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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 16 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo XV — Como os Americanos tratam os seos prizioneiros de guerra e ceremonias observadas na ocazião de matal-os e de comel-os

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§ 1. Resta agora saber como os prizioneiros de guerra sam tratados no paiz inimigo.

Apenas ahi xegam, não somente sam alimentados com as melhores viandas, que se podem encontrar, mas tambem concedem-se mulheres (e não maridos ás mulheres), e o aprizionador não duvida dar a propria filha ou. irman ao prizioneiro em cazamento, conforme este quizer, tratando-o bem e satisfazendo-lhe todas as necessidades.

Não marcam termo prefixo para a vitimação, antes si conhecem serem os omens bons caçadores ou bons pescadores, e as mulheres idoneas para tratar dos jardins (roças) ou apanhar ostras, os conservam por mais ou menos tempo, e depois de os engordarem finalmente os matam e comem, praticadas as seguintes ceremonias.

§ 2. Todas as aldeias circunvizinhas d’aquela em que está o prisioneiro sam avizadas do dia da execução, e logo começam a xegar de todas as partes omens, mulheres e meninos, e consomem toda a manhan em dansar, beber, e cauinar.

O mesmo prizioneiro, que não ignora, que a assembleia reune-se por cauza, e que ele vai ser morto dentro de poucas óras, depois de enfeitado de penas, longe de aprezentar se pezarozo, ao contrario saltando e bebendo, mostra-se como um dos mais alegres convivas.

Ora, depois de ter com os demais comido e cantado durante seis ou sete oras, dois ou trez dos mais considerados do bando agarram o prizioneiro e o amarram pela cintura com cordas de algodão, ou cordas feitas de embira de uma arvore xamada vuire, similhante á nossa tilia, sem que ele faça rezistencia alguma; deixam-lhe os braços livres, e assim o fazem passear pela aldeia em procisão durante alguns momentos.

§ 3. Pensaes porém, que com isto o prizioneino ficaria cabisbaixo, como entre nós fariam os criminozos?

Tal não faz: pois ao contrario com audacia e incrivel segurança, jacta-se das suas proezas passadas, e diz aos que o seguram amarrado: - Eu mesmo, valente como sou, já amarrei e sufoquei vossos paes.” E exaltando-se cada vez mais com fero aspecto, volta-se para ambos os lados e diz a um: - Comi teo pai, a outro: - Matei e moqueei teos irmãos, e acrecenta: - Em suma comi tantos omens e mulheres, isto é, filhos de vós outros Tupinambás, que capturei na guerra, cujos nomes não poderei dizer e não duvideis, que para vingar a minha morte, os Maracajás da nação, a que pertenço, não comam ainda daqui em diante tantos quanto possam agarrar.

Finalmente depois de ter estado assim exposto ás vistas de todos, os dois selvagens, que o conservam amarrado, afastam-se d’ele, um para a direita e outro para a esquerda, quazi trez braças, segurando cada um em cada ponta da corda, ambras de igual comprimento, e esticam com tal firmeza que o prizioneiro, seguro pela cintura, como já dice, fica parado e não póde ir nem vir para um ou outro lado. Então trazem-lhe pedras e cacos de potes; depois os dois seguradores das cordas, receiozos de serem feridos, cobrem-se com rodelas de couro de tapirussú, de que já falei, e dizem-lhe: - Vinga-te antes de morrer.

Começa o prizioneiroa atirar projetís e investir rijo e forte contra quantos ali estão reunidos ao redor d’ele, algumas vezes em numero de trez ou quatro mil pessoas. Desnecessario é perguntar, si a vitima escolhe individuo contra quem arremete.

§ 4. Com efeito, estando em uma aldeia xamada Sariguá[76], vi um prizioneiro, que d’este modo deo tam forte pedrada na perna de uma mulher, que supuz avel-a quebrado.

Ora, consumidas as pedras e tudo quanto ele, abaixando-se póde apanhar junto de si incluzive torrões, o guerreiro dezignado para dar o golpe, que permanece retirado do concurso do dia, sae então de uma caza com uma grande espada de páo na mão, ricamente decorado com bonitas e excelentes plumas, e tambem com um barrete e outros ornatos no corpo, aproxima-se do prizioneiro, e dirige-lhe ordinariamente estas palavras: - Não és da nação dos Maracajás, que é nossa inimiga? Não tens morto e comido nossos pais e amigos?

O prizioneiro, mais altaneiro que nunca, responde no seo idioma (pois os Maracajás e os Tupiniquins entende-se reciprocamente): - Pa xe tan tan ajuca atupave[77], isto é: - Sim, sou mui valente, e na verdade matei e comi muitos.”

Depois para excitar maior indignação dos inimigos, põe as mãos na cabeça, e exclama: - Oh! eu não sou fingido: oh! quam ouzado fui em assaltar e forçar os vosso a tantos dos quaes matei e comi!

E assim outras similhantes couzas vae dizendo. E por esta cauza o contendor, que lhe fica em frente prestes a matal-o, dirá: - Tu agora estás em nosso poder, e serás morto por mim, depois moqueado e comido por todos nós.

E tam rezoluto a morrer por sua nação, como Atilio Regulo foi constante em sofrer a morte por sua republica romana, a vitima responde ainda: - Pois bem, meos parentes me vingaráõ.

Embora estas nações barbaras assás temam a morte natural, todavia os seos prizioneiros julgam-se felizes de morrer assim publicamente no meio dos seos inimigos, não mostram o minimo pezar, para mostrar o que citarei um exemplo.

§ 5. Em certo dia inopinadamente axei-me em uma aldeia da ilha grande xamada Piranijú[78], onde estava um mulher prizioneira prestes a ser morta do modo ja descrito.

Aproximei-me d’ela e para acomodar-me á sua linguagem dice-lhe, que se encomendasse a Tupan, pois Tapan não quer dizer Deos entre os selvicolas, mas sim trovão, e que orasse como, eu lhe ensinasse. Ela em resposta, meneando a cabeça e motejando de mim, dice: - O que me darás para que eu faça o que dizes?

Ao que lhe repliquei: - Pobre coitada, já não precizas de nada n’este mundo, e como crês n’alma imortal (o que todos os selvagens confessam, como no capitulo seguinte direi), pensa no que lhe sucederá depois da tua morte.

Ela porém novamente rio-se e foi morta, sucumbindo pela fórma do barbaro sacrificio.

§ 6. Continua o coloquio entre varias contestações, falando muitas vezes um e outro; então o campeão, predisposto para praticara morte, levanta a clava de madeira com ambas as mãos e com a rodela da ponta descarrega tam violenta pancada na cabeça do mizero prizioneiro, que o vi com o primeiro golpe cair redondamente morto, sem mover braço ou perna, como os magarefes abatem os nossos bois.

É verdade, que, estendidas, as vitimas em terra, as vemos estrebuxar e estremecer por cauza do sangue e dos nervos, que se contraem; mas como quer que seja os executores da operação ordinariamente batem com tal destreza na testa, ou escolhem a nuca com tal precizão que não pricizam repetir o golpe para tirar a vida, sem sair da vitima quazi sangue algum.

É modo uzual de falar n’esse paiz dizer: - Quebro-te a cabeça[79], por isso os Francezes constantemente empregavam esta frazeologia dos indigenas americanos em substituição da fraze: - Arrebebento-te[80], de que costumam entre nós uzar os soldados e pessoas rixozas, quando brigam.

§ 7. Ora, apenas o prizioneiro é assim morto, a mulher, si a tem (pois já dice, que a concedem a alguns), coloca-se junto ao cadaver e levanta curto pranto; digo propozitalmente curto pranto, por que essa mulher, imitando o crocodilo, que mata o omem, e xora junto d’ele antes de comel-o, lamenta-se e derrama fingidas lagrimas sobre o marido morto; mas si poder, será a primeira que d’ele comerá.

Feito isto as outras mulheres e principalmente as velhas (as quaes, mais gulozas de carne umana do que as moças, solicitam constantemente os possuidores de prizioneiros para os despaxar brevemente) aprezentam-se com agua quente já pronta, esfregam e escaldam o corpo morto de forma que arrancam-lhe a epiderme e o tornam tam branco como os prizioneiros fazem com os leitões, que preparam para assar.

Depois d’isto o dono do prizioneiro com alguns coadjutores tomam o mizero corpo, o abrem, e o espostejam tam rapidamente, que nenhum carniceiro da nossa terra poderá mais depressa esquartejar um carneiro.

Então (oh! crueza mais que prodigioza) assim como os nossos caçadores depois de apanharem um veado dão encarne aos cães circunstantes, assim tambem esses barbaros pecam os filhos uns após outros, e com o sangue do inimigo lhes esfregam o corpo, os braços, e as pernas, afim de os estimular e tornar mais encarniçados.

§ 8. Depois que os cristãos frequentam esse paiz, os selvagens cortam e retalham o corpo dos prizioneiros e dos animaes e outras viandas com facas e ferramentas, que lhes dam os estrangeiros. Antoriormente porém não tinham outro meio de o fazer sinão com pedras aguçadas, que preparavam para esse uzo, conforme ouvi os velhos dizerem.

Ora, todas as peças do corpo e as mesmas tripas, depois de bem lavadas, sam imediatamente postas no moquen, junto aos quaes, emquanto tudo se assa ao seo modo, as mulheres velhas (as quaes, apetecem gulozamente a carne umana como já dice) estam todas reunidas para recolher a gordura, que escorre pelas varas d’essas, grandes e altas grelhas de madeira, e exortam os omens a proceder de modo que elas tenham sempre taes viandas, lambem os dedos e dizem: - Iguatú, isto é, está muito bom.

Eis pois como os selvagens Americanos cozinham a carne dos seos prizioneiros de guerra, aliás moqueam, que é um modo de assar por nós desconhecido. Isto eu testimunhei.

Como já no capitulo decimo dos animaes, falando assás longamente do tapirussú, expliquei a fórma do moquem, peço aos leitores, que, afim de obviar repetiçoes, recorram a esse capitulo para formar melhor idéa da couza.

§ 9. Entretanto aqui refutarei o erro d’aqueles que como podem vêr em suas cartas universaes, não só nos reprezentaram e pintaram os selvagens da terra do Brazil, que sam os de que agora falo, assando a carne umana em espetos, como fazemos com as postas de carneiros e outras viandas, mas tambem fingiram, que com grandes cutelos as cortavam em bancos, as penduravam, e expunham os pedaços á amostra, como os carniceiros aqui fazem com a carne dos bois.

Estas e couzas não sam mais verdadeiras do que os contos de Rabelais a respeito de Panurgio, que escapulio do espeto, lardeado e semi-cozido; portanto facil é julgar, que os escritores de taes cartas sam pessoas ignorantes, que nunca tiveram conhecimento das couzas, que noticiam.

Em confirmação do que acrecentarei, que o modo porque os Brazilienses cozinham a carne dos seos prizioneiros, ao menos emquanto estive entre eles, é como fica espozto; e por tal sorte ignoravam o nosso modo de assar, que em certo dia, em que alguns meos companheiros e eu n’uma aldeia faziamos em um espeto de páo voltear uma. galinha da India e outras aves, eles riam-se e zombavam de nós, não querendo crer que, assim movidas constantemente, pudessem as mesmas aves ficar assadas e só acreditaram, quando a experiencia lhes mostrou o contrario.

§ 10. Voltando ao meo assunto direi, que quando a carne de um prizioneiro ou de muitos (pois ás vezes em um só dia matam dois e trez) está assim cozida, todos os assistentes ao funesto sacrificio reunem-se de novo ao redor dos moquens, nos quaes, com olhaduras e esgarres ferocissimos, contemplam as postas de carne e membros dos inimigos: por maior que seja o numero dos assistentes cada qual, antes de sair dali, terá o seo pedaço, si é possivel.

Entretanto não fazem isso, como aliás poderiamos julgar, por consideração ao alimento; pois embora confessem todos ser essa carne umana maravilhozamente bôa e delicada, acontece todavia, que a sua principal intenção, perseguindo é roendo assim os mortos até os ossos, é cauzarem temor e espanto, aos vivos; move-os a vingança e não a gula (salvo o que especialmente dice das mulheres velhas, que sam apaixonadas da carne umana). Com efeito, para satisfazer essa coragem ferina, devoram tudo quanto axam no corpo dos prizioneiros, desde a ponta dos dedos dos pés até o nariz e o cocuruto da cabeça, excéto os miolos, em que não tocam.

§ 11. Os nossos Tupinambás conservam as caveiras em tulhas nas aldeias, como por ca vemos os restos mortaes dos finados nos cemitérios. A primeira couza que fazem, quando os Francezes os vam vèr e vizitar, é contar-lhes as suas valentias e mostram-lhes como troféos essas caveiras assim descarnadas, dizendo que o mesmo farão a todos os seos inimigos.

Mui cuidadozamente guardam quer os ossos mais grossos das coxas e dos braços para fazer pifanos e flautas (como dice no precedente capitulo), e tambem os dentes que arrancam e enfiam á maneira de padre-nosso, e os trazem enrolados ao pescoço.

O autor da Istoria da India, falando dos abitantes da ilha de Zamba, diz, que estes selvagens pregam nas portas de suas cazas as cabeças das vitimas, que mataram e sacrificaram, e por mais bazofia trazem tambem os dentes pendurados no pescoço.

§ 12. Quanto ao executor ou executores de taes omicidios, reputam o acto por gloria e grande onra; e logo no dia em que praticam a façanha, retirados e sós, fazem peitos, braços, coxas barriga das pernas e outras partes do corpo incizões sangrentas; e para que estas perdurem toda a vida, esfregam os gilvazes com certa mistura de pó negro, que jámais se extingue: de sorte que tanto mais retalhados sam quanto mais se conhece terem morto muitos prizioneiros consequentemente sam pelos outros considerados valentes.

Para vos dar melhor idéa da couza, de novo aqui dezenhei a figura de um selvagem assim retalhado, junto ao qual está outro selvagem atirando com arco.

Si no fim de tam singular tragedia acontece ficarem gravidas as mulheres concedidas aos prizioneiros, os selvagens matadores dos paes, alegando que taes filhos procedem de semente dos seos inimigos (couza orrivel de ouvir e ainda mais de vêr), os comem apenas nacidos, ou si assim lhes apraz, os deixam ficar taludos para então comel-os.

§ 13. Estes barbaros não limitam o seo extremo deleite em exterminar, quanto assim lhes é possivel, a raça d’aqueles contra quem mantiveram guerra (pois os Maracajás dam igual tratamento aos Tupinambás, quando os apanham); eles tambem exultam de prazer, vendo os estrangeiros, seos aliados, praticar a mesca couza.

De sorte que quando os selvagens nos aprezentavam essa carne umana dos seos prizioneiros para comermos, si recuzavamos, como eu e muitos outros dos nossos sempre faziamos, não esquecidos, graças a Deos, da nossa fé, parecia-lhes por isso, que não lhes eramos bastante leaes.

Por isso com grande pezar meo, sou forçado a recordar aqui, que alguns trugimões da Normandia, que tinham estado n’esse paiz por oito ou nove annos, acomodando-se aos uzos bestiaes, passam vida de ateos, e não só poluiam-se com toda a sorte de impudicicias e obscenidades com as mulheres e raparigas, mas tambem excediam os selvagens em dezumanidade, e jactavam-se de aver morto e comido prizioneiros, conforme ouvi dizer.

No meo tempo um rapazote de quazi treze annos de idade[81] já poluia-se com mulheres.

§ 14. Continuo, a descrever a maldade dos Tupinambas para com os inimigos. Durante a nossa estadia ali aconteceo lembrarem-se taes barbaros, que na grande ilha, de que já falei, existia uma aldeia abitada por Maracajás, seos inimigos, que aliás tinham se rendido, quando começou a guerra, a saber, averia quazi vinte annos; embora, digo, desde esse tempo os tivessem sempre deixado viver em paz no meio d’eles, todavia em certa ocazião, em que bebiam cauim, entre reciprocas excitações, rezolveram saquear tudo, alegando ser issa gente decendente de inimigos mortaes, como acabei de dizer.

Em uma noite pondo em pratica a sua rezolução, apanharam a pobre gente desprevenida, e fizeram tal carnificina e tal estrago, que cauzava profunda lastima ouvir as vitimas clamar.

Muitos dentre, os nossos Francezes, advertidos quazi á meia noite, partiram bem armados, e dirigiram-se em uma barca com grande pressa para a sobredita aldeia, que distava quatro ou cinco legoas do nosso fortim.

§ 15. Antes porém de xegarem ali os auxiliantes, os selvagens, enraivecidos e encarniçados, já tinham feito a preza, e lançado fogo ás cazas para obrigar a sair d’elas as pessoas, muitas das quaes mataram, e já poucas restavam.

Ouvi alguns dos nossos afirmar, em seo regresso, que não só tinham visto espostejados e carbonizados nos moquens omens e mulheres, mas tambem meninos de mama assados inteiros.

Alguns individuos corajozos, que tinham se lançado ao mar com o favor das trevas da noite, salvaram-se a nado, e vieram-se nos aprezentar nos aprezentar na nossa ilha; do que certificados os nosses selvagens alguns dias depois, mostravam-se descontentes, e murmuravam contra nós por conservarmos em nosso poder esses infelizes.

Todavia depois de aplacados com donativo de mercadorias, parte por força, parte por vontade, os deixaram como escravos em nosso poder.

§ 16. Em outraocazião, quatro ou cinco Francezes e eu estavamos em uma aldeia da mesma ilha grande, xamada Piranijú. Estava ahi um prizioneiro mancebo formozo e robusto, metido em ferros adquiridos pelos selvagens por negocio e com os cristãos; aproximou-se de nós o prizioneiro, e dice-nos em linguagem portuguesa (pois dois da nossa comitiva, que falavam espanhol, o entenderam bem), que tinha estado em Portugal, era cristão, tinha sido batizado, e xamava-se Antonio.

Embora o mancebo fosse Maracajá de nação, tinha todavia com a sua estada em outro paiz perdido o barbarismo; por isso deo a entender, que desejava libertar-se das mãos dos seus inimigos.

Era dever nosso salval-o de tal situação, si podessemos, tanto mais quanto nos movia á compaixão a qualidade de cristão e o nome de Antonio, por isso um companlleiro nosso que entendia o espanhol, e era serralheiro de profissão dice-lhe, que na seguinte manhan lhe traria uma lima para limar os ferros; e portanto que apenas ficasse livre, e sem estorvo algum, emquanto com conversas entretivemos os seos algozes, se escondesse na praia do mar em certas moitas que indicamos, onde, no nosso regresso, o iriamos buscar para leval-o na nossa barca, e tambem lhe dicemos, que combinariamos com os seos dententores, afim de poder conserval-o no nosso fortim.

§ 17. O pobre omem satisfeitissimo com o meio inculcado e agradecendo o esperado favor, prometeo fazer tudo quanto lhe tinhamos aconselhado. A turba dos selvagens porém, embora não tivesse entendido o nosso coloquio, desconfiou todavia, que nós queriamos arrancor de suas mãos o prizioneiro; e apenas sahimos da aldeia, xamaram com toda a pressa unicamente os vizinhos mais proximos para espectadores da morte dos seos prizioneiros, e imediatamente a victima foi sacrificada.

D’este modo quando no dia seguinte, sob pretesto de irmos buscar farinha e outros viveres, voltamos á aldeia, levando a lima, e perguntamos aos selvagens pelo lugar, onde estava o prizioneiro, que no dia anterior tinhamos visto, levaram-nos a urna caza, onde vimos os pedaços do corpo do pobre Antonio postos no moquem; e porque conhecessem, que nos tinham enganado, mostrando-nos a cabeça, deram grandes gargalhadas.

§ 18. Em certo dia os nossos selvagens surpreenderam dois Portuguezes em um pequeno cazebre de barro, onde estes viviam nos bosques, perto da sua fortaleza denominada Morpion. Os arredidos defenderam-se valentemente desde a manhan até a tarde, e depois de esgotadas as munições de arcabuz e as setas das béstas, sahiram ambos de espada na mão, com que fizeram tal estrago nos assaltantes, que muitos foram mortos e outros feridos; comtudo os selvagens, cada vez mais obstinados na intenção de antes ficarem todos espedaçados do que retirarem-se vencidos, tanto insistiram que por fim agarraram e conduziram prizioneiroz dois Portuguezes, de cujos despojos assim como tambem um dos nossos trugimões obteve uma salva de prata, que os mesmos selvagens tinham roubado com outras couzas da caza, que fora forçada; e por ignorarem o valor de tal objéto, este apenas custou duas facas ao comprador.

Regressando para as suas aldeias, os selvagens arrancadas as barbas dos dois Portuguezes por ignominia, depois os mataram cruelmente; e como esses pobres omens assim flagelados e percutidos pela dôr queixavam-se, os barbaros vencedores, zombando das vitimas, diziam: - Como pois sucede, que vos tenhaes tam valentemente defendido e agora, quando deveis morrer com onra, mostraes não terdes mais coragem do que as mulheres?

E d’esta maneira foram mortos e comidos ao modo selvatico.

§ 19. Poderia ainda aduzir outros iguaes exemplos a respeito da crueldade dos selvagens para com os seos inimigos, si me não parecesse, que quanto tenho dito basta para cauzar orror, e arripiar aos leitores os cabelos cabeça. Todavia quantos lerem tam orriveis couzas, diariamente praticadas entre as nações barbaras da terra Brazil, reflitam tambem no que se faz por cá entre nós pois si em bôa e san consiencia considerarmos a materia, diremos, que sam mais crueis do que os selvagens, de que falo, os nossos grandes uzurarios, que, sugando o sangue e o tutano, conseguintemente comem vivos viuvas, orfãos e outras pessoas mizeraveis, a quem melhor seria cortar a garganta de um só golpe do que esgotal-as lentamente.

Eis aqui porque dice o profeta, que taes individuos esfolam a pele, comem a carne, quebram e espedaçam os ossos do povo de Deos, como si os aferventassem na caldeira.

§ 20. Ainda mais: si quizermos xegar á ação real de mastigar e comer (no sentido proprio da palavra) a carne umana, não axamos nas nossas regiões de cá, e a entre os mesmos condecorados com o titulo de cristãos, quer na Italia, quer alhures, alguns que, não contentes de trucidar cruelmente os seos inimigos, só saciaram a sua colera, devorando-lhes o figado e o coração?

Refiro-me á istoria. E sem ir mais longe, o que vêmos em França (sou Francez e peza-me dizel-o) durante a sanguinoza tragedia, que começou em Pariz a 24 de Agosto de 1572?

Não acuzo aos que não foram cauza; mas entre outros actos de orrenda recordação, perpetrados então por todo o reino, não é sabido, que foi publicamente vendida ao maior lançador a gordura dos corpos umanos, que de modo mais barbaro e mais cruel do que o dos selvagens foram trucidados em Lião, depois de tirados do rio Saona?

O figado, coração e outras partes do corpo de alguns individuos foram comidos pelos furiozos assassinos, de que se orrorizam os infernos.

Depois de mizerandamente morto um fulano Coração de Rei (Coeur de Roi), confessor da religião reformada na cidade de Auxerre, os perpetradores d’este assassinato não lhe cortaram o coração em pedaços, não os expozeram á venda a creaturas odientas, e finalmente não os comeram assados em grelhas para saciar a raiva, como mastins?

§ 21. Existem ainda vivas milhares de pessoas, que testimunharam essas couzas dantes nunca ouvidas entre quaesquer povos; e os livros já impressos as atestaram á posteridade.

Depois d’esta execravel carniceria do povo francez, reconhecendo alguem, cujo nome protesto ignorar que a maldade excedia a todas quantas eram sabidas, para as expressar, compoz os seguintes versos:

Riez Pharaon,

Achab, Neron,

Herodis aussi:

Votre barbarie

Est ensevelie

Par ce faict icy.

De ora em diante pois não abominemos tanto a crueza dos selvagens antropofagos, isto é, comedores de omens; por quanto existem individuos taes ou antes mais detestaveis e peiores no meio de nós do que aqueles que só investem contra nações suas inimigas, como vimos, quando estas aliás mergulham-se no sangue dos seos parentes, vizinhos e compatriotas; e nem é precizo ir fóra do nosso paiz, ou xegarmos á America para vêr couzas tam monstruozas e extraordinarias.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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