Universo da obra
Universo da obra
§ 1. Para concluzão do que tenho de dizer sobre os nossos selvagens da America, explicarei como procedem em suas molestias e nos seos ultimos dias, isto é, quando aproximam-se da morte natural.
Si acontece cair doente algum d’eles, depois de mostrar e fazer conhecer onde sente o mal, ou nos braços ou nas pernas, ou em qulquer outra parte do corpo, é esse lugar xupado com a boca por algum amigo, e algumas vezes por uma especie de embusteiros, que entre eles vivem com o nome de pagé, que equivale a barbeiro ou medico (diverso dos carahibas, de que falei, quando tratei de sua religião). Estes pagés fazem crer não só que lhes arrancam as molestias, mas tambem que lhes prolongam a vida.
§ 2. Além das febres e doenças dos nossos Americanos, a que não sam tam sujeitos, como nós o somos cá na Europa, em razão da benigna temperatura do paiz, conforme já refeir, sofrem uma molestia incuravel xamada pian, a qual ordinariamente se adquire, e provem da lassiva; todavia observei meninos cobertos d’ela, como os vêmos por cá cobertos da variola.
Este contagio converte-se em pustulas mais grossas do que o dedo polegar, as quaes espalham-se por todo corpo e até pelo rosto. Os individuos, que as padecem, ficam com as marcas d’elas por todo a vida, como cá sucede aos galicados, e cancerozos em rezultado de torpezas e impudicicia.
Com efeito vi n’esse paiz um trugimão, natural de Rouen, que, tendo-se xafurado em toda a sorte de obcenidades com as mulheres e raparigas selvagens, recebera tam amplo e bem inerecido salario, que seo corpo e rosto estavam cobertos e desfigurados por esses pians, como si fôra verdadeiro leprozo, em quem as cicatrizes se imprimem por tal fórma que impossivel é jámais dezaparecerem: por isso esta molestia é a mais perigoza da terra do Brazil.
§ 3. Voltando ao meo primeiro propozito, direi, que os Americanos têm por costume, empregando nos doentes o tratamento da sucção da boca, nada darem a quem está no leito, si acazo não péde, ainda quando passasse um mez sem comer, e por mais grave que seja a doença os que estam bons de saude nem por isso deixam de beber, cabriolar, cantar, fazendo bulha em roda do mizero paciente; o qual por sua parte sabe, que nada lucraria agastando-se por isso, e antes quer ter atordoados os ouvidos do que proferir palavra alguma.
Todavia si acontece morrer o doente, e si este é bom pae de familia, converte-se a cantarola em subito pranto, fazem taes lamentações, que si nos axarmos em alguma aldeia, onde aja defunto, e ahi tenhamos de pernoitar, ninguem espere poder dormir durante a noite.
É principalemnte admiraval ouvir as mulheres, as quaes reunidas fazem lamentações e dialogos, gritando tanto e tam alto, que dirieis ser univos de cães e de lobos.
Umas arrastando a voz dirão: - Morreo quem era tam valente e tantos prizioneiros nos deo a comer.
Outras rompendo no mesmo ton respondão: - Oh! como era bom caçador e exelente pescador.
Dirá outrra no meio d’elas: - Ah! Que bravo matador de Portuguezes e Maracajás, dos quaes tam galhardo nos vingava.
Assim no meio taes lamentações, exitam-se todas para levantar maior prantina, abraçando-se umas com outras pelas costas, como vereis no dezenho anexo; e emquanto o cadaver está prezente não cessão de fazer longa ladainha dos seos louvores, expondo e relatando tudo quanto em vida o defunto dice e praticou.
§ 4. As mulheres de Bearn, conforme dizem, fazendo do vicio virtude no pranto que lecantam em prezença do corpo dos maridos falecidos, cantam: - La mi amon, la mi amon, cara rident, oeil de splendon: cama leugé, bel dansandon: lo mé balen, lo m’es burbat: mati depes: fort tard au lheit.
Quer dizer: - Meo amor, meo amor, cara rizonha, olhos luzentes, prna ligeira, bom dansador, omem valente, meo madrugador, cedo de pé, tarde na cama.
E dizem alguns que as mulheres da Gascunha acrecentam: - Vere vere: ô le bet renegadon, ô le bet iongadon qu’here.
O que significa: - Ah! Ah! Que lindo arrenegado, e que lindo jogador era ele!
Assim fazem os nossos pobres Americanos, os quaes ao estribilho de cada estancia acrecentam sempre: - Morreo, morreo, aquele que agora capimos.
E os omens respondendo, dizem: - Ah! É verdade, não veremos mais sinão quando tormos para além das montanhas, onde, como nos carahibas, dansaremos com ele.
E a isto acrecentam muitas outras couzas.
§ 5. Ora, estas lamurias duram ordinariamente meio dia, pois quazi nunca conservam por mais tempoinsepultos os cadaveres.
Depois de aberta a cova, não comprida, como sam as nossas, porém redonda e profunda como um tonel de cinho, curvam o corpo, logo depois do obito e amarram os braços rodeando as pernas, e o enterram quazi em pé.
Si o finado è algum velho estimado, como já dice, sepulta-se na propria caza, envolvido no seo leito de algodão (rêde), e com ele enterram colares, plumas e outros objétos, com que andava, quando vivia.
A este respeito poderiamos alegar muitos exemplos dos antigos, que uzavam couza similhante: assim Jozefo nos diz, que depozitaram-se certas couzas no tumulo de David; e varios istoriadores profanos testificam a respeito de varios personagens, que depois de falecidos foram adornados com joias preciozissimas, que apodreceram com os cadaveres.
Para não irmos mais longe dos nossos Americanos direi, que os indios do Perú, terra contigua aos selvagens brazilienses, enterram com os seos reis e caciques grande quantidade de ouro e pedras preciozas, como atraz declarei.
§ 6. Muitos dos primeiros Espanhoes, que foram a esse paiz, ficaram riquissimos, buscando os despojos dos cadaveres nos tumulos e nas cavernas, onde os podiam encontrar.
De modo que bem podemos aplicar a estes avarentos o qui diz Plutarco da rainha Semiramis, que mandara gravar na pedra da sua sepultura, a saber, por fóra o seguinte (traduzindo em francez):
Quiconque soit le roi de pecune indigent.
Ce tombeau ouvert prenne autant qu’il veunt d’argent
Quem abrio o sepulcro pensava axar valioza preza, mas em vez d’isso vio este letreiro:
Si tu n’estoit meschant insatiable d’or,
Jamais n’deusses fouillé des corps morts le thésor
§ 7. Volto aos nossos Tupinambás, dizendo que depois que os Francezes se relacionaram com eles, já não enterram abitualmente com os seos defuntos couzas de valor, como dantes costumavam fazer; o que porém é muito peior, como ides ouvir, é manterem a mais extravagene superstição, que podemos imaginar.
Crêem firmemente, que si Anhanga, isto é, diabo na sua linguagem, não axar outras viandas, preparadas junto á sepultura, dezenterrará e comerá o defunto; por isso não só na primeira noite depois de sepultado o cadaver, como fica dito, poem sobre a cova, grandes alguidares de barro xeios de farinha, aves, peixes e outras viandas bem assadas com a bebida xamada cauim, mas tambem continuavam a prestar este serviço verdadeiramente diabolico, emquanto o corpo não apodrece.
Do qual erro era-nos bem dificil advertil-os, porquanto os trugimões da Normandia, que nos tinham precedido n’desse paiz, imitando aos sacerdotes de Baal, de que fala a Escritura, tiravam de noite essas viands excelentes; e assim os entretinham e confirmavam em tal crença de couzas ali depozitadas na vespera no dia seguinte ali permaneciam, apenas a mui poucos podemos persuadir o contrario.
§ 8. Assim podemos dizer, que este delirio dos selvagens não é mui diferente da insania dos rabinos, doutores judaicos, nem da vezania de Pauzanias.
Sustentam os rabinos, que o corpo morto fica em poder de um diabo, que eles xamam Zabel ou Azazel, o qual dizem ser denominado no Levitico principe do dezerto; e para confirmar este erro torcem a passagem da escritura, onde se diz á serpente: - Tú comerás terra por todo o tempo da tua vida.
Dizem eles, que o nosso corpo é creado do limo e do pó da terra, que é a carne da serpente; por tanto fica-lhe sugeito até transformar-se em natureza espiritual.
Pauzanias tambem fala de outro diabo xamado Eurinomo, do qual diceram os interpretes dos Delfios, que devorava a carne dos mortos, e só deixava os ossos; o que em suma redunda no mesmo erro dos nossos Americanos, como acima dice.
§ 9. Finalmente já mostramos no capitulo precedente o modo pelo qual os selvagens renovam e transferem as suas aldeias de uns para outros lugares, e quanto ás suas aldeias de uns para outros lugares, e quanto ás sepulturas dos seos finados, eles colocam pequenas cobertura do arbusto xamado pindoba, e assim não só os tranzeuntes reconhecem esta fórma de cemiterio, mas tambem, as mulheres, quando andam nos bosques e por ali passam, si se recordam dos finados maridos, fazem as costumadas xoradeiras, gritando de tal modo que sam ouvidas na distancia de meia legoa.
E como acompanhei os selvagens até o sepulcro, deixando as mulheres prantear até fartarem-se, rematarei aqui o discurso sobre o rpocedimento d’essa gente relativamente aos seos defuntos: todavia poderão os leitores ainda vêr alguma couza no seguinte coloquio, que compuz, no tempo em que estive na America, com o adjuntorio de um trugimão, o qual bem o podia explicar, não só por ter ali estado sete ou oito annos e entender perfeitamente a linguagem da gente do paiz, mas tambem porque a tinha estudaado proveitozamente, confrontando-a como odido observar, esta nação dos Tupinambás tem algumas palavras.
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