Prólogo
## Prólogo
### Ver
Estas páginas representam um esforço para ver e fazer ver aquilo que o Homem se torna e exige quando o colocamos, por inteiro e até o fim, no quadro das aparências. Por que procurar ver? E por que voltar mais especialmente nossos olhares para o objeto humano?
Ver. Poderíamos dizer que toda a Vida está aí, se não em seu termo último, ao menos em sua essência. Ser mais é unir-se mais: eis o resumo e a própria conclusão desta obra. Contudo, ainda o constataremos, a unidade só cresce quando sustentada por um aumento de consciência, isto é, de visão. Eis por que, sem dúvida, a história do Mundo vivo se reduz à elaboração de olhos sempre mais perfeitos no seio de um Cosmos em que é possível discernir sempre melhor.
A perfeição de um animal, a supremacia do ser pensante, não se medem pela penetração e pelo poder sintético de seu olhar? Procurar ver mais e melhor não é, portanto, fantasia, curiosidade ou luxo. Ver ou perecer. Tal é a situação imposta pelo dom misterioso da existência a tudo o que é elemento do Universo. E tal é, por consequência, em grau superior, a condição humana.
Se conhecer é de fato tão vital e tão beatificante, por que, mais uma vez, voltar de preferência nossa atenção para o Homem? O Homem não foi já suficientemente descrito, a ponto de se tornar enfadonho? E não reside justamente um dos atrativos da Ciência em desviar e repousar nossos olhos sobre um objeto que, enfim, não seja nós mesmos?
Por uma dupla razão, que o faz duas vezes centro do Mundo, o Homem se impõe ao nosso esforço de ver como a chave do Universo.
Subjetivamente, primeiro, somos inevitavelmente centro de perspectiva em relação a nós mesmos. Foi uma ingenuidade, provavelmente necessária, da Ciência nascente imaginar que poderia observar os fenômenos em si, tais quais se desenrolariam à parte de nós mesmos. Instintivamente, físicos e naturalistas operaram de início supondo que seu olhar mergulhava do alto sobre um Mundo que sua consciência poderia penetrar sem sofrê-lo nem modificá-lo.
Eles começam agora a perceber que suas observações mais objetivas estão todas impregnadas de convenções escolhidas na origem, e também das formas ou hábitos de pensamento desenvolvidos no curso do desenvolvimento histórico da Pesquisa. Chegados ao extremo de suas análises, já não sabem bem se a estrutura que alcançam é a essência da Matéria que estudam ou o reflexo de seu próprio pensamento.
Simultaneamente, percebem que, pelo contragolpe de suas descobertas, eles próprios se encontram envolvidos, corpo e alma, na rede das relações que pensavam lançar de fora sobre as coisas: presos em sua própria malha. Metamorfismo e endomorfismo, diria um geólogo. Objeto e sujeito se unem e se transformam mutuamente no ato do conhecimento. De bom ou mau grado, desde então, o Homem se reencontra e olha para si mesmo em tudo o que vê.
Há aí uma servidão, compensada de imediato por certa grandeza única.
É simplesmente banal, e até sujeitador, para um observador, transportar consigo, aonde quer que vá, o centro da paisagem que percorre. Que acontece, porém, ao caminhante se os acasos de sua marcha o levam a um ponto naturalmente vantajoso, cruzamento de estradas ou de vales, a partir do qual não apenas o olhar, e sim as próprias coisas, irradiam? Então, o ponto de vista subjetivo, coincidindo com uma distribuição objetiva das coisas, instala a percepção em sua plenitude.
A paisagem se decifra e se ilumina. Vê-se.
Tal parece ser, de fato, o privilégio do conhecimento humano.
Não é preciso ser homem para perceber os objetos e as forças “em círculo” ao redor de si. Todos os animais estão nisso tanto quanto nós. É próprio do Homem, contudo, ocupar na Natureza uma posição tal que essa convergência das linhas seja não apenas visual, e sim estrutural. As páginas que se seguem apenas verificarão e analisarão esse fenômeno.
Em virtude da qualidade e das propriedades biológicas do Pensamento, estamos colocados em um ponto singular, sobre um nó, que comanda a fração inteira do Cosmos atualmente aberta à nossa experiência. Centro de perspectiva, o Homem é, ao mesmo tempo, centro de construção do Universo. Por vantagem, tanto quanto por necessidade, é a ele que, afinal, é preciso reconduzir toda Ciência. Se ver é realmente ser mais, olhemos o Homem e viveremos mais.
E, para isso, acomodemos corretamente nossos olhos.
Desde que existe, o Homem é oferecido como espetáculo a si mesmo. Na verdade, há dezenas de séculos, ele só olha para si. E, no entanto, mal começa a tomar uma visão científica de sua significação na Física do Mundo. Não nos espantemos com essa lentidão no despertar. Nada é tão difícil de perceber, muitas vezes, quanto aquilo que deveria saltar aos olhos.
Não é necessária uma educação à criança para separar as imagens que assediam sua retina recém-aberta? Ao Homem, para descobrir o Homem até o fim, era necessária toda uma série de “sentidos”, cuja aquisição gradual, teremos de dizê-lo, cobre e marca a própria história das lutas do Espírito.
Sentido da imensidão espacial, na grandeza e na pequenez, desarticulando e espaçando, no interior de uma esfera de raio indefinido, os círculos dos objetos comprimidos ao nosso redor.
Sentido da profundidade, repelindo laboriosamente, ao longo de séries ilimitadas e sobre distâncias temporais desmedidas, acontecimentos que uma espécie de peso tende continuamente a comprimir para nós em uma estreita folha de Passado.
Sentido do número, descobrindo e avaliando sem vacilar a multidão vertiginosa de elementos materiais ou vivos envolvidos na menor transformação do Universo.
Sentido da proporção, realizando o quanto possível a diferença de escala física que separa, nas dimensões e nos ritmos, o átomo da nebulosa, o ínfimo do imenso.
Sentido da qualidade, ou da novidade, chegando a distinguir na Natureza, sem romper a unidade física do Mundo, patamares absolutos de perfeição e crescimento.
Sentido do movimento, capaz de perceber os desenvolvimentos irresistíveis escondidos nas lentidões muito grandes, a agitação extrema dissimulada sob um véu de repouso, o inteiramente novo deslizando no coração da repetição monótona das mesmas coisas.
Sentido do orgânico, enfim, descobrindo as ligações físicas e a unidade estrutural sob a justaposição superficial das sucessões e das coletividades.
Sem essas qualidades em nosso olhar, o Homem permanecerá indefinidamente para nós, façam o que fizerem para nos fazer ver, aquilo que ainda é para tantas inteligências: objeto errático em um Mundo desconexo. Dissipe-se, ao contrário, de nossa ótica, a tripla ilusão da pequenez, do plural e do imóvel, e o Homem vem ocupar sem esforço o lugar central que anunciávamos: cume momentâneo de uma Antropogênese que coroa, ela própria, uma Cosmogênese.
O Homem não poderia ver-se completamente fora da Humanidade; nem a Humanidade fora da Vida; nem a Vida fora do Universo.
Daí o plano essencial deste trabalho: a Pré-vida, a Vida, o Pensamento. Esses três acontecimentos desenham no Passado e comandam para o futuro, a Sobrevida, uma única e mesma trajetória: a curva do Fenômeno humano.
Fenômeno humano, digo bem.
Essa palavra não foi escolhida ao acaso. Escolhi-a por três razões.
Primeiro, para afirmar que o Homem, na Natureza, é verdadeiramente um fato, pertencente, ao menos parcialmente, às exigências e aos métodos da Ciência.
Em seguida, para dar a entender que, entre os fatos apresentados ao nosso conhecimento, nenhum é mais extraordinário, nem mais iluminador.
Por fim, para insistir bem no caráter particular do Ensaio que apresento.
Meu único objetivo, e minha verdadeira força, ao longo destas páginas, é simplesmente, repito, procurar ver, isto é, desenvolver uma perspectiva homogênea e coerente de nossa experiência geral estendida ao Homem. Um conjunto que se desenvolve.
Que não se procure, portanto, aqui, uma explicação última das coisas, uma metafísica. E que ninguém se engane também quanto ao grau de realidade que concedo às diferentes partes do filme que apresento. Quando eu tentar figurar para mim o Mundo antes das origens da Vida, ou a Vida no Paleozoico, não esquecerei que haveria contradição cósmica em imaginar um Homem espectador dessas fases anteriores à aparição de todo Pensamento sobre a Terra.
Portanto, não pretenderei descrevê-las tal como foram realmente, e sim como devemos representá-las para que o Mundo seja verdadeiro neste momento para nós: o Passado, não em si, e sim tal como aparece a um observador colocado no cume avançado onde a Evolução nos situou. Método seguro e modesto, suficiente, porém, nós o veremos, para fazer surgir por simetria, à frente, surpreendentes visões de futuro.
Bem entendido, mesmo reduzidas a essas humildes proporções, as vistas que tento exprimir aqui são amplamente tentativas e pessoais. Resta que, apoiadas em um esforço considerável de investigação e em uma reflexão prolongada, elas dão uma ideia, sobre um exemplo, da maneira pela qual se coloca hoje, em Ciência, o problema humano.
Estudado estreitamente em si mesmo pelos antropologistas e pelos juristas, o Homem é uma coisa mínima, e até diminuída. Sua individualidade marcada demais, ocultando aos nossos olhares a Totalidade, inclina nosso espírito, ao considerá-lo, a fragmentar a Natureza e a esquecer seus vínculos profundos e seus horizontes desmedidos: todo o mau antropocentrismo. Daí a repugnância, ainda sensível entre os sábios, a aceitar o Homem por outra via que não seja seu corpo, como objeto de Ciência.
Chegou o momento de perceber que uma interpretação, mesmo positivista, do Universo deve, para ser satisfatória, cobrir o interior tanto quanto o exterior das coisas, o Espírito tanto quanto a Matéria. A verdadeira Física será aquela que conseguir, algum dia, integrar o Homem total em uma representação coerente do mundo.
Que eu consiga fazer sentir aqui que essa tentativa é possível e que dela depende, para quem quer e sabe ir ao fundo das coisas, a conservação em nós da coragem e da alegria de agir.
Em verdade, duvido que haja para o ser pensante minuto mais decisivo do que aquele em que, caindo-lhe as escamas dos olhos, ele descobre que não é um elemento perdido nas solidões cósmicas, pois uma vontade universal de viver converge e se hominiza nele.
O Homem, longe de ser o centro estático do Mundo, como por muito tempo acreditou, é eixo e flecha da Evolução. Isso é muito mais belo.