Universo da obra
Universo da obra
§ 1. Tendo até aqui espendido tanto o que vimos no mar, indo para a terra do Brazil, como as couzas passadas na ilha e fortim de Coligni, onde rezidia Nicoláo de Villegagnon, emquanto ali permanecemos, e igualmente o que seja o rio Guanabara na America, a respeito do qual assás adiantei em materia relativa aos fatos anteriores ao meo embarque em regresso para a França, quero tambem discorrer sobre o que observei acerca do modo de vida dos selvagens e sobre outras couzas singulares e desconhecidas aquem mar, que vi no seo paiz.
§ 2. Afim de começar pela couza principal e proseguir por ordem direi em primeiro lugar, que os selvagens da America, abitantes da terra do Brazil, xamados Tupinambás, entre os quaes rezidi e tratei familiarmente quazi durante um anno, não sam maiores, mais grossos ou mais pequenos de estatura do que somos na Europa; não têem corpo monstruozo nem desmedido em comparação comnosco; sam porém mais fortes, mais robustos, mais fornidos, mais bem dispostos, e menos sugeitos a molestias, e quazi não têem côxos, tórtos, aleijados, nem doentios.
Além de xegarem muitos até a idade de 120 annos (pois sabem muito bem contar e decorar as suas idades pelas lunações), poucos sam os que na velhice têem cabelos brancos ou grizalhos. Couzas que por certo demonstram não só os bons ares, e a boa temperatura do seo paiz, no qual, como algures dice, sem geadas nem grandes frios, as arvores, ervas e campos estam sempre verdejantes, mas tambem o pouco cuidado e nenhum desvélo, que têem pelas couzas d’este mundo, bebendo todos eles na fonte de Juvencia.
E de fato como eles não aurem por nenhum modo n’essas fontes lodozas ou antes pestilenciaes, de que dimanam tantos regatos, que nos corroem os ossos, sucam a medula, debilitam o corpo, e consomem o espirito, e em suma nos envenenam e matam nas nossas côrtes de ca, a saber, com a desconfiança e a avareza, que dahi procede, com os processos e intrigas, com a inveja e ambição, nada de tudo isso os inquieta, e menos os domina e apaixona, conforme mais amplamente adiante mostrarei.
§ 3. Quanto á sua cor natural, atenta a região quente que abitam, não sam negros; sam porém apenas morenos, como dirieis dos Espanhoes ou os Provençaes.
Couza não menos estranha quam dificil de crer para aqueles que o não viram, é que omens, mulheres e meninos vivem e andam uzualmente tam nus como sahiram do ventre materno, não só sem ocultar parte alguma do corpo, como tambem sem mostrar sinal algum de pejo nem vergonha.
Entretanto não sam, como alguns pensam, e outros o querem fazer crer, cabeludos nem cobertos de pelos ao contrario não sam mais peludos do que somos n’este paiz aquem mar, e acontece, que apenas começa a apontar e sair o cabelo, que lhes aparece em qualquer parte do corpo, até mesmo no mento,nas palpebras e sombrancelhas (o que torna-lhes a vista zarolha, vesga, transviada e feroz) ou o arrancam com as unhas, ou, depois que os cristãos os frequentam, com pinças que estes lhes dam: o que tambem se tem escrito, que praticam os abitantes da ilha de Cumana no Perú. Excetuo sómente quanto aos nossos Tupinambás os cabelos da cabeça, os quaes em todos os maxos, desde a juventude, sam tosquiados mui rentes na parte superior e anterior do craneo como corôa dos frades, e na nuca ao modo dos nossos antepassados e daqueles que deixam crecer a cabeleira e a aparam sobre o pescoço.
§ 4. E para nada omitir (si me é possivel) sobre esta materia, acrecentarei n’este lugar, que existem n’esse paiz certas ervas da largura de quazi dois dedos, as quaes crecem concavas e arredondadas, como sam os canudos que cobrem a espiga d’esse milho grosso, que em França xamamos trigo mourisco; e conheci velhos (mas não todos, nem nenhum mancebo, e menos os meninos), que tomavam duas folhas d’estas ervas e as metiam e amarravam com um fio de algodão em roda do membro viril, como tambem o envolviam em lenços e outros pequenos panos, que lhes davamos.
Parecia por isso á primeira vista, que ainda lhes restava algum resquicio de vergonha natural, si por ventura fizessem isto em atenção ao pejo; pois embora não me tenha bem informado sobre este ponto, sou de opinião, que assim praticam para ocultar alguma infermidade, que na velhice tenham n’essa parte do corpo.
§ 5. Além d’isso todos os rapazes têem por costume desde a infancia furar o beiço inferior acima, do mento, é cada um ordinariamente traz no buraco certo osso bem polido, tam alvo como marfim, feito á similhança de um d’esses páozinhos com que na meza jogamos a carrapeta; e como a parte despontada sae uma polegada ou dois dedos, e o osso detido por um esbarro entre o beiço a gengiva, eles o tiram e metem, quando o querem.
Mas só trazem este ponteiro de osso branco na adolecencia; quando sam grandes os xamam conomiuassú[11] (isto é, rapaz grande) e em vez d’isto aplicam e encaixam no furo dos beiços uma pedra verde (especie de esmeralda falsa), a qual é retida por um esbarro interior, e no esterior parece da redondeza e largura do tostão e duas vezes mais grossa do que este; e na verdade alguns trazem pedra tam comprida e roliça comno um dedo. Uma d’estas pedras trouxe eu para a França.
Si por ventura os nossos Tupinambás tiram a pedra da fenda do beiço, e por divertimento metem a lingua n’esse operculo, aprezentam então duas bocas ao espectaclor; e deixo á vossa apreciação considerar, si esta feição lhes dá bonita aparencia, e si isso os deforma ou não.
Emquato a isto vi omens, que não contentes de trazer estas pedras verdes nos beiços sómente, as traziam tambem nas duas faces, que igualmente furavam para esse fim.
§ 6. Quanto ao nariz, quando as nossas parteiras de cá na ocazião do nacimento das crianças apertam as ventas com os dedos para tornal-as mais bonitas e maiores, bem pelo contrario os nossos Americanos fazem consistir a formozura de seos filhos em serem de nariz xato, e apenas estes saem do ventre materno (como vedes em França praticar com os cadelos e caxorrinhos), esmagam e axatam-lhes as ventas com o dedo polegar. No entretanto diz alguem existir, certa região do Perú, onde os indios têem o nariz tam ultrajozamente grande, que n’ele penduram esmeraldas, turquezas e outras pedras brancas e vermelhas seguras por filetes de ouro.
§ 7. Além d’isso os nossos Brazileiros pintam muitas vezes o corpo com diversos dezenhos e variadas cores mas sobretudo costumam empretecer tanto as coixas e as pernas com o suco de certo fruto, xamado genipapo[12] que, ao vel-os assim de longe, julgarieis estarem vestidos com calções de padre; e imprime-se tanto na carne essa tintura negra do fruto do genipapo, que embora estes selvicolas metam-se n’agua, e lavem quanto quizerem, não a podem apagar durante déz ou dôze dias.
Tambem têem crecentes de mais de meio pé de comprimento, feitos de ossos mui lizos, tam brancos como alabastro, aos quaes xamam jaci, do nome da lua, que assim denominam; e quando lhes apraz, os trazem pendentes ao pescoço seguros por um cordão feito de fio de algodão, e batendo de xapa no peito.
Provavelmente com grande consumo de tempo pulem em um pedaço de gré uma infinidade de pequenas peças de uma grande conxa marinha xamada vignol, as quaes arredondam e fazem tam primorozas, redondas e delgadas como um dinheiro tornez. Depois sain furadas no centro, e enfiadas em um cordão, e com elas fazem colares que xamam boré[13] e que enrolam no pescoço, quando bem lhes parece, como nos paizes europeos fazem os com os trancelins de ouro.
No meo entender é isto, que algumas pessoas xamam porcelana, de que vemos muitas mulheres de cá trazerem cintos, de mais de trez braças de comprimento e tam bonitos, quanto é possivel, como observei, quando xeguei á França.
Os selvagens fazem tambem esses colares xamados boré de certa especie, de madeira preta, que é mui idonea para esse mister, por ser quazi tam pezada e luzente como o azevixe.
§ 8. Afóra isso os nossos Americanos têem grande quantidade de galinhas comuns, cuja raça os Portuguezes lhes deram.
Depenam constantemente as galinhas brancas, e com instrumentos de ferro, depois que os tiveram, e antes de os terem, com peças aguçadas recortam o frouxel e as penas miudas, reduzindo tudo a particulas mais deminutas do que a carne de pasteis; depois do que fervem e tingem de vermelho com páo-brazil, e esfregando-se com certa rezina apropriada para isso, cobrem-se com o cotão, emplumam-se e sarapintam o corpo, os braços e as pernas; de sorte que n’esse estado parecem ter penugem como os pombos e outras aves recem nacidas.
É bem certo, que algumas pessoas d’estas nossas terras de ca, quando pizam nas regiões americanas, vêem os selvagens enfeitados d’este modo, e voltando sem maiores informações das couzas, divulgam e propalam o boato de serem cabeludos os selvagens; mas estes não sam taes por natureza, como acima já dice; portanto, foi ignorancia e couza mui levianamente recebida.
Alguem já escreveo, que os Cumanezes untam-se com certa rezina ou unguento glutinozo, e depois cobrem-se de penas de diversas côres, não ficando mal parecidos com similhante trage.
§ 9. Quanto ao ornato da cabeça dos nossos Tupinambás, além da corôa na frente e das guedelhas pendentes sobre as costas, de que fiz menção, atam e arranjam penas encarnadas, vermelhas e de outras côres, da aza de certas aves, das quaes fazem frontaes nau similhantes na feição aos cabelos verdadeiros ou falsos, a que xamam raquetes ou ratepinades, com que as damas e donzelas de França e de outros paizes de cá costumam adornar-se; e diriamos, que elas receberam essa invenção dos nossos selvagens, que a esse aparelho denominam jempenambi.
Trazem tambem arrecadas nas orelhas, feitas de ossos brancos, quazi da mesma forma dos ponteiros, que eu dice acima, que os rapazes trazem nos beiços furados.
Possuem os selvagens no seo paiz uma ave, xamada tucano, a qual (como mais amplamente descreverei em lugar competente) tem toda a plumagem negra como o corvo excéto no papo que tem quazi quatro dedos de comprido e trez de largo, e é todo coberto de pequenas e subtis penas amarelas orladas de encarnado na parte inferior. Esfolam o papo, ao qual tambem xamam tucano em razão do nome de ave, de que o tiram, juntam em grande quantidade, e depois que os secam, pregam com cêra, que eles denominam ira-ietic, um de cada lado do rosto, abaixo das orelhas, de tal sorte que vendo-se assim esses cartazes amarélos nas faces, parecem duas xapas de cobre dourado nas caimbas do freio ou brida os cavalos.
§ 10. Além de tudo isso, si os nossos Brazileiros vam á guerra, ou si matam solenemente um prizioneiro para comer, pelo modo por que em outro lugar direi, querendo então adornar-se e mostrar-se mais bravos, enfeitam-se com vestes, carapuças, braceletes e outros ornatos de penas verdes, encarnadas, azues e de outras côres naturaes, singelas e de incomparavel beleza.
Depois que taes penas sam por eles diversificadas, mescladas e mui convenientemente ligadas umas ás outras em pequnas taliscas de madeira com fio de algodão, ficam por tal modo ajustadas que nenhum plumaceiro em França melhor as manejaria, nem mais destramente as arranjaria; e julgareis, que os vestuarios assim feitos sam de veludo felpudo.
Com igual artificio fazem as guarnições das suas espadas e clavas de madeira, as quaes, assim decoradas e enriquecidas com plumas bem ajustadas e bem applicadas a esse uzo, produzem deslumbrante aspecto.
§ l1. Para preparo dos seos vestuarios, obtêem dos vizinhos grandes penas de avestruz; o que mostra a existencia d’estas grandes e volumozas aves em alguns lugares d’esse paiz, onde todavia, para nada dissimular, as não vi. Estas penas de côr parda sam ligadas pelos tubos da aste central, ficando soltas as pontas, que espalham-se em roda á maneira de pequeno pavilhão, ou de uma roza e formam um grande penaxo, a que xamam arasoia, o qual atam na cintura com um cordel de algodão; a parte estreita liga-se á carne e a parte larga, afasta-se, e quando com ele se adornam (pois não lhes serve para outra couza) vós dirieis, que trazem uma capoeira de francos atada na cintura.
Direi mais amplamente em outro lugar como os seos maiores guerreiros, afim de mostrarem valentia, e sobretudo quantos inimigos mataram e quantos prizioneiros sacrificaram para comer, retalham o peito, os braços e as coxas, e depois esfregam as incizões com certo pó negro, o qual as torna subzistentes por toda a vida; de modo que, ao vel-os assim, parecem estarem de calções e gibões suissos, e com grandes gilvazes.
§ 12. Si tratam de dansar, beber, cauinar, o que quazi constitue a sua ocupação ordinaria, procuram alguma couza, que lhes excite o animo, além do canto e da voz, que uzam abitualmente em suas dansas; por isso colhem certos fruto, que é do tamanho da castanha d’agua, com ela um tanto parecido e de casca mui rija, e quando está bem seco, tiram-lhe o caroço, e metem em lugar d’este algumas pedrinhas, fazem uma enfiada d’eles e formam grevas, as quaes, atadas ás pernas, fazem tanta brulha como fariam conxas de caracoes, assim dispostas, isto é, quazi como os guizos europeos de que aliás sam mui cubiçozos, quando lhes os mostram.
Também existe n’este paiz uma especie de arvores, que dam fruto do tamanho do ovo do avestruz, e com a mesma figura. Os selvagens o furam no meio, como em França os meninos furaram grandes nozes para fazer molinetes; depois o ócam, metem-lhe pedrinhas redondas, ou caroços de milho, de que logo falarei, atravessam-lhe um páo de pé e meio de comprimento, e assim fazem um instrumento, a que xamam maracá, o qual estronda mais do que uma bexiga de porco xeia de grãos de ervilha, e os nossos Brazileiros o trazem ordinariamente na mão.
Quando eu tratar da sua religião, direi a opinião, que formam d’esse maracá, e da sua sonoridade, depois de o enfeitarem com lindas plumas, e dedicarem ao uzo, que logo veremos.
Eis em suma quanto sei relativailente á indole,,vestuarios, e ornatos, com que os nossos Tupinambás costumam paramentar-se em seo paiz.
§ 13. Verdade é, que além de tudo tendo nós trazido em nossos navios grande quantidade de fazendas vermelhas, verdes, amarelas e de outras côres, lhes mandavarnos fazer cazacos e calções sarapintados, os quaes lhes davamos em troca de viveres, bugios, papagaios, páo-brazil, algodão, pimenta e outras couzas do seo paiz, com as quaes os nossos marinheiros ordinariamente carregam os seos navios.
Uns porém sem ter nada no corpo, vestindo algumas vezes calças largas de marujo, outros ao contrario sem calças vestindo saiotes, que apenas lhes xegavam ás nadegas, depois de conte contemplarem-se um pouco e passearem com similhante vestuário (que nos excitava gargalhadas), despiam esses trages, e os deixavam em caza até que lhes desse na vontade de os vestir de novo: outro tanto faziam com os xapéos e camizas, que lhes davamos.
§ 14. Tenho assim expendido amplamente tudo quanto se podle dizer a respeito do exterior do corpo, quer dos omens, quer dos meninos americanos. Si agora porem, acompanhando esta descrição, quereis figurar um selvagem, imaginai em vosso entendimento um omem nû bem conformado e proporcionado de membros, tendo arrancado tordo o pelo, que lhes crece, trazendo tosqueados os cabelos, do modo por que já dice, aprezentando labios e faces fendidas com nossos despontados ou pedras verdes introduzidas nas aberturas, exhibindo orelhas perfuradas com arrecadas nos operculos, mostrando corpo pintado, e côxas e pernas enegrecidas com tinta extrahida do fruto genipapo já mencionado e carregando, pendentes do pecoço, colares compostos de infinidade de pequenas peças d’essa grande conxa marinha, que eles xamam vignol, taes como já os descrevi; e então vereis tal qual é ordinariamente o selvagem no seo paiz, e tal como adiante o vereis retirando somente com a sua coleira ossea bem polida no peito e com a sua pedra no buraco do beiço, e garbozo com seo arco ao lado, e suas frexas na mão.
É verdade, que para completar este quadro devemos pôr junto a esses Tupinambás uma das suas mulheres, a qual, na forma do seo costume, traz o filho em uma cinta de algodão, e em compensação o filho, conforme o modo porque o carregam, abraça com as pernas as ilhargas da mãe; e junto dos trez um leito de algodão, feito como rede de pescaria, suspenso no ar; pois assim deitam-se os selvicolas no seo paiz. Cumpre tambem aditar o fruto xamado ananás, cuja fórma logo descreverei, o qual é dos melhores que esta terra do Brazil produz.
§ 15. Para considerar um selvagem por novo aspecto, tirae-lhe todos estes aparelhos, untae-o com rezina glutinoza, e cobri-lhe todo o corpo e pondo-lhes na mão a espada ou clava de madeira, o arco e a frexa.
§ 17. Deixando porém agora por um pouco os nossos Tupinambás em sua magnificencia medrar, e gozar do passatempo, que sabem procurar, cumprem ver si nas suas mulheres e filhas, que xamam cunhan[14], e Maria em alguns lugares, depois, que os Portuguezes os vizitam, andam mais bem ornadas e ataviadas.
Já dice no começo deste capitulo, que as mulheres andam ordinariamente nuas, como os omens; agora convém acrecentar que elas, como eles, arrancam todo pêlo que lhes aparece, incluzive pestanas e sobrancelhas.
É verdade, que a respeito dos cabelos elas não os ungem pois ao passo que os omens, como já fica dito, os tosqueiam na frente, e os aparam na nuca, as mulheres ao contrario não só os deixam crecer e ficar compridos, mas tambem (como as mulheres de cá) os penteiam, e lavam mui cuidadozamente: os entrançam algumas vezes com um cordão de algodão tinto de vermelho; todavia andam quazi sempre, desgrenhadas, deixando mais comumente fluctuar os cabelos sobre os ombros.
§ 18. Além d’isso tambem diferem dos omens em não furarem os labios nem as faces; por consequencia não trazem pedras no rosto: quanto porém ás orelhas, as furam orrivelmente para pôr arrecadas, e quando tiram, taes enfeites meteriam facilmente os dedos nos buracos. Estas arrecadas feitas d’essa grande conxa marinha xamada vignol, de que falei, sam brancas, redondas e tam compridas como uma vela de sebo meian; quando penteiam-se, batem-lhes as arrecadas nos ombros e tambem nos peitos, e parece, ao vel-as longe, que sam orelhas de sabujo, que lhes pendem de um e outro lado.
A respeito do rosto, eis o modo por que elas o enfeitam. A camarada ou companheira com pequeno pincel,na mão começa uma pequena roda no centro da face d’aquela que se quer pintar, contornea em fórma de caracol, e assim continúa até que com as cores azul, amarela e vermelha lhe tenha mosqueado e sarapintado todo o rosto; e tambem no lugar das palpebras e sobrancelhas arrancadas não deixa de dar pinceladas, como se diz, que em França praticam as mulheres impudicas.
§ 19. Elas fazem grandes braceletes, compostos de varias peças de ossos brancos, cortados e talhados á maneira de grossas escamas de peixe, que sabem reunir umas ás outras com cera e varias rezinas misturadas em guiza de cola, combinando o artefacto com tal acerto que melhor não é possivel fazer.
Assim fabricam os braceletes do comprimento de quazi pé e meio, e só os podemos bem comparar aos braçaes, com que cá jogamos a péla.
Igualmente trazem colares brancos xamados boré[15] na sua linguagem, os quaes acima descrevi; não os trazem porém pendentes do pescoço, como fazem os omens, pois os enrolam no braço.
E eis por que e para servir ao mesmo uso, elas axavam tam lindas as pequenas contas de vidro amarelas, azues, verdes e de outras cores, enfiadas á maneira de rosarios, que elas xamam morubi[16], dos quaes tinhamos levado grande quantidade para praticar ali.
E com efeito ou fossemos nós ás suas aldeias, ou viessem elas ao nosso fortim, para obter taes missangas, aprezentavam-nos frutas ou outra qualquer couza de seo paiz e com o modo de falar xeio de lizonjas, de que ordinariamente uzam, atordoavam-nos a cabeça, e estavam constantemente comnosco, dizendo: Mair, deagotorem amabe morubi, isto é: - Francez, tu és bom, dá-me dos teos braceletes de contas de vidro.
Elas faziam o mesmo para aver de nós pentes, que xamam guap ou kuap, espelhos, que xamam aruá[17] e todas as demais veniagas e mercadorias, que tinhamos, e elas apeteciam.
§ 20. Mas entre as couzas duplamente anormaes e verdadeiramente maravilhozas, que observei n’estas mulheres brazileiras, é que não obstante não pintam o corpo, os braços, as côxas e as pernas, como fazem os omens, nem cubrirem-se de penas, nem de outras couzas proprias da sua terra, todavia nunca podemos conseguir fazer com que se vestissem, embora por muitas vezes lhes dessemos vestidos de xita e camizas (como dice termos feito com os omens, que algumas vezes vestiam); de sorte que estavam sempre resolvidas a não sofrer nem ter sobre si qualquer objeto; e creio não terem ainda mudado de parecer.
Verdade é, que, com pretesto para izentar-se d’isso e ficar sempre nuas, alegavam o seo costume, conforme o qual em todas as fontes e rios claros, que encontram, acocoram-se na margem, ou entram n’agua, molham a cabeça, lavam-se e mergulham todo o corpo como caniços, e em alguns dias o fazem mais de dôze vezes.
Dizem elas, que lhes custaria muito trabalho despir-se assim tantas vezes. E não é isto mui boa e mui procedente razão? Mas tal qual é, a devemos aceitar,; pois contestal-a seria baldado esforço, e nada conseguiriamos.
E com efeito esta gente bruta deleita-se tanto com a nudez, que não só, como já dice, as mulheres dos nossos Tupinambás, que vivem na terra firme em plena liberdade com seos maridos, paes e parentes, obstinavam-se em não querer vestir-se de modo algum, mas tambem as prizioneiras de guerra, que tinhamos comprado, e conservavamos como escravas para trabalhar no nosso fortim, embora as cobrissemos á força, apenas xegava a noite, despiam secretamente as camizas e outros andrajos, que lhes davamos, e por mero prazer, antes de deitar-se passeavam nuas na nossa ilha.
Em suma se ficasse ao arbitrio d’essas mizeras creaturas, e não fossem obrigadas a xicotadas a vestir-se, prefeririam antes sofrer a calma e o calor do sol, e esfolar os braços e os ombros na condução continua da terra e pedras, do que suportar sobre o corpo qualquer objeto.
Eis sumariamente quaes sam os ornatos, aneis, e joias ordinarias das mulheres e raparigas americanas. E sem fazermos aqui outro epilogo, contemple-as o leitor por esta narração, como lhe aprouver.
§ 21. Quando adiante tratar do cazamento dos selvagens, direi como os seos filhos vestem-se na infancia; mas a respeito dos meninos acima de trez ou quatro annos, tinha eu grande prazer em ver os rapazes, a que xamam curumimirim[18], os quaes nadegudos, gorduxos e fornidos, muito mais do que sam os meninos europeos, aprezentavam-se enfeitados com seos ponteiro de osso branco nos beiços furados, com os cabelos tosqueados ao seo modo e algumas vezes com o corpo pintado, e nunca deixavam de vir em grupos dansar diante de nós, quando nos viam xegar em suas aldeias.
E para serem recompensados, afagando-nos e acompanhando-nos de perto, não se esqueciam de dizer e repetir constantemente na sua acanhada giria: Cutuassá[19], amabé pinda, isto é, meo amigo e aliado, da-me anzoes para pescar.
E si para satisfazer o pedido (o que muitas vezes fiz), metiamos na areia ou na terra dez ou doze anzóes pequenos, eles abaixavam-se rapidamente, e era agradavel diversão ver essa turba de fedelhos nus, que na busca e apanhadura dos anzges escavavam e esgravatavam a terra, como os laparos de coelheira.
§ 22. Finalmente durante um anno, que passei n’esse paiz, fui curiozo em contemplar os individuos adultos e as crianças; por isso quando recordo-me de taes garotos, parece-me tel-os sempre diante dos olhos, e terei no pensamento a idéa e imagem d’eles; todavia por cauza dos seos gestos e aspecto inteiramente diferentes do porte dos nossos rapazes, confesso ser dificil reprezentar bem os meninos selvagens, quer por escrito, quer mesmo pela pintura. Por esta razão para sentirmos verdadeiro prazer, precizo é vel-os e vizital-os no seo paiz.
Em verdade porém direis vós, que extensissima é a viagem. Isto é certo; portanto, si não tiverdes bom pé o olho bom, e temeis tropeçar, não vos arrisqueis a incetar o caminho.
Ainda veremos mais amplamente, conforme se aprezentarem as materias, de que eu tratar, como sam as cazas, os utensis domesticos, o modo de pernoitar e o teor de outros procedimentos dos selvagens.
§ 23. Todavia antes de encerrar este capitulo, pede a ocazião, que eu responda aos que escreveram, bem como aos que pensam, que a assistencia entre os selvagens nús e principalmente, entre as mulheres, incita a lacivia e impudicicia.
Sobre isto direi em uma palavra, que, embora pareça dezonestidade, e incitamento á concupiciencia ver mulheres nuas, todavia essa nudez grosseira da mulher é muito menos atraente do que se pensa, como então geralmente observamos.
Portanto sustento, que os atavios, rebiques, cabeleiras postiças, cabelos encrespados, pescocinhos enrugados, anquinhas, saias dobradas, e outras infinitas bagatelas, com que as mulheres e raparigas de cá se transfiguram, e de que nunca se fartam, sam cauza de males incomparavelmente maiores do que a nudez uzual das mulheres selvagens, as quaes entretanto, em relação ás feições, nada devem ás outras damas em formozura.
Si a decencia me permitisse dizer mais alguma couza, ufano de solver todas as objeções, que em contrario se oferecessem, daria razões tam evidentes, que ninguem as recuzaria. Sem proseguir pois n’este assunto, refiro-me no pouco que tenho dito áqueles que têem viajado á terra do Brazil, e que, como eu, viram umas e outras couzas.
§ 24. Não quero entretanto por este modo aprovar a nudez, contra o que a Escritura Santa refere de Adão e Eva, os quaes, depois do pecado, reconheceram estarem nús e envergonharam-se; antes detestarei os criticos, que a quizeram introduzir entre nós, contra a lei natural, a qual todavia n’este ponto não é por fórma alguma observada pelos nossos mizeros selvagens americanos.
O que pois dice d’estes selvagens é para mostrar, que não somos talvez mais louvaveis, si os condenamos tam austeramente, porque sem pejo algum andam assim com o corpo inteiramente descoberto, quando alias os excedemos no vicio oposto, isto é, em nossas comezanas e superfluidades de vestuário.
E praza a Deos, para findar este ponto, que cada um de nós vista-se modestamente, mais por decencia e necessidade do que por vangloria e mundanidade.
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