rôla do paiz.
Paicacu. Outra especie de rôla menor.
§ 3. F. Seta pepira senaé? Existem muitos peixes bons?
T. Nam. Temos alguns.
Kurema. Barbo.
Parati. Especie de barbo.
Acara-oassou. Outro peixe grande assim xamado.
Acara-pep. Peixe xato ainda mais delicado, e assim xamado.
Acara-bouten. Outro peixe de côr trigueira e de menor tamanho.
Acara-miri. Peixe de tamanho mui pequeno, víve n’agua doce e é saborozo.
Ouara. Peixe grande de sabor.
Kamouroupoui-ouassou. Certo peixe grande.
§ 4 F. Mamo pe deretam. Onde é tua caza?
T. Aqui o selvagem nomêa o logar da sua moradia: - Kariauh, Ora-ouassou-onée, Iaueu-ur assic, Piracan i o-pen, Eircisa, Itanen, Taracouir-apan, Sarapo-u.
Sam estas as aldeias ao longo da praia entrando no rio de Geneure do lado da mão esquerda, declaradas por seo proprio nome; e não sei, que tenham tradução e significação d’estes nomes.
Keriú, Acara-u, Kouroumouré, Ita ané, ioirarouen, que sam as praias do dito do lado da mão direita.
As maiores aldeias na terra firme, quer de um quer de outro lado, sam Taucouaroussou-tuve, Oca-rentim, Sapopem, Nouroucuve, Arasa-tuve, usu-portuve, e muitas outras, de cuja gente teremos os mais amplo conhecimento pelo trato d’ela, bem como poderiamos julgar dos pais de familia frustraneamente xamamos res, e moradores n’essas mesmas aldeias, si os conhecessemos.
F. Mobouy-pé, tupicha gaton heuaou? Quantas aldeias grandes existem por cá?
T. Essenon auge pequoube ychesne. Nomêa algumas.
T. N’ âu. É uma palavra para xamar a atenção da pessoa a quem queremos dizer alguma couza.
E apirau i-iaoup. É nome dado a um omem, com a cabeça semi-calva, e que quazi não tem cabelos; careca.
F. Mamo-pè se tem? Onde é sua caza?
T. Kariauh-bé. Na aldeia assim denominada ou xamada, que é nome de um pequeno rio, de que aldeia tira a sua denominação, em razão de estar situada mui perto d’ele, e significa caza dos Karios, composto de Karios e auq, que significa caza, e tirnado os e acrecentando auq fará Kariauh. Bé é artigo do ablativo, que significa o lugar, pelo qual se pergunta e para onde se vae ou se quer ir.
Mosseu y gerre. Siginifica guardador de remedio; ou a quem pertence o remedio; e uzam d’essa expressão, quando querem xamar uma mulher feiticeira, ou que está possessa do espirito máo; pois mosseu é remedio; e guerra é pertenças.
T. Ourauh-oussou au areutin: grande penaxo da aldeia xamada Desestorts.
T. Ourauh-oussac-tuve gonare, etc. N’essa aldeia existe um lugar, onde tiram-se bambus mui grossos.
T. Ouacau: principal d’esse lugar, isto é, seo cabeça.
Soiar-ouassou: assim xama-se um limão grande ou laranja.
Maraca-ouassou: campainha grande ou sino.
Mae-uocep: couza que vae saindo da terra ou de qualquer lugar.
Karianpiare: caminho para ir aos Karios.
Sam estes os nomes dos principaes do rio de Geneure e dos Arredores.
§ 5. T. Che ropup-gatou, deroir ari. Estou muito contente por teres vindo.
Nein tereico, pai Nicolas iroi. Ora, fale com o senhor Nicoláo.
Nere roupe deré miceco? Não trouxeste tua mulher?
F. Arrout iran chereco angernie. Eu a trarei, quando os meos negocios estiverem arranjados.
T. Marapè d’érécoran? O que tens de fazer?
F. Cher auc-ouam. Minha caza póde ficar.
Mara-var –auc? Que especie de caza?
F. Seth, daè ehèréco-rem couap rengue. Não sei ainda o que devo fazer.
T. Nein tèreie ouap dèrècorem. Ora pois, pensa no que tens de fazer.
F. Peretan repiac-iree. Depois que eu tiver visto vosso paiz e vossa moradia.
T. Nereico-icho-pe deauen a irom? Não te averás com a tua gente, isto é, os do teo paiz?
F. Marà amo-pè? Porque perguntas?
T. Aipo-gué. Direi a razâo.
Che pontoupagué-déri. Estou assim incomodado, como dizendo: Bem queria saber.
F. Nên pé amotareum pè orèroubicheh? Não aborecereis o nosso principal, isto é, o nosso velho?
T. Erymen. De modo nenhum.
Séré cogaton pouy eùm-eié mo. Si não fosse couza de que se devesse acatar; dever-se-ia dizer:
Sècouaè aponan-é engatouresme y potèré cogaton. É costume de bom pai respeitar o que ama.
§ 6. T. Neresco-icho pirem-guarini? Não irás á guerra futura.
F. Asso irénué. Irei para o futuro.
Marapé peronagérè? Que nome têem os vossos inimigos? T. Touaiat ou Margaiat. É uma nação, que fala como os Tupinambas, e como os quaes os Portuguezes se relacionam.
Ouétaca. Sam verdadeiros selvagens, que vivem entre o rio Macahé e da Parahiba[95].
Ouéauem. Sam selvagens, ainda mais barbaros, que vivem nos bosques e nas montanhas.
Caraia. Sam gentios de mais nobre aspecto e mais abastados de bens, quer em, viveres quer em outros generos, do que os supra nomeados.
Karios. Sam outros gentios, que abitam além dos Tonaire, para o lado do Rio da Prata, os quaes usam de mesma linguagem que os Touòup. Toupinenquin.
Existe diferença na linguagem da terra entre as nações acima nomeadas.
Tououpinambaoults, Toupinenquin, Touaiaire, Teureuminon e Karios falam a mesma linguagem, ou pelo menos pouca diferença existe entre eles tanto nas expressões como no mais.
Os Karaias têem outras expressões, e diverso modo de falar.
Os Ouetacas diferem quer na linguagem quer nos vocabulos de uma e outra parte.
Os Oneanens tambem uzam de expressões diversas e de outro modo de falar.
§ 7. T. Teh oivac poeireca a paau uè, iendèsnè. A gente busca a um e outro para o nosso bem.
Esta palavra iendésné é dual, de que os Gregos uzam, quando falam de duas couzas. Todavia aqui é tomado por esse modo de falar.
Ty ierobah apaau ari. Ficamos ufanos da gente que nos busca.
Apoan ae mae gevre, iendesne. Essa gente existe para o nosso bem. É quem nos dá dos seos bens.
Ty réco-gaton indesne. Defendamos bem, e a trataremos de modod que ela esteja contente comnosco.
Iporenc eté-amreco iendesne. Eis uma couza bonita, que se nos oferece.
Ty maran gaton apoau-apé. Sejamos por este povo aqui.
Ty momouron, mé gerre iendesne. Não façamos injuria a pessoas que nos dam dos seos bens.
Ty poih apoaué iendesne. Damos-lhes bens para viver.
Ty porraca apoué. Tr abalharemos para fazer prezas para eles.
Esta palavra yporraca é especialmente empregada nas pescarias; mas uzam d’ela em qualquer outro artificio de apanhar quadrupedes. Ou aves.
Tyrrout maé tyronam ani apè. Tragamos todas as couzas que podemos aver.
Ty re com remoich-meiendé-maé recoussaué. Não trataremos mal aqueles que nos trazem seos bens.
Pe-poironc auu-mecharaire-oueh. Não sejaes máos, neos filhos.
Ta pere coihmaé. Afim de que tenhaes bens.
Toerecoih perairé amo. E vossos filhos tenham.
Ny recoih ienderamouyn maè ponaire. Não temos bens de nossos avós.
Opap cheramouyn maè ppomaire aitih. Desperdicei tudo quanto meo avô me deixou.
Apoan maè ry oi ierobiah. Fico ufano com os bens que essa gente me traz.
Ienderamouyn remiè piac potategue aouaire. Isto quereriam nossos avós ter visto, mas nunca viram.
Teh! oip ot arhètè ienderamouyn recohiare ete iendesme. Ora, tudo vae bem; e coube-nos melhor sorte do que a nossos avós.
Iende porrau oussou vacare. Isto nos tira a tristeza.
Iende-co ouassou gerre. Quem nos faz ter grandes ortas (roças).
En sassi piram, ienderè mmy non apê. Não faz mal ás nossas criancinhas, quando as tonsuramos.
Entendo esse diminutivo creancinhas como filhos dos nossos filhos.
Tyre coih apouan, ienderoua gerre-ari. Levemos estes comnosco contra os nossos inimigos.
Toere coih mocop ò mae-ae. E tenham arcabuzes, que vieram com eles.
Mara-mo senten goton-enin amo? Porque não serão fortes?
Meme-tae morerobiarem. É uma nação, que não tem medo.
Ty senenc aponau, maram iende iron. Experimentemos a sua força estando comnosco.
Meure-tae moreroar roupiare. Sam eles que destroçam os que vencem os outros, a saber, os Portuguezes.
Agne he oueh. Como se dicessem: É verdade tudo o que digo.
Nein-tyamoneta iendere cassoriri. Conversemos com aqueles que nos procuram.
Querem os selvagens falar de nós em bom sentido, como a fraze o inculca.
F. Nein-che atam-assaire. Ora pois, meo aliado.
Sobre este ponto porem cumpre notar, que as palavras atour-assap e coton-assap diferem de sentido; pois a primeira expressão significa perfeita aliança entre si e entre eles e nós, de que rezulta serem comuns os bens entre uns e outros.
Todavia os dezignados pela primeira expressão não podem receber a filha nem a irman do seo aliado. O segundo modo de exprimir a aliança consite n’um meio passageiro de xamarem-se uns aos outros por nomes diversos dos nomes próprios, como: minha perna, meo olho, minha orelha, e outros similhantes.
§ 8. T. Maé resse iende moneta? De que falaremos nós?
F. Séeh mae tirouen resse. De muitas e diversas couzas.
T. Mara-pieu y vah reré? Como se xama o céo?
F. Céo.
T. Cyh-rengne tassenouh maetironen desne.
F. Auge-bè. É bem dito.
T. Mac. Céo.
Couarassi. Sol
Iasce.Lua
Iassi tata ouassou. A grande estrela da manhan e da tarde, que comumente xamamos Lucifer.
Iassi-tata-miri. Sam todas as demais estrelas pequenas.
Ubouy. É a Terra.
Paranam. O mar.
Uh-été. É agua doce.
Uh-een buhe. Agua que os marinheiros mais frequentemente xamam sommaque.
Ita é propriamente tomado por pedra, e tambem por toda a especie de metal e fundamento de edificio, como aoh-ita, pilar da caza.
Iapurr-ita. Frente de caza.
Iura-ita. Traves grossas da caza.
Igourahon y louirah. Toda a especie e qualidade de madeira.
Ourapat. Arco. Embora seja nome composto de ybou-irah, que significa madeira, e apat, que significa ganxo, ou parte, todavia pronunciam orapat por sincope.
Arre. Ar.
Arraip. Máos ares.
Amen. Xuva.
Amen-poyton. Tempo disposto e prestes a xuver.
Toupen. Trovão.
Toupen-verap. É o relampago que o procede.
Ibuoytin. Nuvens, ou nevoeiro.
Ibue-tare. Montanhas.
Guum. Campos ou terra plana, onde não existem montanhas.
Taue. Aldeias.
Auc. Caza.
Uh-ecouap. Rio ou agua corrente.
Uh-paon. Ilha cercada d’agua.
Kaa. É toda a especie de mato e floresta.
Kaa-paon. É um bosque no meio de um campo.
Kaa-onau. Couza creada nos bosques.
Kaa gerre. É um espirito maligno, que constantemente os prejudica nos seos negocios.
Igat. Barquinha de casca de páo, com capacidade para conter 30 ou 40 omens de guerra.
Tambem toma-se por embarcação, a que xamam Yguerossou.
Puissa ouassou. É uma bolsa para apanhar peixe.
Ingura. É uma canoa grande para apanhar peixe.
Inquei, diminutivo. Canoa que serve, quando as aguas transbordam do seo curso.
Nomognot maè tasse nom dessue. Não nomêa outras couzas.
§ 9. Emourbeon deretam ichesne: Fala-me do teo paiz e da tua moradia.
F. Augè-bé derengueé pourendoup. É bem dito: inquire primeiramente.
T. Ia-eh mèrape deretani-ere. Concordo n’isto. Que nome tem o teo paiz e a tua moradia
Os selvagens não fazem diferença entre cidade e aldeia em razão do seo costume, pois não possuem cidades.
F. Pa. Sim.
T. Moboii-pe-reroupichah-gatou? Quantos senhores tendes?
F. Auge-pé. Um somente.
T. Marape-sere: Como se xama?
F. Enrique.
Foi no tempo do rei Enrique segundo, que fizemos esta viagem.
T.Tere-porrem. Eis um nome bonito.
Mara-pe peron pichau-eta-enin? Porque não tendes muitos senhores?
F. Moroéré chih-gué. Não tmeos mais de um.
Ore ramouin-aué. Desde o tempo dos nossos avós.
T. Mara pieuc-pee? Não somos os que temos riquezas.
T. Epé noeré-coih ? peronpichah-maè ? E vosso principe tem muita riqueza?
F. Oerecoig. Tem muita, muita:
Oree-mae-gerre-ahepé. Tudo o uq etemos está debaixo de suas ordens.
T.Oraini-pe ogèpé? Vai á guerra?
F. Pa. Sim.
T.Mobouy-tane-pe-ionca ny maé? Quantas cidades ou aldeias tendes*
F. Seta-gaton. Tantas que não posso dizer.
T. Nirèsce mouih-pene? Não as nomearás?
F. Ipoicopouy. Seria mui longo, ou profixo.
T.Iporrenc-pe-pertani? O lugar, d’onde soi, é bonito?
T.Iporren-gaton. É muito bonito
T.Eugaya-pe-per-auce? Vossas cazas sam assim? Isto é, como as nossas.
F.Oicoe gaton. Tem muita diferença.
F. Mara-vae? Como sam?
F. Ita-gepe. Sam todas de pedra.
F. Youroussou-pe? Sam grandes?
F. Tourroussou-gatou? Sam muito grandes?
F. Valton-gaton-pé? Sam muito grandes? A saber, altas.
F. Mahono? Muito.
Esta palavra exprime mais do que muito, pois a empregam na significação de couza maravilhoza.
T.Eugaya-pe-pet aut ynim? O interior é assim? A saber, como das d’eles.
T. Erymen. De modo nenhum.
§ 10. T.Esce non de rete renondau eta ichesne.
Nomêa as couzas pertencentes ao corpo.
F. Escendu. Escuta.
T. Yeh! Estou pronto.
F. Che-acan. Minha cabeça.
Dean-can. Tua cabeça.
Ore-acan. Sua cabeça.
Pé-acan. Vossa cabeça.
Anat-can. Suas cabeças.
Para melhor compreender de passagem estes pronomes declarei sómente as pessoas quer do singular quer do plural.
Primeiramente che é a primeira pessoa do singular, que serve em todos os modos de falar quer primitivos,quer derivados, possessivos ou não. E as outras pessoas tambem.
Chè-anè. Minha cabeça, ou meos cabelos
Chè-cona. Meo rosto.
Chè-membi Minhas orelhas.
Chè-sshua. Minha testa.
Chè-ressa. Meos olhos
Chè-tin. Meo nariz.
Chè-iourou. Minha boca.
Chè-retoupané. Minha face
Chè-redmina. Meo queixo.
Chè-redmina-ané. Minha barba.
Chè-ape-com. Minha lingua.
Chè-ram. Meos dentes.
Chè-aiouré. Meo colo, ou minha garganta.
Chè-popa. Meos peitos.
Chè-rocapé. Minha dianteira em geral.
Chè-atouconpé. Minhas costas.
Chè-pouy-assoo. Meo espinhaço.
Chè-rousbouy. Meos rins.
Chè-reniré.Minhas nadegas.
Ché-innanpouy.Meos ombros.
Chè-inna. Meos braços.
Chè-papouy. Meo punho.
Chè-po. Minha mão.
Chè-ponen. Meos dedos.
Chè-puyac. Meo estomago, ou figado.
Chè-reguie. Meo Ventre.
Chè-pourou-assen. Meo umbigo.
Chè-cam. Minhas mamas.
Chè-oup. Minhas côxas.
Chè-roduponam. Meos joelhos.
Chè-porace. Meos cotuvelos. Chè-redemen. Minhas pernas. Chè-pouy. Meos pés.
Chè-pussempé. As unhas das meos pés.
Chè-ponampé. As unhas das minhas mãos.
Chè-gui eneg. Meo coração e pulmão.
Chè-eucg. Minha alma, ou meo pensamento.
Chè-eucg-gouere. Minha alma, depois desahida do corpo.
Nomes das partes do corpo, que por decencia se não declaram. Cheren-couen, chè-rementien, chè-rapoupit.
Por brevidade não darei mais explicações.
É de notar, que não deveremos nomear a maior parte das couzas, quer as já escritas, quer outras, sem acrecentar o pronome, tanto no singular como no plural.
E para melhor compreensão apontarei separatim:
Singular: Chè, eu. Dé, tu. Ahé, ele.
Plural: Oree, nós. Pêe, vós. Au-aé, eles.
Quanto á terceira pessoa ahè é masculino, e para o feminino e neutro emprega-se aé sem aspiração.
E no plural au-aé serve para os dois generos, tanto masculino como feminino, e por consequencia póde ser comun.
§ 11. Couzas pertencenter ao arranjo domestico e á cozinha:
Emi redu tata. Ascende o fogo.
Emo-goep-tata. Apaga o fogo.
Erout-che-rata-rem. Traga com que acender o meo fogo.
Emogip-pira. Vae cozinhar o peixe.
Essessit. Assa-o.
Emoui. Aferventa-o.
Fa vecu ouy amo. Fáze farinha.
Emogip caouin-amo. Faze o vinho ou potagem assim xamada.
Coein-upé. Vai á fonte.
Erout vichesne. Traze-me agua.
Chè-reunni-auge-pe. Dá-me de beber.
Guere me che-renuyon-recoap. Vem dar-me de comer.
Taie poch. Eu lavo ao minhas mãos.
Tae-iourouh-eh. Eu lavo a minha boca.
Chè-embouassi. Tenho fome.
Ehe-usseh. Tenho sede.
Che-reaic. Tenho calor; eu suo.
Che-rou. Tenho frio.
Che-racoup.Estou com febre,
Che-carouc-assi. Estou triste. Embora carouc signifique cespera ou tarde.
Aicotene. Estou incomodado, por qualquer negocio que seja.
Chè porora oussoup. Sou tratado incomodamente, ou sou mizeravelmente tratado.
Chèroemp. Estou alegre.
Aicome mouli. Sou objéto de zombaria, ou zombam de mim.
Aico-gaton. Estou a meo gosto.
Chè-remiac-oussou. Meo escravo.
Chère miboye. Meo servo.
Chè-roiac. Aqueles que estam abaixo de mim, sam para me servir.
Chè pora cassare. Meos pescadores de peixes e de mariscos.
Chè-maé.Meos bens, minhas mercadorias, alfaias, ou qualquer couza que me pertença.
Chè-remig-mognen. E do meo gosto.
Chèrere-couarré. Minha guarda.
Chè-roubichac. Aquele que é maior do que eu. Aqueles a quem xamamos rei, duque ou principe.
Moussacat. É o pai de familia, que é bom e dá de comer aos viandantes, quer estrangeiros quer patricios.
Querre-muhau. Poderozo na guerra e valente em praticar façanhas.
Teuten. O que é forte em aparencia na guerra ou fóra d’ela.
§ 12. Da parentela:
Chè roup. Meo pai.
Chè-requeyt. Meo irmão mais velho.
Chè-rebure. Meo filho mais moço, caçula.
Chè-renadire. Minha irman.
Chè-rure. Filho de minha irman, sobrinho.
Chè-aiché. Minha tia.
Ai, mãe. Tambem se diz chè-fi, minha mãi, e mais frquentemente falando d’ela.
Chè-sut. Companheira de minha mãi, que é mulher de meo pai, como minha mãi.
Chè-raut. Minha filha.
Chè-reme mynon. Filhos de meos e de minhas filhas, netos.
Convem notar, que vulgarmente tratam o tio por pai, e similhantemente o pai xama a seos sobrinhos e sobrinhas meo filho e minha filha
§ 13. A palavra que na nossa lingua os gramaticos qualificam e xamam verbo, na lingua brazilica é guengane, que equivale a locução ou modo de falar. E para melhor inteligencia aprezentarei alguns exemplos.
Primeiramente. Singular indicativo ou demostrativo aico, eu sou; ereico, tu és; oico, ele é.
Plural: Oroico, nós somos; peico, vos sois; aurae-ico, eles sam.
A terceira pessoa do singular e do plural sam similhantes, mas no plural acrecenta-se au ae, pronome que significa eles, como é claro.
No tempo passado imperfeito, e não inteiramente transacto, pois póde ainda ser o que então era, o singular rezolve-se pelo adverbio aquoémé, isto é, n’esse tempo.
Assim: aico-aquoèmé, eu era então; creico-aquoémé, tu eras então; oico-aquoèmé, ele era então.
Plural imperfeito: Oroico-aquoémé, nós eramos então; peico-aquoémé, vós ereis então; auraé-oico-aquoémé, eles eram então.
Quanto ao tempo perfeitamente passado, e totalmente tranzacto. Singular: torna-se o verbo oico como antes, e se acrescentará o adverbio aquoé-memé, que equivale ao tempo findo e perfeitamente passado sem amis esperança de sermos do modo porque eramos ao tempo da ação.
Exemplo: Assavoussou-gaton-aquoé mené: Eu amei perfeitamente n’esse tempo; guovénen-gaton-tegné, mas agora absolutamente não. Como antes ele devia ligar-se á minha amizade durante o tempo em que lhe tinha amizade. Pois ninguem pode voltar a ela.
Quanto ao tempo cindouro que xamamos futuro: aico iren, eu serei no porvir.
E assim indo por diante as outras pessoas tanto no singular como no plural.
Quanto ao determinativo, que se xama imperativo: oico sê tu; toico, seja ele; toroico, sejamos nós, tapeico, sêde vós; aurae-toico, sejam eles.
E quanto ao futuro, basta acrescentar iren, como já fica explicado; e quanto ao prezente do imperativo, convem dizer tangé, que equivale a agora, atualmente.
Quanto á simpatia e afeição que temos a alguma couza, a que xamamos optativo: Aico-mo men, oh! quam bem estaria eu. E segue como já fica dito.
Quanto á couza que pretendemos juntar, e xamamos conjuntivo, rezolve-se com o adverbio iron, que significa aquilo que dezejamos juntar. Exemplo: Taico de iron, eu seja comtigo. E assim nos cazos similhantes.
O participio é tirado do verbo: Chè recoruré, estando eu. Este participio não póde ser bem entendido só, sem se lhe acrescentar no singular o pronome ahe e aé; e similhantemente no plural é ore, peè, au, aé.
O tempo indefinido d’este verbo póde ser tomado por infinitivo;,as quazi nunca uzam d’ele.
Conjugação do verbo aiout. Exemplo do indicativo ou demostrativo no tempo prezente. Na nossa lingua franceza é duplo, e assim tem fórma diversa para exprimir o prezente do passado.
Numero singular: Aiout, eu venho, ou eu vim; ereiout, tu vens, ou tu vieste; oout, ele vem, ou ele veio.
Numero plural: Ore iout, vos vindes, ou viesteis; au ae o out, eles vêem, ou eles vieram.
Quanto aos demais tempos deve se tomar sómente os adverbios acima declarados; pois nenhum verbo se conjuga por outra fórma, que se não rezolva por um adverbio, tanto no preterito, prezente, imperfeito, e plus quam perfeito indefinido, como no futuro ou tempo vindouro.
Exemplo do preterito imperfeito, que não está totalmente acabado: Aiout dimaè nè, vae muito tempo que eu vim.
Estes tempos podem ser mais ou menos indefinidos, conforme as circunstancias de quem fala.
Exemplo do futuro ou tempo vindouro. Aiout irau nè, eu virei em algum dia. Tambem podemos dizer irau sem acrecentar nè, como o exigir a fraze no modo de falar.
Cumpre notar, que, acrescentando os adverbios, convem repetir as pessoas, como no prezente do indicativo ou demostrativo.
Exemplo do imperativo ou determinativo.
Numero singular. Eroi, vem. Só tem a Segunda pessoa: Eyot, pois n’esta lingua não se póde mandar a terceira pessoa, que não vemos, mas póde-se dizer: Emot-out, faze-o vir; pe-ori, vinde; pe-iot, vinde.
Os sons escritos eiot e pe-iot têem sentido identico, mas o primeiro eiot é mais decente para dizer-se entre os omens, entretanto que o ultimo pe-iot é comumente empregado para xamar os animaes e aves, que os selvagens criam.
Exemplo do optativo, embora pareça mandar pedindo, ou ordenando.
Singular. Aiout-mo, eu queria vir, ou viria de bôa vontade. Seguem-se as pessoas como na conjegação do indicativo. Tem tempo futuro, acrescentando o adverbio como acima está exemplificado.
Exemplo do conjuntivo. Ta-iout, eu venha. Para melhor enxer a significação acrecenta-se a palavra nein, que é adverbio para exortar, mandar, iniciar, ou rogar.
Não conheço indicativo n’este verbo; mas d’ele forma-se o participio touume, vindo.
Exemplo. Chè-rourmé-assoua-nitin. Che-remierecoponére. O que significa: Vindo, encontrei o que outr’ora guardei.
Senoyt-pe. Sanguesuga.
Inuby-a. Buzina de madeira, de que os selvagens se servem como corneta.
§ 14. No demais afim de que não só aqueles com quem na ida e na vinda n’America (muitos dos quaes ainda vivem) e até os marinheiros e outros, que viajaram e estanciaram por algum tempo no rio de Geneure ou Guanabara, sob o tropico de Capricornio, julguem melhor e mais prontamente dos discursos, que acima tenho feito, a respeito das couzas por mim observadas n’esse paiz, quero ainda, particularmente em bem d’eles, adicionar a este coloquio o catalogo de 22 aldeias, onde estive comunicando familiarmente com os selvagens americanos.
Primeiramente mencionarei as que estam do lado esquerdo de quem entra no dito rio, e sam:
1. Keriauc
2.
3. Jabarici. Os Francezes xamam esta Segunda aldeia Pepin por cauza de um navio, que ali carregou uma vez, e cujo mestre tinha esse nome.
4.
5. Euramyry. Os Francezes a xamaram Gosset por cauza de um trugimão, que tinha esse nome e ali estivera.
6.
7. Pira-euassou.
8.
9. Sapopem.
10.
11. Ocarentin, bonita aldeia.
12.
13. Oura suassou-onée.
14.
15. Tentimen.
16.
17. Cotina.
18.
19. Pano.
20.
21. Sarigoy
22.
23. Uma xamada Pedra pelos Francezes, em razão de um pequeno roxedo, quazi do feitio de uma mó de moinho, que assinalava no bosque a entrada do caminho que la ia ter.
24.
25. Outra xamada upec pelos Francezes, porque avia ali muito caniço da India, a que os selvagens dam esse nome.
26.
27. Item uma que denominamos Aldeia das Flexas, porque da primeira vez que ali fomos pelo mato atiramos muitas flexas sobre um páo seco grosso e alto, as quaes ali permaneceram cravadas, e assim o fizemos para depois mais facilamente axarmos o caminho.
28.
As do lado direito sam:
29. Kari-u.
30.
31. Acara-u.
32.
33. Morgouia-ouassou.
34.
As da ilha grande sam:
35. Pindo-oussou.
36.
37. Corouque.
38.
39. Pirauuou.
40.
41. E outra, cujo nome me escapou da lembrança, entre Pindo-oussu e Pirauuou, na qual em certa ocazião ajudei a reegatar alguns prizioneiros.
42.
43. Depois outra entre Corouque e Pindo-oussu, da qual me esqueci o nome.
44.
Em outro lugar já dice sam essas aldeias, eo feitio das cazas.
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