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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 11 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo X — Animaes, veação, lagartos, serpentes e outros animaes monstruozos da America

11 de 24 ≈ 18 min de leitura

§ 1. Começando este capitulo, advertirei, que a respeito dos animaes quadrupedes em geral e sem exceção não existe na terra do Brazil na America um só, que seja em tudo e por tudo similhante aos nossos, e direi tambem que os nossos Tupinambás mui raramente alimentam-se com animaes domesticou.

Para descrever pois os animaes silvestres do seo paiz, por eles genericamente xamados sóo, começarei pelos que servem de alimentação.

§ 2. O primeiro e mais comum é um, a que xamam tapirussú[28], o qual tem o pêlo avermelhado e assas comprido; tem quazi a dimensão, grossura e forma de uma vaca, todavia não tem xifres; tem o pescoço mais curto, as orelhas mais longas e pendentes, as pernas mais finas e delgadas, e o pé inteiriço com a forma do casco do asno; e pode dizer-se, que, participando de uma e outra alimaria, é semi-vaca e semi-asno.

Todavia difere ainda inteiramente de ambos, quer cauda, que é mui curta (e notae aqui na America axam-se muitas alimarias absolutamente descaudatas), quer nos dentes, que sam muito mais cortantes e agudos; entretanto não é animal perigozo, por isso que só tem rezistencia na fuga.

Os selvagens o matam a frexadas como o fazem a muitos outros viventes, ou o apanham com laços e outras armadilhas feitas com muita indústria.

§ 3. Alem d’isso este animal é muito estimado entre os indigenas por cauza da péle; pois quando o esfolam, cortam em roda todo o couro do dorso depois de estar bem seco, e fazem rodelas tamanhas como o tampo de um tonel médio, das quaes se servem para amparar os golpes das frexas inimigas, quando vam á guerra.

Com efeito esta péle assim sêca e preparada é tam rija, que não creio, que aja frexa, por mais violentamente que seja, que possa fural-a.

Trazia por curiozidade para a França, dois d’esses broqueis; mas quando em nosso regresso a fome assaltou-nos no mar, depois de faltarem-nos viveres, e servirem-nos de alimento os bugios, papagaios e outros animaes, que traziamos d’esse paiz, foi-nos ainda precizo comer as nossas rodelas tostadas nas brazas, e tambem todos oscouros e peles, que vinham no navio, como em lugar competente direi.

A respeito da carne do tapirussú, tem ela quazi o mesmo gosto que a do boi; mas quanto ao modo de cozinhal-a e preparal-a, os nossos selvagens a fazem moquear, na forma de seo costume.

§ 4. E porque já falei n’isso, e ainda será precizo repetir muitas vezes a palavra moquear, quero declarar o modo de proceder a tal respeito, afim de não conservar o leitor suspenso, pois oferece-se agora ocazião oportuna de instruil-o.

Os nossos Americanos pois infincam em suficiente profundidade da terra quatro forquilhas de páo da grossura de um braço, em quadro, na distancia de trez pés, e com igual altura de dois pés e meio, atravessando n’elas varas com uma polegada ou dois dedos de distancia uma da outra, e d’este modo formam uma grande grelha de madeira, que, na sua linguagem xamam moquem[29].

Têem muitos em suas cazas, e quando têem carne, a colocam ali cortada em pedaços, e com lenha seca, que não faça muita fumaça, acendem fogo lento por baixo, volteam a carne, revirando-a de meio quarto em meio quarto de ora, e assim a deixam assar por todo o tempo necessario.

E por que não salgam suas viandas para guardal-as, como nós cá fazem os não têem outro meio de as conservar sinão fazendo-as assar.

§ 5. Si em um dia apanham trinta animaes ferozes ou outros dos que descrevemos n’este capitulo, afim de evitar a putrefação, cortam logo todos em pedaços e colocam no moquem, de maneira que, virando e revirando a carne como já dice, ahi ás vezes a deixam por mais de 24 oras, até que a parte media e a parte aderente aos ossos fique tam assada como a parte esterior.

Assim fazem com os peixes, quando os têem em grande porção, principalmente da especie denominada piraparatí, que sam verdadeiros sargos, de que adiante falarei; e depois de os secarem bem os reduzem a farinha.

Em suma esses moquens lhes servem de salgadeira, aparador e guarda-comida; por isso não ireis ás suas aldeias sem vel-os guarnecidos não só de veações ou peixes, como tambem mais frequentemente os axareis,cobertos de coxas, braços, pernas e outras grandes postas de carne umana dos prizioneiros de guerra que matam e costumam comer, como adiante veremos.

Eis aqui quanto cabe dizer sobre o moquem e a moqueação, isto é, sobre a caza de assados dos nossos Americanos; os quaes aliás (salvo a reverencia devida a quem o contrario escreveo), quando lhes apraz, não deixam de cozinhar as suas viandas.

§ 6. Ora, afim de proseguir na descrição dos seos animaes, convem dizer, que os mais volumozos, que têem depois do asno-vaca, de que acabamos de falar, sam certas especies de veados e corsas, a que xamam suasssú[30]; mas além de estarem longe de ser tamanhos como os nossos e de terem xifres muito menores, ainda se deferencíam em terem o pêlo tam comprido como o das cabras cá da europa.

Quanto ao javali d’esse paiz que os selvagens xamam taiassú[31], embora seja de fórma similhante ao das nossas florestas, e tenha parecidos a cabeça, orelhas, pernas e pés, comtudo os dentes sam mui compridos, curvos e ponteagudos, e por consequencia perigozissimos. É muito mais magro e descarnado, tem grunhido e grito espantozo, e tem uma deformidade notavel, a saber, um operculo natural nas costas (como dice, que o golfinho tinha na cabeça), por onde sopras, respira e aspira, quando quer.

E para que não pareça isto extraordinario notese, que o autor da Istoria geral das Indias diz, que tambem no paiz de Nicaragua, perto do reino da Nova-Espanha, existem porcos, que têem o embigo no espinhaço; e por certo sam da mesma especie dos que acabo de descrever.

Os trez supramencionados animaes, isto é, tapirussú, suassú, e taiassú sam os maiores d’essa terra do Brazil.

§ 7. Passando pois a outras alimarias bravias dos nossos Americanos, têem eles um animal vermelho xamado aguti[32], do tamanho de um porco de mez, o qual tem o pé fendido, a cauda mui curta, o focinho e as orelhas quazi como as da lebre, e é de sabor agradabilissimo.

Outros, de duas ou trez especies, xamados tapitis, sam todos mui similhantes ás nossas lebres, e quazi do mesmo gosto; mas quanto ao pêlo, o têem mais avermelhado.

Apanham tambem nos bosques certos ratos do tamanho do esquilo e quazi do mesmo pêlo, os quaes têem a carne tam delicada como a do coelho.

Pag ou pague (pois não podemos bem distinguir a pronuncia) é animal da grandeza do cão perdigueiro mediano; tem a cabeça felpuda e mui mal feita, a carne oferece o mesmo gosto que a do vitelo, e quanto á pele é mui bonita e manxada de branco, pardo e preto; e si nós cá a tivéssemos, seria mui valioza e apreciada para guarnições.

Vê-se outro animal do feitio de uma doninha e de pêlo pardacento, ao qual os selvagens xamam sariguá[33] e como fede muito, o não comem de boa vontade.

Todavia nós outros esfolamos alguns d’estes animaes, e conhecendo que sómente a gordura dos rins lhes dá o máo odor, tiramos-lhes esta viscera, e não deixamos de os comer; pois a carne é tenra e boa.

§ 8. Quanto ao tatú[34] da terra do Brazil, é animal (como os ouriços de cá), que não pode correr tam rapido como o fazem muitos outros, por isso arrasta-se pelas moutas; mas em compensação está armado e coberto de escamas fortes e duras, e bem creio, que um golpe de espada o não ofenderá. Quando o esfolam, ficam as escamas ligadas e seguras na pele, da qual os selvagens fazem cestinhos xamados caramemo. Sendo dobrada, direis ser manopla de armadura: a carne é branca e mui saboroza.

Quanto á fórma porém, não vi n’esse paiz nenhum quadrupede similhante na altura das pernas ao que Belon reprezentou em dezenho no fim do terceiro livro das suas observações, e ao qual ele todavia denominou tatú do Brazil.

§ 9. Ora, além de todos os sobreditos animaes, que sam os mais uzuaes na alimentação dos nossos Americanos, tambem comem crocodilos, xamados jacarés, os quaes têem a grossura da coxa do omem, com proporcional comprimento, mas longe de serem perigozos, ao contrario vi muitas vezes os selvagens trazerem vivos para suas cazas esses jacarés, ao redor dos quaes seos filhos brincavam sem receberem mal algum.

Todavia ouvi os velhos dizerem, que, andando nas matas, sam algumas vezes assaltados, e têem grande dificuldade de defender-se com frexadas contra uma especie de jacarés grandes e monstruozos, os quaes, quando de longe percebem e presentem vir gente, saem dos caniçaes aquaticos, onde fazem o seo covil.

E a tal respeito, além do que Plinio e outros referem dos crocodilos do Nilo no Egipto, diz o autor da Istoria geral das Indias, que, matou crocodilos n’esse paiz, perto da cidade de Panamá, que tinham mais de 100 pés de comprimento: o que é couza quazi incrivel.

Observei nos jacarés medianos, que vi, que têem a boca mui rasgada as pernas altas, a cauda não redonda nem despontada, antes xata e aguda na extremidade. Cumpre porém confessar, que não dei bem atenção, si estes anfibios não movem a mandibula superior, como geralmente se crê.

Os nossos Americanos tambem apanham lagartos, xamados teiús[35] que não sam verdes como os nossos, mas cinzentos e com a pele aspera como as nossas lagartixas. Embora sejam do comprimento de quatro a cinco pés, e proporcionalmente grossos e de fórma repulsiva á vista, e conservem-se ordinariamente nas margens dos rios e lugares pantanozos como as rans, nem por isso sam mais perigozos do que estas.

E direi mais, que esfolados, destripados, lavados e bem cozinhados, aprezentam carne tam branca, delicada, tenra e saboroza como o peito do capão, e constituem uma das boas viandas, que comi na America.

Verdade é, que em principio repugnava-me esse manjar; mas depois que o provei, não cessava de pedir lagarto.

§ 11. Tambem os nossos Tupinambás têem certos sapos grandes, os quaes sam moqueados com o couro, intestinos e tripas, e servem-lhes de alimento.

Assim atento o que os nossos medicos ensinam, e o que cada qual de nós crê, a carne, sangue e geralmente todo o corpo do sapo é mortifero; e sem que eu diga couza diversa dos sapos da terra do Brazil, de que acabo de falar, poderá o leitor dahi facilmente concluir, que por cauza da temperatura do paiz (ou talvez por qualquer outra razão que ignoro), taes sapos não sam ruins e venenozos, nem perigozos, como os nossos.

§ 12. Os selvagens tambem comem serpentes tam grossas como um braço de omem, e do comprimento de uma vara de Pariz[36]; e até vi os mesmos selvagens pegarem e trazerem (como dice que fazem com os crocodilos) uma especie de serpentes rajadas de preto e vermelho, as quaes em caza soltavam uivos no meio das mulheres e crianças que, em vez de as temerem, as acariciam com as mãos.

Preparam e cozinham em pedaços essas grossas enguias terrestres; para dizer porém o que sei, é vianda mui insipida e adocicada.

Não lhes faltam outras especies de serpentes, e principalmente nos rios, onde encontram-se serpes compridas, delgadas, e tam verdes como acélga, cuja mordedura é muito venenoza; mas pela seguinte narração podereis compreender, que além dos teiús, de que acima falei, existe nos bosques outra especie de lagartos grandes que sam mui perigozos.

§ 13. Em certa ocazião dois Francezes e eu cometemos o erro de metermos-nos a caminho para vizitar o paiz, como costumavamos, sem levar selvagens por guia, e nos transviamos nos bosques; e quando ladeavamos profundo vale, ouvimos o ruido e andadura de um bruto, que vinha em nossa direcção; e pensando ser animal silvestre, não paramos, nem damos importancia ao cazo.

Mas de repente, á destra e quazi a trinta passos de distancia, vimos na encosta da montanha um lagarto muito mais volumozo do que o corpo de um omem com o comprimento de seis a sete pés. Parecia revestido de escamas esbranquiçadas, asperas e escabrozas como cascas de ostras: ergueo um dos pés dianteiros, e com cabeça levantada, e olhos sintilantes, parou firme para encarar-nos.

Vendo isto, e não tendo então nenhum de nós arcabuz nem pistola, pois só traziamos espadas, e arco e frexa na mão (armas que não podiam servir-nos contra esse furiozo animal tam fortemente armado), tememos, que si fugissemos, o bruto coresse mais do que nós, nos alcançasse, empolgasse e devorasse. Assombrados como estavamos, olhando uns para os outros, ficamos quedos e immoveis.

Depois este monstruozo e medonho lagarto, abrindo a boca por cauza do grande calor que fazia (pois o sol brilhava e era então quazi meio dia) e soprando tam fortemente, que o ouviamos distintamente, contemplou-nos perto de um quarto de ora, volveo-se de repente e fugio pelo monte acima, fazendo maior barulho e estrepito nas folhas e ramos, por onde passava, do que faria um veado correndo na floresta.

E nós, que raspamos tamanho susto, não tivemos por certo a lembrança de perseguil-o, e louvando a Deos por ter-nos livrado do perigo, proseguimos no passeio.

Pensei depois, seguindo a opinião d’aqaeles que dizem, que o lagarto deleita-se com o aspecto do rosto do omem, que o bixo tivera grande prazer de olhar para nós, que alias tranzidos de medo o contemplavamos.

§ 14. N’esse paiz existe uma alimaria xamada jaguára[37] pelos selvagens a qual tem pernas quazi tam altas e é tam veloz na carreira como o galgo; mas como tem cabelos compridos no mento e a péle linda e mosqueada como a da onça, tambem no mais muito se parece com esta féra.

Os selvagens com razão temem muito esta alimaria; pois vivendo de preza, como o leão, mata-os, despedaça, e come, quando os póde agarrar.

E como os selvagens sam crueis e vingativos contra tudo quanto os prejudica, quando podem apanhar algumas d’essas alimarias nas armadilhas (o que muitas vezes conseguem), não lhes podendo fazer maior mal, as ferem, e golpeam a frexadas, e as deixam assim por muito tempo desfalecer nos fóssos, onde cahiram, antes de as acabar de matar.

E afim de que melhor se entenda como esta alimaria os maltrata, referirei o seguinte:

Em certo dia em que cinco ou seis Francezes e eu passamos para a grande ilha[38], os selvagens do lugar advertiram-nos, que nos acautelassemos contra o jaguára e diceram, que durante a semana tinha ele comido trez pessoas em uma das aldeias indigenas.

§ 15. Tambem divaga n’essa terra do Brazil grande abundancia de pequenos macacos pretos, que os selvagens xamam cahi; e porque vêem muitos pra cá, escuzada será qualquer descrição d’eles aqui.

Todavia direi, que vivem nos bosques d’esse paiz, sempre trepados em certas arvores, que produzem um fruto com caroços quazi como as nossas grandes favas, do qual se alimentam. Reunidos ordinariamente em bandos, principalmente no tempo das xuvas, é grande prazer ouvil-os gritar e celebrar o seo sabado n’essas arvores, como cá fazem os gatos nos telhados.

Este animal só traz no ventre um feto; o filho tem a natural industria de abraçar, e agarrar-se no pescoço do pai ou da mãe logo que nace: quando sam perseguidos pelos caçadores, saltam de galho em galho e salvam-se por este modo.

Por esta cauza os selvagens não podem facilmente apanhar os individuos novos e velhos, e não têem outro meio de pegal-os, sínão derribando-os das arvores á frexadas ou reboladas, donde caem atordoados e algumas vezes mal feridos. Depois que os curam, e domesticam em caza, os trocam por qualquer mercadoria com os estrangeiros, que por ali viajam

Digo especialmente domesticados, porque esses macacos, quando sam recem apanhados, sam tam ferozes, que mordendo os dedos, e lacerando com os dentes as mãos dos apreensores, cauzam tamanha dor, que os pacientes os matam a pancadas; para livrarem-se da agressão.

§ 16. Tambem existe na terra do Brazil um genero de macacos, que os selvagens xamam sagui[39] iguaes no tamanho ao esquilo e de pêlo ruivo igual ao d’este; quanto á figura têem o focinho, pescoço, rosto, e quazi tudo o mais como o leão; bravio como é, todavia foi o mais lindo animalzinho, que lá vi.

Com efeito si ele fôsse tam forte no tranzito do mar, como é o mono, seria muito mais apreciado; mas é delicadissimo não póde suportar o balanço do navio no mar, e é tam melindrozo, que com qualquer contrariedade, que se lhe cauze, deixa-se morrer de desgosto.

Entretanto cá na Europa vêem-se alguns d’estes animalejos, e creio ser a tal quadrumano, que Marot alude, quando, introduzindo seo servo Fripèlipes a falar com um certo Sagon, que o censurara, assim se exprime:

Combien que Sagon soit un mot Et le nom d’un petit marmot.

§ 17. Ora, embora eu confesse (apezar da minha curiozidade) não ter notado todos os animaes d’essa terra d’America, tam cuidadozamente como eu dezejára todavia, para finalizar, ainda descreverei dois, os quaes sobre todos os outros sam de fórma estraordinaria e singular.

O maior, xamado ahi[40] pelos selvagens, é do tamanho de um grande cão d’agua, e tem cara de bugio parecida com rosto umano, ventre pendurado, como o de porca prenhe, pêlo pardo-escuro, como lan de carneiro preto, cauda curtissima, pernas cabeludas, como as do urso, e unhas mui compridas.

E posto que nos matos seja mui feroz, quando é pegado, torna-se facil de amansar. Verdade é, que por cauza das unhas os nossos Tupinambás, sempre nús como andam, não gostam muito de folgar com este quadrupede.

Mas (couza que parecerá fabuloza) ouvi os moradores, da terra não só selvagens mas tambem adventicios com longa rezidencia no paiz, dizerem, que ninguem jamais vio este animal comer, quer no campo, quer em caza; de sorte que julgam algumas pessoas, que ele vive de vento.

§ 18. O outro animal, de que tambem quero falar, e ao qual os selvagens xamam coati, é da altura de uma lebre grande, tem pêlo curto, reluzente e mosqueado, orelhas pequenas, erectas e pontudas; a cabeça é pouco volumoza, o focinho começa desde os olhos, tem comprimentos de mais de um pé, é redondo como umbastão, afina de repente, e é tam grosso em cima como junto de boca (a qual alias é tam diminuta, que apenas caberia a ponta do dêdo minimo); esse focinho, digo, similhante ao bordão ou canudo da gaita de foles, é tal, que não é possivel aver outro mais estravagante, nem de fórma mais monstruoza.

Quando este animal é apanhado, conserva os quatro pés juntos e por este modo cae sempre para um ou para outro lado, ou esparra-se no xão, de sorte que ninguem póde fazel-o ter-se em pé: só come formigas, de que nos bosques ordinariamente se alimenta.

Quazi oito mezes depois de xegarmos á ilha, onde estava Nicoláo de Villegagnon os selvagens trouxeram-nos um d’estes coatis, o qual por cauza da novidade foi por todos nós muito apreciado, como podeis imaginar.

Com efeito sendo assás defeituoso, comparado com os animaes da nossa Europa (como já dice), muitas vezes pedi a um tal João Gardien, pessoa da nossa comitiva, perito na arte de retratista, para dezenhar este e outros muitos animaes, não só raros, como tambem cá desconhecidos; o que ele todavia, bem a meo pezar, nunca rezolveo executar.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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