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Capítulo 15 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo XIV — Guerra, combates e bravura dos selvagens

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§ 1. Os nossos Tapinambás seguem o costume de todos os outros selvagens, que abitam esta quarta parte do mundo, a qual estende-se por mais de 2.000 legoas em latitude, desde o estreito de Magalhães, que fica aos 50 gráos, na direcção do polo antartico, até as terras novas, que jazem quazi 60 gráos aquem do nosso Polo artico; por isso sustentam guerra mortal com varias naçoes d’esse paiz; todavia os seos mais proximos e mais encarniçados inimigos sam os indigenas xamados Maracajás, e os Portuguezes, aos quaes xamam Peros, e dam o titulo de aliados dos seos adversarios. Os Maracajás, retribuindo este sentimento, não odeiam somente aos Tupinambás, mas tambem aos Francezes, confederados d’estes ultimos.

Estes barbaros não fazem guerra entre si para conquistar paizes e terras uns dos outros, pois cada um d’eles tem mais terreno do que preciza; ainda menos pretendem os vencedores enriquecer com despojos, resgates e armas dos vencidos; não é nada d’isso, digo eu, que os move.

Eles mesmos confessam não serem impelidos por outro incentivo sinão o de vingar paes e amigos, que no tempo pretérito foram prezos e comidos do modo porque diremos no seguinte capitulo; e sam tam encarniçados uns contra os outros, que quem cae em poder do inimigo deve esperar sem remissão alguma ser tratado da mesma fórma, isto é, morto e comido.

§ 2. Declarada a guerra entre quaesquer d’essas nações, alegam todos, que, visto dever o inimigo, paciente da injuria, sentil-a para sempre, é covardia deixar o prezo escapar, quando está a mercê do vencedor; seos odios sam por tal sorte inveterados, que conservam-se perpetuamente irreconciliaveis.

Podemos por isso dizer, que Machiavel e os seos dicipulos (dos quaes a França por infelicidade sua agora está repleta) sam verdadeiros imitadores de barbaras crueldades. Estes ateos, contra a doutrina cristan, ensinam e praticam, que os novos serviços jámais devem preterir as antigas injurias, isto é, que os omens, dotados de indole diabolica, não devem perdoar uns aos outros; e assim bem mostram, que seos corações sam mais tredos e malignos do que os dos proprios tigres.

§ 3. Ora, conforme observei, é este o modo, porque os Tupinambás procedem para reunirem-se afim de irem á guerra. Embora não reconheçam reis nem principes entre si, porconsequencia sejam quazi tam magnatas uns como outros, todavia ensinou-lhes a natureza a mesma couza praticada entre os Lacedemonios, e é, que os velhos, aos quaes xamam peorerupixé[71], por cauza da experiência do passado, devem ser respeitados e obedecidos em cada aldeia, se oferece ocazião. Os velhos perambulando, ou sentados em suas camas de algodão suspensas no ar, exortam os companheiros d’esta ou similhante maneira:

Nossos predecessores (dizem eles, falando uns após outros sem interromper-se) não só combateram valentemente, mas tambem subjugaram, mataram e comeram muitos inimigos, deixando-nos assim onrozos exemplos; e como nós, fracos e cobardes, permanecemos sempre em caza? Será precizo, para vergonha e confusão nossa que agora os nossos inimigos tenham o rigorozo dever de vir procurar-nos no nosso lar, quando outr’ora a nossa nação era por tal modo temida e respeitada de todas as outras nações, que de nenhuma sofria rezistencia? Nossa cobardia permitirá aos Maracajás, e aos Peros-engaipa, isto é, que estas duas nações aliadas, que nada valem, invistam contra nós?”

Depois o orador, que assim fala, bate com as mãos nos ombros e nas nadegas, e exclama: - Erima, erima, Tupinambá, curumim uassú, tan, tan, etc[72]. Isto é: - Não, não, gentes da minha nação, poderozos e fortissimos mancebos, não é assim, que devemos proceder; antes dispondo-nos para buscar o inimigo, cumpre, que todos nós morramos e sejamos devorados, ou que vinguemos nossos paes.”

Acabada assim a arenga dos velhos (que ás vezes dura mais de seis oras) os ouvintes, que tudo escutam atentos e não perdem uma palavra, sentem-se animados, fazem, como diz o rifão, das tripas coração, e depois de percorrerem pressurozos as aldeias, congregam-se em grande numero em lugar dezignado. Antes porém de marxarem os nossos Tupinambás para a batalha, cumpre saber quaes sam as suas armas.

§ 4. Mencionaremos primeiramente os seos tacapes, isto é, espadas ou clavas feitas umas de madeira vermelha, outras de madeira preta, ordinariamente do comprimento de cinco a seis pés; e quanto a sua fórma, sam redondas ou ovaes na extremidade com largura de quazi dois palmos. Estes tacapes têem a espessura de mais de uma polegada no meio, e sam trabalhados nas bordas com tanta perfeição, que, por serem de madeira dura e pezada como buxo, cortam quazi como maxado; e opino, que dois dos nossos mais destros espadaxins de cá teriam bem dificuldade de aver-se com um dos nossos Tupinambás, si enralvecido empunhasse o tacape.

Em segundo lugar indicaremos seos arcos, que xamam orapás[73], feitos das ditas madeiras pretas, e sam muito mais compridos e mais fortes do que os que cá temos, de tal sorte que um omem dos nossos não os póde brandear, e menos atirar com eles; o que aliás pode fazer um dos rapazes indigenas de nove ou dez annos de idade.

As cordas dos arcos sam feitas de uma planta xamada tucum pelos selvagens, as quaes, embora sejam assás delgadas, sam todavia tam fortes que um cavalo com elas poderia puxar qualquer vehiculo.

Quanto ás suas frexas, têem estas quazi uma braça de comprimento, e compõem-se de trez peças, a saber: a parte média de caniço e as outras duas de madeira preta, juntas e ligadas com fitas de cascas de arvore tam aceitadamente, como nao é possivel adaptal-as melhor. Cada uma tem duas penas com um pé de comprimento as quaes sam perfeitamente ligadas e ageitadas com fio de algodão na falta do uzo da cola.

Na ponta de umas frexas põem ossos ponteagudos, na de outras um pedaço de caniço seco e duro e acerado com a forma delanceta, e algumas vezes encaixam o ferrão da cauda da arraia, que, como alhures já dice, é mui venenozo.

Depois que os Francezes e Portuguezes frequentam esse paiz os selvagens, á imitação d’estes estrangeiros, põem nas frexas uma ponta de prego por não terem arpéo proprio.

§ 5. Já dice como os indigenas manejam déstramente as suas espadas; mas quanto ao arco, aqueles que os viram em exercicio d’essa arma dirão comigo, que sem braçaes, e antes com os braços nús, o envergam e atiram tam dezembaraçados, tam rapidamente, que não desagrada aos Inglezes (considerados aliás optimos frexeiros) verem estes selvicolas, tendo molhos de frexas na mão, com que seguram o arco, despedirem mais depressa uma duzia de setas do que os mesmos Inglezes disparavam seis tiros.

Finalmente têem rodelas feitas do couro seco e da parte mais espessa do dorso de um animal, que xamam tapirussú (do qual acima falei, e sam largas, xatas e redondas, como o fundo de um tamboril d’Alemanha.

É verdade, que, quando brigam, não cobrem-se com elas, como cá os nossos soldados praticam com as suas; mas servem-lhes apenas para no combate amparar os golpes das frexas inimigas.

Em suma sam estas as armas, que os nossos Americanos possuem; não cobrem o corpo com couza alguma, e ao contrario (afóra barretes, braceletes, e curtos vestuarios de penas, com que eu dice, que ornam o corpo) si tivessem vestida uma simples camiza, quando entram em combate, julgariam, que isso os embaraçaria de agir, e se despojariam d’ela.

Para completar o que devo dizer sobre este objéto, acrescentarei, que, si damos aos indigenas espadas afiadas (como dei de mimo uma das minlias a um bom velho), apenas as empolgam, tiram as bainhas, como praticam com os estojos das facas, que lhes dam, tendo mais prazer em vel-as logo reluzir, ou em cortar os ramos das arvores, do que em conserval-as para combater.

Na verdade essas espadas em suas mãos seriam mais perigozas, si eles as manejassem, como eu dice saberem manejar os seos tacapes.

§ 6. Além d’isso temos levado para la porção de arcabuzes de pouco preço para negociar com os selvagens; e vi, que eles sabem servir-se de taes armas tam convenientemente que, estando trez a atirar com uma escopeta, um segurava, outro apontava, e outro punha fogo; e como carregassem e enxessem o cano até á boca, si tivesse avido a explosão, e lhes não tivessemos dado a polvora com metade de carvão moido, é certo, que com perigo de vida tudo teria arrebentado em suas mãos.

Devo acrecentar, que em principio admiravam-se os selvagens, quando ouviam o son da nossa artilharia e os tiros de arcabuz, que disparavamos; e quando nos viam derribar uma ave de cima de qualquer arvore, ou algum animal silvestre nos campos, não vendo a bala sair, nem aparecer no trajecto, isto ainda mais os esbabacava; mas depois que conheceram o artificio, diziam (como aliás é verdade), que com os seos arcos mais depressa despediriam cinco ou seis frexas do que nós carregamos e disparamos um só tiro de arcabuz, e começaram a perder o pavor.

Si dicerem: Isto é certo; porém o arcabuz faz muito maior estrago - eu respondo a esta objeção, que embora nos revistamos de cabeções de péle de bufalo, saias de malha ou outras armas, ainda as mais rezistentes, os nossos selvagens, fortes e robustos como sam, atiram com tal impeto, que traspassariam o corpo de um omem com um jacto de frexa, como outro qualquer fará, com um tiro de arcabuz.

Será mais oportuno expor este assunto, quando adiante falar dos seos combates, e para não confundir as materias vou pôr os nossos Tupinambás em campo e de marxa contra os seos inimigos.

§ 8. Reunem-se eles pois pelo modo porque expuz, em numero de oito ou dez mil omens, aos quaes agregam-se muitas mulheres, não para combater, mas apenas para carregar as camas de algodão (redes de dormir), farinhas, e outros viveres, e depois que os velhos, que, por já terem matado e comido mais inimigos, sam por seos companheiros nomeados xefes e condutores, põem-se todos a caminho sob a direção dos mesmos xefes.

Na marxa não observam ordem nem categorias; acontece todavia, que, si andam por terra, os mais valentes vam sempre na frente, e marxam todos unidos, sendo couza quazi incrivel ver acomodar-se tamanha multidão de gente sem apozentador, nem alguem, que pelo general ordene pouzo: sem confuzão os vereis sempre prontos para marxar ao primeiro sinal.

Tanto no acto da sahida do seo paiz, como na ocazião da partida de cada lugar, onde param e demoram-se, aparecem varios individuos, que, armados de cornetas, a que xamam inubia, da grossura e comprimento de metade de um dardo, mas com quazi pé e meio de largura na extremidade inferior, como um oboé, troam no meio das tropas afim de as advirtir e alvoroçar.

Alguns trazem pifanos e gaitas feitas de ossos dos braços e pernas dos inimigos, que mataram e comeram, e com taes instrumentos não cessam em caminho de tocar, para incitar o bando guerreiro a fazer outro tanto com os adversarios contra os quaes se dirigem.

§ 9. Si vam por agua (como fazem muitas vezes), beiram sempre a costa, e não penetram muito no mar, mantendo-se nas suas barcas, xamadas igara[74], feitas de uma só casca de arvore, propozitalmente arrancada de cima abaixo para esse fim; e todavia sam tam grandes, que 40 ou 50 pessoas podem caber dentro de cada uma d’elas.

Vogam assim todos em pé ao seo modo com um remo xato nas duas pontas, o qual seguram no meio essas barcas (xatas como sam) não calam n’agua mais do que calaria uma taboa, e sam mui faceis de dirigir e manejar.

Verdade é, que não poderiam suportar mar alto e agitado, e menos a tormenta; mas quando em tempo calmo os nossos selvagens vam á guerra, vereis algumas vezes mais de 60 canoas formando todas uma frota, as quaes, seguindo proximas umas das outras, correm tam rapidas, que em poucos momentos as perdemos de vista.

Eis pois os exercitos terrestres e navaes dos nossos Tupinambás nos campos e no mar.

§ 10. Ora, assim vam ordinariamente a 25 e 30 legoas de distancia buscar o inimigo, e quando aproximam-se d’este, eis aqui as primeiras astucias e estratagemas de guerra, de que uzam para surpreendel-o.

Os mais abeis e valentes, deixando os companheiros com as mulheres a uma ou duas jornadas atraz de si, aproximam-se cautelozamente para emboscar-se, nas florestas, e sam tam afeitos em surpreender seos inimigos, que ficam assim escondidos ás vezes mais de 24 óras.

Si os adversarios saem descuidados, sam todos agarrados, omens, mulheres e meninos; e levados pelos apreensores em regresso para as suas terras, ahi sam todos os prizioneiros mortos, depois espostejados para o moquem, e finalmente comidos.

Estas surprezas sam tanto mais faceis, quanto além de não seremfexadas as suas aldeias (pois não possuem cidades), as suas cazas não têem portas, sendo aliás as mesmas cazas pela maior parte do comprimento de 80 a 120 passos, e abertasem varios lugares; pois apenas colocam algumas folhas de palmeira, ou d’essa grande planta xamada pindá como anteparo nas suas portas.

Bem verdade é, que em roda de algumas aldeias fronteiras dos inimigos, os mais belicozos infincam troncos de palmeiras com cinco a seis pés de altura, e na entrada dos caminhos tortuozos colocam estrepes agudos á flor da terra de sorte que si os assaltantes tentam entrar de noite (como costumam fazer), os de dentro da aldeia, conhecedores dos desvios por onde podem passar sem ofensa alguma, saem e rexaçam os agressores de tal modo que, ou estes queiram fugir ou combater, sempre ficam alguns cahidos, porque ferem os pés, e os apreensores os aproveitam nas grelhas.

§ 11. Si porém os inimigos presentem os adversarios, os dois exercitos encontram-se, e ninguem crê quam terrivel e cruel é o combate. Como já fui espectador, posso falar com exatidão.

Eu e outro Francez, arrostando o perigo de sermos agarrados e imediatamente mortos e comidos pelos Maracajás, e excitados pela curiozidade, acompanhamos em certa ocazião os nossos selvagens em número de quazi 4.000 omens em uma escaramuça, que fizeram na praia do mar, e vimos esses barbaros combater com tal furia que gente alucinada e insana não poderia fazer peior.

Apenas os nossos Tupinambás, na distancia de quazi meio quarto de legoa, avistaram os inimigos, começaram a gritar por tal forma que nem os nossos caçadores de lobos fazem tanto barulho; e comovido o ar com essa gritaria e clamor, ainda quando os ceos trovejassem, não o teríamos ouvido.

A proporção que aproximavam-se, redobravam os gritos, soavam as cornetas, levantavam os contendores os braços em sinal de ameaça, e mostravam uns aos outros os ossos dos prizioneiros, que tinham comido, e os dentes enfiados em coleiras, que alguns traziam pendentes do pescoço com mais de duas braças de comprimento: orrivel era o conspecto d’essa gente.

§ 12. Ao reunirem-se porém foi ainda peior; pois apenas estiveram a 200 ou 300 passos uns dos outros, saudaram-se com medonhos tiros de frexas, e desde o começo d’essa escaramuça verieis uma infinidade de sétas voar nos ares tam densas como moscas esvoaçando em torvelinho.

Si alguem era ferido, como foram muitos, depois de arrancarem com extrema coragem as setas do corpo, as quebravam, e como cães raivozos mordiam os pedaços; mas nem por isso deixavam todos de voltar ao combate.

Sobre isto convem notar, que esses Americanos sam tam encarniçados em suas guerras, que, emquanto podem mover braços e pernas, combatem constantemente sem recuar nem voltar costas.

Quando travaram peleja, alçavam com ambas ás mãos as espadas e clavas de páo, e descarregavam taes golpes, que, si acertavam na cabeça do inimigo, não só o derribavam, mas o matavam, como entre nós os magarefes abatem os bois.

§ 13. Não declaro, si os combatentes estavam bem ou mal montados, porque suponho, que o leitor se recordará já ter eu dito, que os selvagens não possuem cavalos, nem outras montarias; todos estavam e andam sempre bem a pé e sem lança.

Emquanto estive ali na terra do Brazil, sempre dezejei, que os nossos selvagens vissem cavalos; mas então ainda maior foi o meo dezejo de ter um bucefalo debaixo de minlias pernas.

Acredito, que si eles vissem um dos nossos gendarmes bem montado e armado de pistola em punho, fazendo o cavalo pular e genetear, ao ver sair fogo de um lado a de outro a furia do omem e do cavalo, pensariam logo ser algum anhanga[75], isto é, o diabo, conforme a sua linguagem.

Todavia a este respeito escreveo alguem couza notavel, e é, que comquanto Atabalipa, grande rei do Perú, submetido em nossos tempos por Francisco Pizarro, nunca tivesse visto cavalos, aconteceo, que o capitão espanhol, que primeiro foi ter com ele, fez por gentileza e para cauzar admiração aos indios, voltear o seo ginete até xegar perto da pessoa de Atabalipa, o qual permaceo tranquilo, e embora lhe saltassem no rosto alguns respingos da escuma do freio, não deo demonstrações de medo; mandou porém matar os vassalos, que tinham fugido diante do cavalo: couza (diz o istoriador) que espantou aos seos e maravilhou aos nossos.

§ 14. Volto agora ao meo propozito, e si perguntardes: - O que fizestes tu e o teo companheiro durante esta peleja? Não combatieis com selvagens?

Não disfarçarei couza alguma, e respondo, que, contentes por termos praticado esta grande loucura, de arriscar-nos assim entre barbaros, em cuja retaguarda ficavamos, tinhamos somente o prazer de apreciar as peripecias do cazo.

E entretanto direi, que muitas vezes vi regimentos de infantaria e de cavalaria nos paizes europeos, todavia nunca tive tanto contentamento em meo espirito de ver as companhias de infantes com seos elmos dourados e armas reluzentes, quanto prazer senti então ao ver essas selvagens combater.

Pois além da diversão de vel-os saltar, assobiar e manejar com destreza e rapidez para os lados e para a frente, cauzava maravilhozo encanto o espetaculo de tantas frexas com seos grandes frócos de plumas vermelhas, azues, verdes, encarnadas e de outras côres que voavam nos ares por entre os raios do sol, que as faziam reluzir; sendo igualmente aprazivel ver os roupões, bonés, braceletes e outros adereços feitos d’essas penas naturaes e singelas, de que se revestiam os selvagens.

§ 15. Ora, tendo a peleja durado quazi trez óras, e avendo de uma e outra parte muitos feridos e mortos, os nossos Tupinambás finalmente ficaram vitoriosos, e fizeram mais de trinta prizioneiros Maracajás, entre omens e mulheres, que trouxeram para as suas terras.

Nós, os dois Francezes, não fizemos outra conza (como já dice) sinão ter empunhadas ás nossas espadas dezembainhadas e dar alguns tiros de pistola para o ar, afim de encorajar a nossa gente; todavia não podiamos cauzar maior prazer aos selvagens do que ir á guerra com eles, como tanto dezejavam; por isso os velhos das aldeias, que frequentavamos, cada vez mais nos estimavam.

Os prizioneiros, pois colocados no centro dos aprizionadores e de alguns dos omens mais fortes e robustos, foram, para maior segurança, reunidos e amarrados, e nós voltamos para o nosso rio de Geneure, em cujos arredores abitavam os nossos selvagens.

Nós porém estavamos a doze ou quinze legoas de distancia do dito rio; por tanto não precizareis perguntar, si na passagem pelas aldeias dos nossos aliados vinham estes encontrar-nos: dansando, pulando e batendo palmas nos afagavam e aplaudiam.

Em conclazão quando xegamos em frente da nossa ilha: meo companheiro e eu passamos em uma barca para o fortim, e os selvagens foram cada um para as suas aldeias da terra firme.

§. 16. Entretanto, passados dias, alguns dos nossos Tupinambás, que tinham prizioneiros em caza, vieram vizitar-nos na ilha; e por mais solicitados e rogados que fossem pelos trugimões para vendel-os, advertindo que os comprariamos, apenas podemos conseguir o resgate de parte d’esses prizioneiros.

Todavia era isso mui contra a vontade dos possuidores, como reconheci pela compra de uma mulher e de um seo filho de idade de perto de dois annos, os quaes custaram quazi trez francos em mercadorias; pois dizia-me o vendedor: - Não sei o que será de óra em diante; por quanto depois que Paicolá (entendendo por este nome Nicoláo de Villegagnon) veio para cá, já não comemos metade dos nossos inimigos.

Pretendia rezervar o rapazinho para mim; porém Nicoláo de Villegagnon mandou restituir a minha minha mercadoria, e quiz tudo para si; e sucedeo, que, quando eu dizia á mãe, que no meo regresso para aqui o traria comigo, respondeo ela, que tinha esperança de que o filho, quando crecesse, poderia fugir, e procurar os Maracajás para vingal-os; e assim antes preferia a possibilidade de vel-o comido pelos Tapinambás do que afastal-o para longe de si. Tam arraigado é no coração d’essa gente o sentimento de vingança!

Quazi quatro mezes depois da nossa xegada a esse paiz, como já dice, escolhemos dentre 40 ou 50 escravos empregados nos trabalhos do nosso fortim, e comprados aos selvagens nossos aliados, dez rapazes, que nos navios em regresso enviamos para a França ao rei Enrique Segundo, então reinante.

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Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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