Universo da obra
Universo da obra
§ 1. Começarei tambem este capitulo das aves que em geral os Tupinambás xamam urá[41], pelas que nos servem de alimento.
Primeiramente direi, que os indigenas têem muita abundancia d’essas galinhas da India, e eles xamam arinhan-ussû[42], cumprindo acrecentar que os Portuguezes, depois que vizitaram esse paiz, deram-lhes raça de galinhas pequenas comuns, que os indigenas xamam arinhan-mirim, o que dantes não conheciam.
Todavia, como em outra ocazião já dice, embora façam cazo das galinhas brancas para tirar as penas, afim de tingil-as vermelho e com elas ornar o proprio corpo, com tudo quazi não comem umas nem outras.
E como pensam que os ovos, que eles xamam arinham ropia, sam venenozos, quando nos viam sorvel-os, não só ficavam mui admirados, mas tambem diziam, que, por não termos paciencia para deixal-os xocar, praticavamos a gulodice de comer uma galinha, quando comiamos um ovo.
§ 2. Portanto não dam maior importancia ás suas galinhas, do que ás aves silvestres; por isso as deixam andar pôr onde elas querem, e elas trazem os pintos dos matos e moutas, onde xocaram, de sorte que as mulheres selvagens não têem o trabalho de criar os pintainhos com gemas de ôvo, como entre nós se pratica.
E com efeito as galinlias multiplicam de tal fórma n’esse paiz, que vereis localidades e aldeias das menos frequentadas pelos estrangeiros, onde por uma faca do valor de um carolus tereis uma galinha da India, e por um de dois liards[43], ou por cinco ou seis anzóes de pescaria, obtereis trez ou quatro galinhas pequenas comuns.
Ora, com estas duas especies de aves domesticas, os nossos selvagens alimentam domesticamente adens, a que xamam upec; como porém estes mizeros Tupinambás têem arraigada na cabeça a louca opinião de que, si comessem d’este animal, que anda vagarozamente, isso os impediria de correr, quando fossem expulsos e perseguidos por seos inimigos, abilissimo será quem os persuadir a provar d’ele: pela mesma razão abstêem-se de todos os animaes, que andam com lentidão, e até de peixes, como arraia e outros, que não nadam com rapidez.
§ 3. Quanto a aves silvestres, apanham-se nos bosques algumas do tamanho de capões, de trez especies, que os Brazilienses xamam jacutinga, jacupema e jacuassú[44], os quaes todos têem a plumagem preta e parda; creio serem especies de faizões, e por isso posso assegurar não ser possivel comer melhor vianda do que a d’estes jacús.
Têem ainda especies excelentes, xamados mutuns[45], que sam tamanhos como pavões, e com plumagem igual á dos jacús; todavia sam raros, e poucos se encontram.
O macuco e o inambuassú sam duas especies de perdis do tamanho do pato; têem o mesmo sabor dos precedentes.
Como estes sam os trez seguintes, a saber: inambúmirim, do mesmo tamanho das nossas perdizes, pegassú, da grandeza do pombo-trocaz, e paiacú, como a rôla.
§ 4. Deixando por brevidade de falar da caça, que axa-se em grande abundancia nos bosques, nas praias do mar, nas lagôas e nos rios d’agua doce, tratarei das aves, que não sam comuns na alimentação d’essa terra do Brazil.
Entre outras aves duas existem da mesma grandeza ou pouco mais ou menos a saber mais volumozas do que o corvo, as quaes, como quazi todas as aves da America, têem unhas e bico aduncos, como papagaios, em cujo numero as poderiamos incluir.
Quanto porém á plumagem (como julgareis depois de ouvir-me), não creio podermos axar em todo o mundo aves de mais deslumbrante beleza; por isso, contemplando-as, somos forçados a magnificar, não a natureza, como fazem os profanos, mas o excelente, e admiravel Creador de maravilhas taes.
Para dar pois prova d’isso, direi, que a primeira, a que os selvagens xamam arara, tem as penas das azas e da cauda, que mede pé e meio de comprimento, metade tam vermelha como fino escarlate, e metade de côr celeste tam brilhante corno o mais fino escarlatim que possas aver; o resto do corpo é azul, sendo que a nervura de cada pena separa sempre as cores opostas dos dois lados.
Quando esta ave expõe-se ao sol, corno ordinariamente sucede, não se fartam olhos umanos de contemplal-a.
A outra ave, xamada canindé, tem toda a plumagem do papo em roda do pescoço tão amarela como ouro fino; o dorso, as azas e a cauda sam de azul tão lindo que mais não é possivel; e quando observamos, que ela reveste-se, da côr do ouro por cima, sombreada de roxo, pasmamos de tanta formozura.
§ 5. Os selvagens em suas canções fazem frequente menção d’esta ave, dizendo e repetindo multas vezes d’este modo: - Canindé-june, canindé-june, euraouech, isto é, ave amarela, ave amarela, etc.; pois june ou jup na sua linguagem significa amarelo.
Embnra estas duas aves não sejam domesticas, axam-se todavia mais uzualmente nas grandes arvores existentes no meio das aldeias do que nos bosques, e os nossos Tupinambás as depenam cuidadozamente trez e quatro vezes por anno, e fazem (como alhures dice) mui bonitos vestidos, carapuças, braceletes, guarnições de espadas de páo e outras couzas d’essas lindas penas, com que adornam o seo proprio corpo.
Trouxera eu para França muitas d’essas penas e sobretudo das grandes caudas, que já dice serem naturalmente matizadas de vermelho e, azul celeste; em meo regresso porém, de passagem por Pariz, um quidam da caza real a quem as mostrei, não cessou de importunar-me emquanto as não obteve de mim.
§ 6. Os papagaios n’essa terra do Brazil sam de trez ou quatro especies; os maiores e mais bonitos, que os selvagens xamam ajurús[46], têem a cabeça rajada de amarelo, vermelho e rôxo, a ponta das azas encarnada, a cauda comprida, e amarela, e o resto do corpo verde; poucos podem vir cá; e todavia sam notaveis pela linda plumagem, e quando ensinados sam os que melhor falam, e por consequencia os de maior estimação.
Com efeito, um trugimão prezenteou-me com um d’esses passaros, que ele por espaço de trez annos conservava em seo poder, e pronunciava tam perfeitamente as palavras da lingua selvagem e da franceza, que, não se vendo o papagaio, ninguem distinguia a sua voz da voz do hornem.
§ 7. Era porém ainda maior maravilha, um papagaio d’esta especie, que certa mulher selvagem possuia em uma aldeia distante duas legoas da nossa ilha; pois esta ave obrava como si tivesse entendimento para compreender e distinguir o que sua dona lhe dizia. Quando passavamos por ali esta dizia-nos na sua linguagem: Dás-me um pente ou um espelho, para eu fazer já em vossa prezença meo papagaio cantar e dansar? Si para termos tal divertimento davamos o que ela pedia, apenas falava com o passaro, começava ele a saltar na vara em que pouzava, a conversar, assobiar e arremedar os selvagens, quando vam para a guerra, de modo incrivel. Em suma, quando bem parecia á dona, dizia-lhe esta: canta, ele cantava; dansa, ele dansava. Si ao contrario não lhe aprazia ou nada lhe davamos, apenas ela dizia com aspereza ao papagaio – augé – isto é, pára, ele aquietava-se, sem proferir palavra, e por mais que lhe dicessemos qualquer couza, não estava mais em nosso poder fazel-o mover nem pé, nem lingua.
Si os antigos Romanos, sabios e ilustrados, faziam suntuozos funeraes ao corvo, que em seos palacios os saudava por seos proprios nomes, é até tiravam a vida a quem o matava, como nos refere Plinio; imaginai agora o que fariem eles, si possuissem um papagaio tam perfeitamente ensinado!
Essa mulher selvagem o xamava xirimbabo[47], isto é, couza que muito amo, e o apreciava tanto que quando perguntavamos, si o queria vender e quanto por ele pedia, respondia por motejo: Mocauassú, isto é, uma artilharia; de sorte que nunca o podemos aver á nossa mao.
§ 8. A segunda especie de papagaios, xamados marganaz pelos selvagens, sam daqueles que de lá trazem os viajantes, e que mais comumente vemos em França; não logram entre eles grande estimação; pois lá sam em tam grande abundancia, como entre nós sam os pombos; e embora a carne seja algum tanto dura, todavia como tem sabor de perdiz, nós muitas vezes os comiamos, pois os tinhamos com fartura.
A terceira especie de papagaios, xamados tus[48] pelos selvagens, e moissons pelos marinheiros normandos, não sam maiores do que os estorninhos; quanto á plumagem porém, têem o corpo todo verde como a pera, excéto a cauda, que é mui comprida e entremeada de amarelo.
Lembrando-me ter alguem dito na sua Cosmografia, que os papagaios fazem os seos ninhos pendentes dos ramos das arvores, afim de que as serpentes não lhes comam os ovos não terminarei este capitulo sobre taes passaros sem dizer ligeiramente, que vi o contrario na terra do Brazil onde os papagaios fabricam os ninhos redondos e durissimos no ôco das arvores: portanto considero tal asseveração como pêta e conto imaginado pelo autor d’esse livro.
§ 9. As outras aves principaes do paiz dos nossos Americanos sam aquelas que eles xamam tuvano[49], de que a outro propozito acima fiz menção. Sam do tamanho do pombo trocaz, e têem toda a plumagem tam negra como a agralha, excéto o papo.
Este, como em outro lugar já dice, tem quazi quatro dedos de comprimento e trez de largura, e é mais amarelo do que o assafrão, e cingido de vermelho por baixo: os selvagens o esfolam, e d’ele servem-se para lhes cobrir e ornar as faces e outras partes do corpo, e costumam trazel-o, quando dansam, e por este motivo o denominam tucantaburacé[50] isto é, pena de dansar, e muito o apreciam.
Todavia como possuem grande quantidade d’essas penas, não põem dificuldade em as dar e trocar por qualquer mercadoria, que lhes dam os Francezes e Portuguezes, que ali traficam.
Ainda mais: esta ave tucano tem o bico mais comprido do que o resto do corpo, com grossura proporcional: sem o equiparar nem o contrapor ao bico do grou, que em nada se lhe compara, cumpre consideral-o não só como o bico dos bicos, mas tambem como o mais descomunal e monstruozo, que podemos encontrar entre todas as aves do universo.
De sorte que não é sem razão, que Belon, tendo obtido um, o aprezentou por singularidade dezenhado no fim do seo terceiro livro das aves; pois embora o não nomêe, o que ali está configurado é sem duvida o bico do nossso tucano.
§ 10. N’essa terra do Brasil vive outra espécie de passaro, que é do tamanho do melro, e tambem preto, fóra o peito, que é vermelho como sangue de boi; os selvagens o esfolam, como ao precedente, e xaman esta ave panon.
Existe outra especie de ave do tamanho do tordo, que os selvagens xamam quiampiau, a qual tem toda a plumagem vermelha como escarlate.
Como singular maravilha e obra prima de pequenhez, não devemos omitir um passarinho, que os selvagens xamam guanumbi[51], de penas esbranquiçadas e reluzentes, o qual, embora não tenha o corpo maior do que um bezouro ou escaravelho, rima no canto. Este pequenissimo passarinho quazi não se arreda de cima dos pés de milho, que os selvagens xamam avati, ou de cima de outros arbustos, tendo sempre o bico e guela aberta; e si o não vissemos ouvissemos, jamais acreditariamos, que de tam diminu corpo podesse sair canto tam solto e alto, e até direi, claro e nitido, que em nada cede ao rouxinol.
§ 11. Como eu não poderia especificar com minudencia todas as aves existentes na terra do Brazíl. as quaes não só diversificam nas ejpeeie das da nossa Europa, mas tambem aprezentam diferente variedade de cores, como vermelho, encarnado, rôxo, branco, cinzento, matizado de purpura, e outras côres, finalizarei descrevendo uma, que os nossos selvagens (pela razão que adiante direi) têem em tal estimação que muito se penalizariam de lhes cauzar qualquer mal; e si souberem, que alguem matou alguma d’estas aves, estou certo, que o fariam arrepender-se de tal procedimento.
Esta ave é maior do que o pombo, e de plumagem parda cinzenta; o misterozo porem, em que desejo tocar, é que, tem ela a voz penetrante e ainda mais plangente do que a da coruja, os nossos mizeros Tupinambás, que a ouvem assim clamar mais de noite do que de dia, têem no cerebro impressa a idea de serem seos parentes e amigos finados, que enviam estas aves em sinal de bôa fortuna e sobretudo para os encorajar a portar-se valentemente na guerra contra os inimigos: creem firmemente, que, si observarem o que lhes é indicado n’estes agouros, não só vencerão os inimigos n’este mundo, como tambem, quando morrerem, o que mais importante é, irão suas almas ter com os seos predecessores alem das montanhas para dansar com eles.
§ 12. Em certa noite dormi em uma aldeia xamada Upec pelos Francezes; e ali á tarde ouvi esses passaros cantarem lamentozamente, e vi os mizeros selvagens, atentos em escutal-os. Sabedor da razão de tal procedimento, quiz admoestal-os contra essa alucinação; mas apenas assim falei-lhes e comecei a rir-me com outro Francez, um ancião, que ali estava, dice-me rudemente: “Cala-te, e não nos embaraces de ouvir as noticias, que os nossos avós agora nos anunciam; pois quando ouvimos estas aves, ficamos todos contentes, e recebemos novas forças.”
Portanto sem replicar (pois seria trabalho perdido) lembrei-me d’aqueles que acreditam e ensinam, que as almas dos finados, voltando do purgatorio os vêem advertir dos seos deveres. e pensei, que o que fazem os mizeros e cegos Americanos é mais suportavel nas suas brenhas; pois embora confessem a imortalidade d’alma. como direi, quando falar da sua religião, longe estam de crer, que as almas voltem depois de separadas dos corpos, e apenas dizem, que estas aves sam seos mensageiros.
Eis quanto eu tinha de dizer acerca das aves da America.
§ 13. N’este paiz existem morcegos quazi tam grandes como as nossas pequenas gralhas, os quaes entram de noite nas cazas, e si axam alguem dormindo com os pés descobertos, dirigem-se sempre ao dedo maximo, e nao deixam de xupar sangue; e xegam algumas vezes a tirar mais de um pucaro, sem que o paciente o sinta.
De sorte que quando pela manhan despertavamos, ficava-mos admirados de vêr a roupa da cama e as adjacencias ensanguentadas; entretanto os selvagens, quando vêem isso, quer aconteça a uma pessoa das suas, quer a um estrangeiro, apenas riem-se do cazo.
E com efeito eu mesmo fui assim surpreendido, e alem do motejo a que rue expunha, acontecia ainda, que por dois ou trez dias só com dificuldade podia calçar-me, por estar ofendida a extremidade mole do dedo maximo do pé, embora não fôsse grande a dor.
§ 14. Os moradores da costa de Cumana, terra situada a quazi 10 gráos aquem da linha equinocial, sam igualmente molestados por esses grandes e maleficos morcegos, a cujo respeito o escritor da Istoria geral das Indias refere um conto jocozo. Diz ele: “Estava em Santa-fé de Caribici o criado de um frade sofrendo de um pleuriz, e como não encontrou-se a veia para sangral-o, foi deixado por morto; mas durante a noite veio um morcego, que o mordeo junto ao calcanhar, que axou descoberto, donde tirou sangue para fartar-se; e como deixasse a veia aberta, sahio tanto sangue quanto bastou para curar o paciente.”
Ao que acrecento com o istoriador, que foi o morcego excelente e graciozo cirurgião para o pobre doente.
De sorte que não obstante o mal, que recebemos d’esses grandes morcegos d’America, este ultimo exemplo mostra, que longe estam de ser tam nocivos como eram essas aves sinistras, xamadas estrigias pelos Gregos as quaes, como diz Ovidio, Fastos liv. 6, sucravam o sangue dos meninos no berço, por cuja razão depois esse nome foi dado ás feiticeiras.
§ 1.5. As abelhas d’America não sam similhantes ás nossas de cá, antes parecem-se mais com as pequenas moscas pretas, que temos no estio, principalmente no tempo das uvas.
Fazem o mel e a cera nos bosques em ôcos de páo, produtos que os selvagens sabem aproveitar.
Emquanto estão misturados, xamam a tudo isso ira-ietic, pois ira é mel e ietic é cera; depois de os separarem, comem o mel, como nós cá praticamos, e quanto a cêra, que é quazi tam preta como o pez, a reunem em rolos da grossura de um braço. Não fazem todavia arxotes ou velas; pois de noite não uzam de outra luz sinão de madeiras que dam flama clarissima, e servem-se d’esta cera principalmente para betumar os grossos canudos de cana, em que guardam as suas plumas, afim de as preservar de certa especie de borboletas, que do contrário as estragariam.
§ 16. E afim de que seguidamente eu descreva estes animaculos xamados aravers pelos selvagens, direi, que não sam mais corpulentos do que os nossos grilos, e saindo de noite em cardumes buscam o fogo, e não deixam de roer quanta couza encontram. Lançam-se sobre os cabeções e sapatos de marroquim com tal gana que comem a parte esterior, e os donos de taes objetos, ao levantarem-se pela manhan, os axam brancos e roidos; e acontecia, que, si de noite deixavamos galinhas ou outras quaesquer aves assadas e mal guardadas, esses aravers as roiam até os ossos, e assim não podiamos ter certeza de axal-as no dia seguinte.
§ 17. Os selvagens tambem sam perseguidos em suas pessoas por outra especie de pequeno insecto xamado tu[52], o qual vive metido na terra, e em principio não passa do tamanho de uma pequena pulga; mas fixando-se na carne, especialmente debaixo das unhas dos pés e das mãos, ahi, como o oução, produz subita comixão, si não se tem logo cuidado de arrancal-o.
Penetrando sempre mais, tornar-se-á em pouco tempo do tamanho de uma ervilha, e então não poderá ser extirpado sem grande dor.
E não sam sómente os selvagens, que andam nús e descalsos, que sam atacados e molestados por tal insecto; nós os Francezes tambem, por melhor vestidos e calçados, que andassemos, tinhamos tanta necessidade de acautelar-nos, que, por mais cuidadozo que eu fosse em revistar-me, tiraram-me de diversos lugares do corpo mais de vinte em um so dia.
Em suma vi pessoas deleixadas em precaver-se por tal modo dinificadas por essas traças-pulgas, que não só tinham as mãos, pés e dedos estragados, mas até o sovaco e outras partes moles do corpo estavam cobertas de pequenos relevos como verrugas provenientes d’este mal.
§ 18. Por isso tenho como certo, que é a este pequeno verme, que o istoriador das Indias ocidentaes xama nigua, o qual, como ele diz, tambem existe na ilha Espaniola. Eis aqui o que escreveo: - A nigua é como uma pequena pulga, que salta; gosta muito da poeira; só morde nos pés, onde mete-se entre a pele e a carne, e logo põe lendeas em maior quantidade do que poderiamos pensar, atenta a sua pequenhez, e estas produzem outras, e si as deixam sem prevenção alguma, multiplicam-se tanto que se não podem expelir nem remediar com fogo ou ferro; mas si as tiram cedo, cauzam pouco mal.
Alguns Espanhoes (acrecenta o autor) perderam os dedos dos pés, e outros todo o pé.
§ 19. Ora, para remediar o mal, os nossos Americanos esfregam a ponta dos dedos dos pés, e outras partes, do corpo, em que os taes vermes buscam aninhara-se, com certo oleo avermelhado e espesso, estrahido de um fruto, xamado couroq, que é quazi como uma castanha encascada; o que nós tambem lá faziamos.
E convem dizer, que este unguento é tam soberano para curar xagas, fracturas e quaesquer dores, que sobrevem ao corpo umano, que os nossos selvagens, conhecedores da sua eficacia curativa, o reputam tam preciozo, como alguns individuos de cá consideram o xamado oleo santo.
Por isso o barbeiro do navio, em que regressamos á França, tendo-o experimentado em muitas ocaziões, touxe dez ou doze potes grandes xeios d’esse oleo e outros tantos de gordura umana, que ajuntáa, quando os selvagens cozinhavam e assavam os prizioneiros de guerra, do modo porque direi em lugar oportuno.
§ 20. Os ares d’essa terra do Brazil tambem produzem certa especie de pequenos mosquitos, que os seos abitantes xamam jetim, os quaes ferroam tam vivamente, ainda atravez de roupas delgadas, que dir-se-ia serem pontas de agulha.
Por tanto podeis imaginar quam divertido é ver os selvagens nús perseguidos por taes insectos; pois batendo com as mãos nas nadegas, côxas, espaduas, braços e em todo o corpo, dirieis então serem carreiros açoutando os cavalos com seos xicotes.
§ 21. Acrecentai ainda, que, remexendo a terra, e debaixo das pedras, na região do Brazil, axam-se escorpiões, os quaes, não obstante serem muito menores do que os que se vêemem Provença, comtudo nem por isso deixam de ter ferrões venenozos e letaes, como experimentei. Costuma esse animal procurar objetos claros; por isso aconteceo, que, tendo eu mandado lavar a minha rede, e estendel-a ao ar, ao modo dos selvagens, aparecesse um escorpião, que ocultava-se em uma dobra, do pano da rede. Quando quis deitar-me sem o ter visto ferroou-me no dedo grande da mão esquerda, que inxou tam rapidamente, que, si não recorresse logo a um dos nossos boticarios, que tinha alguns lacráos mortos em conserva de azeite n’urna garrafinha, e aplicou-me um sobre o dedo, o veneno ter-se-ia rapidamente espalhado por todo o corpo.
Com efeito não obstante este remedio, alias considerado como o mais poderozo para este mal, o contagio foi tamanho, que por espaço de 24 oras fiquei em tal aflição, que não podia conter-me com a violencia da dôr.
Os selvagens, quando sam mordidos por estes escorpiões, uzam de igual receita, isto é, matal-os e esmagal-os, imediatamente sobre a parte ofendida, si o podem apanhar.
§ 22. Ja dice, que os selvagens sam mui vingativos e furiozos contra tudo que os ofende; assim si topam, como pé em alguma pedra, a morderão ás dentadas, como fazem cães enraivecidos; por isso perseguindo os animaes que os danificam, despovoam d’eles o paiz quanto podem.
§ 23. Finalmente existem caranguejos terrestres, que os Tupinambás denominam ussá[53], e surgem em bandos, como gafanhotos grandes, nas praias do mar e em outros lugares alagados e pantanozos.
Quando xega alguem a estes sitios, vê estes crustaceos fugirem de costas, e salvarem-se com celeridade em buracos que fazem nos troncos e raizes das arvores, donde com dificuldade só os podem tirar depois de nos maltratarem os dedos com suas grandes patas, embora possamos xegar em seco até esses buracos que têem a abertura superior patente e descoberta.
Sam muito mais magros do que os caranguejos marinhos; e como quazi, não têem carne, e exhalam xeiro de raizes do canamo não têem sabor agradavel.
Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.