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História de uma viagem feita à terra do Brasil

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História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo 19 · História de uma viagem feita à terra do Brasil

Capítulo XVIII — O que podemos xamar leis e policia entre os selvagens como tratam e recebem umanamente os amigos vizitantes prantos e festivos discursos das mulheres por ocazião da xegada e boa vinda dos vizitaiztes

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§ 1. Os selvagens com sua policia se mantêem e vivem com tanta paz e socego, que é couza quazi incrivel, e se não pode dizer sem cauzar vergonha a esses individuos, que consideram as leis divinas e umanas como simples meios de satisfação da sua indole, por mais corruta que seja.

Falo todavia de cada nação de persi, ou das que sam confederadas; pois quanto aos inimigos, já vimos em lugar competente como sam mal tratados.

Si entretanto acontece alguns individuos brigarem (o que tam raro é, que, durante quazi um anno de assistencia entre eles, só duas vezes os vi debaterem-se), os outros não procuram separal-os, nem apazigual-os; antes pelo contrario si os contendores buscam furar os olhos uns dos outros, os circunstantes os deixam agir sem dar palavra.

Todavia si alguem é ferido por outrem e o ofensor é prezo, recebe dos parentes proximos do ofendido igual ofensa no mesmo lugar do corpo; e si segue-se morte ou si o ofendido morre imediatamente, os parentes do defunto tiram a vida ao assassino.

Assim para dizer tudo em uma palavra é vida por vida, olho por olho, dente por dente etc. Isto porém, sucede mui raramente entre os selvagens, como fica dito.

§ 2. Os imoveis d’este povo consistem em cazas, e em excelentes terras muito mais amplas do que as necessarias para sua subzistencia, como já dice. Em algumas aldeias moram na mesma caza 300 a 600 pessoas, e as vezes mais, ocupando cada familia lugar distinto para o marido com sua mulher e filhos, embora as cazas não tenham separações, que impeção de ver-se de uma a outra extremidade. Ordinariamente as cazas têem mais de 60 passos de comprimento.

Cumpre notar (couza singularissima n’esse povo), que os Brazilienses não persistem ordinariamente sinão cinco ou seis mezes em um lugar. Assim carregam grossos pedaços de madeira e grandes palmeiras de pindoba[89], com que construem e cobrem as suas cazas, e repetidamente mudam de uns para outros lugares as aldeias, as quaes todavia conservam sempre os mesmos antigos nomes; de maneira que ás vezes as axavamos afastadas um quarto ou meia legoa do ponto, onde antes estiveramos.

Como pois os seos tabernaculos sam faceis de transportar, somos induzidos a crer, que não possuem palacios altaneiros, como alguem escreveo terem os indio do Perú cazas de madeira bem edificadas, e com salas do comprimento de 150 passos e de largura de 80. Tambem devemos supor, que ninguem d’essa nação dos Tupinambás, de que falo, começa moradia ou edificio que não possa vêr acabar e vêr fazer e refazer mais de vinte vezes na sua vida, si por ventura xegar á idade viril.

§ 3. Si lhes perguntaes, porque tam frequentemente removem as suas moradias, não têem outra resposta sinão dizer, que, mudando de ares, passam melhor, e que, si fizessem o contrario do que fizeram seos avós, morreriam depressa.

A respeito de campos e terras, cada pai de familia tem tambem algumas geiras separadas, que escolhe ou quer para sua comodidade, e para fazer suas roças e plantar mandioca e outras raizes; mas quanto á divizão de eranças e pleitos para firmar limites e separar terras, deixam esse cuidado aos erdeiros avarentos e demandistas cá da Europa.

§ 4. Quanto aos seos trastes, já em varios lugares, d’esta istoria tenho dito quaes sam; mas para não deixar em esquecimento quanto sei pertencer á economia dos nossos selvagens, quero desde já declarar aqui o método observado pelas mulheres na fiação do algodão. Tambem declararei o modo de que se servem para fazer cordões e outras couzas e especialmente leitos de algodão (redes de dormir). Eis como procedem.

Depois de tirarem os cazulos, em que se cria o capuxo, o estendem com os dedos sem aliás o cardar, como acima dice, descrevendo a planta produtora do algodão, e, reunem em pequenos acervos junto de si, no xão ou sobre, qualquer objeto; e porque não uzam de rocas, como as mulheres européas, o seo fuzo consiste em um páo redondo, da grossura de um dedo e do comprimento de quazi um pé, com um trinxo de madeira da mesma grossura. N’ele atravessado: ligam o algodão na parte mais comprida do dito páo, e depois rodando-o nas côxas e soltando-o da mão como fazem as fiandeiras com as maçarocas, volteando assim esse rôlo como uma grande carrapeta no meio da caza ou em qualquer outro lugar, formam não só fios grosseiros para fazer leitos (redes), mas tambem fios delgadissimos e bem torcidos.

Trouxe eu para França uma porção d’esse fio, do qual mandei alcoxoar um gibão de pano branco, e todos que o viam o julgvam feito de brilhante sêda.

§ 5. Para fabricar os leitos de algodão, que os selvagens xamam inis, as mulheres têem teares de madeira os quaes não são orizontaes, como os dos nossos tecelões, nem têem tantos machinismos, mas sam perpendiculares e levantados até a altura d’elas. Depois de urdirem a seo modo, começam a tecer as redes pela parte inferior do tear: umas sam á maneira de renda ou de redes de pescar, e outras de teçume apertado, como brim grosso. Estas redes sam pela maior parte do comprimento de quatro, cinco ou seis pés, e da largura de uma braça mais ou menos; têem duas argolas ou dois punhos tambem feitos de algodão, nos quaes os selvagens atam cordas para amarral-as e suspendel-as no ar em páos fronteiros expressamente infincados para isso em suas cazas.

Quando vam á guerra ou andam em caçadas nos bosques, ou estam em pescarias á beira-mar, ou á margem dos rios, suspendem entre duas arvores as suas redes para dormir.

§ 6. E para dizer tudo sobre esta materia acrecentarei, que quando esses leitos de algodão ficam sujos, ou pela fumaça dos fogos, que constantemente fazem nas cazas, onde estão suspensas, ou seja por outra qualquer cauza, as mulheres americanas colhem nos matos certo fruto silvestre da fórma da abobara liza, porém muito mais volumozo, de maneira que mal podemos trazer um na mão: depois o cortam em pedaços, maxucam na agua em qualquer vazilha de barro, batem com paozinhos, e formam tamanha quantidade de escuma, que lhes servem de sabão para lavar as redes, que ficam tam alvas como neve ou pano de pizoeiro.

No demais refiro-me aos que o experimentaram para dizerem, si taes leitos não dam comodo mais agradavel, do que as camas comuns, principalmente no verão, e si foi sem razão que eu dice na istoria de Sancerre ser em tempo de guerra muito mais facil suspender lençoes d’este modo no corpo das guardas para descanso de parte dos soldados, que dormem, emquanto outros velam, do que acostumal-os a espojar-se em cima de enxergões, nos quaes sujam os vestidos, enxem-se de piolhos, e quando levantam-se para fazer o serviço, têem as costelas magoadas pelas armas, que trazem sempre á cinta, como as tivemos estando sitiados n’essa cidade de Sancerre, onde por espaço de um anno, quazi sem intervalo algum, o inimigo não afastou-se das nossas portas.

§ 7. Darei agora o sumario dos outros trastes dos nossos americanos. As mulheres a quem incumbe todo o encargo do trabalho domestico, fabricam muitos potes e grandes vazilhas de barro para fazer e conservar a bebida do cauim, e tambem panelas redondas e ovaes, frigideiras medianas e pequenas, pratos e outra especie de vazo de barro, que não é bem liza por fóra, mas é tam perfeitamente polida no interior, e tam completamente vidrada com certo licor branco, que endurece, que não é possivel aos nossos oleiros de cá prepararem melhor as suas louças de barro.

Estas mulheres diluem certas tintas pardacentas idoneas para isso, e fazem com pinceis infinidade de pequenos enfeites, como ramagens, lavores eroticos, e outras galanterias no interior d’essas vazilhas de barro, principalmente n’aquelas em que guardam farinha e outros mantimentos, de sorte que sam servidos com aceio, e direi, mais decentemente do que os que por cá uzam de vazilhas de madeira.

É verdade, que n’essas pinturas americanas nota-se um defeito, e é, que feito a pincel o que lhes vem á fantazia, si depois pedis a taes pintoras para fazer couza igual não imitarão a primeira obra, porque não tem outro modelo, dezenho, nem lapis sinão o requinte do seo cerebro que vagueia livre; por isso jamais vereis duas pinturas similhantes.

§ 8. Além d’isso, os nossos selvagens têem cabaças e outros frutos grossos e ôcos, de que fazem taças para beber xamadas cuia[90], bem como outros pequenos vazos, de que se servem para diversos uzos como em outro lugar já mencionei: também possuem certa especie de grandes cestas e pequenas alcofas feitas e tecidas com muita delicadeza, umas de junco e outras de ervas flexiveis, como vime ou palha de trigo. A estas cestas ou alcofas xamam panacuns, e n’eles guardam farinha e outras couzas.

Quanto ás suas armas, vestuarios de penas, instrumento xamado maracá e outros utensilios, os não menciono aqui por brevidade, e porque já em outro lugar os descrevi.

Eis aqui as cazas dos nossos selvagens constituidas e mobiliadas; é tempo agora de irmos vel-as como domicílio.

§ 9. Para tomar esta materia de mais alto, direi, que os nossos Tupinambás recebem mui benignamente os estrangeiros amigos, que os vam vizitar; todavia como os Francezes e outros conterraneos nossos não entendem a linguagem d’estes selvagens, ficam em principio absortos no meio d’eles.

Eu os vizitei pela primeira vez trez semanas depois da nossa xegada á Iha de Villegagnon, quando um trugimão, levou-me comsigo a trez ou quatro aldeias da terra firme.

Xegamos á primeira aldeia xamada Jaburaci[91] em linguagem indigena, e denominada Pepin pelos Francezes, em razão de um navio que ali outr’ora carregára, e cujo mestre tinha esse nome. Esta aldeia apenas distava duas legoas do nosso fortim, e quando ali entrei, vi-me repentinamente rodeado de selvagens, que me perguntavam: Marapê-dererê, marapê-dererê, isto é: - Como te xamas, como te xamas? E eu entendia d’isto tanto como do grego: nada comprehendia.

Finalmente um d’eles pegou no meo xapeo e poz na cabeça; outro agarrou na minlia espada e cinto, e cingio no seo corpo nu; outro tirou-me o cazaco e o vestio; todos, digo, aturdiam-me os ouvidos com enorme gritaria, e começaram a discorrer pela aldeia com os meos trajes, que julguei perdidos. No meio d’essa confuzão nem sabia onde estava.

Este meo enleio porém provinha da ignorancia, em que me axava do seo modo de proceder, como depois por muitas vezes mostrou-me a experiencia; pois praticando do mesmo modo com todos os vizitantes, e principalmente com aqueles a quem nunca viram, depois de terem-se divertido com os trastes alheios, os trazem e restituem tudo aos seos donos.

§11. O trugimão me advertira, que os selvagens dezejariam sobretudo saber o meo nome; mas dizer-lhes Pierre, Guillaume ou Jean, seria inutil, pois não poderiam pronunciar nem reter na memoria taes nomes, comode fato, em vez de dizerem Jean, diziam Nian. Portanto era precizo sugeitar-me a nomear alguma couza, que eles conhecessem; e vindo a propozito que o meo sobrenome Leri significasse ostra na linguagem dos selvagens, como me explicou o trugimão, eu lhes dice, que xamava-me Leri uassú, isto é, ostra grande.

Com isto mostraram-se mui satisfeitos, e uzando da costumada exclamação Teh! Começaram a rir, e diziam: - Na verdade eis um bonito nome, e ainda não tinhamos visto Mair, isto é, Francez que assim se xamasse.

Em verdade posso com segurança dizer, que nunca Circe metamorfozeou um omem em ostra tam linda, nem descreteou tam acertadamente com Ulisses, como eu o fiz com os selvagens de então por diante.

E convêm notar, que têem tam boa memoria, que apenas alguem lhe diz o seo nome, ainda quando passem cem annos sem vêr a pessoa, não o esquecerão jámais.

§ 11. Adiante referirei outras cerimonias, que observam na recepção dos amigos, que os vam vizitar. Mas por ora proseguirei na relação de parte das couzas notaveis acontecidas na minha primeira viagem entre os Tupinambás, dizendo que eu e o trugimão n’esse mesmo dia passamos adiante, e fomos dormir em outra aldeia xamada Euramíri, que os Francezes denominam Goset por cauza de um trugimão assim xamado e ali assistente.

Quando xegamos ao pôr do sol, axamos os selvagens dansando e acabando de beber cauim de um prizioneiro, que tinham morto, ainda não avia seis horas, cujos destroços vimos no moquem.

Não pergunteis, si com este inicio fiquei assombrado, vendo similhante tragedia; todavia isto nada foi em comparação do medo, que logo depois sofri, como vereis.

Entramos n’uma caza d’esta aldeia, onde, conforme o costume da terra, sentamo-nos cada um em seo leito de algodão suspenso no ar. Depois as mulheres carpiram pelo modo porque logo direi, e o velho dono da caza fez a sua arenga pela nossa bôa vinda: então o trugimão, para quem esse procedimento dos selvagens não era novo, e que aliás tambem gostava de beber e cauinar, como os indigenas, sem dizer-me palavra, nem fazer-me advertencia alguma, seguio para a turba dos dansadores, e deixou-me ali em companhia de poucas pessoas. Como eu estava fatigado, e só dezejava descanso, depois de ter comido alguma farinha de raizes e outros mantimentos, que nos aprezentaram, inclinei-me, e deitei-me no leito de algodão, em que estava sentado.

§ 12. Mas por cauza da bulha que os selvagens, faziam aos meos ouvidos, dansando e assobiando toda a noite, emquanto comiam o prizioneiro, conservei-me vigilante; entretanto um dos convivas trouxe na mão um pé da vitima assado e moqueado, aproximou-se de mim, perguntou-me si eu queria comer, como depois vim a saber, pois então não o entendia. Isto canzou-me tal medo, que desnecessario é indagar, si perdi toda a vontade de dormir.

Pensei com efeito, que esse acto de aprezentação da carne umana, que o selvagem comia significava uma ameaça, pretendendo o mesmo selvagem dizer-me e dar-me a entender, que brevemente eu tambem seria preparado para o festim; e como uma suspeita produz outra, suspeitei logo, que o trugimão por deliberada traição tinha-me abandonado e entregue nas mãos dos barbaros indigenas.

Si eu visse alguma abertura, por onde pudesse sair e escapulir dali, teria fugido. Vendo-me porém por todos os lados cercado por individuos, cujas intenções eu ignorava (pois não pensavam em fazer-me maleficio algum, como sabereis), acreditava firmemente e esperava ser brevemente comido; por isso durante toda a noite invoquei a Deos com todo o fervor do meo coração. Deixo aos que compreenderem bem o que eu digo, e colocarem-se em meo logar, que avaliem quam longa pareceo-me essa noite.

§ 13. Ora amanhecendo o dia, o trugimão, que em outras cazas da aldeia tinha por toda a noite patuscada com os galhofeiros selvawens, veio ter comigo, e vendo-me não só palido e desfigurado, como me dice, mas tambem quazi febril, perguntou-me, si estava incomodado, e si não tinha descansado bem; ao que ainda estupefacto como estava, respondi encolerizado, que longe estivera de dormir, e que ele era um máo omem por ter-me deixado no meio de gente, a quem eu não entendia; e ainda xeio de sustos, pedi para sairmos dali sem demora alguma.

Dice-me ele então, que eu não tivesse medo, e que não era a nós que os selvagens apeteciam: depois relatou tudo aos selvagens, os quaes, satisfeitos com a minha bôa vinda, e por quererem agradar-me, não tinham-se arredado de junto de mim durante toda a noite.

Diceram, que não tinham por fórma alguma, percebido que eu tivesse medo d’eles, e estavam penalizados do que me sucedera; e como sam galhofeiros dezataram em rizadas, considerando terem-me involuntariamente cauzado tamanha tribulação.

O trugimão e eu fomos dali a outras aldeias; e contentando-me com referir, para exemplo, o que aconteceo-me na minha primeira viagem entre os selvagens, proseguirei em generalidades.

§ 14. As ceremonias, que os Tupinambás observam na recepção dos amigos, que os vão visitar, sam estas:

Apenas o viajante xega á caza do mussacá (isto é, bom pae de familia, que dá comida aos passageiros), a quem escolheo como ospedeiro, senta-se em um leito de algodão suspenso no ar (rede), e ahi fica por algum tempo, sem proferir palavra.

É costume todo o vizitante escolher em cada aldeia, um amigo, e cuja caza deve logo dirigir-se, sob pena de o descontentar.

Depois vêm as mulheres, rodeiam o leito, e acocoradas no xão com as mãos sobre os olhos, pranteam a boa vinda do ospede prezente, e dizem mil couzas em seo louvor, como por exemplo: - Tomastes tanto trabalho para vir ver-nos. És bom. És valente.

E si é Francez ou qualquer outro estrangeiro europeo, acrecentaráõ: - Tu nos trouxestes couzas mui bonitas, que não temos cá n’esta terra.

Em suma estas mulheres, derramando grossas lagrimas, dirão muitas palavras similhantes de aplauzo e lizonja, como já referi.

Si o recem-vindo, que está no leito suspenso que corresponder, mostra-se plangente, si não quer devéras xorar ao menos dando suspiros, cumpre fingil-o: o que vi fazerem alguns dos da nossa nação, os quaes, ouvindo as lamurias d’essas mulheres selvagens junto d’eles, procuravam imital-as.

§ 15. Feita assim a primeira saudação festiva por essas mulheres americanas, o mussacá, isto é, o velho dono da caza, que, tambem por sua parte ocupado em fazer frexas ou outra qualquer couza (como vereis no dezenho junto) permanecerá por um quarto de óra sem parecer avistar-vos (carinho bem diverso das nossas mezuras, abraços, beijos, e apertos de mão na xegada dos amigos).

Depois dirige-se para vós e dirá antes de tudo: - Erê jubê? isto é, vieste? E depois: - Como estás? O que dezejas? etc.[92]

A isto cabe responder o que vereis no seguinte coloquio formulado em linguagem brazilica.

Feito isto, vos perguntará, si quereis comer. Si responderdes, que sim, mandará depressa aprontar e trazer em bonita vazilha de barro farinha da que comem em vez de pão, veações, aves, peixes e outras viandas, que tiver como porém os selvagens não têem mezas, bancos, nem cadeiras, o serviço far-se-á em xão razo diante de vossos pés.

Quanto á bebida, si quereis cauim, e o tem feito vos dará tambem.

Depois de terem as mulheres pranteado junto ao viajante, lhe trarão frutas ou qualquer insignificante mimo de couzas da terra, afim de obterem pentes, espelhos ou missangas, que lhes damos para enfeitar os braços.

§ 16. Quando alguem quer dormir na aldeia, onde xega, o velho manda logo armar bonita rede branca; embora não faça frio n’esse paiz, manda tambem acender trez ou quatro pequenas fogueiras ao redor da rede, por cauza da umidade, e conforme o costume dos selvagens. Estas fogueiras durante a noite sam repetidas vezes acezas com pequenos abanos xamados tatapecuá[93], feitos á similhança das ventorolas com quem as nossas damas anteparam o rosto junto ao fogo, afim de que o calor lhes não estrague as faces.

Tratando de policia dos selvagens, vim a falar do fogo, a quem xamam tata, xamando a fumaça tatatim; por isso devo agora declarar a primoroza invenção por nós desconhecida, e por eles uzada, de fazerem fogo, quando lhes apraz; couza não menos maravilhoza do que a pedra de Escocia, que, conforme o testimunho do escritor das singularidades d’este paiz, tem a propriedade de inflamar a estopa ou a palha pelo simples contacto e sem artificio algum.

Sam mui amantes do fogo, e não param em lugar algum sem tel-o, principalmente de noite, quanto temem extraordiariamente ser surprendidos pela Anhanga, isto é, pelo espirito maligno, o qual, como alhures tendo dito, frequentemente os espanca e atormenta.

Quer andem em caçadas no mato, quer á margem dos rios e lagos nas ocaziões de pescaria, quer em excursões nos campos, não servem-se, como nós, da pedra e do fuzil, cujo uso ignoram, mas possuem no seo paiz duas especies de madeira, uma das quaes é quazi tam mole, como si estivesse apodrecida, outra pelo contrario tam rija como a de que os nossos cozinheiros fazem lardeadeiras. Quando querem acender fogo, as empregam do seguinte modo.

§ 17. Depois de terem preparado e despontado como fujo um páo désta ultima qualidade, do comprimento de quazi um pé, colocam a ponta no centro da outra peça de madeira, que dice ser muito mole, a qual deitam no xão, ou põem sobre um tronco ou trave grossa, depois rodam com rapidez o páo despontado entre as palmas das mãos, como si quizessem furar ou traspassar a peça inferior. Acontece, que com o violento e rapido movimento das duas peças de madeira, uma das quaes fica assim intrometida na outra, não só dezenvolve-se fumaça, mas tambem tal calor, que pondo-se ali algodão, ou folhas secas de arvores dividamente preparadas (como costumamos fazer com pano queimado ou qualquer outra isca para encostar ao fuzil) o fogo pega perfeitamente, e asseguro aos que me quizerem crer, que eu mesmo fiz fogo por esse modo.

Entretanto não quero com isso dizer e menos crer ou fazer crer o que alguem mencionou em seos escritos, a saber, que os selvagens da America, que sam os mesmos de que agora falo, secavam suas carnes ao fumo antes d’essa invenção de produzir em fogo.

§ 18. Como tenho por veracissima esta maxima de fizica convertida em proverbio, a saber, que não existe fogo sem fumaça, por isso considero não ser bom naturalista quem nos quer fazer crer, que existe fumaça sem fogo.

Falo da fumaça, que pode curar carnes, como aquela de que trata o indicado inventor; e si ele queria falar dos vapores e exalações, embora lhe concedamos, que as aja calidas, todavia não poderiam secar a carne ou peixe, antes pelo contrario os tomaria enxarcados e umidos: a resposta pois será, que isso é zombar da gente.

E como este autor, na sua Cosmografia, bem como em outros lugares, queixa-se muito e repetidas vezes d’aqueles que não falam ao seo sabor das materias por eles expostas, e diz assim procederem por lerem atentamente os seos escritos, rogo aos leitores, que notem bem a passagem escolastica, a que me refeiro, da sua nova fumaça quente e granuloza, que envio ao seo cerebro vazio.

§ 19. Volto a falar do tratamento, com que os selvagens obzequiam aos seos vizitantes.

Depois que os ospedes bebem, comem e descansam, ou dormem em suas cazas, pelo modo porque já expuz, si sam onrados, ordinariamente dam aos omens facas ou tezouras, ou pinças de arrancar barba; ás mulheres dam pentes e espelhos, e aos meninos distribuem anzóes de pescaria.

Si afinal dezejam negociar viveres ou outras couzas, que os selvagens têem, perguntam quanto querem; e entregue o que é convencionado, podem levar o objéto procurado e retirar-se.

§ 20. E porque não existem cavalos, asnos nem outros animaes de carga n’esse paiz, como já dice, o modo ordinario de transporte é andar a pé, si os viandantes estrangeiros cansam, mostram uma faca, ou outra qualquer couza aos selvagens, e estes, dispostos a agradar aos seus amigos, oferecem-se para carregal-os.

Quando andei n’America alguns selvagens avia, que para nos carregarem metiam a cabeça entre as nossas coxas e nos suspendiam nos ombros, deixando as nossas pernas cahir-lhes sobre a barriga, e assim nos transportavam por mais de uma boa legua sem descansar.

E si por ventura algumas vezes os queriamos deter para descansarem, zombavam de nós, dizendo em sua linguagem: - Pois julgaes, que somos mulheres ou tam cobardes e fracos de animo que desfaleçámos debaixo do pezo? Um d’eles que trazia-me o pesco, dice-me uma vez: - Eu te carregarei um dia inteiro sem parar. Por isso nós, montamos n’essas cavalgaduras de dois pé, riamos ás gargalhadas, e vendo-os lestos com os aplauzos, fazer das tripas coração, como diz o rifão, lhes diziamos: Vamos, vamos.

§ 21. Quanto á caridade natural, os selvagens a exercitam, prezenteando-se diariamente uns aos outros, e distribuindo as veações, peixes, frutas, e outros bens, que possuem no seo paiz; e de tal modo prezam esta virtude, que um selvagem, para assim dizer, morrerá de vergonha, si visse o proximo ou o vizinho junto a si sofrer falta do que ele tem,uzando da mesma liberdade para os estrangeiros, seos aliados, como experimentei.

Para exemplo d’isto referirei, que em certa ocazião dois Francezes e eu, transviados nos bosques, pensamos ser devorados por um grande e medonho lagarto, como referi no capitulo 10. Depois de andarmos perdidos por espaço de dois dias e uma noite e sofrermos muita fome, finalmente fomos ter a uma aldeia xamada Pano, onde outr’ora tinhamos estado, e ahi fomos recebidos pelos selvagens d’esse lugar, com tal agazalho que melhor não era possivel.

Antes de tudo ouviram-nos contar os males, porque tinhamos passado, e o perigo em que nos axaramos, não só de ser devorados pelos animaes ferozes, mas tambem de ser agarrados e comidos pelos Maracajás, nossos inimigos e seos, de cujas terras, sem querermos, nos tinhamos assás aproximado; e por que, digo, no trazito por lugar dezerto os espinhos nos tinham arranhado orrivelmente, os selvagens, vendo-nos em tal estado, demostraram-nos tanta compaixão, quam longe estam da umanidade d’dessa gente, que aliás denominamos barbara, as recepções formalisticas d’aqueles dentre nós, que para consolação dos aflitos apenas têem palavras vans.

§ 22. Passando aos fatos, trouxeram agua limpida, que foram buscar de propozito, e começaram (o que nos recordou o custume dos antigos) a lavar os pés e pernas de nós trez os Francezes, que estavamos cada um em rede separada. Logo que xegamos mandaram os velhos trazer-nos comida, determinaram ás mulheres, que com toda a pressa fizessem farinha mole, que eu gostava de comer, como gósto do miolo de pão branco quente, como alhures dice. Vendo-nos refrigerados, serviram-nos então de muita bôa carne de veações, de aves, de peixe e de saborozas frutas, de que nunca sentem falta.

Quando sobreveio a tarde, o velho nosso ospedeiro mandou retirar todos os meninos de junto de nós, para descançarmos mais á vontade; e na seguinte manhan dice-nos: Atono assats, isto é, bom aliado, dormiste bem esta noite?

E sendo-lhe respondido que sim, e muito bem, dice ele: - Descançar mais, meos filhos, pois ontem á tarde bem vi, que estaveis muito cansados.

§ 23. Emfim é dificil expressar a bôa pitança, que nos foi então servida pelos selvagens, os quaes na verdade para dizer tudo em uma palavra, fizeram n’esta ocazião o que diz São Lucas nos Actos dos Apostolos terem os barbaros da ilha de Malta praticado com São Paulo e seos companheiros, depois de escapos do naufragio, de que ali se faz menção.

Ora, como não andavamos n’esse paiz sem trazer um saco de couro com mercadorias, que nos serviam como dinheiro para tratar com esse povo, ao partirmos ali damos o que nos aprouve, a saber, facas, tezouras, e pinças, aos bons velhos, pentes, espelhos, braceletes e missangas ás mulheres, e anzoes de pesca aos rapazes, como já muitas vezes tenho dito ser costume.

§ 24. Afim de melhor dar a entender quanto cazo fazem d’estas couzas, referirei, que, estando eu em certo dia n’uma aldeia, o meo mussacá, isto é, o individuo que me tinha recebido em sua caza, pedio-me para mostrar-lhe o que eu tinha no meo caramemo, isto é, saco de couro; depois do que mandou trazer uma grande e bonita vazilha de barro, na qual arranjei toda a minha fazenda. Admirou-se de vêr tudo isso, e xamando de repente todos os outros selvagens, dice: - Peço-vos, meos amigos, que considereis um pouco no personagem, que tenho em minha caza; pois si ele tantas riquezas tem, não devemos confessar, que é um grande senhor?

E entretanto rindo-me para um companheiro, que ali comigo estava, dice, que tudo isso, que o selvagem tanto apreciava, rezumia-se em cinco ou seis facas encabadas de diversas fórmas, outros tantos pentes, dois ou trez espelhos grandes, e outras miudezas, que nem dois tostões valeriam em Pariz.

Prezam eles sobretudo as pessoas liberaes, como já alhures tenho dito; e querendo eu ainda exaltar-me mais do que ele o fizera, dei-lhe publica e gratuitamente, perante todos os circunsdantes, a maior e mais bonita das minhas facas, da qual fez ele tanto apreço, quanto em nossa França faria alguem, a quem se fizesse mimo de um trancelim de couro do valor de 100 escudos.

§ 25. Si perguntardes agora mais alguma couza sobre vizitas aos selvagens da America, dos quaes prezentemente me ocupo, a saber, si estavamos seguros entre eles, respondo, que assim como odeiam mortalmente os seos inimigos, aos quaes, quando os agarram, matam e comem sem remissão, como sabeis, assim tambem amam tam vivasmente aos seos amigos e confederados, que, quando não têem motivos de desgosto, não duvidam deixar-se cortar em cem mil pedaços para os defender. Eramos amigos e confederados dos Tupinambás; por tanto gozavamos de plena segurança no meio d’eles.

Fiava-me d’deles; e como os experimentei, considerava-me então mais seguro no meio d’esse povo, que apelidamos selvagem, do que me considerarei em varios lugares da nossa França com Francezes desleaes e degenerados: falo d’aqueles que sam taes, pois quanto á gente onesta, de que aliás o reino não está vazio, muito me pezaria de ofender o seo melindre.

§ 26. Todavia afim de dizer o pro e o contra do que conheci, vivendo entre os Americanos, relatarei ainda um fato com aparencias de supremo perigo, em que axei-me entre eles.

Em certo dia encontramos-nos inopinadamente seis Francezes na linda aldeia d’Ocarantin, da qual varias vezes tenho falado, distante dez ou doze legoas do nosso fortim, e rezolvemos ahi dormir. Dividimos-nos em duas partidas de trez e trez para adquirir galinhas da India, e outras couzas para a nossa ceia.

Aconteceo, que fui eu um dos extraviados, quando procurava aves na aldeia para comprar. Apareceo então um d’esses rapazes francezes, que em principio eu dice termos trazido no navio Rosee para aprender a lingua indigena, o qual permanecia n’essa aldeia, e dice-me: - Eis ali um bonito pato da India, matae, e ficareis quite pagando-o.

Não tive duvida em realizar o conselho; pois muitas vezes tinhamos morto galinhas em outras aldeias; com o que os selvagens se não zagavam, contentando-se com algumas facas. Depois apanhei o pato morto, e fui para uma caza, onde quazi todos os selvagens do lugar estavam reunidos para cauniar.

Perguntando ali de quem era o pato, afim de pagal-o, apareceo um velho, o qual com muito má carranca dice-me – É meo! “ O que queres que te dê pelo pato? dice eu. E ele respondeo: - Uma faca.

Quiz imediatamente dar uma faca; e quando a vio, dice – Quero uma mais bonita.” E sem replicar aprezentei outra; mas ele dice, que não queria esta.

O que queres pois, que te dê? dice eu. Uma foice: dice ele.

Além de ser preço excessivo n’esse paiz, dar uma foice por um pato, acontecia, que eu ali não tinha tal instrumento; por isso dice-lhe então, que se contentasse com a segunda faca aprezentada, pois outra couza não daria.

§ 27. Mas o trugimão, que melhor conhecia o seo modo de proceder (embora n’esta ocazião, como direi, enganou-se como eu) dice-me, que o indigena estava muito zangado, e que convinha, fosse como fosse, arranjar uma foice.

Pedi ao rapaz, de quem falei, uma foice emprestada, e quando quiz dar ao selvagem, fez nova recuza, como d’antes recusara as duas facas; de sorte que enfandando-me com isso, dice-lhe pela terceira vez: - O que queres pois de mim?

Ao que furiozo replicou, que queria matar-me, como eu matára o seo pato: pois (dice ele) como aquele pato fôra de seo irmão já falecido, o estimava mais do que todas as outras couzas, que possuia.

E com efeito o meo bronco interlocutor sahio e foi buscar uma espada, aliás clava de grossa madeira de cinco a seis pés de comprimento, e voltou rapidamente sobre mim, continuando sempre a dizer, que queria matar-me.

Quem pois ficou assombrado, fui eu: todavia como n’este gentio ninguém deve meter o rabo entre as pernas, como vulgarmente se diz, nem parece mofino, convinha mostrar-me destemido.

O trigumião, que estava sentado n’uma rede de algodão entre mim e o brigador, advertia-me do que eu não entendia, e dice-me: - De espada e punho e arco e frexas na mão, significae-lhe, que tem de aver-se comvosco; pois sois forte e valente, e não vos deixareis matar tam facilmente como ele pensa.

Em suma fazendo boa cara e máo jogo, como se costuma dizer, depois de muitos outros ditos, que trrocamos eu e o selvagem, sem que os outros selvagens prezentes tratassem de acomodar-nos (conforme o que dice no principio d’este capitulo), o meo agressor, ebrio como estava pelo cauim bebido durante todo o dia, foi dormir e cozinhar a bebedeira: e eu e o trigimão fomos cêar e comer o pato com os nossos companheiros, que nos esperavam na parte superior da aldeia, e ignoravam a nossa contenda.

§ 28. Ora, bem sabiam os Tupinambás, que já tinham os Portuguezes por inimigos como o exito o demostrou, e que, si matassem um Francez, guerra irreconciliavel lhes seria declarada e ficariam para sempre privados das mercadorias; assim tudo quanto o meo contendor fizera fôra por mero gracejo.

Com efeito despertando quazi trez óras depois, mandou-me dizer por outro selvagem, que eu era seo filho, e que tudo quanto fizera comigo era sómente para experimentar-me e reconhecer por meo porte, si combateria bem contra os Portuguezes e os Maracajás, nossos inimigos comuns.

Por meo lado porém quiz tirar-lhe todo o motivo de repetir o mesmo fato comigo ou com qualquer outro dos nossos patricios, e significar-lhe não serem agradaveis taes brinquedos; por isso não só mandei dizer-lhe, que não queria saber d’ele, nem queria pae, que me experimentasse com espada na mão, mas tambem no dia seguinte entrei na caza, onde ele estava, e para dar-lhe melhor lição e mostrar, que similhante gracejo me dezagradava, dei facas e anzoes de pesca a todos os outros ali prezentes e o exclui da distribuição.

Podemos pois coligir, quer d’este exemplo, quer do outro já referido na minha primeira viagem entre os selvagens, quando por ignorancia dos costumes supuz axar-me em perigo, que é sempre verdadeiro e certo tudo quanto afirmei da sua lealdade para com os amigos, a saber, que muito molestam, quando lhes cauzam desgostos.

§ 29. Concluindo esta materia, acrecentarei, que os velhos sobretudo a quem nos tempos passados faltavam maxados, foices e facas, que agora axam tam convenientes para cortar madeiras, e fazer arcos e frexas, não só tratam mui bem os Francezes, que os vizitam, mas tambem exortam aos mancebos para praticarem o mesmo no futuro.

História de uma viagem feita à terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry, em tradução de Tristão de Alencar Araripe, obra quinhentista de viagem sobre a França Antártica e o Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da tradução publicada em 1889, com capítulos em HTML, capa nova no padrão Literunico, fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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