II. A Vida - Capítulo III - A Terra-Mãe (Deméter)
## II. A Vida - Capítulo III - A Terra-Mãe (Deméter)
Deméter!
Terra-Mãe! Um fruto? Que fruto?... Procuraria ele nascer sobre a Árvore da Vida?
Ao longo de todo o capítulo precedente, falamos de crescimento para exprimir os andamentos da Vida. Pudemos mesmo, em certa medida, reconhecer o princípio desse impulso, ligado, tal qual nos apareceu, ao fenômeno de aditividade dirigida. Por acumulação continuada de propriedades, seja qual for o mecanismo exato dessa hereditariedade, a Vida faz "bola de neve". Empilha caracteres sobre caracteres em seu protoplasma. Vai-se complicando sempre mais.
Mas o que representa, no conjunto, esse movimento de expansão? Explosão operante e definida, à maneira de um motor? Ou distensão desordenada, em todos os sentidos, à maneira de um estouro?...
Sobre o fato geral de que há uma evolução, todos os pesquisadores, eu dizia, estão agora de acordo. Sobre a questão de saber se essa evolução é dirigida, a situação é outra. Perguntai hoje a um biólogo se admite que a Vida vá a algum lugar no curso de suas transformações: nove vezes em dez, ele vos responderá: "Não", e até apaixonadamente.
"Que a matéria organizada esteja em metamorfose contínua", dir-vos-á ele, "e mesmo que essa metamorfose a faça deslizar com o tempo rumo a formas cada vez mais improváveis, isto salta aos olhos de todos. Que escala, porém, poderíamos encontrar para apreciar o valor absoluto, ou simplesmente relativo, dessas construções frágeis? Com que direito, por exemplo, dizer que o Mamífero, fosse o Homem, é mais avançado e mais perfeito que a Abelha ou a Rosa?... Em certa medida, podemos dispor os seres sobre círculos cada vez maiores, segundo seu afastamento no Tempo a partir da célula inicial. A partir de certo grau de diferenciação, porém, já não saberíamos estabelecer, cientificamente, nenhuma prioridade entre essas diversas elucubrações da Natureza. Soluções diversas, embora equivalentes. Em torno do centro, todos os raios, em todos os azimutes da esfera, são igualmente bons. Pois nada parece ir a nada."
A Ciência, em suas ascensões, e mesmo, eu o mostrarei, a Humanidade, em sua marcha, pisam neste momento no mesmo lugar, porque os espíritos hesitam em reconhecer que há uma orientação precisa e um eixo privilegiado de evolução. Debilitadas por essa dúvida fundamental, as pesquisas se dispersam e as vontades não se decidem a construir a Terra.
Eu gostaria de fazer compreender aqui por que, posto de lado todo antropocentrismo e todo antropomorfismo, creio ver que um sentido e uma linha de progresso existem para a Vida; sentido e linha tão bem marcados, até, que sua realidade, estou convencido, será universalmente admitida pela Ciência de amanhã.
### 1. O Fio de Ariadne
E, para começar, já que se trata, nessa matéria, de graus na complicação orgânica, tentemos encontrar uma ordem na complexidade.
Visitado sem algum fio diretor, é preciso reconhecer que o conjunto dos seres vivos forma, qualitativamente, um labirinto inextricável.
Que se passa, para onde vamos, por essa sucessão monótona de leques?... Com os séculos, sem dúvida, os seres multiplicam o número e a sensibilidade de seus órgãos. Também os reduzem, porém, por especialização. E depois, que significa, em verdade, o termo "complicação"?... Há tantas maneiras diversas para um animal tornar-se menos simples. Diferenciação dos membros? dos tegumentos? das substâncias orgânicas? dos órgãos sensoriais? Segundo o ponto de vista adotado, toda espécie de distribuição é possível.
Entre essas múltiplas combinações, há realmente uma que seja mais verdadeira que as outras, isto é, que dê ao conjunto dos vivos coerência mais satisfatória, seja em relação a si mesmo, seja em relação ao Mundo no seio do qual a Vida se encontra engajada?
Para responder a essa questão, precisamos, penso eu, voltar para trás e retomar as considerações pelas quais eu tentava, mais acima, fixar as relações mútuas entre Fora e Dentro das Coisas. A essência do Real, dizia então, poderia muito bem ser representada por aquilo que o Universo contém, em dado momento, de "interioridade"; e a Evolução, nesse caso, no fundo não seria outra coisa senão o crescimento contínuo dessa Energia "psíquica" ou "radial" no curso da Duração, sob a Energia mecânica, ou "tangencial", praticamente constante na escala da nossa observação. Qual é, de resto, acrescentava eu, a função particular que liga experimentalmente uma à outra, em seus desenvolvimentos respectivos, as duas Energias radial e tangencial do Mundo? Evidentemente o arranjo: o arranjo, cujos progressos sucessivos se duplicam por dentro, podemos constatá-lo, por um crescimento e um aprofundamento contínuos de consciência.
Viremos agora, sem círculo vicioso, e sim por simples ajuste de perspectiva, essa proposição. Ficamos embaraçados para distinguir, entre as inumeráveis complicações sofridas pela Matéria orgânica em ebulição, aquelas que são apenas diversificações de superfície e aquelas, se existem, que corresponderiam a um agrupamento renovador do Estofo do Universo. Pois bem, procuremos somente reconhecer se, entre todas as combinações experimentadas pela Vida, algumas não estariam organicamente associadas a uma variação positiva de psiquismo nos seres que as possuem.
Se sim, e se minha hipótese é justa, são elas, não duvidemos, que, na massa equívoca das transformações banais, representam as complicações por excelência, as metamorfoses essenciais. Agarremo-las e sigamo-las. Há chances de que nos levem a algum lugar.
Posto nesses termos, o problema se resolve imediatamente. Sim, claro, existe nos organismos vivos uma engrenagem de eleição para o jogo da consciência; e basta olhar para nós mesmos para percebê-la: é o sistema nervoso. Só apreendemos positivamente uma única interioridade no Mundo: a nossa, diretamente; e, no mesmo ato, por equivalência imediata, graças à linguagem, a dos outros homens. Mas temos todas as razões para pensar que, também nos animais, existe certo dentro, aproximadamente mensurável pela perfeição de seu cérebro. Procuremos, portanto, distribuir os vivos por grau de "cerebralização". Que acontece? Uma ordem, a própria ordem que desejávamos, se estabelece, e automaticamente.
Retomemos, para começar, na Árvore da Vida, a região que conhecemos melhor, porque particularmente vivaz ainda hoje e porque pertencemos a ela: o Ramo "Cordado". Nesse conjunto, um primeiro caráter aparece, há muito posto em boa luz pela Paleontologia: é que, de Nappe em Nappe, por saltos maciços, o sistema nervoso vai constantemente desenvolvendo-se e concentrando-se. Quem não conhece o exemplo desses enormes Dinossaurianos nos quais a massa cerebral, ridiculamente pequena, formava apenas um estreito rosário de lobos, muito inferiores em diâmetro ao da medula na região lombar? Essas condições recordam as que prevalecem abaixo, nos Anfíbios e nos Peixes. Mas se passamos agora ao andar superior, nos Mamíferos, que mudança!
Nos Mamíferos, isto é, desta vez no interior de uma mesma Nappe, o cérebro é em média muito mais volumoso e pregueado que em qualquer outro grupo de Vertebrados. E, entretanto, se olhamos com mais detalhe, quantas desigualdades ainda, e sobretudo que ordenação na repartição das diferenças! Gradação segundo a posição dos Biotes, primeiro: na natureza atual, os Placentários passam cerebralmente à frente dos Marsupiais. E gradação segundo a idade, depois, no interior de um mesmo Biote.
No Terciário inferior, pode-se dizer, os cérebros dos Placentários, excetuados alguns Primatas, são sempre relativamente menores e menos complicados que a partir do Neógeno. Isto se constata peremptoriamente em phyla extintos, tais como os Dinoceratídeos, monstros cornudos cuja caixa craniana não ultrapassava muito, pela pequenez e pelo espaçamento dos lobos, o estádio atingido pelos Répteis secundários. Tais ainda os Condilartrídeos. Mas isto se observa ainda até dentro de uma mesma linhagem. Nos Carniceiros eocenos, por exemplo, o cérebro, ainda no estádio marsupial, é liso e bem separado do cerebelo. E seria fácil alongar a lista.
De maneira geral, qualquer que seja o raio escolhido sobre um verticilo qualquer, raramente deixamos de poder observar, se ele é bastante longo, que desemboca, com o tempo, em formas cada vez mais "cefalizadas".
Saltemos agora para outro Ramo, o dos Artrópodes e dos Insetos. Mesmo fenômeno. Aqui, porque lidamos com outro tipo de consciência, uma estimativa dos valores é menos fácil. Entretanto, o fio que nos guia parece ainda manter-se. De grupo em grupo, de idade em idade, essas formas psicologicamente tão distantes sofrem também, como nós, a influência da cefalização. Os gânglios nervosos se recolhem. Localizam-se e engrossam para a frente, na cabeça. E, no mesmo passo, os instintos se complicam. E, no mesmo ato também, manifestam-se, teremos de voltar a isso, fenômenos extraordinários de socialização.
Poderíamos levar essa análise sem fim. Já disse o bastante para indicar com que simplicidade, uma vez agarrado o bom fio, a meada se desembaraça. Por razões evidentes de comodidade, os naturalistas são levados, na classificação das formas organizadas, a utilizar certas variações de ornamentos, ou ainda certas modificações funcionais do aparelho ósseo. Guiada por ortogêneses que afetam a coloração e a nervulação das asas, ou a disposição dos membros, ou o desenho dos dentes, sua classificação desembaraça fragmentos, ou mesmo o esqueleto de uma estrutura no mundo vivo.
Porque as linhas assim traçadas só exprimem harmônicos secundários da evolução, o conjunto do sistema não toma nem figura nem movimento. A partir do instante, ao contrário, em que a medida, ou parâmetro, do fenômeno evolutivo é buscada na elaboração do sistema nervoso, não apenas a multidão dos gêneros e das espécies cai em ordem; a rede inteira de seus verticilos, de suas Nappes, de seus Ramos, se ergue como feixe fremente.
Não apenas uma repartição das formas animais segundo seu grau de cerebralização se ajusta exatamente aos contornos impostos pela Sistemática; ela ainda confere à Árvore da Vida relevo, fisionomia, impulso, nos quais é impossível não reconhecer o sinal da verdade. Tanta coerência, e acrescentemos, tanta facilidade, tanta fidelidade inesgotável e tanta potência evocadora na coerência, não poderiam ser efeito do acaso.
Entre as infinitas modalidades em que se dispersa a complicação vital, a diferenciação da substância nervosa se destaca, tal qual a teoria fazia prever, como uma transformação significativa.
Ela dá um sentido, e, por consequência, prova que há um sentido na evolução.
Tal será minha primeira conclusão.
Ora, essa proposição tem seu corolário. Nos vivos, este era nosso ponto de partida, o cérebro é indicador e medida de consciência. Nos vivos, acabamos de acrescentar agora, verifica-se que o cérebro vai-se aperfeiçoando continuamente com o tempo, a ponto de certa qualidade de cérebro aparecer essencialmente ligada a certa fase de Duração.
A conclusão última desprende-se por si: uma conclusão que ao mesmo tempo verifica as bases e comanda a sequência de nossa Exposição. Já que, tomada em sua totalidade e ao longo de cada ramo, a História Natural dos vivos desenha exteriormente o estabelecimento gradual de um vasto sistema nervoso, é porque corresponde interiormente à instalação de um estado psíquico nas dimensões mesmas da Terra. Em superfície, as fibras e os gânglios. Em profundidade, a consciência.
Buscávamos apenas uma regra simples para ordenar o enredamento das aparências. Eis que temos, em plena conformidade com nossas antecipações iniciais sobre a natureza ultimamente psíquica da evolução, uma variável de fundo, capaz de seguir no Passado, e talvez até de definir no Futuro, a curva verdadeira do Fenômeno.
O problema estaria resolvido?
Sim, quase.
Mas com uma condição, está claro, e que parecerá dura a certos preconceitos da Ciência.
É que, por uma mudança ou inversão de plano, deixemos o Fora para nos transportar ao Dentro das coisas.
### 2. A Subida de Consciência
Retomemos, então, tal como nos apareceu em suas grandes linhas, o movimento "expansional" da Vida. Mas desta vez, em lugar de nos perdermos no dédalo dos arranjos que afetam as energias "tangenciais" do Mundo, tentemos seguir a marcha "radial" de suas energias internas.
Tudo se ilumina definitivamente, em valor, em funcionamento e em esperança...
#### A) O Lugar da Vida
O que se descobre para começar, graças a essa simples mudança de variável, é o lugar ocupado pelo desenvolvimento da Vida na história geral do nosso planeta.
Mais acima, depois de discutir a origem das primeiras células, estimamos que, se sua geração espontânea só se produziu uma vez no curso dos tempos, é aparentemente porque a formação inicial do protoplasma estava ligada a um estado cruzado uma única vez pelo quimismo geral da Terra. A Terra, dizíamos então, deve ser olhada como sede de certa evolução global e irreversível, mais importante a considerar, para a Ciência, que qualquer uma das oscilações que correm em sua superfície; e a emersão primordial da matéria organizada marca um ponto, um ponto crítico, sobre a curva dessa evolução.
Depois disso, o fenômeno parecera perder-se em um fervilhar de ramagens. Quase o havíamos esquecido. Eis que ele emerge de novo. Com e na maré, devidamente registrada pelos sistemas nervosos, que leva a vaga viva rumo a sempre mais consciência, é o grande movimento de fundo que vemos reaparecer, e cuja continuação apreendemos.
Exatamente como o geólogo ocupado em enumerar transgressões e dobramentos, o paleontólogo que fixa no tempo a posição das formas animais se expõe a ver no Passado apenas uma série de pulsações monótonas, homogêneas entre si. Nesses quadros, os Mamíferos sucedem aos Répteis, e os Répteis aos Anfíbios, como os Alpes às cadeias cimérias, e estas aos Montes hercinianos. A essa perspectiva sem profundidade podemos doravante, e devemos, escapar. Já não a sinusoide que rasteja, e sim a espiral que jorra em hélice.
De Nappe em Nappe zoológica, alguma coisa passa e cresce sem parar, por arrancos, no mesmo sentido. E essa coisa é o que há de fisicamente mais essencial no astro que nos carrega. Evolução dos corpos simples pela via radioativa, segregação granítica dos continentes, isolamento talvez dos invólucros interiores do Globo: muitas outras transformações além do movimento vital formam sem dúvida uma nota contínua sob os ritmos da Terra. Desde que a Vida se isolou no seio da Matéria, esses diversos processos perderam a qualidade de ser o acontecimento supremo.
Com o primeiro nascimento dos Albuminoides, a essência do Fenômeno terrestre emigrou decididamente; concentrou-se na película, tão negligenciável em aparência, da Biosfera. O eixo da Geogênese passa, prolonga-se doravante pela Biogênese. E esta se exprime definitivamente por uma Psicogênese.
De um ponto de vista interno, justificado por harmonias que só crescerão aos nossos olhos, eis os diferentes objetos da nossa Ciência dispostos em sua perspectiva e suas proporções verdadeiras. Na frente, a Vida, com toda a Física subordinada a ela. E, no coração da Vida, para explicar sua progressão, a mola de uma Subida de Consciência.
#### B) A Mola da Vida
A mola da Vida... Questão asperamente debatida entre naturalistas, desde que o conhecimento da Natureza se viu reconduzido à compreensão da Evolução. Fiel a seus métodos analíticos e deterministas, a Biologia continua a querer encontrar nos estímulos externos ou estatísticos o princípio dos desenvolvimentos da Vida: luta para sobreviver, seleção natural... Desse ponto de vista, o mundo animado só se elevaria, na medida em que realmente se eleva, pela soma, automaticamente regulada, das tentativas que faz para permanecer ele mesmo.
Longe de mim, repetirei mais uma vez aqui, a ideia de recusar sua parte, uma parte importante e até essencial, a esse jogo histórico das formas materiais. Não o sentimos em cada um de nós, já que somos vivos? Para arrancar o indivíduo de sua preguiça natural e de suas rotinas adquiridas, e também para romper periodicamente os quadros coletivos que o aprisionam, urgências ou abalos exteriores são indispensáveis. Que faríamos sem nossos inimigos?...
Capaz de regular com flexibilidade, no interior dos corpos organizados, o movimento cego das moléculas, parece que a Vida chega ainda a utilizar para suas combinações criadoras as vastas reações nascidas fortuitamente pelo mundo entre correntes materiais e massas animadas. Com as coletividades e os acontecimentos ela parece jogar tão habilmente quanto com os átomos.
Mas que poderiam essa engenhosidade e esses excitantes, aplicados a uma inércia fundamental? E que seriam, de resto, nós o dissemos, as próprias energias mecânicas sem algum Dentro para alimentá-las?... Sob o "tangencial", o "radial". O impetus do Mundo, traído pelo grande impulso de consciência, não pode ter sua fonte última, nem encontra explicação para sua marcha irreversivelmente voltada a psiquismos mais altos, senão na existência de algum princípio interior ao movimento.
Como, com o Fora inteiramente respeitado em seus determinismos, a Vida pode operar livremente do Dentro? Talvez o compreendamos melhor algum dia.
Enquanto isso, tão logo admitida a realidade de um impulso de fundo, o fenômeno vital toma, em suas grandes linhas, figura natural e possível. Melhor ainda: sua microestrutura se esclarece. Pois agora percebemos uma maneira nova de explicar, além da corrente geral da evolução biológica, a marcha e a disposição particular de seus diversos phyla.[1]
Uma coisa é constatar que, segundo uma mesma linhagem animal, os membros se tornam solípedes ou os dentes carniceiros; outra coisa é adivinhar como essa deriva pôde produzir-se. No ponto de ligação do raio sobre o verticilo, uma mutação. Bem. E depois?... Geralmente tão graduais são as modificações ulteriores ao longo do phylum, e tão estável também, às vezes desde o embrião, o órgão, dentes por exemplo, que elas afetam, que devemos decididamente renunciar a falar simplesmente, em todos esses casos, de sobrevivência do mais apto, ou de adaptação mecânica ao ambiente e ao uso. Então o quê?...
Quanto mais me aconteceu encontrar e manejar esse problema, tanto mais a ideia se impôs a meu espírito de que nos achávamos, nesse caso, diante de um efeito, não de forças externas, e sim de psicologia. Segundo nossa maneira atual de falar, um animal desenvolveria seus instintos carnívoros porque seus molares se fazem cortantes e suas patas, garras. Ora, não é preciso inverter a proposição? Em outras palavras, se o Tigre alongou seus caninos e afiou suas unhas, não seria justamente porque, segundo sua linhagem, recebeu, desenvolveu e transmitiu uma "alma de carniceiro"? E assim para corredores tímidos, nadadores, escavadores, veleiros...
Evolução de caracteres, sim, com a condição de tomar esse termo no sentido de "temperamento". À primeira vista, a explicação faz pensar nas "virtudes" escolásticas. Aprofundada mais, ela adquire verossimilhança crescente. Qualidades e defeitos, no indivíduo, desenvolvem-se com a idade. Por que, ou antes como, não se acentuariam também fileticamente? E por que, nessas dimensões, não reagiriam sobre o organismo para modelá-lo à sua imagem? Afinal, as Formigas e os Cupins chegam bem a gratificar seus guerreiros ou suas operárias com um exterior adaptado a seu instinto. E não conhecemos homens de rapina?
#### C) A Grande Ortogênese
Admitido isto, horizontes inesperados crescem diante da Biologia. Por razões práticas evidentes, somos levados, para seguir os encadeamentos dos seres vivos, a utilizar as variações de suas partes fossilizáveis. Mas essa necessidade de fato não deve ocultar o que há de limitado e superficial nesse arranjo. Número dos ossos, forma dos dentes, ornamentação dos tegumentos: todos esses "fenocaracteres" não são, em verdade, senão a vestimenta que molda um suporte mais profundo.
Essencialmente, um único acontecimento em curso: a Grande Ortogênese, de tudo o que vive, rumo a mais espontaneidade imanente. Secundariamente, por dispersão periódica desse impulso, o verticilo das pequenas ortogêneses, onde a corrente fundamental se divide para formar o eixo interior, e verdadeiro, de cada "radiação". Lançado enfim por cima de tudo isso, à maneira de simples bainha, o véu das substâncias orgânicas e a arquitetura dos membros. Tal é a situação.
Para exprimir, em sua verdade, a História Natural do mundo, seria preciso portanto poder segui-la por dentro: não já como uma sucessão ligada de tipos estruturais que se substituem, e sim como ascensão de seiva interior que desabrocha em uma floresta de instintos consolidados. Bem no fundo de si mesmo, o mundo vivo é constituído por consciência revestida de carne e osso. Da Biosfera à Espécie, tudo é, portanto, apenas uma imensa ramificação de psiquismo que se procura por meio de formas.
Eis aonde nos conduz, seguido até o fim, o fio de Ariadne.
Não podemos pensar, bem entendido, no estado presente de nossos conhecimentos, em exprimir sob essa forma interiorizada, "radial", o mecanismo da evolução. Em compensação, uma coisa aparece. É que, se tal é de fato a verdadeira significação do transformismo, a Vida, na medida mesma em que corresponde a um processo dirigido, só podia ir sempre mais longe em sua linha originária com a condição de sofrer, em dado momento, algum reajustamento profundo.
A lei é formal. Nenhuma grandeza no mundo, nós o recordávamos já ao falar do próprio nascimento da Vida, poderia crescer sem desembocar em algum ponto crítico, em alguma mudança de estado. Há um teto intransponível para as velocidades e as temperaturas. Aumentemos cada vez mais a aceleração de um corpo até nos aproximarmos das velocidades luminosas: por excesso de massa, ele adquire uma natureza infinitamente inerte. Aqueçamo-lo: ele se funde, depois se vaporiza. E assim ocorre com todas as propriedades físicas conhecidas.
Enquanto a evolução não representava a nossos olhos senão uma simples marcha ao complexo, podíamos conceber que se desenvolvesse indefinidamente semelhante a si mesma: nenhum limite superior, com efeito, para a pura diversificação. Agora que, sob a intricação historicamente crescente das formas e dos órgãos, se descobre a nosso olhar o aumento irreversível, quantitativo e qualitativo ao mesmo tempo, dos cérebros, e portanto das consciências, somos advertidos de que um acontecimento de ordem nova, uma metamorfose, era inevitavelmente esperado para fechar, no curso dos tempos geológicos, esse longo período de síntese.
É desse grande fenômeno terrestre, desembocando no Homem, que precisamos agora assinalar os primeiros sintomas.
### 3. A Aproximação dos Tempos
Voltemos à onda vital em movimento, ali onde a deixamos, isto é, à expansão dos Mamíferos. Ou, para nos situarmos concretamente na Duração, transportemo-nos pelo pensamento ao mundo tal como, para o fim do Terciário, podemos imaginá-lo.
Nesse momento, sobre a superfície da Terra, uma grande calma parece reinar. Da África meridional à América do Sul, por entre a Europa e a Ásia, ricas estepes e florestas espessas. Depois outras estepes e outras florestas. E, em meio a essa verdura sem fim, miríades de Antílopes e Cavalos zebros; tropas variadas de Proboscídeos; Cervos de todos os galhos; Tigres, Lobos, Raposas, Texugos, inteiramente semelhantes aos de hoje. Em suma, uma paisagem bastante vizinha daquela que procuramos preservar em farrapos, em nossos parques nacionais, no Zambeze, no Congo ou no Arizona. Salvo algumas formas arcaicas retardatárias, uma natureza tão familiar que devemos fazer esforço para nos convencer de que, em parte alguma, se ergue a fumaça de um acampamento ou de uma aldeia.
Período de calma profusão. A Nappe dos Mamíferos está estendida. E entretanto a evolução não poderia estar parada... Alguma coisa, em algum lugar, certamente se acumula, pronta a surgir para outro salto adiante. O quê? E onde?...
Para detectar o que amadurece nesse momento no seio da Mãe universal, sirvamo-nos do índice que temos doravante em mãos. A Vida é subida de consciência, acabamos de reconhecer. Se ela ainda progride, é porque, sob o manto de uma Terra florida, a energia interna, em certos pontos, se eleva secretamente. Aqui ou ali, a pressão psíquica sobe sem dúvida no fundo dos sistemas nervosos. Tal qual um físico ou um médico aplica sobre os corpos um instrumento delicado, passeemos nosso "termômetro" de consciência sobre essa Natureza adormecida. Em que região da Biosfera, no Plioceno, a temperatura está subindo?
Procuremos nas cabeças, naturalmente.
Fora os Vegetais, que evidentemente não contam,[2] dois cimos de Ramos, e apenas dois, emergem diante de nós, no ar, na luz e na espontaneidade. Do lado dos Artrópodes, os Insetos; e os Mamíferos do lado dos Vertebrados. De que lado o futuro, e a verdade?
#### A) Os Insetos
Nos insetos superiores, uma concentração cefálica dos gânglios nervosos caminha junto com uma riqueza e uma precisão extraordinárias dos comportamentos. Ficamos pensativos ao olhar viver ao nosso redor esse mundo, tão maravilhosamente ajustado, a um só tempo, e tão pavorosamente distante. Concorrentes? Sucessores talvez?... Não seria preciso dizer, antes, multidão pateticamente engajada e lutando em um impasse?
O que parece eliminar, de fato, a hipótese de que os Insetos representem a saída, ou sequer uma saída, para a evolução, é que, muito mais antigos que os Vertebrados superiores pela data de seu desabrochamento, eles parecem agora tocar irremediavelmente o teto. Desde períodos geológicos, talvez, complicam-se sem fim, à maneira de caracteres chineses, e dir-se-ia que não chegam a mudar de plano: tal qual se seu impulso ou metamorfose de fundo se encontrasse detido. E, refletindo, percebemos certas razões para esse pisar no mesmo lugar.
Primeiro, são pequenos demais. Para o desenvolvimento quantitativo dos órgãos, um esqueleto externo de quitina é uma solução ruim. Apesar de mudas repetidas, a carapaça aprisiona; e cede rapidamente sob volumes interiores crescentes. O Inseto não pode crescer além de alguns centímetros sem tornar-se perigosamente frágil. Ora, seja qual for o desdém com que às vezes olhemos aquilo que é "questão de dimensões", é certo que certas qualidades, pelo próprio fato de estarem ligadas a uma síntese material, só podem manifestar-se a partir de certas quantidades. Os psiquismos superiores exigem fisicamente grandes cérebros.
Depois, e precisamente talvez por essa razão de tamanho, os Insetos deixam transparecer uma estranha inferioridade psíquica ali mesmo onde seríamos tentados a situar sua superioridade. Nossa habilidade fica confundida diante da exatidão de seus movimentos e de suas construções. Mas tomemos cuidado. Observada de perto, essa perfeição não se deve finalmente senão à rapidez extrema com que sua psicologia se endurece e se mecaniza.
O Inseto, isto foi bem mostrado, dispõe para suas operações de uma franja apreciável de indeterminação e escolha. Apenas, mal postos, seus atos parecem carregar-se de hábito e transcrever-se logo em reflexos organicamente montados. Automaticamente e continuamente, dir-se-ia, sua consciência se extraveste para se fixar à medida: primeiro em seus comportamentos, que correções sucessivas, imediatamente registradas, tornam sempre mais precisos; e depois, a longo prazo, em uma morfologia somática em que as particularidades do indivíduo desaparecem, absorvidas pela função. Daí os ajustamentos de órgãos e gestos que, com razão, maravilhavam Fabre. E daí também os arranjos simplesmente prodigiosos que agrupam em uma só máquina viva o fervilhar de uma colmeia ou de um termiteiro.
Paroxismo de consciência, se quiserem: porém que jorra de dentro para fora, para materializar-se em arranjos rígidos. O movimento diretamente inverso de uma concentração!...
#### B) Os Mamíferos
Deixemos, portanto, os Insetos. E voltemo-nos para os Mamíferos.
Imediatamente, aqui, sentimo-nos à vontade: tão à vontade que esse alívio poderia ser lançado à conta de uma impressão "antropocêntrica". Se respiramos, saídos das colmeias e dos formigueiros, não seria simplesmente porque, entre os Vertebrados superiores, estamos "em casa"? Oh, a ameaça, sempre suspensa sobre nosso espírito, da relatividade!...
E no entanto, não: não saberíamos enganar-nos. Neste caso ao menos, não é uma impressão que nos ilude; é realmente nossa inteligência que julga, com o poder que possui de apreciar certos valores absolutos. Não, se um quadrúpede peludo nos parece, em comparação com uma Formiga, tão "animado", tão propriamente vivo, a razão não está apenas no fato de que, com ele, reencontramo-nos zoologicamente em família.
No comportamento de um Gato, de um Cão, de um Golfinho, quanta flexibilidade! Quanto inesperado! Que parte concedida à exuberância de viver e à curiosidade! Aí o instinto já não é, como na Aranha ou na Abelha, estreitamente canalizado e paralisado em uma só função. Individual e socialmente, permanece flexível. Interessa-se, borboleteia, goza. Toda uma outra forma de instinto, de fato; e esta não conhece os limites impostos ao instrumento pelas fronteiras atingidas de sua precisão.
À diferença do Inseto, o Mamífero já não é o elemento estreitamente escravo do phylum sobre o qual apareceu. Ao redor dele, uma "aura" de liberdade, um clarão de personalidade, começa a flutuar. E desse lado, por conseguinte, possibilidades se desenham, indeterminadas e intermináveis adiante.
Mas, rumo a esses horizontes prometidos, quem afinal se lançará?
Olhemos novamente, e com mais detalhe, a grande horda dos animais pliocenos: esses membros levados ao cúmulo da simplicidade e da perfeição; essas florestas de galhadas na cabeça dos cervos; essas liras espiraladas na fronte estrelada ou barrada das Antílopes; essas defesas pesadas no focinho dos Proboscídeos; esses caninos e essas tesouras na boca dos grandes carniceiros... Tanta luxuriância e acabamento não condenam precisamente o futuro dessas criaturas magníficas? Não as marcam para uma morte próxima, formas presas, seja qual for a vitalidade de seu psiquismo, em um impasse morfológico? Tudo isso não é um fim, muito antes que um começo?...
Sim, sem dúvida. Ao lado dos Policladídeos, dos Strepsiceros, dos Elefantes, dos Machairodus e de tantos outros, há ainda, porém, os Primatas!
#### C) Os Primatas
Dos Primatas, pronunciei o nome apenas uma ou duas vezes, de passagem. A essas formas, tão vizinhas de nós, não fixei lugar algum quando falava da Árvore da Vida. Essa omissão era voluntária. No ponto em que se achava ainda minha exposição, sua importância ainda não se manifestava: eles não podiam ser compreendidos. Agora, ao contrário, depois do que percebemos da mola secreta que move a evolução zoológica, eles podem e devem, neste instante fatídico do Terciário que se encerra, entrar em cena. Sua hora chegou.
Morfologicamente, os Primatas formam no conjunto, como todos os outros grupos animais, uma série de leques ou verticilos encaixados, nítidos na periferia, esfumados na região de seus pedúnculos. Em cima, os Macacos propriamente ditos, com seus dois grandes ramos geográficos: os verdadeiros macacos, Catarrínios, do Velho Mundo, com 32 dentes, e os Platyrrhiniens da América do Sul, de focinho achatado, todos com 36 dentes. Abaixo, os Lêmures, de focinho geralmente alongado, incisivos muitas vezes proclives.
Inteiramente na base, esses dois verticilos escalonados parecem destacar-se, na origem do Terciário, de um leque "Insetívoro", os Tupaiídeos, do qual parecem representar, em estado desabrochado, um simples raio. E não é tudo. No coração de cada um dos dois verticilos distinguimos um subverticilo central de formas particularmente "cefalizadas". Do lado Lemuriano, os Tarsídeos, minúsculos animais saltadores, de crânio redondo e inchado, olhos imensos, cujo único sobrevivente atual, o társio da Malásia, faz pensar estranhamente em um pequeno Homem. Do lado Catarrínio, os Antropoides, Gorila, Chimpanzé, Orangotango, Gibão, macacos sem cauda, os maiores e mais despertos dos Macacos, que todos conhecemos bem.
Os Lêmures e os Társios têm seu apogeu, os primeiros, por volta do fim do Eoceno. Quanto aos Antropoides, discernem-se na África desde o Oligoceno. Mas só chegam ao máximo de diversificação e tamanho, certamente, no fim do Plioceno: na África, na Índia, sempre nas zonas tropicais ou subtropicais. Retenhamos essa data e essa distribuição: elas trazem em si todo um ensinamento.
**Fig. 3. Esquema simbolizando o desenvolvimento dos Primatas.**
Eis portanto, vistos de fora, os Primatas situados: por sua forma exterior e na duração. Penetremos agora no interior das Coisas e tentemos compreender em que esses animais se distinguem dos outros, vistos por dentro.
O que intriga no primeiro golpe de vista o anatomista quando observa os Macacos, e sobretudo os Macacos superiores, é o grau surpreendentemente fraco de diferenciação marcado em seus ossos. A capacidade craniana, neles, é relativamente muito mais volumosa que em qualquer outro Mamífero. Mas que dizer do resto? Os dentes? Um molar isolado de Driopiteco ou de Chimpanzé se confundiria facilmente com um dente de Onívoros eocenos, tais como os Condilartrídeos.
Os membros? Com seus raios todos intactos, conservam exatamente o plano e a proporção que tinham nos primeiros Tetrápodes do Paleozoico. No curso do Terciário, os Ungulados transformaram radicalmente o ajuste de suas patas; os Carniceiros reduziram e afiaram sua dentição; os Cetáceos se reafilam como Peixes; os Proboscídeos complicaram formidavelmente seus incisivos e seus molares... E durante esse tempo os Primatas guardaram inteiros sua ulna e sua fíbula; preservaram ciosamente seus cinco dedos; permaneceram tipicamente trituberculados.
Seriam então, entre os Mamíferos, conservadores? Os mais conservadores de todos?
Não. Mostraram-se os mais avisados.
Em si, tomada em seu ótimo, a diferenciação de um órgão é fator imediato de superioridade. Mas, porque é irreversível, aprisiona também o animal que a sofre em um caminho estreito, ao termo do qual, sob a pressão da ortogênese, ele se arrisca a desembocar no monstruoso e na fragilidade. A especialização paralisa e a ultraespecialização mata. A Paleontologia é feita dessas catástrofes. Porque permaneceram, até o Plioceno, pelos seus membros, os mais "primitivos" dos Mamíferos, os Primatas também permaneceram os mais livres. Ora, que fizeram dessa liberdade? Usaram-na para elevar-se, por jorros sucessivos, até as próprias fronteiras da inteligência.
E eis diante de nós, simultaneamente, com a verdadeira definição do Primate, a resposta ao problema que nos conduzira a olhar os Primatas:
"Depois dos Mamíferos, no fim do Terciário, por onde a Vida poderá continuar?"
O que faz o interesse e o valor biológico dos Primatas, vemos em primeiro lugar, é que eles representam um phylum de pura e direta cerebralização. Nos outros Mamíferos, sem dúvida, sistema nervoso e instinto também vão crescendo gradualmente. Mas neles esse trabalho interno foi desviado, limitado e finalmente detido por diferenciações acessórias. O Cavalo, o Cervo, o Tigre, ao mesmo tempo que seu psiquismo subia, tornaram-se parcialmente, como o Inseto, prisioneiros dos instrumentos de corrida e de presa nos quais seus membros passaram.
Nos Primatas, ao contrário, a evolução, negligenciando e por consequência deixando plástico todo o resto, trabalhou direto no cérebro. E eis por que, na marcha ascendente rumo à maior consciência, são eles que vão à frente. Nesse caso privilegiado e singular, a ortogênese particular do phylum coincide exatamente com a Ortogênese principal da própria Vida: segundo uma expressão de Osborn, que tomarei emprestada modificando seu sentido, ela é "aristogênese", e por consequência ilimitada.
Daí esta primeira conclusão: se, sobre a Árvore da Vida, os Mamíferos formam um Ramo mestre, o Ramo mestre, os Primatas, isto é, os cérebro-manuais, são a flecha desse Ramo; e os Antropoides, o próprio broto que termina essa flecha.
E então, acrescentaremos, é fácil decidir onde nossos olhos devem deter-se sobre a Biosfera, na espera daquilo que deve acontecer. Por toda parte, já sabíamos, em seu cume, as linhas filéticas ativas aquecem-se de consciência. Mas em uma região bem determinada, no centro dos Mamíferos, onde se formam os cérebros mais poderosos jamais construídos pela Natureza, elas ruborizam. E já se acende mesmo, no coração dessa zona, um ponto de incandescência.
Não percamos de vista essa linha arroxeada de aurora.
Depois de milhares de anos em que sobe sob o horizonte, em um ponto estritamente localizado, uma chama vai jorrar.
O pensamento está aí!
## Notas
[1] De vários lados, não faltarão em assinalar, nas explicações que se seguem, um pensamento lamarckiano em excesso, isto é, influência exagerada do "dentro" sobre o arranjo orgânico dos corpos. Mas que se queira recordar que, na ação "morfogenética" do instinto, tal como a entendo aqui, uma parte essencial é deixada ao jogo darwiniano das forças externas e do acaso. Na verdade, como vimos acima em muitas passagens, é por golpes de sorte que a Vida procede; porém por golpes de sorte reconhecidos e apreendidos, isto é, psiquicamente selecionados. Bem compreendido, o "antiacaso" neolamarckiano não é simples negação; ao contrário, apresenta-se como utilização do acaso darwiniano. Entre os dois fatores há complementaridade funcional, poderíamos dizer "simbiose". Acrescentemos que, se damos seu lugar à distinção essencial, embora ainda pouco observada, entre uma Biologia dos pequenos e uma Biologia dos grandes complexos, assim como há uma Física do ínfimo e uma Física do imenso, percebemos que haveria motivo para separar, e tratar diferentemente, duas zonas maiores na unidade do Mundo organizado: a) de um lado, a zona lamarckiana dos complexos muito grandes, sobretudo o Homem, onde o antiacaso domina perceptivelmente; e b) de outro lado, a zona darwiniana dos pequenos complexos, vivos inferiores, onde esse mesmo antiacaso só pode ser apreendido, sob o véu do acaso, por raciocínio ou conjectura, isto é, indiretamente.
[2] Neste sentido: não podemos seguir neles, ao longo de um sistema nervoso, a evolução de um psiquismo evidentemente mantido difuso. Que esse psiquismo não exista, ou que cresça à sua maneira, é questão inteiramente diversa. E teremos grande cuidado em não o negar. Para tomar um só exemplo entre mil, não basta olhar as armadilhas para Insetos montadas por certas Plantas para ficar certo de que, ainda que de longe, o Ramo vegetal obedece, como os dois outros, à subida de consciência?