III. O Pensamento - Capítulo I - O Nascimento do Pensamento O Fenômeno Humano - Tradução Literunico · Capítulo 9 de 17
Obra Menu

III. O Pensamento - Capítulo I - O Nascimento do Pensamento

## III. O Pensamento - Capítulo I - O Nascimento do Pensamento

### Observação Preliminar. O Paradoxo Humano

De um ponto de vista puramente positivista, o Homem é o mais misterioso e o mais desconcertante dos objetos encontrados pela ciência. E, de fato, devemos confessá-lo, a Ciência ainda não lhe encontrou um lugar em suas representações do Universo. A Física conseguiu circunscrever provisoriamente o mundo do átomo. A Biologia chegou a pôr alguma ordem nas construções da Vida. Apoiada na Física e na Biologia, a Antropologia explica por sua vez, como pode, a estrutura do corpo humano e certos mecanismos de sua fisiologia.

Mas, reunidos todos esses traços, o retrato manifestamente não corresponde à realidade. O Homem, tal como a Ciência consegue hoje reconstituí-lo, é um animal como os outros, tão pouco separável, por sua anatomia, dos Antropoides que as classificações modernas da Zoologia, retornando à posição de Lineu, o incluem com eles na mesma superfamília dos Hominoides. Ora, a julgar pelos resultados biológicos de sua aparição, não será ele justamente algo de inteiramente diverso?

Salto morfológico ínfimo e, ao mesmo tempo, incrível abalo das esferas da Vida: todo o paradoxo humano... E toda a evidência, por consequência, de que, em suas reconstruções atuais do Mundo, a Ciência negligencia um fator essencial, ou, para melhor dizer, uma dimensão inteira do Universo.

Conforme a hipótese geral que nos guia, desde o começo destas páginas, rumo a uma interpretação coerente e expressiva das aparências atuais da Terra, eu gostaria de mostrar, nesta nova Parte consagrada ao Pensamento, que, para dar ao Homem sua posição natural no Mundo experimental, é necessário e suficiente fazer entrar em linha de conta o Dentro, ao mesmo tempo que o Fora das coisas. Esse método já nos permitiu apreciar a grandeza e o sentido do movimento vital. É ele ainda que vai reconciliar para nossos olhos, em uma ordem que desce harmoniosamente sobre a Vida e a Matéria, a insignificância e a suprema importância do Fenômeno humano.

Entre os últimos estratos do Plioceno em que o Homem está ausente e o nível seguinte, no qual o geólogo deveria ficar tomado de espanto ao reconhecer os primeiros quartzos talhados, que aconteceu? E qual é a verdadeira grandeza do salto?

Eis o que se trata, para nós, de adivinhar e medir, antes de seguir, de etapa em etapa, até o passo decisivo em que se acha engajada hoje, a Humanidade em marcha.

### 1. O Passo da Reflexão

#### A) O Passo Elementar. A Hominização do Indivíduo

##### A) Natureza

Assim como, entre os Biólogos, a incerteza reina ainda quanto à existência de um sentido e, a fortiori, de um eixo definidos na Evolução, assim também, e por razão conexa, a maior divergência se manifesta ainda entre Psicólogos quando se trata de decidir se o psiquismo humano difere especificamente, por "natureza", daquele dos seres aparecidos antes dele. De fato, a maioria dos "sábios" tenderia a contestar a validade de semelhante corte. Que não se disse, e que ainda não se diz, sobre a inteligência dos Animais!

Se quisermos decidir essa questão, tão necessária para a Ética da Vida quanto para o conhecimento puro, a questão da "superioridade" do Homem sobre os Animais, não vejo senão um meio: afastar resolutamente, no feixe dos comportamentos humanos, todas as manifestações secundárias e equívocas da atividade interna, e colocar-nos diante do fenômeno central da Reflexão.

Do ponto de vista experimental que é o nosso, a Reflexão, como indica a palavra, é o poder adquirido por uma consciência de se dobrar sobre si e tomar posse de si mesma como de um objeto dotado de consistência e valor particulares: já não apenas conhecer, e sim conhecer-se; já não apenas saber, e sim saber que se sabe. Por essa individualização de si mesmo no fundo de si mesmo, o elemento vivo, até então espalhado e dividido sobre um círculo difuso de percepções e atividades, se constitui, pela primeira vez, em centro puntiforme, onde todas as representações e experiências se atam e se consolidam em um conjunto consciente de sua organização.

Ora, quais são as consequências de semelhante transformação? São imensas; e as lemos tão claramente na Natureza quanto qualquer um dos fatos registrados pela Física ou pela Astronomia. O ser refletido, em virtude mesmo de sua dobra sobre si, torna-se de repente suscetível de desenvolver-se em uma esfera nova. Na realidade, é outro mundo que nasce. Abstração, lógica, escolha e invenções raciocinadas, matemática, arte, percepção calculada do espaço e da duração, ansiedades e sonhos do amor... Todas essas atividades da vida interior nada são além da efervescência do centro recém-formado que explode sobre si mesmo.

Posto isto, pergunto. Se, conforme se segue do que precede, é o fato de achar-se "refletido" que constitui o ser verdadeiramente "inteligente", podemos duvidar seriamente de que a inteligência seja apanágio evolutivo do Homem somente? E podemos, por consequência, hesitar em reconhecer, por não sei que falsa modéstia, que sua posse representa para o Homem um avanço radical sobre toda a Vida anterior a ele? O animal sabe, bem entendido. Mas certamente não sabe que sabe: de outro modo, teria há muito multiplicado invenções e desenvolvido um sistema de construções internas que não poderiam escapar à nossa observação. Portanto, um domínio do Real lhe permanece fechado, domínio no qual nós nos movemos e no qual ele não poderia entrar. Um fosso, ou um limiar, intransponível para ele, nos separa. Em relação a ele, porque refletidos, não somos apenas diferentes; somos outros. Não simples mudança de grau, e sim mudança de natureza resultante de uma mudança de estado.

E eis-nos exatamente diante daquilo que esperávamos. A Vida, nesta espera terminava o capítulo de Deméter, a Vida, porque subida de consciência, não podia continuar avançando indefinidamente em sua linha sem transformar-se em profundidade. Ela devia, dizíamos, como toda grandeza crescente no Mundo, tornar-se diferente para permanecer ela mesma. Mais claramente definível que quando sondávamos o psiquismo obscuro das primeiras células, eis que se descobre, no acesso ao poder de refletir, a forma particular e crítica de transformação em que consistiu, para ela, essa sobrecriação, ou esse renascimento. E, no mesmo ato, eis a curva inteira da Biogênese reaparecendo, resumindo-se e esclarecendo-se nesse ponto singular.

##### B) Mecanismo Teórico

Sobre o psiquismo dos animais, naturalistas e filósofos defenderam, em todos os tempos, as teses mais opostas. Para os Escolásticos da antiga Escola, o instinto é uma espécie de subinteligência homogênea e fixa, marcando um dos estádios ontológicos e lógicos pelos quais, no Universo, o ser "se degrada", se irisa, desde o Espírito puro até a pura Materialidade. Para o Cartesiano, só o pensamento existe; e o animal, desprovido de qualquer dentro, não passa de autômato. Para a maioria dos biólogos modernos, enfim, eu o recordava acima, nada separa nitidamente instinto e pensamento, sendo um e outro pouco superiores a uma espécie de luminescência de que se envolveria o jogo, único essencial, dos determinismos da Matéria.

Em todas essas opiniões diversas, a parte de verdade se desprende, ao mesmo tempo que aparece a causa de erro, tão logo, colocando-nos no ponto de vista adotado nestas páginas, decidimos reconhecer: primeiro, que o instinto, longe de ser um epifenômeno, traduz por suas expressões diversas o próprio fenômeno vital; e segundo, que ele representa por consequência uma grandeza variável.

Que acontece, com efeito, se, para olhar a Natureza, nos colocamos por esse viés?

Primeiro, realizamos melhor em nosso espírito o fato e a razão da diversidade dos comportamentos animais. Desde que a Evolução é transformação primariamente psíquica, não há um instinto na Natureza, e sim uma multidão de formas de instintos, cada qual correspondendo a uma solução particular do problema da Vida. O psiquismo de um Inseto não é, e já não pode ser, o de um Vertebrado, nem o instinto de um Esquilo é o de um Gato ou de um Elefante: isto em virtude mesma da posição de cada um na Árvore da Vida.

Por esse próprio fato, começamos, nessa variedade, a ver destacar-se legitimamente um relevo, desenhar-se uma gradação. Se o instinto é grandeza variável, os instintos não poderiam ser apenas diversos: formam, sob sua complexidade, um sistema crescente; desenham, no conjunto, uma espécie de leque em que os termos superiores, sobre cada nervura, se reconhecem a cada vez por um raio maior de escolha, apoiado em um centro mais bem definido de coordenação e consciência. E é justamente isso que observamos. O psiquismo de um Cão, digam o que disserem, é positivamente superior ao de uma Toupeira ou de um Peixe.[1]

Dito isto, no que apenas apresento sob outro ângulo aquilo que o estudo da Vida já nos revelou, os espiritualistas podem tranquilizar-se quando, nos animais superiores, em particular nos grandes Macacos, notam, ou são obrigados a ver, andamentos e reações que recordam estranhamente aqueles de que se servem para definir a natureza e reivindicar a presença, no Homem, de uma "alma racional". Se a História da Vida não passa, como dissemos, de um movimento de consciência velado por morfologia, é inevitável que, rumo ao cume da série, nas vizinhanças do Homem, os psiquismos cheguem e pareçam à flor da inteligência. É exatamente o que se passa.

E, desde então, é o próprio "paradoxo humano" que se esclarece. Ficamos perturbados ao constatar quanto "Anthropos", a despeito de certas preeminências mentais incontestáveis, difere pouco, anatomicamente, dos outros Antropoides; tão perturbados que quase renunciaríamos, ao menos perto do ponto de origem, a separá-los. Mas essa extraordinária semelhança não é precisamente aquilo que devia acontecer?...

Quando a água, sob pressão normal, chegou a 100 graus e é aquecida ainda, o primeiro acontecimento que se segue, sem mudança de temperatura, é a expansão tumultuosa das moléculas liberadas e vaporizadas. Quando, segundo o eixo ascendente de um cone, as seções se sucedem com área constantemente decrescente, chega o momento em que, por um deslocamento infinitesimal a mais, a superfície se desvanece, tornada ponto. Assim, por comparações distantes, podemos imaginar em seu mecanismo o passo crítico da reflexão.

No fim do Terciário, havia mais de 500 milhões de anos que a temperatura psíquica se elevava no mundo celular. De Ramo em Ramo, de Nappe em Nappe, vimos, os sistemas nervosos iam, pari passu, complicando-se e concentrando-se. Finalmente se construíra, do lado dos Primatas, um instrumento tão notavelmente flexível e rico que o passo imediatamente seguinte não podia dar-se sem que o psiquismo animal inteiro se achasse como refundido e consolidado sobre si. Ora, o movimento não se deteve: pois nada, na estrutura do organismo, o impedia de avançar.

Ao Antropoide, levado "mentalmente" a 100 graus, algumas calorias ainda foram acrescentadas. No Antropoide, quase chegado ao cimo do cone, exerceu-se um último esforço segundo o eixo. E não foi preciso mais para que todo o equilíbrio interior se achasse invertido. O que ainda era apenas superfície centrada tornou-se centro. Por um acréscimo "tangencial" ínfimo, o "radial" se voltou e, por assim dizer, saltou ao infinito adiante.

Em aparência, quase nada mudou nos órgãos. Mas, em profundidade, uma grande revolução: a consciência jorrando, fervente, em um espaço de relações e representações suprassensíveis; e, simultaneamente, a consciência capaz de perceber-se a si mesma na simplicidade recolhida de suas faculdades. Tudo isso pela primeira vez.[2]

Os espiritualistas têm razão quando defendem com tanta aspereza certa transcendência do Homem sobre o resto da Natureza. Os materialistas tampouco estão errados quando sustentam que o Homem é apenas mais um termo na série das formas animais. Neste caso, como em tantos outros, as duas evidências antitéticas se resolvem em um movimento, desde que, nesse movimento, se faça a parte essencial ao fenômeno, tão altamente natural, de "mudança de estado". Sim, da célula ao animal pensante, como do átomo à célula, um mesmo processo, aquecimento ou concentração psíquica, prossegue sem interrupção, sempre no mesmo sentido. Mas, em virtude mesma dessa permanência na operação, é fatal, do ponto de vista da Física, que certos saltos transformem bruscamente o sujeito submetido à operação.

##### C) Realização

Descontinuidade de continuidade. Assim se define e se apresenta a nós, na teoria de seu mecanismo, exatamente como a aparição primeira da Vida, o nascimento do Pensamento.

E agora, em sua realidade concreta, como o mecanismo funcionou? Para um observador, testemunha suposta da crise, o que teria transpirado exteriormente da metamorfose?...

Como direi dentro em pouco, ao tratar das "aparências humanas originárias", essa representação, da qual somos ávidos, provavelmente permanecerá sempre tão impossível a nosso espírito quanto a própria origem da Vida, e pelas mesmas razões. No máximo, neste caso, para nos guiar, temos o recurso de pensar no despertar da inteligência na criança, no curso da ontogênese... Duas observações, contudo, merecem ser feitas: uma circunscreve, a outra aprofunda ainda mais o mistério com que se envolve, para nossa imaginação, esse ponto singular.

A primeira é que, para alcançar no Homem o passo da reflexão, foi necessário que a Vida preparasse, de longa data e simultaneamente, um feixe de fatores cuja ligação "providencial" nada, à primeira vista, teria levado a supor.

Finalmente, é verdade, toda a metamorfose hominizante se reduz, do ponto de vista orgânico, a uma questão de cérebro melhor. Mas como esse aperfeiçoamento cerebral se teria produzido, como teria podido funcionar, se toda uma série de outras condições não se achasse ao mesmo tempo, justamente em conjunto, realizada?... Se o ser de que o Homem saiu não tivesse sido bípede, suas mãos não se teriam encontrado livres a tempo de descarregar as mandíbulas de sua função preênsil; e, por consequência, a espessa faixa de músculos maxilares que aprisionava o crânio não se teria relaxado. É graças à bipedia que liberta as mãos que o cérebro pôde crescer; e é graças a ela, ao mesmo tempo, que os olhos, aproximando-se na face diminuída, puderam pôr-se a convergir e a fixar aquilo que as mãos tomavam, aproximavam e apresentavam em todos os sentidos: o próprio gesto, exteriorizado, da reflexão!...

Em si, esse encontro maravilhoso não deve surpreender-nos. A menor coisa que se forma no mundo não é sempre o produto de uma coincidência formidável, um nó de fibras correndo desde sempre dos quatro cantos do espaço? A Vida não trabalha segundo um fio isolado, nem por retomadas. Ela empurra adiante toda a sua rede ao mesmo tempo. Assim se forma o embrião no seio que o porta. Nós devíamos sabê-lo. Mas é uma satisfação precisamente reconhecer que o Homem nasceu sob a mesma lei materna. Que o nascimento da inteligência corresponda a um retorno sobre si, não apenas do sistema nervoso, e sim do ser inteiro, admitimos com alegria. O que nos assusta, ao contrário, à primeira vista, é ter de constatar que esse passo, para executar-se, teve de fazer-se de uma só vez.

Pois tal deve ser minha segunda observação, observação que não posso evitar. No caso da ontogênese humana, podemos deslizar sobre o problema de saber em que momento o recém-nascido pode ser dito acessar a inteligência, tornar-se pensante: série contínua de estados que se sucedem em um mesmo indivíduo, do óvulo ao adulto. Que importa o lugar, ou mesmo a existência, de um corte? Inteiramente outro é o caso de uma embriogênese filética, em que cada estádio, cada estado, é representado por um ser diferente. Já não há meio, ao menos com nossos métodos atuais de pensamento, de escapar ao problema da descontinuidade...

Se a passagem à reflexão é realmente, como sua natureza física parece exigir e como admitimos, uma transformação crítica, uma mutação de zero a tudo, é impossível representar, nesse nível preciso, um indivíduo intermediário. Ou esse ser está ainda aquém, ou já está além da mudança de estado... Voltemos o problema como quisermos. Ou é preciso tornar o Pensamento impensável, negando sua transcendência psíquica sobre o instinto; ou é preciso resolver-nos a admitir que sua aparição se fez entre dois indivíduos.

Proposição desconcertante nos termos, certamente; porém sua estranheza se atenua até se tornar inofensiva se observamos que, em toda e pura rigorosidade científica, nada nos impede de supor que a inteligência pôde, ou mesmo teve de, ser tão pouco perceptível exteriormente em suas origens filéticas quanto ainda o é, para nossos olhos, em cada recém-nascido, no estádio ontogênico. Nesse caso, todo tema tangível de discussão se desvanece entre o observador e o teórico.

Sem contar, segunda forma de "inapreensível", que sobre as aparências eventualmente apresentadas pela primeira emergência da Reflexão sobre a Terra, mesmo supondo-as perceptíveis a um espectador contemporâneo, toda discussão científica tornou-se hoje impossível: pois, aqui ou nunca, estamos em presença de um desses começos, "infinitamente pequenos evolutivos", automática e irremediavelmente subtraídos à nossa vista por espessura suficiente de Passado.

Retenhamos, portanto, sem tentar representar o inimaginável, que o acesso ao Pensamento representa um limiar, o qual deve ser cruzado em um passo. Intervalo "transexperimental" sobre o qual cientificamente nada podemos dizer, e para além do qual nos encontramos transportados a um patamar biológico inteiramente novo.

##### D) Prolongamento

E é somente aqui que acaba de descobrir-se a natureza do passo da reflexão. Mudança de estado, primeiro. Mas, em seguida, pelo próprio fato, começo de outra espécie de vida: esta vida interior justamente que nomeei mais acima. Há um instante comparávamos a simplicidade do espírito pensante à de um ponto geométrico. Antes seria preciso falar de linha ou de eixo. "Ser posta", para a inteligência, não significa, com efeito, "estar acabada". Mal nasce, a criança deve respirar; do contrário morre.

Paralelamente, o centro psíquico refletido, uma vez recolhido sobre si mesmo, só poderia subsistir por um duplo movimento, que forma um só: centrar-se mais adiante sobre si, por penetração em um espaço novo; e ao mesmo tempo centrar o resto do Mundo em torno de si, por estabelecimento de uma perspectiva sem cessar mais coerente e melhor organizada nas realidades que o cercam. Não o foco imutavelmente fixo: antes o turbilhão que se aprofunda aspirando o fluido em cujo seio nasceu. O "Eu" que só se mantém tornando-se sempre mais ele mesmo, na medida em que faz todo o resto tornar-se seu.

A Pessoa na Personalização e por ela.

É claro que, sob o efeito de transformação semelhante, a estrutura inteira da Vida se acha modificada. Até então, o elemento animado encontrava-se tão estreitamente assujeitado ao phylum que sua própria individualidade podia parecer acessória e sacrificada. Receber; manter e, se possível, adquirir; reproduzir e transmitir. E assim por diante, sem trégua, indefinidamente... O animal, preso na cadeia das gerações, parecia não ter direito a viver, não era em aparência de preço algum para si mesmo. Um ponto de apoio fugitivo para uma corrida que passava sobre ele ignorando-o. A Vida, mais uma vez, mais real que os vivos.

Com a aparição do refletido, propriedade essencialmente elementar, ao menos para começar, tudo muda; e então percebemos que, sob a realidade mais brilhante das transformações coletivas, efetuava-se secretamente uma marcha paralela à individualização. Quanto mais cada phylum se carregava de psiquismo, mais tendia a se "granular". Valorização crescente do animal em relação à espécie. No nível do Homem, enfim, o fenômeno se precipita e toma definitivamente figura. Com a "pessoa", dotada pela "personalização" de um poder indefinido de evolução elementar, o ramo cessa de trazer em seu conjunto anônimo as promessas exclusivas do futuro. A célula tornou-se "alguém". Depois do grão de Matéria, depois do grão de Vida, eis enfim constituído o grão de Pensamento.

Significa isto que, a partir desse momento, o phylum, semelhante a esses animais que se perdem na poeira dos germes a que dão nascimento ao morrer, perde sua função e se volatiliza? Acima do ponto de reflexão, todo o interesse da Evolução se inverte para passar da Vida a uma pluralidade de vivos isolados?

De modo algum. Apenas, a partir dessa data crucial, o jorro global, sem se deter no mínimo, ganha um grau, uma ordem, de complexidade. Não, porque doravante carregado de centros pensantes, o phylum não se quebra tal qual um jato frágil; não se esfarela em seus psiquismos elementares; ao contrário, reforça-se, duplicando-se interiormente com mais uma armação. Até então bastava considerar, na Natureza, uma larga vibração simples: a subida da Consciência. Agora trata-se de definir e harmonizar em suas leis, fenômeno muito mais delicado, uma subida das consciências. Um progresso feito de outros progressos tão duráveis quanto ele. Um movimento de movimentos.

Procuremos elevar-nos o bastante para dominar o problema. E, para isso, esqueçamos por algum tempo o destino particular dos elementos espirituais engajados na transformação geral. É somente, de fato, seguindo em suas linhas maiores a ascensão e o espalhamento do conjunto que podemos chegar, por longo desvio, a determinar a parte reservada, no êxito total, às esperanças individuais.

À personalização do indivíduo pela hominização do grupo inteiro!

#### B) O Passo Filético. A Hominização da Espécie

Assim, por meio do salto da inteligência, cuja natureza e mecanismo acabamos de analisar na partícula pensante, a Vida continua, de certo modo, a expandir-se tal qual nada houvesse acontecido. Com toda evidência, depois como antes do limiar do pensamento, propagação, multiplicação, ramificação seguem, no Homem, como nos animais, seu curso costumeiro. Nada modificado, dir-se-ia, na corrente. Mas as águas já não são as mesmas.

Tal como as vagas de um rio enriquecidas ao contato de uma planície limosa, o fluxo vital carregou-se de princípios novos ao cruzar os passos da reflexão; e vai, por consequência, manifestar atividades novas. Doravante, aquilo que a seiva evolutiva rola e transporta no caule vivo já não são somente grãos animados, e sim, como dissemos, grãos de pensamento. Que aparecerá, sob essa influência, na cor ou na forma das folhas, das flores e dos frutos?

Eu não poderia, sem antecipar desenvolvimentos ulteriores, dar imediatamente a essa questão uma resposta de detalhe ou de fundo. Mas o que é oportuno indicar aqui sem mais demora são três particularidades que, a partir do passo do Pensamento, irão manifestando-se em todas as operações ou produções, quaisquer que sejam, da Espécie. A primeira dessas particularidades concerne à composição dos novos ramos; a outra, ao sentido geral de seu crescimento; a última, enfim, às suas relações ou diferenças de conjunto com aquilo que havia desabrochado antes deles na Árvore da Vida.

##### A) A Composição dos Ramos Humanos

Qualquer que seja a ideia que se faça do mecanismo interno da Evolução, é certo que cada grupo zoológico se envolve de certo invólucro psicológico. Dissemos mais acima: cada tipo de Inseto, de Ave ou de Mamífero tem seus instintos próprios. Até aqui nenhuma tentativa foi feita para ligar sistematicamente um ao outro os dois elementos, somático e psíquico, da Espécie. Há naturalistas que descrevem e classificam as formas. Outros naturalistas se especializam no estudo dos comportamentos. De fato, a distribuição das espécies se opera muito suficientemente, abaixo do Homem, por meio de critérios puramente morfológicos.

A partir do Homem, ao contrário, aparecem dificuldades. Reina ainda, nós o sentimos, extrema confusão quanto à significação e à repartição dos grupos tão variados nos quais se fragmenta sob nossos olhos a massa humana: raças, nações, Estados, pátrias, culturas etc. Nessas categorias, diversas e móveis, costuma-se perceber apenas unidades heterogêneas, umas naturais, a raça, outras artificiais, a nação, sobrepondo-se irregularmente em planos diferentes.

Irregularidade desagradável e inútil, que se desvanece desde que se dê seu lugar ao Dentro tanto quanto ao Fora das coisas!

Não, aparece deste ponto de vista mais compreensivo: por mista que possa parecer, a composição do grupo e dos ramos humanos não é irredutível às regras gerais da Biologia. Mas, por exageração de uma variável que permanecera negligenciável nos animais, ela simplesmente faz aparecer dessas leis a urdidura essencialmente dupla, para não dizer, ao contrário, se o Soma mesmo é tramado por Psique, a unidade radical. Não exceção, e sim generalização.

Impossível duvidar. No mundo tornado humano, é bem sempre a ramificação zoológica que, apesar das aparências e da complexidade, se prolonga e opera segundo o mesmo mecanismo de antes. Apenas, por causa da quantidade de energia interior liberada pela reflexão, a operação tende então a emergir dos órgãos materiais para se formular também, ou mesmo sobretudo, em espírito. O psíquico espontâneo já não é apenas auréola do somático. Torna-se parte apreciável, ou mesmo parte principal, do fenômeno.

E porque as variações de alma são muito mais ricas e nuançadas que as alterações orgânicas, frequentemente imperceptíveis, que as acompanham, é muito simples que a inspeção apenas dos ossos e dos tegumentos já não consiga seguir, explicar e catalogar os progressos da diferenciação zoológica total. Eis a situação. E eis também seu remédio. Para desembaraçar a estrutura de um phylum pensante, a anatomia já não basta: ela pede doravante ser duplicada por psicologia.

Complicação laboriosa, bem entendido, pois nenhuma classificação satisfatória do "gênero" humano poderia estabelecer-se, nós o vemos, senão pelo jogo combinado de duas variáveis parcialmente independentes. Complicação fecunda, porém, sob dois títulos diferentes.

De um lado, ao preço desse incômodo, a ordem, a homogeneidade, isto é, a verdade, retornam às nossas perspectivas da Vida estendidas ao Homem; e, porque se descobre correlativamente a nós o valor orgânico de toda construção social, já nos sentimos mais dispostos a considerá-la como objeto de Ciência e, por consequência, a respeitá-la.

De outro lado, pelo próprio fato de que as fibras do phylum humano se mostram envoltas por sua bainha psíquica, começamos a compreender o extraordinário poder de aglutinação e coalescência que apresentam. E eis-nos, no mesmo ato, no caminho de uma descoberta fundamental na qual terminará por culminar nosso estudo do Fenômeno humano: a Convergência do Espírito.

##### B) O Sentido Geral de Crescimento

Enquanto nossas perspectivas sobre a natureza psíquica da evolução zoológica só encontravam apoio no exame das linhagens animais e de seu sistema nervoso, o sentido dessa evolução permanecia necessariamente tão vago para nosso conhecimento quanto a própria alma desses irmãos distantes. A consciência sobe por entre os vivos: era tudo o que podíamos dizer. A partir do instante, em compensação, em que, cruzado o limiar do Pensamento, a Vida acede ao patamar em que nos encontramos nós mesmos e começa a transbordar francamente, por suas atividades livres, os limites em que as exigências da fisiologia a canalizavam até então, seus progressos se tornam mais fáceis de decifrar. A mensagem está melhor escrita; e também podemos lê-la melhor, porque nela nos reconhecemos.

Mais acima, observando a Árvore da Vida, notávamos este caráter fundamental: ao longo de cada ramo zoológico, os cérebros aumentam e se diferenciam. Para definir o prolongamento e o equivalente dessa lei acima do passo da reflexão, bastar-nos-á doravante dizer: "Segundo cada linhagem antropológica, é o Humano que se procura e cresce".

Evocávamos há um instante, de passagem, a imagem do grupo humano em sua complexidade inigualável: essas raças, essas nações, esses Estados, cujo enredamento desafia a sagacidade dos anatomistas e da etnologia. Tantas raias no espectro desencorajam nossa análise... Procuremos antes perceber aquilo que, tomada em seu conjunto, essa multiplicidade representa. Então já não veremos, em seu conjunto perturbador, senão um acúmulo de palhetas refletindo entre si a mesma luz. Centenas ou milhares de facetas, mas exprimindo cada uma, sob ângulo diferente, uma realidade que se procura em meio a um mundo de formas tateantes.

Não nos espantamos, porque isso nos acontece, ao ver, em cada pessoa ao nosso redor, desenvolver-se ano a ano a centelha da reflexão. Temos todos consciência, também, ao menos confusamente, de que algo muda em nossa atmosfera no curso da História. Como explicar que, pondo ponta a ponta as duas evidências, e retificando ao mesmo tempo certas visões excessivas sobre a natureza puramente "germinal" e passiva da hereditariedade, não sejamos mais sensíveis à presença de algo maior que nós mesmos, em marcha no coração de nós?

Até o nível do Pensamento, uma questão podia permanecer posta à Ciência da Natureza: a do valor e da transmissão evolutivos dos caracteres adquiridos. Sobre essa questão, sabemos, a Biologia tendia, e tende ainda, a mostrar-se evasiva e cética. E talvez, afinal, nas zonas fixadas do corpo onde gostaria de confinar-se, ela tenha razão. Mas que acontece se damos ao psíquico seu lugar legítimo na integridade dos organismos vivos? Imediatamente, sobre a pretensa independência do "gérmen" filético, a atividade individual do soma retoma seus direitos.

Já nos Insetos, por exemplo, ou no Castor, apreendemos de maneira flagrante a existência de instintos hereditariamente formados, ou mesmo fixados, sob o jogo das espontaneidades animais. A partir da reflexão, a realidade do mecanismo torna-se não apenas manifesta, e sim preponderante. Sob o esforço livre e engenhoso das inteligências que se sucedem, algo, mesmo na ausência de toda variação mensurável do crânio e do cérebro, se acumula irreversivelmente com toda evidência e se transmite, ao menos coletivamente, por educação, ao fio das idades. Voltaremos a isso.

Ora, esse "algo", construção de matéria ou construção de beleza, sistemas de pensamento ou sistemas de ação, acaba sempre por traduzir-se em aumento de consciência; a consciência não é nada menos, por sua vez, sabemos agora, que a substância e o sangue da Vida em evolução.

Que quer isto dizer, senão que, acima do fenômeno particulário que é o acesso individual à reflexão, há motivo para a Ciência reconhecer um fenômeno ainda de natureza refletida, desta vez de extensão humana total! Aqui, como em outros lugares do Universo, o Todo se manifesta maior que a soma simples dos elementos de que é formado. O indivíduo humano não esgota em si as possibilidades vitais de sua raça. Segundo cada fio distinguido pela Antropologia e pela Sociologia, estabelece-se e se propaga uma corrente hereditária e coletiva de reflexão: o advento da Humanidade por meio dos Homens; a emergência, pela filogênese humana, do ramo humano.

##### C) Relações e Diferenças

Visto e admitido isto, sob que forma devemos esperar ver surgir esse ramo humano? Irá ele, porque pensante, romper as fibras que o ligam ao Passado e, no topo do Ramo vertebrado, desenvolver-se a partir de elementos e sobre um plano inteiramente novos, à maneira de algum neoplasma? Imaginar tal ruptura seria, mais uma vez, desconhecer e subestimar, ao mesmo tempo que nossa "grandeza", a unidade orgânica do Mundo e os métodos da Evolução.

Em uma flor, as peças do cálice, as sépalas, as pétalas, os estames, o pistilo, não são folhas. Provavelmente nunca foram folhas. Trazem, contudo, reconhecíveis em suas ligações e em sua textura, tudo o que teria dado uma folha se não tivessem sido formadas sob uma influência e com um destino novos. Paralelamente, na inflorescência humana, reencontram-se, transformados e em vias de transformação, os vasos, os arranjos e a própria seiva do caule sobre o qual essa inflorescência nasceu: a estrutura individual dos órgãos, as ramificações interiores da espécie, e também as próprias tendências da "alma" e seus comportamentos.

No Homem, considerado como grupo zoológico, prolongam-se ao mesmo tempo: a atração sexual com as leis da reprodução; o pendor à luta para viver, com suas competições; a necessidade de alimentar-se, com o gosto de tomar e devorar; a curiosidade de ver, com seu prazer de investigação; a atração de aproximar-se para viver reunido... Cada uma dessas fibras passa por cada um de nós, vindo de mais baixo e subindo mais alto que nós; de sorte que, para cada uma delas, poderia ser retomada uma história, e não a menos verdadeira, de toda a evolução: evolução do amor, evolução da guerra, evolução da pesquisa, evolução do sentido social...

Mas cada uma também, precisamente porque evolutiva, se metamorfoseia ao passar pela reflexão. E daí recomeça enriquecida de possibilidades, cores e fecundidades novas. A mesma coisa, em certo sentido. E também algo inteiramente outro. A figura que se transforma mudando de espaço e dimensões... A descontinuidade, mais uma vez, sobre o contínuo. A mutação sobre a evolução.

Nesse flexível desvio, nessa harmoniosa refundição que transfigura o feixe completo, externo e interno, das antecedências vitais, como não encontrar confirmação preciosa de tudo o que já havíamos adivinhado? Quando um objeto se põe a crescer por algum acessório de si mesmo, desequilibra-se e torna-se disforme. Para permanecer simétrico e belo, um corpo deve modificar-se inteiro ao mesmo tempo, segundo algum de seus eixos principais.

Ao phylum sobre o qual ela se coloca, a Reflexão conserva, remanejando-as, todas as suas linhas. É porque ela não representa a excrescência fortuita de uma energia parasita. O Homem só progride elaborando lentamente, de idade em idade, a essência e a totalidade de um Universo depositado nele.

É a esse grande processo de sublimação que convém aplicar, com toda a sua força, o termo Hominização. A Hominização, que é antes de tudo, se quisermos, o salto individual, instantâneo, do instinto ao pensamento. Mas a Hominização que é também, em sentido mais amplo, a espiritualização filética, progressiva, na Civilização humana, de todas as forças contidas na Animalidade.

E eis-nos levados, depois de considerar o Elemento, depois de encarar a Espécie, a olhar a Terra em sua totalidade.

#### C) O Passo Terrestre Planetário. A Noosfera

Observado em relação ao conjunto de todos os verticilos vivos, o phylum humano não é um phylum como os outros. Mas, porque a Ortogênese específica dos Primatas, aquela que os empurra rumo a crescente cerebralidade, coincide com a Ortogênese axial da Matéria organizada, aquela que empurra todos os vivos rumo a mais alta consciência, o Homem, aparecido no coração dos Primatas, desabrocha na flecha da Evolução zoológica. Nessa constatação culminavam, recordamos, nossas considerações sobre o estado do Mundo plioceno.

Que valor privilegiado essa situação única vai conferir ao passo da Reflexão?

É fácil percebê-lo.

"A mudança de estado biológico que desemboca no despertar do Pensamento não corresponde simplesmente a um ponto crítico cruzado pelo indivíduo, ou mesmo pela Espécie. Mais vasta que isso, afeta a própria Vida em sua totalidade orgânica; e, por conseguinte, marca uma transformação que afeta o estado do planeta inteiro."

Tal é a evidência que, nascendo de todas as outras evidências pouco a pouco adicionadas e ligadas no curso de nossa investigação, se impõe irresistivelmente à nossa lógica e aos nossos olhos.

Não cessáramos de seguir, desde os contornos flutuantes da Terra Juvenil, os estádios sucessivos de uma só grande empresa. Sob as pulsações da geoquímica, da geotectônica, da geobiologia, um só e mesmo processo de fundo, sempre reconhecível: aquele que, depois de se materializar nas primeiras células, se prolongava na edificação dos sistemas nervosos. A Geogênese, dizíamos, emigrando para uma Biogênese que finalmente não é outra coisa senão Psicogênese.

Com e na crise da Reflexão, nada menos que o termo seguinte da série se descobre. A Psicogênese nos havia conduzido até o Homem. Apaga-se agora, revezada ou absorvida por uma função mais alta: primeiro o parto, depois, ulteriormente, todos os desenvolvimentos do Espírito, a Noogênese. Quando, pela primeira vez, em um vivo, o instinto se percebeu no espelho de si mesmo, foi o Mundo inteiro que deu um passo.

Para as escolhas e responsabilidades de nossa ação, as consequências dessa descoberta são enormes. Voltaremos a isso. Para nossa inteligência da Terra, são decisivas.

Os geólogos, há muito, concordam em admitir a composição zonar do nosso planeta. Já nomeamos a Barisfera, metálica e central, cercada por sua Litosfera rochosa, encimada ela própria pelas zonas fluidas da Hidrosfera e da Atmosfera. A essas quatro superfícies encaixadas, a Ciência se habitua com razão, desde Suess, a acrescentar a membrana viva formada pelo emaranhado vegetal e animal do Globo: a Biosfera, tantas vezes nomeada nestas páginas; a Biosfera, invólucro tão nitidamente universal quanto as outras "esferas", e até muito mais nitidamente individualizada que elas, pois, em lugar de representar agrupamento mais ou menos frouxo, forma uma peça única, a própria malha das relações genéticas que, uma vez desdobrada e erguida, desenha a Árvore da Vida.

Por termos reconhecido e isolado, na história da Evolução, a era nova de uma Noogênese, eis-nos forçados, correlativamente, a distinguir, no majestoso conjunto dos folhetos telúricos, um suporte proporcionado à operação, isto é, mais uma membrana. Em torno da centelha das primeiras consciências refletidas, os progressos de um círculo de fogo. O ponto de ignição se alargou. O fogo ganha de próximo em próximo. Finalmente a incandescência cobre o planeta inteiro. Uma só interpretação, um só nome, estão à altura desse grande fenômeno. Tão extensa quanto, e veremos que muito mais coerente ainda que todas as Nappes precedentes, é verdadeiramente uma Nappe nova, a "Nappe pensante", que, depois de germinar no fim do Terciário, se estende desde então por sobre o mundo das Plantas e dos Animais: fora e acima da Biosfera, uma Noosfera.

Aqui explode a desproporção que falseia toda classificação do mundo vivo, e indiretamente toda construção do mundo físico, em que o Homem só figura logicamente como gênero ou família nova. Erro de perspectiva que desfigura e descoroa o Fenômeno universal! Para dar ao Homem, na Natureza, seu lugar verdadeiro, não basta abrir nos quadros da Sistemática uma seção suplementar, nem mesmo uma Ordem, nem mesmo um Ramo a mais... Pela hominização, a despeito das insignificâncias do salto anatômico, é uma Idade nova que começa. A Terra faz "pele nova". Melhor ainda: encontra sua alma.

Por consequência, recolocado nas coisas em dimensões verdadeiras, o passo histórico da Reflexão é muito mais importante que qualquer corte zoológico, fosse aquele que marca a origem dos Tetrápodes, ou o dos Metazoários eles mesmos. Entre os degraus sucessivamente cruzados pela Evolução, o nascimento do Pensamento faz sequência direta, e só é comparável, em ordem de grandeza, à condensação do quimismo terrestre ou à própria aparição da Vida.

O paradoxo humano se resolve tornando-se desmedido!

Apesar do relevo e da harmonia que põe nas coisas, essa perspectiva nos desconcerta à primeira vista porque contradiz a ilusão e os hábitos que nos inclinam a medir os acontecimentos por sua face material. Ela também nos parece desmedida porque, mergulhados nós mesmos no humano como um peixe no mar, temos dificuldade de emergir pelo espírito para apreciar sua especificidade e sua amplitude. Mas observemos um pouco melhor ao nosso redor: esse dilúvio súbito de cerebralidade; essa invasão biológica de um tipo animal novo que elimina ou submete gradualmente toda forma de vida que não é humana; essa maré irresistível de campos e fábricas; esse imenso edifício crescente de matéria e ideias... Todos esses sinais, que olhamos dia após dia sem tentar compreender, não nos gritam que na Terra algo mudou "planetariamente"?

Em verdade, para um geólogo imaginário que viesse, muito mais tarde, inspecionar nosso globo fossilizado, a mais espantosa das revoluções sofridas pela Terra se colocaria, sem equívoco, no começo daquilo que muito justamente se chamou o Psicozoico. E neste momento mesmo, para algum Marciano capaz de analisar psicicamente, tanto quanto fisicamente, as radiações siderais, a primeira característica do nosso planeta certamente seria aparecer-lhe não azul por seus mares ou verde por suas florestas, e sim fosforescente de Pensamento.

O que pode haver de mais revelador para nossa Ciência moderna é perceber que todo o precioso, todo o ativo, todo o progressivo contidos originariamente no retalho cósmico de onde nosso mundo saiu se acham agora concentrados na "coroa" de uma Noosfera.

E o que há de supremamente instrutivo, se soubermos ver, na origem dessa Noosfera, é constatar quão insensivelmente, à força de estar universal e longamente preparado, se produziu o enorme acontecimento representado por seu nascimento.

No mundo, o Homem entrou sem ruído...

### 2. As Formas Originárias

O Homem entrou sem ruído...

Há cerca de um século que o problema científico das Origens humanas se colocou; há um século que uma equipe crescente de pesquisadores se empenha em escavar o Passado em seu ponto inicial de hominização; e não consigo encontrar fórmula mais expressiva que esta para resumir as descobertas da Pré-história. Quanto mais se multiplicam os achados de fósseis humanos, quanto mais seus caracteres anatômicos e sua sucessão geológica se esclarecem, mais se torna evidente, por convergência incessante de todos os indícios e de todas as provas, que a "espécie" humana, por única que seja pelo patamar entitativo a que a Reflexão a conduziu, nada abalou na Natureza no momento de sua aparição. Quer a olhemos em seu entorno, quer a consideremos na morfologia de sua haste, quer a inspecionemos na estrutura global de seu grupo, ela emerge filogeneticamente a nossos olhos como qualquer outra espécie, exatamente.

Em seu entorno, primeiro. Uma forma animal, nós o sabemos pela Paleontologia, nunca aparece sozinha; desenha-se no seio de um verticilo de formas vizinhas, entre as quais toma corpo, como às apalpadelas. Assim ocorre com o Homem. Na natureza atual, o Homem, tomado zoologicamente, faz quase figura de isolado. Em seu berço, estava melhor cercado. Já não podemos duvidar agora: sobre uma área bem definida e imensa, que da África meridional se estende à China do Sul e à Malásia, nas rochas e nas florestas, os Antropoides eram, no fim do Terciário, muito mais numerosos que os que restam hoje. Além do Gorila, do Chimpanzé e do Orangotango, agora rechaçados a seus últimos refúgios, tal qual hoje os Australianos e os Negrilhos, vivia então uma população de outros grandes Primatas. E, entre essas formas, certos tipos, os Australopitecos da África, por exemplo, parecem ter sido muito mais hominoides que tudo o que conhecemos de vivo.

Na morfologia de sua haste, em seguida. Com a multiplicação das "formas-irmãs", o que trai, para o naturalista, a origem de um ramo vivo é certa convergência do eixo desse ramo com o eixo dos ramos vizinhos. Na aproximação de um nó, as folhas se aproximam. Não apenas uma espécie, apreendida em estado nascente, forma buquê com várias outras; com elas trai ainda, muito mais nitidamente do que quando se torna adulta, seu parentesco zoológico. Quanto mais se segue, para baixo rumo ao Passado, uma linhagem animal, mais numerosos e claros se tornam nela os traços "primitivos". O Homem, aqui ainda, obedece rigorosamente, no conjunto, ao mecanismo habitual da Filética. Experimentai somente pôr, em série descendente, o Pithecanthropus e o Sinanthropus, depois dos Neandertaloides, abaixo do Homem hoje vivo. A Paleontologia raramente consegue traçar alinhamento tão satisfatório...

Na estrutura de seu grupo, enfim. Por definido que seja por seus caracteres, um phylum nunca se surpreende inteiramente simples, feito radiação pura. Manifesta, por mais profundo que possamos segui-lo, uma tendência interna à clivagem, à dispersão. Mal nascida, ou mesmo nascente, a espécie já se fragmenta em variedades ou subespécies. Isso, todos os naturalistas sabem. Visto isto, voltemo-nos uma última vez para o Homem, o Homem cuja Pré-história, mesmo a mais antiga, nada faz senão analisar, e portanto provar, a aptidão congênita a se ramificar. É contestável que, no leque dos Antropoides, ele se tenha isolado, submetido nisso às leis de toda matéria animada, como um leque ele próprio?

Eu não exagerava, portanto. Quanto mais a Ciência sonda o passado de nossa humanidade, mais esta, enquanto espécie, se conforma às regras e ao ritmo que marcavam antes dela cada novo brotamento sobre a Árvore da Vida. Mas, nesse caso, logicamente precisamos ir até o fim, dar um último passo. Já que é tão semelhante, em seu nascimento, a todos os outros phyla, cessemos de nos espantar se, exatamente como todo o resto dos conjuntos vivos, o Homem-espécie escapa à nossa ciência pelos frágeis segredos de suas primeiríssimas origens; e guardemo-nos, desde então, de procurar, por perguntas mal postas, forçar e falsear essa condição natural.

O Homem entrou sem ruído, dizia eu. De fato, caminhou tão suavemente que, quando, traído pelos instrumentos de pedra indeléveis que multiplicam sua presença, começamos a percebê-lo, já cobre o Antigo Mundo do Cabo da Boa Esperança a Pequim. Já, certamente, fala e vive em grupos. Já faz fogo. Afinal, não é exatamente isso que devíamos esperar? Toda vez que uma forma viva nova se levanta a nossos olhos das profundezas da História, não sabemos que surge já feita, e que já é legião?...

Aos olhos da Ciência, portanto, que de longe só apreende conjuntos, o "primeiro homem" é, e só pode ser, uma multidão; e sua juventude é feita de milhares e milhares de anos.[3]

É fatal que essa situação nos decepcione e deixe nossa curiosidade insatisfeita. O que mais nos preocupa não é precisamente aquilo que pôde acontecer no curso desses primeiros mil anos? E muito mais ainda aquilo que pôde marcar o primeiro instante? Na própria borda do fosso da Reflexão, recém-cruzado, gostaríamos muito de saber qual pôde ser o exterior de nossos primeiros pais. O salto, fiz notar, teve de fazer-se em um passo. Imaginemos fotografado, fatia por fatia, o Passado: nesse instante crítico da primeira hominização, que veríamos desenrolar-se em nosso filme ao revelá-lo?...

Se compreendemos os limites de ampliação impostos pela Natureza ao instrumento que nos ajuda a sondar o céu do Passado, saberemos renunciar a esses desejos inúteis e veremos por quê. Nenhuma fotografia poderia registrar no phylum humano essa passagem à reflexão que, com razão, nos intriga; pela simples razão de que o fenômeno se operou no interior daquilo que falta sempre em um phylum reconstituído: o pedúnculo de suas formas originárias.

Desse pedúnculo, ao menos, se é verdade que as formas tangíveis nos escapam, podemos conjecturar indiretamente a complexidade e a estrutura iniciais?... Sobre esses pontos a Paleantropologia ainda não está fixada. Mas é possível procurar formar uma opinião.[4]

Entre os antropologistas, muitos, e não dos menores, pensam que o pedúnculo de nossa Raça deve ter-se composto de vários feixes aparentados, embora distintos. Assim como sobre o meio intelectual humano, chegado a certo grau de preparação e pressão, uma mesma ideia pode vir à luz em vários pontos ao mesmo tempo, assim, estimam eles, sobre a "camada antropoide" pliocena, o Homem deve ter começado, e seria este em realidade o mecanismo geral de toda vida, em diversas regiões simultaneamente. Não "polifiletismo", propriamente dito, pois os diversos pontos de germinação se achariam localizados no mesmo folheto zoológico; e sim mutação extensiva de todo esse folheto. "Hologênese" e, portanto, policentria. Toda uma série de pontos de hominização, disseminados ao longo de uma zona subtropical da Terra; e por conseguinte diversas linhagens humanas soldando-se geneticamente em algum lugar abaixo da Reflexão. Não um foco, e sim uma frente de evolução.

Sem contestar o valor e as probabilidades científicas dessa perspectiva, sinto-me pessoalmente atraído por uma hipótese de matiz diferente. Já insisti várias vezes sobre esta curiosa particularidade apresentada pelos ramos zoológicos: trazer, fixados neles à maneira de caracteres essenciais, certos traços de origem claramente particular e acidental, como os dentes trituberculados e as sete vértebras cervicais dos Mamíferos superiores; a tetrapodia dos Vertebrados marchadores; o poder rotatório, em sentido único, das substâncias organizadas... Justamente porque esses traços são secundários e acidentais, dizia eu, sua ocorrência universal em grupos às vezes imensos só se explica bem se esses grupos desabrocharam a partir de um broto altamente particularizado, e portanto extremamente localizado. Nada mais, talvez, para sustentar na origem uma Nappe, ou mesmo um Ramo, ou mesmo a Vida inteira, que um simples raio em um verticilo. Ou, se alguma convergência atuou, só pode ter sido entre fibras extremamente vizinhas.

Sob a influência dessas considerações, e sobretudo no caso de um grupo tão homogêneo e especializado como aquele que nos ocupa, eu tenderia a reduzir tanto quanto possível os efeitos de paralelismo na formação inicial do ramo humano. Sobre o verticilo dos Primatas superiores, ele não deve ter colhido suas fibras aqui e ali, fio por fio, um pouco sobre todos os raios. Mais estreitamente ainda que qualquer outra espécie, representa ao melhor, penso eu, o espessamento e o sucesso de uma só haste entre todas as hastes, sendo essa haste, de resto, a mais central da gavela, porque a mais vivaz e, excetuado o cérebro, a menos especializada. Todas as linhagens humanas, nesse caso, se reencontrariam geneticamente, por baixo, no próprio ponto da Reflexão.[5]

Depois disso, e se admitimos, nas origens humanas, a existência estreitamente única de tal pedúnculo, que dizer a mais, sempre sem abandonar o plano do puro fenômeno, sobre seu comprimento e sua espessura provável?

Convém, como fazia Osborn, representá-lo separando-se muito baixo, no Eoceno ou no Oligoceno, em um leque de formas pré-antropoides? É melhor, ao contrário, com K. W. Gregory, olhá-lo como uma radiação saída somente no Plioceno do verticilo antropoide?...

Outra questão ainda, sempre a mesma: ainda do mesmo ponto de vista, estritamente "fenomenal", que diâmetro mínimo devemos supor, por possibilidade biológica, a esse raio, quer seja profundo ou não, se o consideramos em seu ponto inicial de hominização? Para que tenha podido "mutar", resistir e viver, quantos indivíduos ao menos, em ordem de grandeza, tiveram de sofrer simultaneamente a metamorfose da Reflexão?... Por mais monofilética que se a suponha, uma espécie não se desenha sempre como uma corrente difusa no seio de um rio, por efeito de massas? Ou se propaga antes, ao contrário, como a cristalização, a partir de algumas parcelas, por efeito de unidades?...

Eu já o disse ao esboçar a teoria geral dos phyla. Em nosso espírito, os dois símbolos, cada qual parcialmente verdadeiro talvez, ainda se chocam com suas vantagens e seus atrativos respectivos. Saibamos esperar que sua síntese se estabeleça.

Saibamos esperar. E, para esperar, recordemos as duas coisas seguintes.

A primeira é que, em qualquer hipótese, e por mais solitário que tenha aparecido, o Homem emergiu de um tateamento geral da Terra. Nasceu, em linha direta, de um esforço total da Vida. Dignidade sobreeminente e valor axial de nossa Espécie. Para a satisfação de nossa inteligência e as exigências de nossa ação, no fundo não precisamos saber mais que isso.

E a segunda é que, por fascinante que seja, o problema das origens, mesmo resolvido em detalhe, não resolveria o problema humano. Temos perfeita razão em considerar a descoberta dos homens fósseis uma das linhas mais iluminadoras e críticas da Pesquisa moderna. Contudo, não deveríamos iludir-nos, por isso, sobre os limites, em todos os domínios, dessa forma de análise que é a Embriogênese. Se, em sua estrutura, o embrião de cada coisa é frágil, fugaz e, por consequência, no Passado, praticamente inapreensível, quanto mais ainda, em seus traços, é equívoco e indecifrável! Não é em seus germes que os seres se manifestam, e sim em seu desabrochamento. Tomados em sua fonte, os maiores rios são apenas finos riachos.

Para apreender a amplitude verdadeiramente cósmica do Fenômeno humano, era necessário que seguíssemos suas raízes, por meio da Vida, até os primeiros envolvimentos da Terra sobre si mesma. Mas, se quisermos compreender a natureza específica e adivinhar o segredo do Homem, não há outro método senão observar aquilo que a Reflexão já deu e aquilo que anuncia, adiante.

## Notas

[1] Desse ponto de vista, poder-se-ia dizer que toda forma de instinto tende a tornar-se "inteligência", à sua maneira; a operação, porém, só foi bem-sucedida até o fim na linha humana, por razões extrínsecas ou intrínsecas. O Homem representaria, portanto, chegada ao estado refletido, uma só das inumeráveis modalidades de consciência experimentadas pela Vida no mundo animal. Tantos mundos psíquicos nos quais é muito difícil entrar, porque o conhecimento ali é mais confuso e porque funciona de modo diferente do nosso.

[2] Preciso repetir, mais uma vez, que me limito aqui ao Fenômeno, isto é, às relações experimentais entre Consciência e Complexidade, sem nada prejulgar sobre a ação de Causas mais profundas, conduzindo todo o jogo? Em virtude das limitações impostas ao nosso conhecimento sensível pelo jogo das séries temporo-espaciais, parece que só sob as aparências de um ponto crítico podemos apreender experimentalmente o passo hominizante, espiritualizante, da Reflexão. Posto isto, nada impede o pensador espiritualista, por razões de ordem superior e em um tempo ulterior de sua dialética, de colocar, sob o véu fenomenal de uma transformação revolucionária, tal operação "criadora" e tal "intervenção especial" que quiser. Que haja, para nosso espírito, planos diferentes e sucessivos de conhecimento, não é este um princípio universalmente aceito pelo pensamento cristão em sua interpretação teológica da Realidade?

[3] Eis por que, à Ciência, como tal, o problema do monogenismo em sentido estrito, não digo do monofiletismo, parece escapar por sua própria natureza. Nas profundezas de tempo em que se coloca a hominização, a presença e os movimentos de um casal único são positivamente inapreensíveis, indetectáveis para nosso olhar direto, em qualquer ampliação. De sorte que se poderia dizer que há lugar, nesse intervalo, para tudo o que viesse a exigir uma fonte transexperimental de conhecimento.

[4] Certa ideia da maneira pela qual a passagem ao Homem se efetuou zoologicamente talvez nos seja sugerida pelo caso dos Australopitecos, mencionados acima. Nessa família de Antropomorfos pliocenos sul-africanos, evidentemente um grupo em estado de mutação ativa, onde toda uma série de caracteres hominoides aparece disseminada sobre um fundo ainda nitidamente simiesco, apreendemos talvez uma imagem, ou mesmo o reflexo enfraquecido, do que, por volta da mesma época, ou não muito longe dali, se passava em outro grupo de Antropoides, conduzindo estes à verdadeira Hominização.

[5] O que equivale a dizer que, se a ciência do Homem nada pode afirmar diretamente a favor ou contra o monogenismo, um só casal inicial, em compensação ela se pronuncia decididamente, parece, em favor do monofiletismo.

1/1
Menu

Fazer anotação