Universo da obra
Universo da obra
## Advertência
Para ser corretamente compreendido, o livro que apresento aqui pede ser lido, não como uma obra metafísica, menos ainda como uma espécie de ensaio teológico, e sim única e exclusivamente como uma memória científica. A própria escolha do título o indica. Nada além do Fenômeno. E também o Fenômeno inteiro.
Nada além do Fenômeno, primeiro. Que ninguém procure, portanto, nestas páginas, uma explicação, e sim apenas uma introdução a uma explicação do Mundo. Estabelecer ao redor do Homem, escolhido por centro, uma ordem coerente entre consequentes e antecedentes; descobrir, entre elementos do Universo, não um sistema de relações ontológicas e causais, e sim uma lei experimental de recorrência que exprima sua aparição sucessiva no curso do Tempo: eis, simplesmente, o que procurei fazer.
Para além dessa primeira reflexão científica, bem entendido, permanece aberta, essencial e imensa, a região das reflexões mais avançadas, próprias do filósofo e do teólogo. Nesse domínio do ser profundo, evitei cuidadosa e deliberadamente, em todo momento, aventurar-me.
No máximo, confio ter reconhecido, no plano da experiência, com alguma justeza, o movimento de conjunto, voltado para a unidade, e ter marcado nos lugares adequados os cortes que, em suas iniciativas posteriores e por razões de ordem superior, o pensamento filosófico e religioso teria o direito de exigir[^1].
Mas também o Fenômeno inteiro. E é isso que, sem contradição, embora possa parecê-lo, corre o risco de dar às vistas que sugiro a aparência de uma filosofia. Há cerca de cinquenta anos, a crítica das Ciências o demonstrou com sobra: não há fato puro; toda experiência, por mais objetiva que pareça, envolve-se inevitavelmente em um sistema de hipóteses quando o sábio procura formulá-la.
Ora, se no interior de um campo limitado de observação essa auréola subjetiva de interpretação pode permanecer imperceptível, é fatal que, no caso de uma visão estendida ao Todo, ela se torne quase dominante. Tal como acontece com os meridianos quando se aproximam do polo, Ciência, Filosofia e Religião convergem necessariamente nas vizinhanças do Todo. Elas convergem, digo bem; contudo, sem se confundirem e sem deixarem, até o fim, de atacar o Real por ângulos e em planos diferentes.
Tomemos qualquer livro escrito sobre o Mundo por um dos grandes sábios modernos, Poincaré, Einstein, Jeans, etc. É impossível tentar uma interpretação científica geral do Universo sem parecer querer explicá-lo até o fundo. Olhe-se, porém, um pouco mais de perto, e se verá que essa “Hiperfísica” ainda não é uma Metafísica.
No curso de todo esforço desse gênero para descrever cientificamente o Todo, é natural que se manifeste, com a maior amplitude, a influência de certos pressupostos iniciais dos quais depende a estrutura inteira do sistema que vem adiante. No caso particular do Ensaio aqui apresentado, duas opções primordiais, faço questão de assinalar, somam-se uma à outra para sustentar e comandar todos os desenvolvimentos.
A primeira é o primado concedido ao psíquico e ao Pensamento na matéria do Universo. A segunda é o valor “biológico” atribuído ao Fato Social ao nosso redor.
Significação preeminente do Homem na Natureza e natureza orgânica da Humanidade: duas hipóteses que se pode tentar recusar de início; contudo, sem elas, não vejo meio de oferecer uma representação coerente e total do Fenômeno Humano.
Paris, março de 1947.
Por ora, ocupo tudo o que tenho de forças e de lazeres em fazer avançar o livro que você conhece. Se ele chegar a termo, talvez seja esse o gesto a partir do qual outros gestos se seguirão. Reze para que eu consiga encontrar as palavras que queria, a fim de exprimir e fazer ver aquilo que creio ver. Em estrita verdade, tenho consciência de não escrever para mim, e sim com um desejo, como nunca senti, de fazê-lo aparecer maior, tal como deve ser.
Mas é tão difícil traduzir em frases uma visão, por mais clara que ela seja, de um ideal... Seria preciso ter o pensamento e o estilo do próprio Platão... Enfim, terei feito o que posso. Imagino terminar antes do fim do verão. E então, no próximo ano, seria preciso abordar a questão da publicação, eu mesmo na Europa, se possível.
Mantenha-me informado do que faz e do que vê.
Respeitosamente e fielmente seu,
Teilhard de Ch.
## Notas
1. Ver, por exemplo, mais adiante: p. 186, nota 1; p. 206, nota 1; p. 332, nota 1.
Tradução original Literunico em português brasileiro de Le Phénomène humain, de Pierre Teilhard de Chardin, preparada a partir do francês original em domínio público da edição Éditions du Seuil de 1955 disponível na Wikisource francesa, com scan ligado ao Gallica.
Critério de domínio público no Brasil: direitos patrimoniais por vida do autor mais 70 anos, contados de 1º de janeiro do ano seguinte ao falecimento. Pierre Teilhard de Chardin faleceu em 1955; obra livre no Brasil desde 1º de janeiro de 2026.
Escopo editorial: esta edição exclui o Avant-Propos de N. M. Wildiers, assinalado pela Wikisource como elemento sujeito a direitos autorais, e traduz apenas o texto autoral de Teilhard de Chardin.
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