III. O Pensamento - Capítulo II - O Desdobramento da Noosfera O Fenômeno Humano - Tradução Literunico · Capítulo 10 de 17
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III. O Pensamento - Capítulo II - O Desdobramento da Noosfera

## III. O Pensamento - Capítulo II - O Desdobramento da Noosfera

Para multiplicar os contatos necessários a seus tateamentos, e para poder armazenar a variedade polimorfa de suas riquezas, a Vida só pode avançar por massas profundas. Quando, portanto, seu curso sai dos desfiladeiros onde uma mutação nova a havia como que estrangulado, quanto mais estreita a fieira de onde emerge e mais vasta a superfície que deve cobrir com sua vaga, tanto mais lhe é necessário reconstituir-se em multidão.

A Humanidade trabalhando, sob o impulso de um instinto obscuro, para transbordar em torno de seu ponto estreito de emersão até submergir a Terra. O Pensamento fazendo-se Número para conquistar todo espaço habitável por sobre qualquer outra forma da Vida. O Espírito, em outras palavras, formando e desdobrando as Nappes da Noosfera.

Nesse esforço de multiplicação e expansão organizada resumem-se e se exprimem finalmente, para quem sabe ver, toda a Pré-história e toda a História humanas, desde as origens até nossos dias.

Tentemos, em alguns traços, desenhar as fases, ou vagas sucessivas, dessa invasão.

**Fig. 4. Figura esquemática simbolizando o desenvolvimento da Nappe humana.** Os números à esquerda contam os milhares de anos. Representam um mínimo e provavelmente deveriam ser ao menos duplicados. A zona hipotética de convergência sobre Ômega, em pontilhado, evidentemente não está expressa em escala. Por analogia com as outras Nappes vivas, sua duração seria da ordem dos milhões de anos.

### 1. A Fase Ramificada dos Pré-hominíneos

Por volta do extremo fim do Plioceno,[1] um vasto movimento de elevação, uma sacudida positiva, parece ter afetado as massas continentais do Antigo Mundo, do Atlântico ao Pacífico. Um pouco por toda parte, nessa época, as bacias se esvaziam, os desfiladeiros se cavam, e massas espessas de aluviões se espalham pelas planícies. Antes dessa grande mudança, nenhum traço certo de Homem foi ainda identificado em lugar algum.

Mal ela se conclui, as pedras talhadas se encontram misturadas aos cascalhos de quase todos os terraços da África, da Europa ocidental e da Ásia meridional.

Do Homem quaternário inferior, contemporâneo e autor desses primeiros instrumentos, conhecemos ainda apenas dois representantes fósseis, embora os conheçamos bem: o Pithecanthropus de Java, por muito tempo representado por uma simples calota craniana, mas recentemente reencontrado em amostras muito mais satisfatórias; e o Sinanthropus da China, descoberto em numerosos exemplares ao longo dos últimos dez anos.

Dois seres tão estreitamente aparentados que a natureza de cada um permaneceria obscura se não tivéssemos, para compreendê-los, a boa fortuna de poder compará-los entre si.[2]

Que nos ensinam esses restos veneráveis, velhos, pelo menos, de cem ou duzentos mil anos?

Um primeiro ponto sobre o qual os Antropologistas estão agora de acordo é que, com o Pithecanthropus, assim como com o Sinanthropus, temos formas já francamente homininas por sua anatomia. Se dispomos em série seus crânios, entre os dos maiores Macacos e os dos Homens recentes, um corte morfológico, um vazio, aparece com evidência entre eles e os Antropoides, enquanto do lado dos Homens formam naturalmente um bloco.

Face relativamente curta. Caixa craniana relativamente espaçosa: no Homem de Trinil, a capacidade cerebral pouco desce abaixo de 800 cm³, e no Homem de Pequim chega, nos maiores machos, a 1100.[3] Mandíbula inferior essencialmente construída, adiante, rumo à sínfise, sobre o tipo antrópico. Enfim, e sobretudo, membros anteriores livres e estação bípede. Por esses sinais é claro que nos achamos decididamente sobre a vertente humana.

Entretanto, por hominíneos que fossem, Pithecanthropus e Sinanthropus, a julgar por sua fisionomia, eram ainda criaturas estranhas, tais que sobre a Terra, e há muito tempo, já não existem. Crânio alongado, fortemente pinçado atrás de enormes órbitas. Crânio rebaixado, cuja seção transversal, em vez de ovoide ou pentagonal como em nós, desenha um arco largamente aberto no nível das orelhas. Crânio poderosamente ossificado, onde a caixa cerebral não forma saliência proeminente atrás, encontrando-se antes circundada posteriormente por espesso rebordo occipital. Crânio prognata, enfim, onde os arcos dentários se projetam fortemente para a frente, acima de uma sínfise não somente desprovida de queixo, como ainda recuante.

E depois, para terminar, dimorfismo sexual extremamente marcado: fêmeas pequenas, de dentes e mandíbulas antes graciosos; machos robustos, de molares e caninos poderosos. Diante desses diversos caracteres, de modo algum teratológicos, e sim expressivos de uma arquitetura bem estabelecida e bem equilibrada, como deixar de reconhecer uma convergência anatômica, por baixo, rumo ao mundo "simiesco"?

Tudo considerado, do Homem de Trinil e do Homem de Pequim podemos desde já afirmar cientificamente que, graças à dupla descoberta deles, conhecemos no interior da Humanidade um grau morfológico, um estádio evolutivo e um verticilo zoológico a mais.

Um grau morfológico: pois sobre a linha que separa, por exemplo, um Branco de um Chimpanzé, eles se colocam, pela forma do crânio, quase exatamente a meio caminho.

Um estádio evolutivo também: pois, tenham ou não deixado descendentes diretos no mundo atual, representam verossimilmente um tipo pelo qual o Homem moderno deve ter passado em dado momento no curso de sua filogênese.

Um verticilo zoológico, enfim: pois, por estreitamente localizado que seu grupo tenha parecido em extrema borda da Ásia oriental, esse grupo fazia evidentemente parte de um conjunto muito mais vasto, sobre cuja natureza e estrutura voltarei um pouco adiante.

Em suma, o Pithecanthropus e o Sinanthropus são bem mais que dois tipos antropológicos interessantes. Por meio deles, é toda uma vaga de Humanidade que entrevemos.

Os paleontólogos provaram portanto, mais uma vez, seu senso das perspectivas naturais da Vida ao isolar, como unidade natural distinta, essa antiquíssima e muito primitiva Nappe humana. Criaram até para ela o nome de "Pré-hominíneos". Termo expressivo e correto, se consideramos a progressão anatômica das formas. Termo, porém, que corre o risco de velar, ou de mal situar, a descontinuidade psíquica na qual julgamos dever colocar o vivo da hominização.

Qualificar de Pré-hominíneos o Pithecanthropus e o Sinanthropus poderia insinuar que estes ainda não eram Homens absolutamente, isto é, segundo minha maneira de falar, que ainda não haviam cruzado o passo da Reflexão. Ora, parece-me muito mais provável, ao contrário, que, sem ter atingido, longe disso, nesse patamar, o nível em que nos achamos, ambos já fossem, no sentido acabado da palavra, seres inteligentes.

Que fossem assim me parece primeiro requerido pelo mecanismo geral da filogênese. Uma mutação tão fundamental quanto o Pensamento, e que dá a todo o grupo humano seu impulso específico, não poderia, a meu ver, ter aparecido em meio de caminho, a meia altura da haste. Ela comanda todo o edifício.

Seu lugar está portanto abaixo de todo verticilo reconhecível, nas profundezas inatingíveis do pedúnculo; abaixo, pois, de seres que, por pré-hominíneos que sejam na construção do crânio, se colocam distintamente já acima do ponto de origem e desabrochamento de nossa Humanidade.

Mas há mais.

Associada diretamente aos restos do Pithecanthropus, ainda não conhecemos nenhum traço de indústria. Isto se deve às condições do jazimento: em torno de Trinil, os fósseis se encontram em estado de ossadas arrastadas para um lago por rios. Perto de Pequim, em compensação, onde o Sinanthropus é surpreendido no abrigo, em uma gruta preenchida, os instrumentos de pedra abundam, misturados aos ossos queimados.

Seria preciso, como sugerido por M. Boule, ver nessa indústria, às vezes, confesso, de qualidade surpreendente, os vestígios deixados por outro Homem desconhecido, ao qual o Sinanthropus, ele próprio não "faber", teria servido de caça? Enquanto nenhum osso desse Homem hipotético for encontrado, a ideia me parece gratuita e, tudo considerado, menos científica. O Sinanthropus já talhava pedras; e já fazia fogo.

Até prova em contrário, essas duas propriedades fazem parte, no mesmo título que a Reflexão, do "pedúnculo". Reunidos em um feixe inseparável, os três elementos surgem universalmente ao mesmo tempo que a Humanidade. Eis, objetivamente, a situação.

Se é assim, vemos que, a despeito de seus caracteres osteológicos tão reminiscentes dos Antropoides, os Pré-hominíneos estavam psicologicamente muito mais perto de nós e, por consequência, filogeneticamente muito menos jovens e primitivos do que poderíamos pensar.

Pois, enfim, foi preciso tempo para descobrir a chama e a arte de fabricar um instrumento cortante... Tanto que, atrás deles, haveria amplamente lugar para ao menos outro verticilo humano, que talvez terminemos por encontrar no Villafranchiano.

Ao mesmo tempo que o Pithecanthropus e o Sinanthropus viviam certamente, dissemos mais acima, outros Hominíneos chegados ao mesmo estádio de desenvolvimento. Deles possuímos ainda, infelizmente, apenas restos insuficientes: a famosa mandíbula de Mauer, na Alemanha, talvez; e, na África oriental, o crânio mal conservado do Africanthropus. Para determinar a fisionomia geral do grupo, isto não basta.

Sobre aquilo que gostaríamos de saber, no entanto, uma observação pode servir indiretamente para nos esclarecer.

Do Pithecanthropus conhecemos agora duas espécies: uma relativamente pequena; a outra muito mais robusta e "brutal". A elas se somam duas formas positivamente gigantes, representadas em Java por um fragmento de mandíbula, e na China do Sul por dentes isolados. O que, com o Sinanthropus, faz ao todo, para a mesma época e sobre a mesma franja continental, cinco tipos diferentes, seguramente aparentados.

Essa multiplicidade de formas vizinhas apertadas umas contra as outras em faixa estreita, bem como essa curiosa tendência comum ao gigantismo, não sugerem a ideia de um "raio" ou folheto zoológico marginal isolado, mutando sobre si mesmo de maneira quase autônoma? E o que se passava então na China e na Malásia não teria tido, no mesmo momento, equivalente em outros lugares, no caso de outros raios, mais a Ocidente?

Nesse caso, seria preciso dizer que, zoologicamente falando, o grupo humano não formava, no Quaternário inferior, senão um conjunto ainda pouco coerente, onde dominava ainda a estrutura divergente habitual aos outros verticilos animais.

Mas já também, sem dúvida, nas regiões mais centrais dos continentes,[4] os elementos de uma vaga humana nova, mais compacta, se agrupavam, inteiramente prontos a substituir esse mundo arcaico.

### 2. O Feixe dos Neandertaloides

Geologicamente, depois do Quaternário inferior, o pano cai. Durante o entreato, os depósitos de Trinil se dobram. As Terras Vermelhas da China se ravinam, prontas a receber seu espesso manto de Loess amarelo. A África se fissura um pouco mais. Em outros lugares, os gelos avançam e recuam. Quando o pano se ergue de novo, há uns 60.000 anos, e podemos ver a cena, os Pré-hominíneos desapareceram. E, sob seu cenário, a Terra está ocupada pelos Neandertaloides.

Dessa Humanidade nova, os fósseis que conhecemos são já muito mais numerosos que na época precedente. Efeito de aproximação, sem dúvida. Mas efeito também de multiplicação. Pouco a pouco, a rede pensante se estende e se aperta...

Progresso em número. E, simultaneamente, progresso em hominização.

Diante do Pithecanthropus e do Sinanthropus, a Ciência pôde ficar desconcertada e perguntar-se com que espécie de ser se encontrava. No Quaternário médio, salvo um minuto de hesitação diante do crânio de Spy ou da calota de Neanderthal, a questão nunca se pôs seriamente: estávamos na presença de vestígios deixados por alguns representantes de nossa raça. Esse vasto desenvolvimento do cérebro. Essa indústria das grutas. E, pela primeira vez, esses casos indiscutíveis de sepulturas.

Tudo o que define e manifesta um Homem verdadeiro.

Homem verdadeiro, portanto; e Homem, entretanto, que ainda não era exatamente nós.

Crânio geralmente alongado. Fronte baixa. Órbitas maciças e proeminentes. Prognatismo ainda sensível da face. Ausência ordinária de fossas caninas. Ausência de queixo. Dentes maciços, sem colo distinto entre coroa e raiz... Diante desses diversos caracteres, nenhum antropologista deixaria de identificar, no primeiro golpe de vista, os restos fósseis de um Neandertaloide europeu. Mesmo entre os Australianos e os Ainos, nada existe mais sobre a Terra, com efeito, com que confundi-los.

O avanço é manifesto, dizia eu, em relação aos homens de Trinil e Pequim. Mas o corte é apenas menos grande, adiante, em relação ao Homem moderno. Novo grau morfológico a marcar, portanto. Novo estádio evolutivo a distinguir. E, inevitavelmente também, em virtude das leis da filogênese, novo verticilo zoológico a suspeitar, cuja realidade não cessou, ao longo dos últimos anos, de se impor à Pré-história.

Quando foram descobertos, na Europa ocidental, os primeiros crânios "mousterianos", e ficou bem comprovado que essas ossadas não haviam pertencido nem a idiotas, nem a degenerados, a ideia inteiramente natural dos anatomistas foi imaginar, nos tempos Paleolíticos médios, uma Terra povoada de Homens correspondendo exatamente ao tipo de "Neanderthal". Daí certa decepção, talvez, ao constatar que os achados, multiplicando-se, não confirmavam a simplicidade dessa hipótese.

De fato, a diversidade, sempre mais aparente, dos Neandertaloides é precisamente aquilo que deveríamos ter esperado. E é ela, vemos agora, que dá finalmente a seu feixe o interesse e a fisionomia verdadeira.

No estado presente de nossa ciência, dois grupos distintos, cada um traindo estádio diferente de evolução filética, se reconhecem entre as formas ditas "neandertaloides": o grupo das formas terminais e um grupo juvenil.

Primeiro, grupo terminal, no qual sobrevivem e depois se extinguem os diversos raios, mais ou menos autônomos, que compunham verossimilmente, dissemos, o verticilo dos Pré-hominíneos. Em Java, o Homem de Solo, descendente direto, e tão pouco mudado, dos homens de Trinil.[5] Na África, o extraordinariamente brutal Homem da Rodésia. E na Europa, enfim, se não me engano, o próprio Homem de Neanderthal, que, apesar de sua notável e persistente extensão por toda a Europa ocidental, não parece representar outra coisa senão a última fronde de um ramo que termina.

Mas também, ao mesmo tempo, grupo juvenil: nebulosa ainda mal resolvida de pseudo-Neandertaloides com traços sempre bem primitivos, embora distintamente modernizados, ou modernizáveis: cabeça mais redonda, órbitas menos salientes, fossas caninas mais marcadas, queixo às vezes nascente. Tal o Homem de Steinheim. Tais os Homens da Palestina. Neandertaloides, incontestavelmente. Mas já tão mais próximos de nós!... Ramo progressivo e adormecido, dir-se-ia, à espera de um próximo despertar.

Recoloquemos em boa luz, geograficamente e morfologicamente, esse triplo feixe. Longe de formar um complexo perturbador, ele desenha uma ordenação familiar. Folhas que acabam de cair; folhas ainda abertas, mas que começam a amarelar; folhas ainda dobradas, embora vigorosas, no coração do buquê de palmas: a seção completa, quase ideal, de um leque zoológico.

### 3. O Complexo Homo Sapiens

Um dos grandes espantos da Botânica é ver, no começo do Cretáceo, o mundo das Cicas e Coníferas bruscamente deslocado e submerso por uma floresta de Angiospermas: Plátanos, Carvalhos, a maioria de nossas essências modernas, derramando-se, já inteiramente formadas, sobre a flora jurássica, vindas de alguma região desconhecida do globo.

Igual é a perplexidade do antropologista quando, separados nas grutas apenas por um soalho de estalagmites, descobre, superpostos um ao outro, o Homem do Moustier e o Homem de Cro-Magnon, ou o Homem de Aurignac. Neste caso, praticamente, nenhum corte geológico. E, entretanto, uma rejuvenesção fundamental da Humanidade. Expulsa pelo clima, ou empurrada pela inquietude de sua alma, a invasão brusca, por cima dos Neandertaloides, do Homo sapiens.

Esse Homem novo, de onde vinha?... Alguns antropologistas gostariam de ver nele o resultado final de certas linhagens já reconhecidas em épocas anteriores, o descendente direto, por exemplo, do Sinanthropus. Por razões técnicas definidas, e ainda mais por analogias de conjunto, convém encarar as coisas de outro modo. Sem dúvida alguma, em algum lugar e à sua maneira, o Homem do Paleolítico superior deve ter passado por uma fase pré-hominínea e depois por uma fase neandertaloide.

Mas, semelhante nisso aos Mamíferos, aos Trituberculados e a todos os outros phyla, parece escapar à nossa visão durante essa embriogênese talvez acelerada. Imbricação e substituição, antes que continuidade e prolongamento: a lei dos revezamentos, ainda aqui, dominando a História.

Imagino portanto de bom grado o recém-chegado como nascendo de uma linha de evolução autônoma, por muito tempo escondida, embora secretamente ativa, e que, um belo dia, entre todas as outras, emergiu triunfante; no coração, sem dúvida, desses pseudo-Neandertaloides cujo feixe vivaz e provavelmente muito antigo assinalávamos acima. Em qualquer hipótese, um fato é certo, e todos o admitem.

O Homem que percebemos sobre a Terra, no fim do Quaternário, é verdadeiramente já o Homem moderno, e de todas as maneiras.

Anatomicamente, primeiro, nenhuma dúvida possível. Essa fronte elevada, de órbitas reduzidas; esses parietais largamente abaulados; essa crista occipital fraca e bem recolhida sob o cérebro que se arredonda; essa mandíbula delicada, de queixo proeminente; todos esses traços tão bem marcados nos últimos habitantes das cavernas são os nossos, definitivamente. Tão nossos que, a partir desse momento, o Paleontólogo, habituado a trabalhar sobre fortes diferenças morfológicas, já não se sente à vontade para distinguir, entre eles e o Homem vivo, os restos do Homem fóssil.

Para essa tarefa sutil, seus métodos e seu olhar já não bastam; deve doravante ceder lugar às técnicas e às audácias da Antropologia mais delicada. Já não a reconstituição, por grandes linhas, dos horizontes ascendentes da Vida. Sobre uma espessura de duração que não passa de 30 milênios, antes a análise das nuances emaranhadas que formam nosso primeiro plano. Trinta mil anos. Longo período na escala de nossas vidas. Um segundo para a evolução. Do ponto de vista osteológico, nesse intervalo, nenhum corte apreciável ao longo do phylum humano; e mesmo, até certo ponto, nenhuma mudança maior no progresso de sua ramificação somática.

Pois é isto que leva ao cúmulo nossa surpresa. Em si, nada de muito natural se, estudada em seu ponto de saída, a haste do Homo sapiens fossilis, longe de ser simples, trai na composição e na divergência de suas fibras a estrutura complexa de um leque. Tal é, sabemos, a condição inicial de todo phylum na Árvore da Vida. Ao menos esperávamos, nessas profundezas, um buquê de formas relativamente primitivas e generalizadas: algo antecedente, pela forma, às nossas raças presentes. Ora, é antes o contrário que encontramos.

Que eram, com efeito, tanto quanto se possa confiar nos ossos para conjecturar a carne e a pele, que eram, na idade da Rena, os primeiros representantes do novo verticilo humano recém-eclodido? Nada além, já, daquilo que vemos viver ainda hoje, aproximadamente nos mesmos lugares da Terra. Negros, Brancos, Amarelos, no máximo pré-Negros, pré-Brancos, pré-Amarelos; e esses grupos diversos já acantonados, em grosso, do sul ao norte, do oeste ao leste, em suas zonas geográficas atuais: eis o que, da Europa à China, percebemos no Antigo Mundo, no fim do último glaciar.

No Homem do Paleolítico superior, portanto, tanto ao notar os traços essenciais de sua anatomia quanto ao seguir as linhas mestras de sua etnografia, é realmente a nós mesmos, é nossa própria infância, que descobrimos. Não apenas o esqueleto do Homem moderno, já; também as peças mestras da Humanidade moderna. Mesma forma geral do corpo. Mesma repartição fundamental das raças. Mesma tendência, ao menos esboçada, dos grupos étnicos a se reunir, por cima de toda divergência, em um sistema coerente. E, como isto não se seguiria agora, mesmas aspirações essenciais no fundo das almas.

Nos Neandertaloides, vimos, um passo psíquico é manifesto, marcado, entre outros indícios, pela aparição, nas grutas, das primeiras sepulturas. Mesmo aos Neandertalianos mais reforçados todos concordam em conceder a chama de uma inteligência verdadeira. Dessa inteligência, contudo, a atividade parece ter sido largamente absorvida pelos cuidados de sobreviver e propagar-se. Se havia mais, não o conhecemos, ou não o reconhecemos. Que podiam pensar esses primos distantes? Não temos nenhuma ideia.

Na idade da Rena, ao contrário, com o Homo sapiens, é um Pensamento definitivamente liberado que explode, ainda todo quente, nas paredes das cavernas. Em si, os recém-chegados traziam a Arte, uma arte naturalista ainda, mas prodigiosamente consumada. E, graças à linguagem dessa arte, podemos, pela primeira vez, entrar de pleno direito na consciência dos seres desaparecidos cujos ossos remontamos.

Estranha proximidade espiritual, até no detalhe! Os ritos expressos em vermelho e negro na parede das grutas, na Espanha, nos Pireneus, no Périgord, não são ainda praticados sob nossos olhos, na África, na Oceania, até na América? Que diferença há, por exemplo, foi observado, entre o Feiticeiro dos "Trois-Frères", coberto com sua pele de Cervo, e certa divindade oceânica?...

Mas isto ainda não é o mais importante. Podemos nos enganar ao interpretar à moderna as marcas de mãos, os bisões encantados, os emblemas de fecundidade, pelos quais se exprimiam as preocupações e a religião de um Aurignaciano ou de um Magdaleniano. Onde, ao contrário, não poderíamos enganar-nos é quando, tanto pela perfeição do movimento e das silhuetas quanto pelo jogo imprevisto das incisões ornamentais, percebemos nos artistas dessa idade distante o senso da observação, o gosto da fantasia, a alegria de criar: essas flores de uma consciência já refletida e exuberante sobre si mesma.

Assim, a inspeção dos esqueletos e dos crânios não nos enganava. No Quaternário superior, é de fato o Homem atual, em toda a força do termo, que aparece: o Homem ainda imaturo, já chegado à "idade da razão". A partir desse momento, em relação a nós, seu cérebro está acabado, tão acabado que, desde essa época, nenhuma variação mensurável parece ter aperfeiçoado mais adiante o instrumento orgânico de nosso pensamento.

No fim do Quaternário, a evolução, no Homem, teria então parado?

De modo algum. Mas, sem prejulgar aquilo que pode continuar a desenvolver-se insensivelmente no segredo dos sistemas nervosos, ela, desde essa data, transbordou francamente suas modalidades anatômicas para se estender, ou talvez mesmo emigrar pelo vivo de si mesma, às zonas individuais e coletivas da espontaneidade psíquica.

É doravante sob essa forma que teremos de reconhecê-la e segui-la, quase exclusivamente.

### 4. A Metamorfose Neolítica

Ao longo dos phyla vivos, ao menos entre os animais superiores, nos quais podemos seguir as coisas mais comodamente, a socialização representa progresso relativamente tardio. Produz-se como acabamento de maturidade. No Homem, por razões estreitamente ligadas ao poder de reflexão, a transformação se acelera. No ponto mais remoto em que apreendemos nossos grandes ancestrais, eles nos aparecem em grupos, em torno do fogo.

Por claros que possam ser, contudo, nessas épocas muito antigas, os indícios de associação, o fenômeno ainda está incompletamente desenhado. Mesmo no Paleolítico superior, as populações que discernimos não parecem ter constituído muito além de grupos bastante frouxos de caçadores errantes. É somente no Neolítico que começa a produzir-se, entre elementos humanos, a grande soldadura que não deveria mais parar.

O Neolítico, idade desdenhada pelos pré-historiadores porque é jovem demais. Idade negligenciada pela História, porque suas fases não podem ser exatamente datadas. Idade crítica, entretanto, e solene entre todas as idades do Passado: o nascimento da Civilização.

De que modo esse nascimento ocorreu? Mais uma vez, e sempre em conformidade com as leis que regulam nossa visão do Tempo para trás, não o sabemos. Há alguns anos, entre os últimos níveis de pedras talhadas e as primeiras zonas de pedras polidas e cerâmica, falava-se simplesmente de "grande corte". Desde então, uma série de horizontes intercalares, melhor identificados, aproxima pouco a pouco as bordas da fenda. Essencialmente, porém, a greta permanece.

Jogo de migrações ou efeito de contágio? Chegada brusca de alguma vaga étnica, silenciosamente reunida em outro lugar nas regiões mais férteis do globo, ou propagação irresistível de inovações fecundas? Movimento de povos sobretudo, ou sobretudo movimento de cultura?... Ainda não sabemos dizer bem.

O que é certo é que, depois de uma lacuna geologicamente mínima, embora nela seja preciso colocar o tempo requerido para a seleção e a domesticação de todos os animais e plantas sobre os quais ainda hoje vivemos, em lugar dos caçadores de Cavalos e Renas, encontramos diante de nós uma Humanidade sedentária e organizada. Em uma ou duas dezenas de milênios, o Homem dividiu a Terra entre si e nela se enraizou.

Nesse período decisivo da Socialização, como no instante da Reflexão, um feixe de fatores parcialmente independentes parece ter misteriosamente confluído para sustentar e forçar a Hominização em seu avanço. Tentemos pôr ordem nisso.

Antes de tudo, os progressos incessantes da Multiplicação. Com o número rapidamente crescente dos indivíduos, o terreno livre se estreita. Os grupos se chocam uns contra os outros. Desse fato, a amplitude dos deslocamentos diminui, e coloca-se a questão de tirar o melhor partido possível de domínios cada vez mais limitados. É, podemos imaginar, sob a pressão dessa necessidade que a ideia deve ter jorrado de conservar e reproduzir no lugar aquilo que antes era preciso buscar e perseguir ao longe. A criação de animais e a cultura substituindo a coleta e a caça. O pastor e o agricultor.

E, dessa mudança fundamental, todo o resto se segue.

Nas aglomerações crescentes, primeiro, a complexidade dos direitos e deveres faz sua aparição, obrigando a imaginar todo tipo de estruturas comunitárias e jurisprudências cujos vestígios persistem sob nossos olhos, à sombra das grandes civilizações, entre as populações menos progressivas da Terra. Socialmente, em matéria de propriedade, moral, casamento, pode-se bem dizer que tudo foi experimentado...

Simultaneamente, no meio mais estável e mais denso criado pelos primeiros estabelecimentos agrícolas, a necessidade e o gosto da pesquisa se regularizam e se aquecem. Período maravilhoso de investigação e invenção, em que irrompe, sob a forma refletida, no frescor inigualável de um começo novo, o eterno tateamento da Vida! Tudo o que era abordável parece ter sido tentado nessa época extraordinária. Escolha e melhoramento empírico dos frutos, dos cereais e dos rebanhos. Ciência da cerâmica. Tecelagem. Muito cedo, os primeiros elementos de uma escrita pictográfica, e muito depressa os primeiros começos da metalurgia.

E então, por esse motivo, mais solidamente recolhida sobre si, melhor equipada para conquistar, a Humanidade pode enfim lançar suas últimas vagas ao assalto das posições que ainda lhe haviam escapado. Ela está doravante em plena expansão. É, com efeito, na aurora do Neolítico que, pelo Alasca livre de seus gelos, e talvez por outras vias ainda, o Homem penetra na América, para ali recomeçar, sobre novo material e a novos custos, seu paciente trabalho de instalação e domesticação.

Muitos caçadores e pescadores ainda, entre eles, nos quais, apesar do uso da cerâmica e da pedra polida, se prolonga a vida paleolítica. Mas, ao lado destes, igualmente, verdadeiros agricultores, os comedores de milho. E ao mesmo tempo, sem dúvida, balizada pela longa esteira, ainda visível, das Bananeiras, Mangueiras e Coqueiros, outra Nappe começa a estender-se, aventura fabulosa, pelo Pacífico.

Ao sair dessa metamorfose da qual, mais uma vez, pouco conhecemos a existência senão pelos resultados, o mundo está praticamente recoberto por uma população cujos restos, instrumentos polidos, mós de grãos, fragmentos de vasos, juncam, por toda parte onde se descobre sob o húmus ou as areias recentes, o velho solo dos continentes.

Humanidade ainda muito fragmentada, sem dúvida. Para representá-la, é preciso pensar naquilo que eram a América ou a África quando o Branco ali chegou pela primeira vez: um mosaico de grupos étnica e socialmente profundamente diversos.

Mas Humanidade já desenhada e ligada. Desde a idade da Rena, os povos pouco a pouco encontraram, até no detalhe, seu lugar definitivo. De uns a outros, pelo comércio dos objetos e pela transmissão das ideias, a condutibilidade aumenta. As tradições se organizam. Uma memória coletiva se desenvolve. Por fina e granular que seja ainda essa primeira membrana, a Noosfera já começou a fechar-se sobre si mesma, cercando a Terra.

### 5. Os Prolongamentos do Neolítico e a Ascensão do Oeste

Conservamos o hábito, desde o tempo em que ignorávamos a Paleontologia humana, de isolar em fatia especial os cerca de seis mil anos para os quais possuímos documentos escritos ou datados. A História, por oposição à Pré-história. Na realidade, tal corte não existe. Quanto melhor restabelecemos as perspectivas do Passado, mais constatamos que os tempos ditos "históricos", até e inclusive o começo dos tempos "modernos", nada são além dos prolongamentos diretos do Neolítico. Complexidade e diferenciação crescentes, isto é evidente, e vamos dizê-lo. Essencialmente, contudo, segundo as mesmas linhas e no mesmo patamar.

Do ponto de vista biológico em que nos colocamos, como definir e representar, ao longo desse período tão breve e tão prodigiosamente fecundo, os progressos da Hominização?

Essencialmente, aquilo que, por meio da multiplicidade móvel das instituições, dos povos e dos impérios, a História registra é o desabrochamento normal do Homo sapiens no seio da atmosfera social criada pela transformação neolítica. Queda gradual das mais velhas escamas, algumas das quais, tais como os Australianos, ainda aderem à extrema superfície de nossa civilização e dos continentes. Acentuação, em compensação, e dominação de certas outras hastes, mais centrais e mais vigorosas, que procuram monopolizar o solo e a luz.

Aqui desaparecimentos que clareiam; ali eclosão de brotos que adensam a ramagem. Ramos que secam, ramos que dormem, ramos que se lançam para invadir tudo. Entrecruzamento sem fim de leques dos quais nenhum, mesmo a dois milênios atrás, deixa ver claramente seu pedúnculo... Toda a série dos casos, das situações e das aparências habitualmente encontrados em qualquer phylum em via de proliferação ativa.

Mas será isto tudo?

Poderíamos pensar que aquilo que, a partir do Neolítico, faz a extrema dificuldade, e também o excepcional interesse, da Filogênese humana, é a proximidade dos fatos, permitindo seguir quase a olho nu o mecanismo biológico da ramificação das espécies. Em realidade, algo a mais se passa ali.

Enquanto a ciência só tinha de tratar grupos humanos "pré-históricos", mais ou menos isolados e também mais ou menos em curso de formação antropológica, as regras gerais da filogênese animal podiam ainda aplicar-se aproximadamente. A partir do Neolítico, a influência dos fatores psíquicos põe-se a predominar francamente sobre as variações, cada vez mais amortecidas, dos fatores somáticos. E desde então emergem para o primeiro plano as duas séries de efeitos que anunciávamos mais acima, ao descrever, em suas grandes linhas, o andamento da Hominização.

Primeiro, aparição, por cima dos verticilos genealógicos, das unidades políticas e culturais: gama complexa de agrupamentos que, nos múltiplos planos da distribuição geográfica, das ligações econômicas, das crenças religiosas, das instituições sociais, se mostram capazes, depois de submergir "a raça", de interferir entre si em todas as proporções.

E, simultaneamente, manifestação, entre esses ramos de novo gênero, das forças de coalescência, anastomoses e confluências, liberadas em cada um deles pela individualização de uma bainha, ou mais exatamente de um eixo psicológico.

Todo um jogo conjugado de divergências e convergências.

Sobre a realidade, a diversidade e a contínua germinação de unidades coletivas humanas ao menos virtualmente divergentes, é inútil que eu insista. Nascimento, multiplicação e evolução das nações, dos Estados, das civilizações... O espetáculo está por toda parte sob nossos olhos; e suas peripécias preenchem os anais dos povos. Uma coisa apenas não deve ser esquecida, se quisermos penetrar e apreciar seu drama. Sob essa forma racionalizada, por hominizados que sejam os acontecimentos, a História humana prolonga realmente, à sua maneira e em seu grau, os movimentos orgânicos da Vida. Pelos fenômenos de ramificação social que nos conta, ela é história natural, ainda.

Bem mais sutis e mais carregados de possibilidades biológicas são os fenômenos de confluência. Procuremos segui-los em seu mecanismo e em suas consequências.

Entre ramos ou phyla animais fracamente "psiquizados", as reações se limitam à competição e, eventualmente, à eliminação. O mais forte desloca o mais fraco e acaba sufocando-o. A essa lei brutal, quase mecânica, de substituição só fazem exceção, entre os organismos inferiores, as associações, sobretudo funcionais, de "simbiose", ou, entre os Insetos mais socializados, a sujeição de um grupo por outro grupo.

No Homem, ao menos entre Homens pós-neolíticos, a eliminação pura e simples tende a tornar-se excepcional, ou ao menos secundária. Por brutal que seja a conquista, a supressão sempre se acompanha de alguma assimilação. Mesmo parcialmente absorvido, o vencido ainda reage sobre o vencedor para transformá-lo. Na linguagem da Geologia, endomorfiza-o. A fortiori no caso de uma invasão cultural pacífica. E por razão ainda mais forte se se trata de populações igualmente resistentes e ativas, que se compenetram lentamente sob pressão prolongada.

Permeabilidade mútua dos psiquismos, unida a uma inter-fecundidade notável e significativa. Sob essa dupla influência, remexendo e associando as tradições étnicas ao mesmo tempo que os genes cerebrais, desenham-se e fixam-se verdadeiras combinações biológicas. Outrora, na Árvore da Vida, o simples enredamento das hastes. Agora, sobre o domínio inteiro do Homo sapiens, a síntese.

Mas de modo algum por toda parte igualmente, bem entendido.

Sobre a Terra, em consequência da configuração fortuita dos continentes, existem certas regiões mais favoráveis que outras ao ajuntamento e à mistura das raças: arquipélagos extensos, encruzilhadas estreitas, e sobretudo vastas planícies cultiváveis, irrigadas por algum grande rio. Nesses lugares privilegiados tendeu naturalmente, desde a instalação da vida sedentária, a concentrar-se, fundir-se e sobreaquecer-se a massa humana. Daí a aparição, sem dúvida "congênita", sobre a Nappe neolítica, de certos polos de atração e organização: presságio e prelúdio de algum estado superior e novo para a Noosfera.

Cinco desses focos se reconhecem, mais ou menos alto no passado: a América central, com a civilização Maia; os Mares do Sul, com a civilização polinésia; a bacia do Rio Amarelo, com a civilização chinesa; os vales do Ganges e do Indo, com as civilizações da Índia; o Nilo e a Mesopotâmia, enfim, com o Egito e Sumer. Focos provavelmente aparecidos, salvo os dois primeiros, muito mais tardios, quase na mesma época. Mas focos largamente independentes uns dos outros, e cada qual trabalhando às cegas para se estender e irradiar, tal qual se devesse, sozinho, absorver e transformar a Terra.

No fundo, não é no encontro, no conflito e finalmente na harmonização gradual dessas grandes correntes somato-psíquicas que consiste o essencial da História?

De fato, essa luta de influência se localizou depressa. Um demasiado isolado no Novo Mundo, outro demasiado disperso sobre a poeira monótona de suas ilhas longínquas, o foco Maia e o foco polinésio não tardaram, um a se apagar completamente, o outro a irradiar no vazio. É portanto na Ásia e na África do Norte, entre agricultores das grandes planícies, que se jogou a partida pelo futuro do Mundo.

Um ou dois milênios antes de nossa era, as chances entre parceiros podiam parecer iguais. E, no entanto, instruídos pela sequência dos acontecimentos, reconhecemos hoje que havia desde então, em dois dos concorrentes mais orientais, germes de fraqueza.

Seja por gênio próprio, seja por efeito de imensidão, a China primeiro, entendo evidentemente a velha China, faltava de gosto e impulso para renovações profundas. Singular espetáculo o dessa região gigante que, ontem ainda, representava, sempre viva sob nossos olhos, um fragmento apenas modificado do mundo tal como podia ser há dez mil anos... População não somente fundamentalmente agrícola, e sim essencialmente organizada segundo a hierarquia das posses territoriais: o imperador não era outra coisa senão o maior dos proprietários. População ultraespecializada no tijolo, na cerâmica e no bronze. População levando até a superstição o estudo dos pictogramas e a ciência das constelações. Civilização incrivelmente refinada, claro; porém, tal como a escrita em que se trai tão ingenuamente, sem ter mudado de métodos desde os começos. Em pleno século XIX, ainda Neolítico, não rejuvenescido como em outros lugares, antes simplesmente e interminavelmente complicado sobre si, segundo as mesmas linhas e no mesmo plano, tal qual se não tivesse podido arrancar-se da terra onde se formara.

Ora, enquanto a China já se incrustava no solo, multiplicando tateamentos e descobertas sem se dar ao trabalho de construir uma Física, a Índia, por sua vez, deixava-se atrair até perder-se na Metafísica. A Índia, região por excelência das altas pressões filosóficas e religiosas... Nunca daremos parte demasiado grande às influências místicas descidas sobre cada um de nós, durante o passado, desse anticiclone. Mas, por eficazes que tenham sido essas correntes para ventilar e iluminar a atmosfera humana, força é reconhecer que eram, por excesso de passividade e desapego, incapazes de construir a Terra.

Surgida em sua hora como grande sopro, como grande sopro também, e ainda em sua hora, a alma primitiva da Índia passou. E como poderia ter sido de outro modo? Os fenômenos considerados uma ilusão, maya, e suas ligações uma cadeia, karma, que restava a essas doutrinas para animar e dirigir a evolução humana? Simples erro cometido, embora fosse tudo, na definição do Espírito e na apreciação dos laços que o ligam às sublimações da Matéria.

E é assim que, de próximo em próximo, nos vemos lançados às zonas mais ocidentais do Mundo: aquelas em que, sobre o Eufrates, sobre o Nilo, sobre o Mediterrâneo, um encontro excepcional de lugares e povos iria, em alguns milênios, produzir a mistura favorável graças à qual, sem nada perder, ao contrário, de sua força ascensional, a razão saberia atrelar-se aos fatos, e a religião à ação. A Mesopotâmia, o Egito, a Hélade, logo Roma, e por cima de tudo isso, voltarei a isto ao terminar, o misterioso fermento judeu-cristão, dando sua forma espiritual à Europa!

É fácil ao pessimista contar esse período extraordinário em civilizações que uma após outra desabam. Não será muito mais científico reconhecer, uma vez ainda, sob essas oscilações sucessivas, a grande espiral da Vida, elevando-se irreversivelmente, por revezamentos, segundo a linha mestra de sua evolução? Susa, Mênfis, Atenas podem morrer. Uma consciência sempre mais organizada do Universo passa de mão em mão; e seu clarão cresce.

Mais adiante, ao falar da planetização em curso da Noosfera, vou me empenhar em restituir aos outros fragmentos de Humanidade a parte, grande e essencial, que lhes está reservada na plenitude esperada da Terra. Neste ponto de nossa investigação, seria falsear os fatos por sentimento deixar de reconhecer que, durante os tempos históricos, foi pelo Ocidente que passou o eixo principal da Antropogênese.

Nessa zona ardente de crescimento e refundição universal, tudo o que hoje faz o Homem foi encontrado, ou ao menos teve de ser reencontrado. Pois mesmo aquilo que era há muito conhecido em outros lugares só tomou valor humano definitivo ao incorporar-se ao sistema das ideias e das atividades europeias. Não é simples candura celebrar como grande acontecimento a descoberta da América por Colombo...

Em verdade, em torno do Mediterrâneo, há seis mil anos, uma neo-Humanidade germinou, e neste exato momento acaba de absorver os últimos vestígios do mosaico neolítico: o brotamento de outra Nappe, a mais cerrada de todas, sobre a Noosfera.

E a prova disso é que, invencivelmente, de um extremo a outro do mundo, todos os povos, para permanecer humanos, ou a fim de tornar-se mais humanos, são levados a colocar, nos próprios termos aos quais o Ocidente chegou para formulá-los, as esperanças e os problemas da Terra moderna.

## Notas

[1] Mais exatamente, no fim do Villafranchiano. Muitos geólogos já situam esse último andar fora do Plioceno e fazem dele o verdadeiro Quaternário inferior: simples questão de colchete.

[2] Do homem de Mauer, por simplicidade, nada direi aqui. Por antiga e notável que seja sua mandíbula, não o conhecemos bastante para fixar seu verdadeiro lugar, antropologicamente.

[3] Nos grandes Antropoides atuais, a capacidade cerebral não ultrapassa 600 cm³.

[4] Talvez entre as populações, de tipo anatômico ainda desconhecido, cuja indústria "biface" pode ser seguida, no Pleistoceno antigo, do Cabo ao Tâmisa, e da Espanha a Java.

[5] Encontrado em número, nos terraços horizontais que nivelam os estratos dobrados de Trinil, o Homo soloensis.

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