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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 6 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo V — Descobrimento e primeira vista que tivemos tanto da India ocidental ou terra do Brazil, como dos selvagens abitantes d’ela com tudo quanto nos aconteceo no mar até o tropico de Capricornio

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§ 1. Depois d’isto tivemos vento do oéste, que nos era propicio, e durou-nos tanto, que no vigecimo-sesto dia de Fevereiro de 1557, cahido na festa da natividade, quazi pelas 8 óras da manhan, tivemos vista da India ocidental ou terra do Brazil, quarta parte do mundo, desconhecida dos antigos, tambem xamada America em razão do nome d’aquele que pelos annos de 1497 primeiramente a descobrio.

Ora, não é precizo perguntar, si, achando-nos tam proximos do lugar, que buscavamos na esperança de pormos brevemente pé em terra, alegramos-nos,e rendemos graças a Deos com boa vontade. De fato, como avia perto de quatro ou cinco mezes, que sem vêr porto nos moviamos e flutuavamos no mar, muitas vezes sobresaltou-nos a idéa de axarmos-nos como exilados, e de não podermos jamais sair de tal exilio.

§ 2. Portanto, depois de termos observado e percebido bem claramente, que o que descobriamos era terra firme (pois frequentemente enganamos-nos com nuvens que se desvanecem) tendo vento propicio e aproando a terra, no mesmo dia (indo adiante o nosso almirante) viemos surgir e ancorar meia legua perto de uma terra e lugar montuozo xamado Uassú[2] pelos selvagens; onde, depois de pormos n’agua o escaler, e de termos, conforme o costume de quem xega n’esse paiz, disparado alguns tiros de artilharia para advertir os abitantes, vimos repentinamente grande numero de omens e de mulheres na praia do mar.

Nenhum dos nossos marinheiros, que para ali tinham viajado, reconheceo bem o sitio; entretanto os selvagens eram da nação dos Maracajás, aliada dos Portuguezes, e por consequencia inimiga dos Francezes, e si nos apanhassem certamente não teriamos pago resgate algum, mas lhe teriamos servido de pasto, depois de mortos e espostejados.

§ 3. Começamos então por ver logo, mesmo n’este mez de Fevereiro (no qual por cauza do frio e do gelo todas as couzas estam ainda sumidas e ocultas no seio terra aqui e, em quazi toda a Europa) as florestas, arvores, e ervas d’esse paiz tam verdes como as da nossa França nos mezes de Maio e Junho: o que sucede em todo o anno e em todas as estações n’esta terra do Brazil.

Ora, não obstante essa inimizade dos nossos Maracajás com os Francezes, a qual eles e nós dissimulamos quanto podiamos, o nosso contra-mestre, que sabia engrolar a sua linguagem, meteo-se n’um escaler com alguns marujos, e dirigio-se para a praia, onde viamos os selvagens reunidos em grandes magotes.

§ 4. Todavia a nossa gente não se fiava n’eles sinão com muita cautela, afim de obvias o perigo de serem agarrados e moqueados, isto é, assados; por isso aproximando-se de terra, ficaram todavia fora do alcance de suas flexas.

Assim os nossos marujos mostraram-lhes de longe facas, espelhos, pentes e outras bugiarias, com as quaes os xamavam e pediam viveres; apenas alguns, que aproximaram-se o mais possivel, ouviram as nossas vozes, não fizeram-se mais rogados, e apressaram-se com outros a procurar ao nossos companheiros.

D’este modo o nosso contra-mestre em seo regresso trouxe-nos farinha fabricada de certa raiz, que os nossos selvagens comem em lugar de pão, pernas e carnes de certa especie de javali com outras victualhas e frutas, que o paiz produz em abundancia; e n’esta ocazião seis homens e uma mulher não opuzeram dificuldade em embarcar para nos virem ver no navio, aprezentarem-se-nos, e darem-nos as boas vindas.

§ 5. E porque foram os primeiros selvagens, que vi de perto, deixo-vos pensar, si os olhei e contemplei atentamente; e embora rezerve-me para descrevel-os e pintal-os minuciosamente em lugar proprio, todavia quero desde já dizer aqui de passagem alguma couza a respeito d’eles.

Primeiramente, tanto os homens como as mulheres estavam tão completamente nús como quando sahiram do ventre materno: todavia para aprezentarem-se mais galhardos estavam pintados e manxados de preto por todo o corpo. Além d’isso os omens traziam a parte dianteira da cabeça tosqueada rente á maneira de uma coroa de frade, tinham na parte posterior os cabelos compridos que estavam aparados ao redor do pescoço, como entre nós fazem pessoas que andam de cabeleira.

Ainda mais: todos tinham o labio inferior, furado e fendido, e cada um trazia metida no beiço uma pedra verde, mui polida, convenientemente aplicada, e como engastada a qual era da largura e redondeza de um tostão, e a tiravam e metiam, quando queriam.

Ora, eles trazem taes couzas, julgando ficar assim mais bem adornados; mas, para dizer a verdade, quando tiram a pedra, a grande fenda, do labio inferior figura Segunda boca, e isso os afeia estremamente.

Quanto á mulher, além de não ter o beiço fendido, trazia, como todas as demais mulheres de lá, os cabelos compridos; mas em relação ás orelhas as tinham tam cruelmente furadas, que se poderia meter o dedo atravez dos buracos, e trazia n’elas grandes pendurezas de osso branco, as quaes batiam-lhe nos ombros.

Rezervo-me para a diante refutar o erro d’aqueles que nos quizeram fazer crer, que os selvagens sam cabeludos.

§ 6. Antes de se separarem de nós, aqueles de quem falo, os omens, e principalmente dois ou trez velhos, que pareciam ser os mais notaveis da sua freguezia (como cá dizemos) afirmavam, que avia nas suas terras o mais excelente páo-brazil, que se poderia encontrar no paiz, e prometiam ajudar-nos a cortar e conduzir a madeira, e tambem a ministrar-nos viveres, fazendo todo o esforço para persuadir-nos a carregar o nosso navio.

Como porém eles eram nossos inimigos, como já fica dito, isto tendia a xamar-nos astuciozamente e fazer-nos por pé em terra, para terem vantagem sobre nós, depois nos desbaratarem, e comerem; e porque era nosso intento dirigir-nos a outros lugares, não nos detivemos ali.

§ 7. Assim depois que os nossos Maracajás com grande admiração viram a nossa artilharia e tudo quanto quizeram no navio, por consideração e perigozas consequencias (como a possibilidade de pagarem o dano outros Francezes, que dezapercebidos ali aparecessem) não os quizemos molestar nem reter; e pedindo eles regresso para terra em busca dos seos companheiros, que na praia os esperavam, tratamos de pagar e satisfazer os viveres, que nos tinham trazido.

E porque entre eles não uzam de moeda, o pagamento, que lhes fizemos, foi de camizas, facas, anzóes de pescaria, espelhos e outras mercadorias e veniagas proprias para o trafico d’esse povo.

Mas, por fim de contas, assim como esta boa gente, totalmente nua, na sua xegada não tinha sido avára em mostrar-nos tudo quanto trazia, assim tambem ao partir já vestidos de camizas, que lhes deramos, quando iam sentar-se no escaler (não estando acostumados, a trazer roupa, nem vestuario de qualquer especie) as arregaçaram até o embigo, afim de as não estragar, e descobriram o que antes convinha ocultar, querendo ainda, ao despedirem-se, que, lhes vissemos as nadegas e o trazeiro.

Não temos aqui onestos cavalheiros e invejavel cortezia de embaixadores?

§ 8. Pois não obstante o provérbio tam comun na boca de todos nós, a saber, que a carne nos é mais conxegada e mais cara do que a camiza, eles ao contrario para mostrar, que assim não eram bem ospedados com a magnificiencia de seo paiz em nossa caza, aprezentavam-nos o sedeiro, preferindo as camizas á propria péle.

Ora depois de tomarmos alguns refrescos n’esse lugar, não obstante nos pareceram em principio ruins as viandas, que tinham trazido, não deixámos todavia de comel-as atenta a necessidade: no dia seguinte, que era um domingo, levantámos ancora, e démos á vela.

§ 9. Assim costeando a terra na direção do ponto, para onde pretendiamos ir, apenas navegámos nove ou dez legoas, axámos-nos no lugar de um fortim dos Portuguezes por eles denominado Espirito-Santo (e pelos selvagens Moab), os quaes reconheceram a nossa tripolação bem como a da caravéla, que traziamos (que julgaram termos tomado aos seos compatriotas) o dirigiram-nos trez tiros de canhão, aos quaes respondemos com trez ou quatro contra eles; como porèm estavamos muito fóra do alcance da artilharia, eles não nos ofenderam, assim tambem nós, segundo creio, a eles não ofendemos.

Proseguimos pois em nosso caminho, e costeando sempre a terra passámos perto do lugar xamado Itapemirim[3], onde, na entrada da terra firme e na embocadura do mar, estam pequenas ilhas; e creio, que os selvagens abitantes d’esse lugar sam amigos e aliados dos Francezes.

Pouco mais adiante, aos 20 gráos, abitam os Parahibas[4], outros selvagens, em cujas terras, como já observei, vêem-se pequenas montanhas ponteagudas e com a fôrma de xaminé.

§ 10. No primeiro dia de Março estavamos na altura de pequenos baixos, isto é, escolhos e restingas entremeadas de pequenos roxedos prolongados para o mar, os quaes os marinheiros, com temor de bater n’eles, evitam afastando-se quanto podem.

No lugar d’esses baixos descobrimos e avistámos bem claramente uma terra plana, a qual na extensão de quinze legoas é possuida e abitada pelos Goitacazes[5], selvagens tam ferozes e bravios, que não podem viver em paz com outros, e têem sempre guerra aberta e continua não só com todos os seos vizinhos, mas tambem com todos os estrangeiros.

Quando sam apertados e perseguidos por seos inimigos os quaes ainda os não poderam vencer nem domar) andam tam rapidos a pé, e correm tam ligeiros, que não só d’este, modo evitam o perigo da morte, mas tambem no exercicio da caça apanham na carreira certos animaes silvestres, especie de veados e corsas.

Andam nús, assim como fazem todos os Brazileiros, e trazem os cabelos compridos e pendentes até as nadegas, contra o costume mais ordinario dos omens d’esse paiz, os quaes (como já dice, e ainda mais amplamente direi) tonsuram o cabelo na frente, e o cerceam na nuca.

§ 11. Em suma esses diabolicos Goitacazes, invenciveis n’esta limitada região, comedores de carne umana como cães e lobos, e possuidores de linguagem não entendida pelos vizinhos, devem ser considerados e postos na ordem das nações mais barbaras, crueis e terriveis, que se possam axar em toda India ocidental e terra do Brazil.

E como não têem, nem querem ter conhecimento nem trafico com os Francezes, Espanhóes e Portuguezes, nem com outras gentes transatlanticas, por isso ignoram em que consistem as nossas mercadorias.

§12. Todavia, conforme o que depois eu ouvi de um interprete da Normandia, quanto aos seos vizinhos os procuram e eles os querem agazalhar, eis o seo modo e maneira de permuta.

O Maracajá, Carijó, ou Tupinambá[6], (que são os nomes das trez nações vizinhas), ou outro qualquer selvagem d’esse paiz, sem fiar-se nem aproximar-se do Goitacaz, mostra-lhe de longe o que tem, quer seja fouce, faca, pente, espelho ou qualquer outra mercadoria ou veniaga, que traz, e dá-lhe a intender por sinaes, si quer trocar issopor outra couza. Si o convidado por seo lado concorda, mostra-lhe em reciprocidade plumas, pedras verdes, que põem nos beiços, ou outras couzas das que têem no seu territorio, e combinam o lugar a 300 ou 400 pés de distancia, onde o ofertante depozita em uma pedra ou pedaço de páo o objéto de permuta, e afasta-se para o lado ou para traz.

Depois d’isto o Goitacaz vem tomar o objéto, e deixa no mesmo lugar a couza, que mostrára, e arredondando-se do lugar permitirá, que o Maracajá, ou quem quer que seja, venha buscal-a; entretanto mantem seos compromissos.

Feita porém a troca, apenas cada qual volta e ultrapassa os limites, em que a principio se aprezentára, rompem-se as tregoas, e então cada um procura alcançar e agarrar o companheiro, afim de arrebatal-o com o que trazia; e dixo ao vosso criterio decidir si o Goitacaz, corredor como o galgo, terá vantagem, e si, em perseguição do o seo competidor, acelerará a carreira.

Pelo que não sou de parecer, que vam negociar nem permutar com este gentio de coixos, ou gotozos, ou outros mal empernados, que não queiram perder as suas mercadorias.

§ 13. É verdade, que conforme se diz, os Biscainhos tambem têem linguagem especial, e por serem, como sabemos, facetos e ageis reputam-se os melhores lacaios do mundo; e assim como os poderiamos n’estes dois pontos comparar com os nossos Goitacazes, assim tambem parece, que seriam mui idoneos para jogar com eles a malha.

Tambem poderiamos pôr em paralélo certos omens moradores na região da Florida, perto do rio de Palmas, os quaes (como se tem dito) sam tam fortes e ligeiros na carreira, que acompanham um veado, e correm um dia inteiro sem descansar, bem como os grandes gigantes, que vivem no Rio da Prata, ao quaes tambem (diz o mesmo autor) sam tam ageis, que na carreira agarram com as mãos certos cabritos ali existentes.

Soltando porém rédeas ao pescoço e largando a trela a todos esses corseis e cães corredores de dois pés, para deixal-os ir celeres como o vento e algumas vezes tambem (como é verrosimil) dando furibundas cambalhotas cair como xuva, uns em lugares diversos da America (distantes todavia uns dos outros, principalmente as das proximidades do Prata e da Florida, mais de 1.500 legoas) e outros na nossa Europa, passarei ao fio da minha istoria.

§ 14. Depois de termos assim costeado e deixado atrás de nós a terra d’esses Goitacazes, passámos á vista de outra região proxima, xamada Macahé[7], abitada por outros selvagens, dos quaes apenas direi, que pelas couzas sobreditas cada qual póde julgar, si eles não fazem gosto (como se costuma dizer), nem tratam de dormir perto de vizinhos tam brutaes e inquietos madrugadores, como sam os Goitacazes.

Nas suas terras e á borda do mar vê-se uma grande róxa erguida com a fórma de torre, a qual, quando o sol lhe bate em cima, reluz e sintila tanto, que pensam alguns ser ela uma especie de esmeralda; e com efeito os Francezes e Portuguezes, que por ali viajam, adenominam Esmeralda de Macahé.

Dizem, que o lugar, onde ela está, fica rodeado de uma intimidade de pontas de pedra á flor d’agua, que avançam pelo mar quazi duas legoas, e por isso ninguem póde ter ingresso por esse lado; e tambem consideram, que por parte de terra é inteiramente inaccessivel.

§ 15. Igualmente existem trez pequenas ilhas xamadas ilhas de Macahé, junto das quaes fundeámos, e dormimos uma noite; e velejando no dia seguinte, pensavamos n’esse mesmo dia xegar ao Cabo-frio[8], mas em vez de progredirmos, tivemos vento tam contrario, que foi precizo arribar e voltar para o ponto, donde tinhamos partido pela manhan, e onde estivemos ancorados até quinta-feira á tarde; e como vereis, pouco faltou para ali ficarmos definitivamente.

Pois na quarta-feira 2 de Março, dia em que principiava a quaresma, depois de a terem os marinheiros festejado, como é costume, aconteceo, quazi pelas 11 óras da noite, quando começavamos a repouzar, levantar-se tam subita tempestade, que o cabo, que sustentava a ancora do nosso navio, não pôde rezistir ao impeto das vagas furiozas; e o nosso navio, assim combatido e agitado pelas ondas, impelido como era para o lado da praia, veio a ficar apenas em duas barcas e meia d’agua (o menos que podia ter para flutuar descarregado), e pouco faltou para bater na areia e naufragar.

§ 16. E com efeito o mestre e o piloto, que sondavam á proporção que o navio descahia, em vez de serem os mais imperturbaveis e animarem os companheiros, quando viram que tinhamos xegado a tal ponto de perigo, clamaram duas ou trez vezes: - Estamos perdidos.

Todavia os nossos marinheiros com grande diligencia lançaram outra ancora, que permitio Deos ficar segura; e isto impedio de sermos levados sobre os roxêdos de uma d’essas ilhas de Macahé, os quaes, sem duvida alguma e sem esperança de salvação nossa (tam violento estava o mar), teriam despedaçado o nosso navio.

Este temor e assombro durou quazi trez óras, durante as quaes de nada servia gritar - bombordo! estibordo! segura o leme! mete de ló! ala a bolina! larga a escota! porque isto só se faz em pleno mar, onde os marinheiros não temem tanto a tormenta quanto temem perto de terra, como então estavamos.

§ 17. Ora, a nossa aguada, ja dice, estava corrompida, e vindo a manhan, e cessada a tormenta, alguns dos nossos marujos foram procurar agua fresca em uma d’estas ilhas dezabitadas, e axámos todo o terreno d’ela coberto de ovos e de aves de diversas qualidades, aliás diferentes das nossas, e por não estarem acostumadas a ver gente, eram tam mansas, que se deixavam apanhar á mão ou matar a pauladas; por isso enxemos o nosso escaler com porção d’elas, e trouxemos para o nosso navio quanto podemos.

E embora fosse este o dia xamado de cinzas, os nossos marinheiros, aliás verdadeiros catolicos romanos, xeios de apetite em razão do trabalho da noite precedente, não ezitaram em comer de taes aves.

E certamente quem contra a Doutrina prohibio em certos tempos e em determinados dias o uzo da carne aos cristãos, não tinha ainda penetrado n’esse paiz, onde não é nova a pratica das leis d’esta supersticioza abstinência, e parece dever o lugar dispensal-os do preceito.

§ 18. Na quinta-feira, em que partimos d’estas trez ilhas, tivemos vento tam á feição, que no dia seguinte quazi pelas quatro óras da tarde xegámos ao Cabo-frio, enseada e porto dos mais afamados d’esse paiz para a navegação dos Francezes.

Ali, depois de fundeados, e depois de darmos alguns tiros de artilharia para sinal aos abitantes, o capitão e mestre do navio com alguns de nós outros, dezembarcam, e axamos praia grande numero de selvagens xamados Tupinambás[9], aliados e confederados da nossa nação, os quaes, alem de agrado e bom acolhimento, que nos fizeram, deram-nos noticia de Paicolás (assim xamavam eles a Nicoláu de Villegagnon); com o que mui contentes ficamos.

§ 19. N’este mesmo lugar (com redes e anzoes que traziamos) pescámos grande quantidade de peixe de variadas especies, todas diversas das nossas de cá. Entre outros peixes porém avia um todo sarapintado, disformissimo e monstruozo, o qual por esta cauza quero descrever aqui.

Era quazi tamanho como um vitélo de anno, e tinha focinho do comprimento de quazi cinco pés com largura de pé e meio, armado de dentes de uma e outra banda, tam afiados e cortantes como uma serra; de modo que quando o vimos em terramover tam rapido essa tromba mestra, coube prevenir-nos, sob pena de sermos maltratados, e clamar uns aos outros, que acautelassem as pernas.

A carne era tam dura que não obstante termos todos bom apetite, e a termos cozinhado por mais de 24 óras, não a podemos jamáis comer.

Além d’isso foi tambem ahi, que pela primeira vez vimos papagaios voando muito alto e em bandos, como fazem os pombos e as gralhas na nossa França, e tambem como então observei andam sempre em cazaes e juntos, quazi á maneira das nossas rôlas.

§ 20. Ora, estando nós assim na distancia de 25 ou 30 legoas do lugar aonde pretendiamos xegar, nada dejavamos mais do que ahi aportar com toda a brevidade; por esta cauza não tivemos em Cabo-frio detença tam longa, como queriamos.

Por isso na tarde d’esse mesmo dia preparadas e desfraldadas as vélas, singrámos tam vantajosamente, que no domingo, 7 de Março de 1557, deixámos o alto mar á esquerda do lado de léste, e entrámos no braço de mar e rio d’agua salgada, xamado Guanabara pelos selvagens e Geneure[10] pelos Portuguezes, que assim o denominaram, em consequencia de o terem descoberto no primeiro dia de Janeiro, como dizem.

§ 21. Conforme já mencionei no capitulo primeiro d’esta istoria, e adiante ainda descreverei mais circunstanciadamente, axamos Nicoláo de Villegagnon rezidindo desde o anno precedente, em uma pequena ilha situada n’este braço de mar; e depois que na distancia de quazi um quarto de legoa o saudámos com tiros de canhão, e ele por sua parte nos correspondeo, viemos emfim surgir e ancorar junto á dita ilha.

Eis em suma qual foi a nossa navegação, e o que nos aconteceo e vimos, indo para a terra do Brazil.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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