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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 10 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo IX — Grossas raizes e milho, de que os selvagens fabricam farinha,que comem em vez de pão; bebida xamada cauim

10 de 24 ≈ 22 min de leitura

§ 1. Depois de ter exposto no precedente capitulo como os nossos selvagens enfeitam-se e vestem-se no exterior, parece-me, deduzindo as couzas por ordem, não ser fóra de propozito tratar agora dos viveres, que lhes sam comuns e ordinarios.

Cumpre primeiramente notar, que embora os selvagens não tenham trigo, e por consequencia não os semeem, nem plantem vinha nas suas terras, comtudo nem por isso deixam de tratar-se bem e ter boa comida sem vinho, conforme vi e experimentei.

§ 2. Os indigenas americanos têem nas suas terras duas especies de raizes, a que xamam aipim e mandioca[20], as quaes em trez ou quatro mezes crecem no solo e ficam tam grossas como a côxa de um omen, com o comprimento de pé e meio, mais ou menos: quando as arrancam, as mulheres (pois os omens não ocupam-se d’isso) secando-as ao fogo no moquem[21], tal como logo descreverei, ou tomando-as ainda frescas, as ralam á força em pontas de pedras miudas fixadas e arranjadas em uma peça xata de madeira (como ralamos e raspamos o queijo e a noz moscada), e as reduzem a farinha alva como a neve.

Então esta farinha ainda crua, e a semea branca que d’ela sae, e de que logo falarei, aprezenta o verdadeiro odor do amido feito de trigo puro por muito tempo diluido n’agua, quando ainda está fresco e liquido; de sorte que, depois do meo regresso para cá, axando-me em lugar onde esta preparação se fazia, o xeiro d’ela recordou-me o xeiro ordinariamente sentido nas cazas dos selvagens, quando fazem farinha da raiz da mandioca.

Para preparal-a essas mulheres brazileiras têem grandes e amplas frigideiras de barro, com capacidade de mais de um alqueire, por elas mesmas fabricadas mui convenientemente para esse mister, e as põem ao fogo, com certa porção d’essa farinha dentro: e em quanto coze a massa, não deixam de mexel-a com cuias de cabaça, das quaez, se servem como nós nos servimos das escudelas. Esta farinha assim cozida toma a fórma de granitos ou confeites de botica.

§ 3. Ora, elas fazem a farinha de dois modos, a saber, farinha muito cozida e dura, a que os selvagens xamam uhi-antan, da qual se proveem, quando vam á guerra, por melhor se conservar, e outra menos cozida e mais tenra, a que xamam uhi-pon[22], a qual é muito melhor do que a primeira, porque, pondo-a na boca e comendo-a, quando está fresca, dirieis ser miolo de pão branco ainda quente. Ambas, sendo cozinhadas, mudam esse primeiro sabor, de que falei, em outro mais agradavel e delicado.

Comquanto essas farinhas, principalmente quando estam frescas, sejam de mui bom gosto, de facil digestão e bom alimento, comtudo não se prestam por forma alguma ao fabrico do pão, como experimentei.

Verdade é, que d’elas fazem massa, a qual, inxando como a do trigo com o levêdo, é tam macia e branca como si fosse farinha de frumento; porém assando-se, a crôsta e toda a parte superior séca e queima, e quando abre-se ou parte-se o pão, axareis o interior resequido e reduzido a farinha.

§ 4. Creio portanto, que quem referio, que os indios, que abitam aos 22 ou 23 gráos alem da linha equinocial, e que certamente sam os nossos Tupinambás, viviam de pão feito de páo ralado, equivocára-se por não ter bem observado o que eu digo, querendo falar das raizes, de que agora trato.

Todavia uma e outra farinha é boa para papas, a que os selvagens xamam mingáo[23], principalmente quando a dissolvem em caldo gordo, pois torna-se então granulada como arroz e assim preparada é de optimo sabor.

Como quer que seja porem, os nossos Tupinambás, quer omens, quer mulheres ou meninos, acostumados desde a infancia a comel-a sêca em vez de pão, estam por tal forma afeitos e acostumados a isso, que tomando-a com uns quatro dedos na vazilha de barro ou outro qualquer vazo, em que a conservam, ainda que a atirem de muito longe, acertam na bôca com tal destreza que não perdem um só farelo.

Si nós os Francezes os quisessemos imitar, e procurassemos comel-a por esse modo, não estando avezados com eles, em lugar de acertar na boca, a espargiriamos nas boxexas, e sujariamos todo o rosto; por isso eramos obrigados a tomal-a com colheres, salvo aqueles que quizessem aprezentar-se como farcistas, principalmente tendo barbas compridas.

§ 5. Acontece algumas vezes, que depois que essas raizes do aipim e da mandioca sam raspadas ainda frescas (do modo por que já dice), as mulheres fazem grandes bolas da farinha fresca e umida, rezultante d’essa operação, apertam, comprimem bem nas mãos, e espremem o como o suco quazi tam branco e claro como o leite, o qual deitam em pratos e vazilhas de barro, e expõem ao sol, cujo calor o condensa e coagula como coalhada de queijo; e quando o querem comer, o derramam em outros alguidares de barro, o cozinham no fogo, como fazemos com as fritadas de ovos, e torna-se, assim preparado, mui bom manjar.

Ainda mais: a raiz do aipim não só é boa transformada em farinha, mas tambem pode comer-se assada inteira no borralho ou no fogo; pois assim fica tenra, abre-se, e torna-se farinacea como a castanha assada nas brazas, cujo gosto é quazi igual.

Entretanto o mesmo não acontece com a raiz da mandioca, pois serve, somente para fazer farinha, e é venenoza, si a comermos de outro modo.

§ 6. Ainda mais: as plantas ou as astes de ambas sam pouco diferentes quanto á forma, crecem do tamanho de pequenos zimbros, e têem folhas mui similhantes á erva da peonia, ou pivoine em francez.

A circunstancia porém mais admiravel e digna de grande consideração n’estas raizes do aipim e da mandioca da nossa terra do Brazil é a multiplicação d’elas. Pois como os ramos sam quazi tam moles e frageis como bouceiras, basta quebral-as e enterral-as bem no xão, para sem mais cultura alguma termos grossas raizes no fim de dois ou trez mezes.

§ 7. Ainda mais: as mulheres d’esse paiz, infincando na terra um bastão pontudo, plantam assim duas especies de milho, a saber, branco e vermelho, que vulgarmente em França xama-se trigo sarraceno, e os selvagens xamam a qual avatí, do qual igualmente fazem farinha, a qual coze-se e come-se do modo por que acima dice, que se pratica com a farinha de raizes.

E creio (aliás contra o que eu dicera na primeira edição d’esta istoria, onde eu distinguia duas couzas, as quaes todavia, quando pensei bem, reconheci fazerem uma só), que este avati dos Americanos, é o que o istoriador indiano denomina maiz, o qual, conforme ele refere, serve tombem de trigo para os indios do Peru: e eis aqui a descrição, por ele aprezentada.

O talo do maiz (diz ele) crece da altura de um omem e mais, é bastante grosso, e lança folhas como as da cana das lagoas; a espiga é como uma glande do pinho silvestre, o caroço é grosso, e não é redondo nem quadrado, nem tam comprido como a nossa baga; amadurece em trez ou quatro mezes, e nas terras banhadas de ribeiros em mez e meio.

Por um grão produz 100, 200, 400, 500, e alguns multiplicam-se até 600; o que tambem demonstra a fertilidade d’essa terra agora possuida pelos Espanhóes.

Alguem já escreveo, que em alguns lugares da India oriental o terreno é tam bom, que o trigo, o centeio e o milho excedem a quinze covados de altura, conforme referem os que o viram.

§ 8. O que acima digo é a suma de tudo quanto vi uzar ordinariamente como especies diversas de pão dos selvagens na terra do Brazil, xamada America.

Entretanto os Espanhóes e Portuguezes, prezentemente estabelecidos em diversos pontos das Indias ocidentaes têem agora muito trigo e muito vinho, que essa terra do Brazil lhes produz, e deram prova de que não é por defeito do terreno, que os selvagens não possuem estas couzas.

Como tambem nós outros, os Francezes, por ocazião da nossa viagem levamos trigo em grão e cepas de vinha, vi por experiencia, que uma e outra couza dariam bem, si os campos fossem cultivados e laborados como fazemos cá.

E de fato a vinha, que plantamos pegou bem, lançou mui bonito tronco, deo folhas viçozas e exhibia manifesta demonstração da excelencia e fertilidade do solo.

§ 9. É verdade, que relativamente á frutificação, durante quazi um anno que lá estivemos, apenas produzio agraços, os quaes nem mesmo amadureceram, e antes empedraram e secaram; mas como agora sei por informação de bons vinhateiros, que regularmente as plantas novas só dam no primeiro e segundo anno frutos pecos e rôxos, de que ninguem faz cazo, sou de opinião, que si os Francezes e outros individuos que ficaram n’esse paiz continuaram, depois de nós, a beneficiar a nossa vinha, nos annos seguintes tiveram uvas bonitas e boas.

Quanto ao trigo e centeio, que semeamos, eis o defeito que apareceo; e foi, que, embora surdissem folhas viçozas e espigas, todavia o grão não se formou.

Mas como a sevada granulou, e amadureceo, e multiplicou muito, é verosimil, que a terra por substancioza apressasse e adiantasse com excesso o trigo e o centeio (os quaes pedem maior demora na terra antes de produzir, os frutos do que a sevada, como vemos cá na Europa) e assim subiram com demaziada rapidez; pois o fizeram repentinamente, e não tiveram tempo para florar, e formar o grão.

§ 10. Na nossa França estrumam-se e estercam-se os campos para tornal-os mais ferteis; porem n’essa terra nova sou de opinião, que seria precizo cançal-a e enfranquecel-a com alguns annos de cultura, afim de que ela produzisse melhor o trigo e outros cereaes similhantes.

E como o paiz dos nossos Tupinambás com certeza é capaz de alimentar dez vezes mais gente do que atualmente nutre, eu, quando ali estive, podia gabar-me de ter ás minhas ordens mais de mil geiras de terras melhores do que as de toda a Beausse; e quem duvidaria, que si os Francezes ali tivessem permanecido (o que teriam conseguido e agora já lá estariam mais de dez mil pessoas, si Nicoláo de Villegagnon não se tivesse rebelado contra a religião reformada) não teriam recebido e tirado o mesmo proveito, que colhem Portuguezes, que ali estam bem acomodados?

Seja isto dito de passagem para satisfazer aqueles que dezejarem saber, si o trigo e o vinho, sendo semeados, cultivados e plantados na terra do Brazil, podem prosperar.

§ 11. Ora, volto ao meo assunto, e afim de melhor distinguir as materias, que me incumbi de tratar, antes de falar das carnes, peixes, frutas e outros mantimentos inteiramente diversos dos da nossa Europa, de que se nutrem os selvagens, convem, que eu diga qual é a sua bebida e o seo modo de fazel-a.

A esse respeito cumpre logo notar, que, si os omens não se envolvem de maneira nenhuma na fabricação da farinha, antes deixam todo esse incargo ás mulheres, como acima declarei, a mesma couza fazem, e ainda com muito mais escrupulo, a respeito da preparação da bebida, na qual não tomam parte.

As raizes do aipim e da mandioca, preparadas pelo modo por que já expliquei, servem de principal alimento aos selvagens; e eis como d’elas se servem para a fabricação da sua bebida uzual.

Depois de as cortarem em rodelas miudas, como cá fazemos com os rabanetes para pôr na panela, fervem os pedaços em grandes vazilhas de barro xeias d’agua até ficarem tenros e moles, e então os tiram do fogo, e os deixam esfriar.

Feito isto, acocoram-se algumas mulheres em torno d’essas grandes vazilhas, tomam as rodelas de raizes assim amolecidas e depois de as mastigarem bem e remexerem na boca sem engolir, retirando com a mão um pedaço e depois outro, os lançam em outros vazos de barro, já postos no fogo, e dam nova fervura.

Assim mexendo sempre esta salsada com um páo até conhecerem que está tudo bem cozido, tiram do fogo segunda vez sem coar nem peneirar, e antes derramam tudo em outros vazos de barro maiores, tendo cada um capacidade quazi igual á de meia pipa de vinho de Borgonha. Depois que isto escuma e fermenta, cobrem os vazos, e n’eles deixam essa bebida até que a queiram beber, como adiante direi.

E afim de melhor exprimir as couzas, direi, que estes grandes vazos ultimos de que acabo de fazer menção, sam quazi do feitio das grandes cubas de barro, nas quaes, vi fazerem a lixivia em alguns lugares do Bourbonez e da Alvernia, sendo todavia mais estreitos na boca e na parte superior.

§ 12. Ora, os nossos Americanos tambem fervem e mastigam porção do milho xamado avati na sua linguagem, e assim fazem uma bebida pelo mesmo processo, porque fazem os das raizes supramencionadas, como acabo de indicar.

Repito especialmente, que sam as mulheres, que dezempenham este mister; pois embora não tenha visto fazer distinção entre raparigas solteiras e mulheres cazadas (como alguem já escreveo), todavia os omens têem a firme opinião de que, si mastigarem as raizes, ou o milho para fazer a bebida, esta não sahirá bôa; e reputam tam indecente ao seo sexo meter-se n’este trabalho, como com toda razão axariamos estranhavel vêr esses camponezes semi-nús de Bresse e de outros lugares nossos pegar na roca para fiar.

Os selvagens xamam esta bebida cauim, a qual é turva e espessa como borra, e tem quazi o gosto do leite azêdo; têem cauim vermelho e branco, como temos o vinho.

§ 13. Como essas raizes e o milho, de que falei, crecem em todo o tempo no seo paiz, os selvagens, quando lhes apraz, fazem essa bebida em qualquer estação; e algumas vezes em tal quantidade, que em certa ocazião vi mais de 30 dos taes vazos grandes (os quaes vos dice conter cada um mais de 30 de canadas de Pariz)[24] xeios e dispostos em filas no meio da caza, onde estam sempre cobertos até o momento de cauinar.

Antes porém de xegar ahi peço-vos (sem que eu todavia aprove o vicio), que seja-me permitido á maneira de prefacio dizer: - Fóra Alemães, Flamengos, soldados de infanteria[25], Suissos e todos quantos fazeis brodios e bebedeiras ca em nossa terra; por quanto, depois de saberdes como os nossos Americanos se dezempenham no oficio, confessareis, que nada entendeis da materia em composição d’eles; por isso cumpre, que n’este assunto lhes cedaes a preeminencia.

Quando pois querem divertir-se e principalmente quando com ceremonias, que logo veremos, matam solenemente um prizioneiro de guerra para o comer, o seo costume (inteiramente contrario ao nosso em materia de vinho, que apreciamos fresco e limpido) é beber esse cauim amornado, e a primeira couza, que as mulheres fazem, é um pequeno fogo ao redor dos potes de barro, para aquecer a bebida ahi depozitada.

§ 14. Feito isto, começam por uma das extremidades a descobrir o primeiro pote, e a remexer e turvar a bebida, que depois tiram dos potes com cuias de cabaça, algumas das quaes têem quazi trez quartilllos de Pariz[26], e assim os omens, dansando, passam uns após outros por junto das mulheres, as quaes aprezentam; e dam a cada um na propria mão um d’esses copazios xeios, e no dezempenho do oficio de despenseiras não olvidam beberricar sofrivelmente, e quer uns quer outros não deixam de beber e embicar tudo de um só trago.

Sabeis porém quantas vezes? Serão repetidas tantas vezes até que os potes, dos quaes ali está uma centena, se esvaziem, e não fique n’eles uma só gôta de cauim.

E com efeito eu os vi não só beber trez dias e trez noites continuas, mas tambem depois de saciados e bebados a mais não poder ser, vomitar quanto tinham bebido, e recomeçar ainda mais bem dispostos que d’antes; pois deixar a função seria expôr-se a ser considerado efeminado e mais que schelm entre os Alemães.

§15. E o que ainda mais estraordinario e notavel torna-se entre os Tupinambás é, que assina como não comem couza alguma durante as suas bebedeiras, assim tambem, quando comem em seos banquetes, não tomam bebidas: de sorte que, vendo-nos entremear uma e outra couza, axavam assás estranhavel o nosso costume.

Diremos pois, que eles fazem como os cavalos? A resposta dada a isto por um quidam galhofeiro da nossa companhia era, que, além de não ser precizo esfregal-os, e conduzil-os ao rio para beber, estam fóra de perigo de se lhes arrancar o rabixo.

Cumpre entretanto notar, que embora não observem oras de jantar, ou ceiar, ou merendar, como nós cá fazemos, nem mesmo ponham duvida em comer á meia noite ou ao meio dia, si têem fome, todavia jamais comem sem ter apetite, e póde dizer-se, que tam sobrios sam no comer como excessivos no beber.

Alguns tambem têem o decente costume de lavar as mãos e a boca antes e depois da comida: o que todavia fazem a respeito da boca (creio eu), porque do contrario a teriam sempre viscoza em razão da farinha de raizes e de milho de que dice uzarem ordinariamente em lugar do pão.

Quando comem, observam admiravel silencio, de sorte que, si têem alguma couza para dizer, esperam até acabar a comida. Quando nos ouviam tagarelar e galhofear na ocazião das refeições, como entre Francezes é costume, punham-se a motejar.

§ 16. Prosseguindo no meo assunto, direi, que emquanto dura a cauinagem, os nossos patifes e brejeiros americanos, para esquentar o cerebro, cantam, assobiam, incitam-se, exortam-se uns aos outros para portarem-se valentemente, e fazer muitos prizioneiros, quando fôrem á guerra enfileiram-se como grous, e não cessam de dansar, entrar e sair na caza onde estam reunidos, até que tudo se conclua, isto é, não se retiram dahi emquanto nos potes existir bebida, como já relatei.

E certamente para melhor verificar quanto digo, istoé, que sam os primeiros e os mais refinados beberrões, creio aver alguns, que por sua parte em uma reunião xupistam mais de vinte potes de cauim.

§ 17. Já os pintei no precedente capitulo, quando eles emplumam-se, e com este trage matam e comem um prizioneiro de guerra, fazendo assim bacanaes á maneira dos pagãos, e ebrios figuram como sacerdotes; então os vereis de olhos torvos e cabisbaixos.

Acontece, algumas vezes sentarem-se em leitos de algodão suspensos no ar, e fronteiros uns aos outros, bebem de modo mais modesto; mas é costume entre eles reunirem ordinariamente todos os omens de uma aldeia ou de muitas para beber (o que nunca fazem para comer), e esses beberetes especiaes não sam frequentes.

§ 18. Igualmente ou bebam pouco ou muito, além do que já dice, convem acrecentar, que como não sofrem de melancolia, costumam congregar-se todos os dias para dansar e folgar nas suas aldeias. Os mancebos cazados têem a singularidade de adornarem-se com um d’esses grandes penaxos, a que xamam arasoia. Atada a arasoia na cintura e empunhando algumas vezes o maracá e dispostos e amarrados nas pernas os frutos secos (de que acima falei) sonantes como conxas de caracol, quazi não fazem outra couza todas as noites sinão entrar e sair de caza em caza, dansando e saltando de sorte que quando eu os via e ouvia fazer tantas vezes a mesma couza, lembrava-me d’aqueles sugeitos, que em certas aldeias nossas sam conhecidos pela denominação de valets de la feste, os quaes no tempo do seo oficio e das festas, que fazem aos santos padroeiros de cada parochia, andam vestidos de bobos com cetro na mão e, guizos nas pernas, brincando e dansando á mourisca nas cazas e nas praças.

Cumpre aqui notar, que todas as dansas dos nossos selvagens, quer sigam-se uns após outros, quer se disponham em roda, como direi, quando falar da sua religião, nunca as mulheres nem as raparigas misturam-se com os omens; e si estas querem dansar, o fazem em grupo separado.

§ 19. Finalmente, antes deacabar o assunto relativo modo de beber dos nossos Americanos, de que agora trato, convem, que os leitores se convençam, que si eles tivessem vinho á vontade, enxugariam galhardamente as taças; por isso contarei aqui uma istoria jocoza e todavia tragica, a qual um mussacá[27], isto é, bom pai de familia, que dá comida, aos viajantes, contou-me em sua aldeia.

Falando ele tio seo idioma nativo dice-me: Nós sorpreendemos uma caravela de Peros (isto é, Portuguezes, os quaes, como em outro lugar já referi, sam inimigos mortaes e irreconciliaveis dos nossos Tupinambás), na qual, depois de termos morto e comido todos os omens n’ela encontrados, e termos recolhido as mercadorias existentes, axamos, entre estas, grandes caramemos (assim xamam eles os toneis e outras vazilhas de madeiras) xeios de bebida,e alçando-os e destampando-os, quizemos provar o que era tal beberagem.

Todavia (dizia-me o velho selvagem), não sei de que qualidade de cauim estavam xeios, nem si o tendes no vosso paiz; só sei dizer, que, depois de bebermos o nosso codorio, ficamos por dois ou tres diaz por tal fórma prostrados e adormecidos, que não estava em nosso poder despertar.

Assim era verosimil ser toneis de bom vinho de Espanha, com os quaes os selvagens, sem o pensar, tinham festejado Baco; e não nos devemos admirar, si o nosso omem, depois de bem acordado, dizia, que tinham subitamente recobrado as forças.

§ 20. Pelo que nos respeita, quando xegamos a esse paiz, procuramos evitar a mastigação, que essas mulheres fazem na compozição do seo cauim, como acabo de espender, por isso pilamos raizes de aipim e mandioca com milho, e cuidando fazer tal bebida de modo mais decente, fervemos tudo; mas, para dizer a verdade, a experiencia mostrou, que assim feita a potagem não era boa; comtudo pouco a pouco nos acostumamos a beber o cauim da outra especie, embora o não bebêssemos ordinariamente; pois como tinhamos bastantes potes de assucar, o faziamos e o deixavamos de infuzão n’agua por alguns dias para poder resfriar, por cauza dos calores ordinarios d’esse lugar; assim assucarado nós o bebiamos com grande satisfação.

Como as fontes e os rios sam de aguas claras e mui boas em razão da temperatura do clima (e direi, incomparavelmente mais sadias do que as nossas), essas aguas não fazem mal, embora bebamos á fartar. Nós bebiamos ordinariamente agua purissima, e sem compostura alguma.

Convem advertir, que os selvagens xamam a agua doce uh-eeu. Esta é uma dição, que eles pronunciam na garganta, como os Ebreos fazem com as letras, que denominam guturaes, e era para nós a mais penoza de pronunciar entre todas as palavras do idioma indigena.

§ 21. Finalmente como eu não duvide, que algumas pessoas, ouvindo o que acima dice sobre a mastigação e revolvimento das raizes e do milho na boca das mulheres selvagens, quando preparam a bebida do cauim, enjoem e engulhem, por isso, afim de lhes diminuir de algum modo esse desgosto, peço-lhes, que lembrem-se do modo por que cá se procede na fabricação do vinho.

Pois si considerarmos, que nos sitios, onde crecera os bons vinhedos, os vinhateiros, no tempo da vindima, metem-se dentro das tinas e das cubas, nas quaes com lindos pés, e algumas vezes calçados de sapatos, maxucam as uvas, como tenho prezenciado, e ainda depois as enxulhavam na lagariça, veremos, que n’esse mister passam-se muitas couzas, que não sam talvez mais apraziveis do que esse metodo de mastigar, abitual ás mulheres americanas.

Poder-se-á dizer, que o vinho, azedando e fermentando, lança fóra de si toda a impureza; mas eu respondo, que o nosso cauim purga-se tambem, e por tanto n’este ponto existe a mesma razão para uma e outra couza.

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Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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