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Capítulo 18 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo XVII — Cazamento, poligamia, e gráos de parentesco observado pelos selvagens, e tratamento das suas crianças

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§ 1. Acerca do cazamento dos nossos Americanos cumpre dizer, que eles observam tam sómente estes trez gráos de parentesco, a saber, ninguem toma em cazamento a propria mãe, nem a irman, nem a filha; quanto ao tio porém, caza-se com a sobrinha, e em todos, os demais gráos de consaguinidade não existe impedimento.

Emquanto ás cerimonias, não praticam outra além do seguinte: quem quer ter mulher, ou seja viuva ou seja donzela, indaga da vontade d’esta, e depois dirige-se ao pae, e na falta d’este ao mais proximo parente, e pergunta, si lhe quer dar a pessoa pedida em cazamento.

Si lhe respondem, que sim, desde então, sem lavrar contrato (pois ali os notarios não têem lucros), leva a noiva comsigo como stia mulher.

Si ao contrario lhe a recuzam, sem mais formalidades o pretendente desterra-se.

§ 2. Notae porém, que a poligamia, isto é, a pluralidade das mulheres, quando é cabivel, e permitida aos omens ter tantas quantas lhes apraz, e aqueles que maior numero de mulheres têem sam considerados mais valentes e ouzados, convertendo-se assim o vicio em virtude. AIguns vi, que tinham oito, cuja enumeração ordinariamente fazia em seo louvor.

É admiravel, que n’esta multidão de mulheres aja uma sempre mais amada do marido, e nem por isso as outras têem ciumes, nem murmuram, ou ao menos não dam demonstrações d’isso; de sorte que vivem juntas em paz ocupadas todas no arranjo das cazas, no tecimento de redes de algodão, limpeza das ortas, e plantação de raizes.

E quando não fôsse prohibido por Deos ter mais de uma mulher, deixo a cada um dos meos leitores considerar, si seria possivel, que as mulheres européas se acomodassem com esse sistema matrimonial.

Melhor seria por certo condenar um omem ás galés do que metel-o no meio d’esse certame de altercações e rixas; pois seria indubitavelmente testimunha do que’ aconteceo a Jacob por ter tomado Lia e Rachel em cazamento, não obstante serem irmans.

Como porém poderiam as nossas damas permanecer muito unidas, si tam sómenteo preceito imposto por Deos á mulher de ajudar e socorrer ao marido a constitue especie de demonio familiar na propria caza?

Dizendo isto, não pretendo censurar aquelas que fazem o contrario, isto é, que prestam o obzequio e obediencia, que por direito devem aos maridos; aliás praticando elas o seo dever, eu as julgo tam dignas de louvor, quanto considero as outras merecedoras de vituperio.

§ 3. Voltando ao cazamento dos nossos Americanos cabe dizer, que o adulterio por parte das mulheres cauza-lhes tal orror, que, si a mulher cazada entrega-se a outro omem além do marido, este póde matal-a ou pelo menos repudial-a, e despedil-a com ignominia, regendo-se apenas pela lei natural.

É certo, que os paes, antes de cazar as filhas, não põem duvida em prostituil-as com qualquer varão. Antes da nossa estada na terra braziliense os trugimões de Normandia tinham abuzado das raparigas em muitas aldeias como atraz declarei, mas nem por isso elas ficavam infamadas, e si cazavam, tinham todo o zelo em não claudicar, sob pena de serem mortas, ou ignominiozamente despedidas, como já dice.

Direi mais, que as pessoas nubeis quer mancebos, quer donzelas d’essa terra, não sam tam entregues á devassidão, como poderiamos supor em vista da região calida, em que abitam, e não obstante o conceito formado dos orientaes; e prouvéra a Deos, que por cá tambem não reinasse a impudicicia: todavia para não aprezental-os como gente mais onesta do que sam, cumpre saber, que, quando despeitados uns com os outros, apelidam-se tivira, isto é, sodomita; e podemos conjeturar (pois nada afirmo), que entre eles exista esse abominavel pecado.

§ 4. Quando uma mulher está gravida, não deixa aliás de cuidar do seo labor ordinario, evitando apenas carregar fardos pezados.

Na verdade as mulheres dos nossos Tupinambás trabalham incomparavelmente mais do que os omens; pois excéto o trabalho de cortarem e roçarem o mato para as ortas, o que sempre fazem pela manhan, e nunca em alto dia, quazi não fazem outra couza além de irem á guerra, á caça e á pesca e fabricarem espadas de páo, arcos, frexas, vestuarios de pena, e outras cousas, que já tenho especificado, e com que adornam o corpo.

Quanto ao parto, eis o que posso dizer com verdade, por ter prezenciado.

Pernoitando eu e outro Francez em certa ocazião em uma aldeia, quazi á meia noite ouvimos uma mulher gritar e pensamos ser a fera carniceira xamada jaguara, destruidora dos selvagens, como já dice, que a queria devorar.

De pronto acudimos, e vimos não ser isso; verificamos porém, que as dores do parto obrigavam a parturiente a gritar por este modo.

Vi então o pai receber a criança nos braços, e depois amarrar o cordão umbilical e cortal-o com os dentes.

Em seguida, servindo sempre de parteira, esmagou e comprimio com o dedo polegar o nariz dos recem-nacidos para dar-lhes maior beleza, afilando-os, quando os selvagens reputam mais formozo o nariz xato.

§ 5. Apenas o menino sae do ventre materno é bem lavado, e logo pintado com côres pretas e vermelhas pelo pae, o qua sem enfaxal-o, deita-o em um leito de algodão suspenso no ar. Si é maxo, faz-lhe uma pequena espada de páo, um arco pequeno, e frexas curtas preparadas com penas de papagaio; depois pondo tudo isso junto ao menino, e beijando-o com rosto rizonho lhe diz: - Meo filho, quando creceres, sejas déstro nas armas, forte, valente, e belicozo para te vingares dos teos inimigos.

Emquanto ao nome, o pai do menino, que vi nacer, o denominou Oropacen, isto é, arco e corda; pois esta palavra compõe-se de oropá, que significa arco; e de cen, que significa corda do arco.

E eis como praticam com todas as crianças, ás quaes como por cá fazemos com os caxorros e outros brutos, dam indiferentemente nomes de couzas, que lhes sam conhecidas, bem como Sariguê, que é um animal quadrupede, Arinhan, galinha, Arabutan, páo-brazil, Pindoba, especie de arbusto grande, e outros similhantes.

§ 6. A alimentação das crianças consiste em certas farinhas mastigadas e carnes mui tenras, com o leite da mãe, a qual apenas demora-se no leito um ou dois dias. Depois coloca o filho pendente ao pescoço em uma cinta de pano de algodão expressamente feita para isso, e vae tratar da órta e de quaesquer outros negocios.

O que digo não é para derogar o costume das nossas damas, as quaes, por cauza dos máos ares do paiz, ficam na cama quazi sempre quinze dias ou trez semanas; e além d’isso na maior parte sam tam delicadas, que, sem padecerem molestia, que as impeça de amamentar os filhos, como fazem as mulheres americanas, sam tam dezumanas, que logo os entregam a pessoa estranha, mandando-os para longe, onde morrem sem que as mães o saibam, e si se criam só os têem junto a si depois de grandezinhos, afim de lhes servirem de entretenimento.

Si algumas damas milindrozas julgarem, que as ofendo em comparal-as com as mulheres selvagens, cujo trato rural (dir-me-ão) em nada se iguala com os seos corpos franzinos e delicados, contentar-me-ei em adoçar esse amargor, enviando-as para a escola dos brutos animaes, os quaes, desde os passarinhos, lhes ensinam esta lição, que é ter cada especie o cuidado e o trabalho de criar a sua progenie.

Mas afim de prevenir as replicas, que poderiam opor, direi, que essas damas não serão mais delicadas do que o foi outr’ora certa rainha de França, a qual, impelida pela afeição maternal, como leio na istoria, ao saber que seo filho mamára em outra mulher, ficou tam enciumada que não socegou emquanto não fez a criança vomitar o leite sugado de tetas diversas da de sua propria mãe.

§ 7. Ora voltaddo ao assunto declaro, que geralmente na Europa consideramos, que, si os meninos em sua fraqueza da primeira, infancia não forem apertados e enfaxados, ficarão aleijados e terão pernas tortas; cumpre porém clizer, que isso absolutamente se não verifica com os meninos dos nossos Americanos, pois desde o nacimento conservam-se em pé ou deitados sem enfaxamento, e todavia não é possivel vêr crianças caminhar e andar mais dezempenadas do que fazem os filhos dos selvagens, como tudo já tenho exposto.

Admitindo porém ser em parte cauza d’isto a benignidade e bôa temperatura do ar d’esse paiz, concordo, que no inverno convem termos ca os meninos enroupados, cobertos e bem apertados nos berços porque do contrario não poderiam rezistir ao frio; mas no estio e nas estações temperadas, principalmente quando não gela, parece-me, (todavia sob correção) pela experiencia que tenho, que, melhor seria deixar os meninos dezembaraçados espernearem á vontade em leitos convenientemente feitos, donde não pudessem cair, do que tel-os constrangidos.

Com efeito penso, que muito prejudica a essas pequenas e tenras creaturas estarem durante grandes calores aquecidas e semi-assadas n’esses cueiros, onde as conservam como no inverno.

Todavia afim de que se não diga, que intrometo-me em muitas couzas, deixo aos paes, mães e amas, nossas patricias, governarem seos filhos, acrecentando ao que já dice dos meninos da America, que embora as mulheres d’esse paiz não tenham panos para limpar a trazeira dos filhos, nem sirvam-se de folhas de arvores e outras plantas, de que aliás têem grande abundancia, todavia sam tam pixozas, que somente com pauzinhos quebrados em fórma de pequenas cavilhas os limpam com tanto aceio, que nunca os vereis emporcalhados.

Fazendo digressão sobre materia imunda, quero apenas dizer agora, que os meninos selvagens, quando crecem, ordinariamente mijam no meio das cazas, as quaes todavia não exalam fedor, por cauza dos fogos acendidos em varios lugares e por serem areiadas: os escrementos os meninos vam deitar longe das cazas

§ 8. Os selvagens cuidam de todos os filhos, que aliás sam numerozissimos. Não diremos, que entre os Brazilienses encontre-se um pae com 600 filhos, como vemos escrito de um rei das Molucas, que tivera esse numero de filhos; o que reputamos sucesso prodigiozo.

Os filhos varões sam mais estimados do que as femeas por cauza da guerra; pois entre os selvagens só omens combatem, e só eles têem especialmente a seo cargo a vingança contra os inimigos.

Agora si me perguntarem, que condição os selvagens conferem aos filhos e o que lhes ensinam, quando grandes, respondo, que nos capitulos 8, 14 e 15, e em outros lugares d’esta istoria falei da sua indole, guerras e modo de comer os inimigos, e mostrei ao que aplicam-se; por onde era facil julgar, que não possuem colegios nem outro meio de aprender as siencias onestas, e menos ainda as artes liberaes; por isso grandes e pequenos têem a ocupação ordinaria de caçadores e guerreiros, como verdadeiros successores de Lamech, Nemrod e Ezaú, e tambem a de matadores e comedores de gente.

§ 9. Continuando a falar do cazamento dos Tupinambás, tanto quanto o permite a decencia, afirmo em contrario do que outros imaginaram, que os omens guardam entre si a onestidade natural, nunca copulam publicamente com suas mulheres, e n’isto sam preferiveis a esse torpe filozofo cinico, que, apanhado no acto genezico, não envergonhou-se, dizendo que plantava um omem. Tambem sam incomparavelmente mais infames do que os selvagens esses bodes fedorentos, que nos nossos dias vemos não ocultar-se para praticar obsenidades.

Estanceamos n’esse paiz por espaço de quazi um anno, e n’esse tempo vizitamos frequentemente os selvagens, mas nunca divulgamos nas mulheres os sinaes da menstruação.

Penso, que elas os afastam e empregam modo de purgar-se diverso do das mulheres européas; pois vi raparigas, na idade de doze e quatorze annos, cujas mães ou parentas as punharn com os pés juntos sobre uma pedra lioz, faziam incizões sangrentas com um dente de animal afiado como faca, desde o sovaco, decendo pelas costelas e côxas, até o joelho: de sorte que essas raparigas, com grandes dores, sangravam assim por certo espaço de tempo; e penso, que logo em principio empregam este remedio para obviar, que se lhes vejam as impurezas, como fica. dito.

Si os medicos, ou outros mais doutos do que eu em taes materias objétarem dizendo: - Como poderemos combinar teres dito serem mui prolificas as mulheres cazadas, si, cessando a menstruação, não podem conceber nem procrear; e si alegarem, digo, que taes couzas não podem acordar-se entre si, responderei, que não é minha intenção rezolver esta questão, nem adiantar aqui qualquer discussão.

§ 10. No fim do capitulo 8 refutei o que alguns individuos escreveram, e outros pensaram sobre a nudez das mulheres e raparigas selvagens, crendo que nuas excitam mais os omens á concupicencia do que andando vestidas; tambem ahi declarei outros pontos concernenes á alimentação, costumes, e maneira de viver dos meninos americanos: para suprir pois a falta de mais ampla dedução, que o leitor aqui dezeje n’esta materia, convem recorrer ao sobredito capitulo, si assim lhe aprouver.

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Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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