Universo da obra
Universo da obra
Como escrever impressões de viagem de um modo impessoal, se tudo que o escritor observa tem de ser julgado pelo seu modo exclusivo de ver e de sentir?
Há muitos anos que me mordia o desejo de ir jornadear pelas nossas terras do sul.
O Rio Grande, pelo interesse da sua vida social, costumes típicos, clima de extremos e paisagens vagas e livres, seduzia-me a imaginação de tal modo que, por várias vezes, projetei viagens que sucessivamente adiei, até que um dia, com menos preparos antecedentes, tomei uma resolução e um taxi, que me levou à porta da agência da Costeira e em dois minutos tudo ficou decidido.
— O primeiro paquete?
— O Itaberá, amanhã.
— Bom?
— Um dos melhores da Compania.
— Nesse caso, uma passagem para Porto Alegre!
Respiro; já não pode haver hesitações aborrecidas. Volto para casa com um alvoroço de colegial em véspera de férias; atiro apressadamente a roupa para a mala e telefono às amigas adeuses risonhos:
— Que lembrança a minha de partir nesta estação? Mas não há nenhuma mais deliciosa do que o outono, querida! Sim, sim, eu mandarei postais das nobres terras gaúchas!
Parto, quando elas chegam de Petrópolis, Teresópolis, Friburgo, impregnadas do aroma agreste e sadio dos eucaliptos e dos pinheirais da serra. Abril fenece, espalhando sobre a face crestada do Rio um leve sopro de carícia. Vai começar a nossa season e eu fujo! fujo para mergulhar toda inteira, corpo e alma, no ambiente azul do céu e do mar infindos.
Como sempre que me disponho a partir para longe, a minha viagem começa, mal ponho o pé fora da soleira de casa. É sempre assim: olho então para as coisas mesmo as mais banais e insignificantes com redobrada atenção, no desejo inconsciente de as guardar na retina para as levar comigo.
O Rio começa a alegrar-se. Os "bars" estão repletos de marinheiros loiros, vestidos de branco; agitam-se os automóveis; chegam os deputados; enchem-se os hotéis; trabalham mais as costureiras; organizam-se com melhor fantasia as vitrines, e animam-se os teatros. É a reação, que sacode o marasmo do estio longo.
O pior é que o Itaberá não está atracado: tenho de ir de lancha. O pior, disse eu? Talvez seja o contrário. O navio que se comunica com a terra por uma simples prancha, dá-me a impressão de ser uma continuação do cais e eu gosto de gozar a sensação de desprendimento da viagem desde o seu início.
Amigos, não choreis, que a jornada é curta e de prazer. E vede, que linda manhã!
No convés passo os olhos deslumbrados pela nossa querida e apoteótica baía. Quem viu jamais coisa mais bela? O sol inunda-a de glória; a Serra dos Órgãos desmaterializa-se na fluidez casta da luz matutina que tinge de tons ruborescentes uns restos de neblina ainda enredados no dorso das montanhas. O pico do Corcovado desenha-se no ar alto, desencarapuçado, afirmando na sua sabedoria de barômetro infalível, em que o povo tem fé, que podemos ter confiança no tempo.
No mar um grande sossego; a pequena distância um lugre e dois imensos "dreadnoughts" americanos, com roupas de marujos a secar ao vento, entre baldezinhos vermelhos suspensos das mesmas cordas e que na sua insignificância dão uma notazinha viva e curiosa ao quadro. Reparo para os cascos dos dois vasos de guerra em que pintores cubistas encontraram enfim na "camouflage" aplicação para os desenhos extravagantes da sua arte, até há pouco tempo tão mal compreendida...
Enfim, levantamos ferro. Haverá na natureza expressão de maior candura do que a de um mar sereno em manhã anilada e fresca? Procurai-a bem a ver se a achais em vosso pensamento, que eu não a encontro no meu.
Digo adeus com os olhos ao estendal da casaria que a linha das praias recorta e os morros interrompem, e penso em como seria triste e árido o panorama de uma cidade em que não houvesse torres. Se os templos cristãos não as erguessem como o símbolo da sua Fé, seria indispensável que as edificássemos pelo amor de outro culto — o da Beleza.
Dou volta ao convés para saudar também a Boa-Viagem e o Costão de Santa Cruz, em que as gaivotas fazem ninho. São coisas já muito vistas; são coisas eternas, mas para que não olho nunca sem estremecimentos de surpresa...
Transposta a barra, fico à espera de contemplar o vulto de pedra do Gigante Adormecido, até que a mão de alguém a meu lado o apontou delineado no topo dos montes quase a tocar nas nuvens...
Poucas horas mais e tínhamos diante da vista imensidades silenciosas, nuas e virgens como nos primeiros dias do Mundo. Eram desertos os rochedos que deixávamos ao longe; eram desertas as águas verdes em que a luz espalhava polvilhações de diamantes e colunas quebradiças de ouro patinado. E assim as primeiras horas da viagem foram de deslumbramento, até que a sombra desceu do alto como um véu de viúva sobre o rosto atônito da Terra. O crepúsculo fora vertiginoso: rasgara-se o firmamento em montões de rubins e de ametistas para, num sopro repentino, apagarem-se todas essas labaredas estonteadoras. Mas à noite, desabrochadas as estrelas, que maravilha!
Para gozar-se todo o esplendor do nosso céu noturno, não há como um tombadilho de paquete na solidão infinita das águas...
No dia seguinte, chegada a Santos.
Conheço, desde a minha infância, esta velha cidade, que toda se tem rejuvenescido nestes últimos anos. Atravesso-a em passeio às praias, sempre interessantes; mas desarranja-se-me o automóvel e tenho, para regressar a bordo, de tomar o bonde.
Tanto melhor; este democrático veículo habilita-me a travar conhecimento de perto com a população da terra e a perceber alguma coisa dos seus gostos. Parece-me que há aqui mais estrangeiros do que nacionais. Enche-se o carro de gente loira. Duas senhoras inglesas no banco em frente ao meu, fazem tricot de lã com pressa desesperadora.
É evidente que lutam numa aposta, a ver quem acabará primeiro a manta de lã para o "tomy" do front.
Abençoadas mãos que assim se agitam para mandarem um pouco de conforto aos que tanto sofrem pelo bem dos outros...
Quando entro no Itaberá vejo esvoaçando pelo tombadilho um grupo de "borboletas de cabaret", que S. Paulo remete para as noitadas alegres da capital rio-grandense.
Vamos ao menos ouvir cançonetas! — diz-me uma senhora de cabelos brancos e olhos sorridentes. É uma brasileira que, como tantos outros patrícios, não podendo agora viajar pela Europa, se resolveu, finalmente, a fazer uma pequena excursão no seu próprio país, para não perder de todo o costume do balanço do navio e da trepidação dos trens de ferro... Ainda assim estranhei a preferência do itinerário.
Geralmente, os lugares escolhidos para vilegiaturas, que fazemos menos por curiosidade do que por necessidade social de veranear, são sempre e desesperadoramente os mesmos: Poços de Caldas, Caxambu, São Paulo e mais dois ou três sítios de menor importância. Há em todo o Brasil centenas de provincianos que sabem de cór o nome das ruas de Paris, que se têm perdido nas de Londres e nunca viram a do Ouvidor. Além de ser mais fácil aos habitantes do Pará e do Amazonas frequentarem os invernos europeus do que frequentarem os nossos, e o mesmo acontecendo aos do extremo sul, para quem Buenos Aires é mais acessível do que o Rio, há ainda um grande desprendimento pelo que é nosso... Para as preferências notadas há a justificação da menor distância, que implica a de menor despesa e a de menor cansaço; mas se nos lembrarmos de que mesmo dos Estados vizinhos iam pessoas à Europa, que se não dignavam de vir travar antes conhecimento com a Avenida Central?
Ao menos esta grande calamidade da guerra tem feito com que os nossos hoteleiros do interior vejam parar à porta das suas locandas carruagens pejadas de malas de que não saltam só os costumados cometas, mas, lá uma vez ou outra, algum hóspede que não viaje senão por este propósito quase absurdo — o propósito de ver.
Ver o quê?
Ah, bem sabemos que não vamos fazer romarias de arte; não encontraremos nem museus, nem pórticos de catedrais ou palácios antigos, nem arquitecturas de cidades históricas; mas em compensação observaremos aspectos novos e muito interessantes da nossa terra, e variados modos de ser da nossa gente. Eu por mim só lamento não a poder ver toda, com doces vagares, para me sentir penetrada pela diversidade das suas expressões e sabê-las traduzir, para a glorificar.
Geralmente, nós os brasileiros gostamos pouco de externar por escrito as nossas impressões de viagens, quer elas sejam feitas no Brasil, quer no estrangeiro; entretanto eu, sem propósito, reparo agora que, não tendo escrito nunca a respeito das sedutoras e inolvidáveis viagens que fiz na Europa, não deixo nunca de o fazer quando jornadeio no meu país...
De Santos em diante a viagem começa a ser nova para mim. Chego à linda e vasta baía de Paranaguá, que irradia oftalmias, como diria Fialho, dos revérberos ofuscadores das suas águas luminosas. Paramos longe da praia. Chegam botes com mercadores das pequenas indústrias do lugar, em que figuram cestinhas de taquara e madréporas pintadas.
As borboletas de cabaret querem comprar tudo quanto vêem e enchem-se de frutas verdes e doces grosseiros. Quando o vapor levanta ferro o dia esplende. Subo ao deck superior, para observar melhor a larga planície azul. O navio caminha para a barra, que toda se agita em espumaradas loucas e alvinitentes.
— É a água batida nos arrecifes, informam-me. Nós vamos passar pelo meio deles.
Na ponte vejo o comandante de binóculo em punho e dois outros vultos, sendo que um deles se move febrilmente de um lado para o outro.
Chegamos à barra quando no mar se faz uma grande cova, túmulo de safira lapidada, em que o azul se torna mais fino e maravilhoso, e por ela entra decididamente o nosso navio até gemer na areia, de que se safa aos poucos, em trepidações jeitosas mas lentas e rangedoras.
Olhamos uns para os outros com o sublime sorriso de quem sabe que nestes tempos de guerra não se deve ter medo de coisa alguma.
A guerra! ao menos nestes dias de isolamento, eu descanso da obsessão terrível que me obrigava, mal de manhã me levantava do leito, a correr para os telegramas dos jornais. Saída dos meus hábitos, sentindo paralisada a minha vida costumeira, tenho como que a impressão de que o mundo inteiro obedece ao mesmo repouso, ao mesmo espírito de liberdade pura que eu bebo a largos haustos no azul sem mácula do espaço infinito! Quem, sob este pálio de clemência e de harmonia, poderá conceber a ideia das atrocidades brutais dessa imunda xarqueada de carne humana que infesta o mundo e faz morrer de susto o coração das mãis?
Se Mulher quer dizer: — Criação — por que lhe não dá Deus forças para defender a sua criatura de tão horrível quanto detestada contingência?!
Ah, eu juro, soado o último tiro desta guerra, que só um gesto divino parece poderá fazer parar, empenharei todo o resto das minhas energias para catequizar almas em prol de outra guerra maior: "guerra à guerra" será o meu lema; será o lema de todas as mãis e de todos os homens de coração.
O sol declina. Entramos na plácida e larga baía de S. Francisco, chamada de Bapitonga. Já a sombra flutua sobre a montanha vestida de vegetação espessa.
Há neste recanto de Santa Catarina uma doçura suave que não atino se é dele se é da hora que passa...
Desembarcamos e seguimos pela linha do cais, rua branca, sossegada, que contorna a cidade. Noto umas árvores expressivas e ouço a um moço estudante do lugar o histórico do seu torrão adorado.
Contou-me um dia um paranaense que numas florestas do Paraná, em certo momento do crepúsculo, todos os animais que as habitam desprendem vozes tão plangentes e de tão extraordinário poder sugestivo que homem, mesmo o mais rude, que as ouça, estremece e pensa incontinente em coisas tristes e irremediáveis: uma pessoa morta; um amor não gozado; uma carta sem resposta; uma falta sem reparação... Tudo que pereceu no seu caminho ergue-se do mais fundo do passado ao som daquela elegia misteriosa, a requisitar ainda um pouco do seu pensamento. Não sendo a Vida senão uma contínua sucessão de mortes, nós somos túmulos vivos em que os dias enterram alegrias e desgostos... Os nossos mortos cá estão dentro e não esperam pela corneta do juízo final para de vez em quando, embora às vezes de muito em muito longe, se erguerem para que os vejamos e lhes demos ao menos um pouco da nossa piedade...
Caminhamos ainda sobre as areias brancas e galgamos uma ladeira até lá acima ao adro da Matriz.
Está tudo silencioso e já a lua ilumina o céu profundo. Não tenho vontade de falar.
Ouço apenas o que me dizem. Sinto uma alma de monja saudosa dentro de mim, e vacilo ainda em compreender se a poesia será da hora ou do lugar...
Desencadeia-se a tempestade entre São Francisco e a cidade do Rio Grande.
É uma dessas legítimas e famosas tempestades do sul de começo de inverno, com impetuosas marchas de nuvens e fanfarras de guerra na ventania.
Navegamos às escuras e a duzentas milhas da costa, em obediência ao aviso do Almirantado Inglês, embora sem a esperança de vermos o nosso caminho ameaçado pela impertinência de algum pérfido submarino. Nem ao menos o dorso negro e luzidio de alguma baleia, ou boto cabriolador, nos dá, nem deu nunca, a ilusão de nos acharmos em face de um perigo tão sensacional...
Ao cair da noite, ainda me atrevo a espreitar do tombadilho o que vai lá fora. As águas estão grossas e negras e o céu baixo e turvo.
Saem dos vagalhões vozes soturnas que parece ao meu ouvido, desesperadoramente atento, exprimirem a queixa dos milhares de náufragos que o mar tragou nestes abomináveis tempos de cólera e de tristeza. É a mocidade dos marinheiros afogados que tumultua sob a mortalha arfante das ondas, num choro de desespero sem esperança de consolação...
Com o correr da noite a fúria redobra de intensidade. Os retardatários, que ficaram a jogar, têm que atravessar o convés de gatinhas quando se querem recolher aos quartos, receosos de cair e serem arrebatados pelas ondas. Nos corredores, em baixo, a água é cercada e apanhada aos baldes pelos moços de bordo. Toda a gente enjoa, toda a gente sofre e prepara o ânimo para as eventualidades da procela...
Ao romper da madrugada tudo se apazigua. O dia acorda com bocejos anêmicos e todo envolvido em algodões pardos e enovelados. Começa o frio.
Chamam para o almoço, mas não vou: quero ver a entrada da cidade do Rio Grande. Já pelo mar dentro vejo os dois imensos molhes do seu porto, estendidos como dois braços para acolherem o forasteiro. Eles são bem o símbolo da hospitalidade amiga deste povo bom.
Vou enfim chegar ao Rio Grande, a terra clássica dos heróis guerreiros, dos vergéis opimos e das ágatas maravilhosas, região admirável, em que até as pedras têm fantasia e expressões imprevistas e singulares na sua contextura transparente de ouro velho, azulão, verde, vermelho ou tijolo, onde as veias escorrem leite, sangue, mel ou sol, em ondeamentos e ramificações caprichosas e indecifráveis.
Já no horizonte opalino se desenham os vultos imensos dos frigoríficos, velados por uma chuvinha constante e fina.
Entramos assim, em uma manhã de névoa no porto colossal da mais antiga das cidades do Rio Grande do Sul.
Atracado o vapor, apresso-me em descer ao cais, nessa ansiedade de pisar terra firme e de ver coisas novas, que é o prurido natural de toda a gente que viaja por mar.
Não é preciso estar-se prevenida: percebe-se num rápido golpe de vista a imensa importância deste porto, considerado pela engenharia brasileira como o mais completo de todo o país. Apesar da chuvinha insistente, que molha sem ser vista, como uma verdadeira poeira d'água, apraz-me caminhar um pouco pela larga faixa do seu grande cais, pois pouco tempo me concedem para um passeio longo. Saio, entretanto, em direção à cidade e beiro vastos terrenos conquistados ao mar, em que há uma regularíssima plantação de cedros marítimos.
À minha imaginação vagabunda, adoradora das florestas, sorri logo a ideia de que em poucos anos estes arbustos ainda pequeninos se tornarão em árvores adultas, que impregnem o ar salitroso da velha cidade marítima do seu aroma divino e toda a cinjam num bosque verde, de sagração.
Que delícia para o viandante de então, ao sair de sobre a onda buliçosa, passar sob as largas bênçãos dos cedros evocadores!
PORTO DO RIO GRANDE
Mas não. Os enfezados arbustos que aí estão, e em que os meus olhos já descortinam os gigantes do futuro, são de raça pequena e estão encarregados de uma missão de utilidade imediata: a de solidificarem as areias pelo emaranhamento das suas raízes.
Toda a vasta zona em que eles se enfileiram agora, será um dia, que não virá longe, convertida nas largas ruas e grandes avenidas de um bairro novo, que ligará o porto à parte antiga da operosa cidade.
Noto que do meu guarda-chuva a água escorre em fio e resolvo voltar para bordo. De mais a mais, é o dia 3 de Maio, e num feriado, e feriado chuvoso, é sempre melancólico o aspecto das ruas e injusto o juízo que delas se possa fazer...
Prefiro ir ler.
Ler! admiro e sobretudo invejo, que é afinal este o sentimento verdadeiro embora menos confessável, as pessoas que num vapor ou em um trem se abstraem de tudo e entendem, gozam e assimilam as leituras que fazem. Sou para tal de uma incapacidade tristemente desconfortável. Por maior que seja a minha disposição e grande o número de livros que leve na bagagem, não consigo encontrar em nenhum o interesse ou o deleite que me dariam se eu pudesse sentir o espírito leve e esperto.
A poucos passos da minha cadeira um sujeito de ar neurastênico afunda o nariz entre as páginas de um livro de que procuro disfarçadamente perceber o título. Deve ser alguma obra de filosofia, a julgar pelo tôrvo aspecto do leitor.
É muito difícil refrear a curiosidade que inspira um livro que vemos em mão alheia, ou fora do alcance da nossa, principalmente quando esse livro esteja ainda em brochura, nudez primitiva em cuja pele parece arder ainda o bafejo do autor. Para os que amam a leitura, uma obra literária ainda desconhecida é como que um mundo de outro sistema repleto de almas e coisas nunca antes reveladas e que por isso mesmo nos atraem. Apenas folheado o livro, quase sempre a ilusão se desfaz, porque só muito raramente encontramos nele a acha acesa de uma ideia nova.
O tempo continua fosco à hora de entrarmos no porto de Pelotas. Singramos agora o rio S. Gonçalo, vendo em uma e em outra margem extensos campos de pastagem, em que o verde pálido e suavíssimo da vegetação se orla no horizonte por uma faixa larga de areias brancas. À beira das águas, que desenham no seu curso harmoniosas curvas, como se tivessem sido dirigidas por um paisagista entre relvados de um parque, noto grupos de aves de diferentes cores. Indago. São gaivotinhas brancas, a que dão o nome de trinta-réis, são os Guanapos cor de rosa, as marrequinhas e as garças. Mostra-se de vez em quando, isolada na campina, uma ou outra casa grande de lavradores, isto é, de criadores, e já na vizinhança da cidade, vejo um imenso terreiro coberto pelos tendais de pau de uma xarqueada.
É outra a cor dos vegetais das margens; é outra a cor das águas em que navegamos. O casco do Itaberá passou no Rio Grande das ondas salgadas do mar para a água doce do rio. Deslizamos agora suavemente, como que dentro de uma aquarela inglesa. O ar está húmido, a manhã desmaiada.
Desembarco. Tenho pressa de ir fazer a minha reverência à Princesa do Sul, como os rio-grandenses denominam Pelotas. Temos apenas uma hora para espairecer; não basta para se fazer ideia de uma cidade; noto, entretanto, a regularidade das suas ruas traçadas em xadrez e a lindeza da sua praça central, perfeitamente ajardinada. Uma cidade que ama as flores inspira-me sempre simpatia. Mas, eu quereria ainda vê-las em maior abundância. Ah, minhas queridas amigas pelotenses, fazei de árvores e de flores propaganda carinhosa e incessante; não deixeis um metro dos vossos quintais sem cultura e guarnecei de jardineiras as janelas de vossas casas, para que delas se debruce sobre a aridez mineral das paredes e das calçadas a graça cor de rosa dos alegres gerânios...
O trabalho é insignificante, o resultado é lindíssimo. A Princesa do Sul, merece mais: merece grinaldas de rosas!
Naveguemos agora para a Lagoa dos Patos.
Nos meus tempos de colegial, estas águas exerciam estranha fascinação sobre a minha curiosidade. Supunha-as coalhadas de asas dos palmípedes que lhe tivessem dado o nome e tintas de azul violento. Deveria cingi-las um imenso anel de esmeraldas vegetais, pontilhado de onde a onde pelo marfim de grandes lírios aquáticos.
Era, como vêem, uma espécie dessas abomináveis paisagens a seda, sem outro relevo que o de contrastes buliçosos de colorido. A imaginação das crianças é enganadora e desproporcionada. Olho agora com certa melancolia para a planície imensa das águas lívidas sobre que se debruçam nuvens pardas e enoveladas.
Andamos em marcha sinuosa pelas grandes curvas que o canal descreve no vasto leito da lagoa imensa, entre balizas que o assinalam e que têm a forma de barriquinhas que flutuam.
Quando a lagoa se zanga as suas raivas fazem sofrer mais ao viajante, dizem, do que as fúrias do mar. Hoje, felizmente, ela está de boa paz, embora tristonha. Vai-lhe bem essa placidez em que se sente um pensamento: o mistério do fundo, que tem sua poesia. Na superfície perpassam aqui e acolá leves borrões de sombra em flutuações, crespas, que fazem pensar nos corações trêmulos e perdidos dos náufragos da guerra... Atirou-os talvez a onda amarga do oceano para a remançosa doçura destas águas sem perigo, em que navegamos agora, já com todas as lâmpadas acesas!
Com cerca de vinte horas desde Pelotas, passamos pelo farol de Itapoan. Emerge-lhe a torre da pedraria da encosta, cuja língua escamosa se estende a lamber a epiderme das águas cor de pérola. Deixamos a lagoa e entramos no formoso Guaíba, que sulcamos até ver de face a casaria em anfiteatro de Porto Alegre.
O nome foi bem posto. Fundada na margem côncava e oriental do rio, e banhada a norte, sul e oeste pelas águas largas de uma baía doce, em que desaguam cinco outros rios, todos navegáveis, essa cidade tem expressão risonha e carinhosa. Esta última virtude é talvez devida à regular suavidade da linha curva, com que a sua margem contorna e abraça as águas do Guaíba, oferecendo-se como um seio amigo ao forasteiro curioso.
Como nas outras cidades irmãs, eu olho para esta através de uma cortina de chuva peneirada.
Um conhecedor do lugar, meu companheiro de viagem, responde às minhas inquirições:
— Aquele arvoredo? é da praça da Harmonia.
— As duas torres acolá, que lhe parecem descomunais? São da igreja das Dores. Aquela enseada? A do Menino-Deus... Aqui a Doca e o Mercado. Além, no alto, vê? a linha do Palácio Novo.
Observadas assim, as casas parecem encarrapitadas umas nas outras, o que assombrou uma certa senhora do interior, que ao vê-las perguntou a uma pessoa de bordo:
— Então a gente aqui para entrar e sair de casa tem de caminhar pelos telhados dos vizinhos?!
Sorrio e, vendo que já estamos atracados ao cais, despeço-me do comandante, e já aperto lisonjeada a mão amável do representante do Intendente de Porto Alegre, que me apresenta os cumprimentos de boa vinda.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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