I. A Pré-vida - Capítulo II - O Interior das Coisas O Fenômeno Humano - Tradução Literunico · Capítulo 4 de 17
Obra Menu

I. A Pré-vida - Capítulo II - O Interior das Coisas

## I. A Pré-vida - Capítulo II - O Interior das Coisas

Entre materialistas e espiritualistas, entre deterministas e finalistas, no plano científico, a disputa continua. Depois de um século de debate, cada partido permanece em sua posição e apresenta ao adversário razões sólidas para nela permanecer.

Na medida em que posso compreender essa luta, na qual me vi pessoalmente envolvido, parece-me que sua duração se deve menos à dificuldade em que se encontra a experiência humana para conciliar na Natureza certas aparências contraditórias de mecanicismo e liberdade, de morte e imortalidade, do que à dificuldade encontrada por dois grupos de espíritos para se colocarem sobre um terreno comum.

De um lado, os materialistas obstinam-se em falar dos objetos à maneira de realidades que consistiriam apenas em ações exteriores, em relações de “transiência”. De outro, os espiritualistas insistem em permanecer em uma espécie de introspecção solitária, onde os seres são vistos fechados sobre si mesmos, em suas operações “imanentes”. Aqui e ali se combate em dois planos diferentes, sem encontro; e cada qual vê apenas a metade do problema.

Minha convicção é que os dois pontos de vista pedem reunir-se, e que se reunirão em breve em uma espécie de Fenomenologia ou Física generalizada, na qual a face interna das coisas será considerada tanto quanto a face externa do Mundo. De outro modo, parece-me impossível cobrir por uma explicação coerente, como a Ciência deve tender a fazer, a totalidade do Fenômeno cósmico.

Acabamos de descrever, em suas ligações e dimensões mensuráveis, o Exterior da Matéria. Para avançar mais longe na direção do homem, precisamos estender a base de nossas construções futuras ao Interior dessa mesma Matéria.

As coisas têm seu interior, seu “quanto a si”, poderíamos dizer. E este se apresenta em relações definidas, qualitativas e quantitativas, com os desenvolvimentos reconhecidos pela Ciência à Energia cósmica. Três afirmações que formam as três partes deste novo capítulo.

Tratá-las, como devo fazer aqui, obrigar-me-á a transbordar sobre a Pré-vida e a antecipar um pouco a Vida e o Pensamento. Mas não é próprio e difícil de toda síntese que seu termo já se encontre implicado em seus começos?

### 1. Existência

Se há uma perspectiva nitidamente liberada pelos progressos recentes da Física, é que existem, para nossa experiência, na unidade da Natureza, esferas ou patamares de ordens diferentes, cada um caracterizado pela dominância de certos fatores que se tornam imperceptíveis ou negligenciáveis na esfera ou no patamar vizinho. Na escala média de nossos organismos e construções, a velocidade parece não alterar a natureza da Matéria.

Ora, hoje sabemos que, nos valores extremos atingidos pelos movimentos atômicos, ela modifica profundamente a massa dos corpos. Entre os elementos químicos “normais”, a estabilidade e a longevidade parecem regra. E eis que essa ilusão foi destruída pela descoberta das substâncias radioativas. À medida de nossas existências humanas, as montanhas e os astros parecem modelo de majestosa fixidez.

Vemos agora que, observada sobre uma grande profundidade de duração, a crosta terrestre vai se modificando sem cessar sob nossos pés, enquanto os céus nos arrastam em um ciclone de estrelas.

Em todos esses casos, e em outros semelhantes, nenhuma aparição absoluta de grandeza nova. Toda massa é modificada por sua velocidade. Todo corpo irradia. Todo movimento, suficientemente retardado, vela-se de imobilidade. Contudo, em uma escala ou intensidade diferentes, certo fenômeno se torna aparente, invade o horizonte, apaga as outras nuances e dá a todo o espetáculo sua tonalidade particular.

Assim se dá com o “interior” das Coisas.

No domínio da físico-química, por uma razão que logo se mostrará, os objetos só se manifestam por seus determinismos externos. Aos olhos do físico, legitimamente nada há, ao menos até aqui, além de um “exterior” das Coisas. A mesma atitude intelectual ainda é permitida ao bacteriologista, cujas culturas se tratam, salvo algumas grandes dificuldades, como reagentes de laboratório. Ela já se torna muito mais difícil no mundo das plantas.

Tende a converter-se em aposta temerária no caso do biólogo interessado nos comportamentos dos insetos ou dos celenterados. Aparece simplesmente fútil no caso dos vertebrados. E, por fim, fracassa completamente diante do Homem, no qual a existência de um “interior” já não pode ser esquivada, pois esse interior se torna objeto de intuição direta e matéria de todo conhecimento.

A aparente restrição do fenômeno da consciência às formas superiores da Vida serviu durante muito tempo de pretexto à Ciência para eliminá-lo de suas construções do Universo. Exceção estranha, função aberrante, epifenômeno: sob alguma dessas palavras se classificava o Pensamento para dele se desembaraçar.

Mas que teria acontecido à Física moderna se o Rádio tivesse sido classificado, sem mais, entre os corpos “anormais”? Evidentemente, a atividade do Rádio não foi negligenciada, nem poderia sê-lo, porque, sendo mensurável, forçava sua passagem pela malha exterior da matéria, ao passo que a consciência, para ser integrada em um sistema do Mundo, obriga a encarar a existência de uma face ou dimensão nova no Estofo do Universo. Recuamos diante do esforço.

Quem não vê, porém, aqui e ali, um problema idêntico impor-se aos pesquisadores, e que deve ser resolvido pelo mesmo método: descobrir o universal sob o excepcional?

Experimentamos isso com frequência demais nos últimos tempos para ainda duvidar: uma anomalia natural nunca é outra coisa senão a exageração, até tornar-se sensível, de uma propriedade espalhada por toda parte em estado inapreensível. Bem observado, ainda que em um único ponto, um fenômeno tem necessariamente, em virtude da unidade fundamental do Mundo, valor e raízes ubíquas. Aonde nos conduz essa regra se a aplicamos ao caso do “autoconhecimento” humano?

“A consciência só aparece com plena evidência no Homem”, éramos tentados a dizer, “portanto ela é um caso isolado, sem interesse para a Ciência”.

“A consciência aparece com evidência no Homem”, é preciso retomar, corrigindo-nos, “portanto, entrevisto nesse único clarão, ela tem extensão cósmica e, como tal, aureola-se de prolongamentos espaciais e temporais indefinidos”.

A conclusão pesa muito. E, no entanto, sou incapaz de ver como, em boa analogia com todo o restante da Ciência, poderíamos escapar a ela.

No fundo de nós mesmos, sem discussão possível, um interior aparece, por uma abertura, no coração dos seres. Isso basta para que, em um grau ou outro, esse “interior” se imponha como existente por toda parte e desde sempre na Natureza.

Uma vez que, em um ponto de si mesmo, o Estofo do Universo tem uma face interna, segue-se necessariamente que ele é bifacial por estrutura, isto é, em toda região do espaço e do tempo, do mesmo modo, por exemplo, que é granular. Coextensivo ao Exterior das Coisas, há um Interior das Coisas.

Daí, logicamente, a seguinte representação do Mundo, desconcertante para nossas imaginações, mas a única de fato assimilável à nossa razão. Tomada no mais baixo de si mesma, precisamente onde nos colocamos no começo destas páginas, a Matéria originária é algo além do fervilhar particulado tão admiravelmente analisado pela Física moderna.

Sob essa lâmina Mecânica inicial, precisamos conceber, afinada ao extremo, embora absolutamente necessária para explicar o estado do Cosmos nos tempos seguintes, uma lâmina “biológica”. Interior, Consciência[^1] e, portanto, Espontaneidade: a essas três expressões de uma mesma coisa não nos é mais permitido fixar experimentalmente um começo absoluto do que a qualquer das outras linhas do Universo.

Em uma perspectiva coerente do Mundo, a Vida supõe inevitavelmente, e a perder de vista antes dela, a Pré-vida[^2].

Nesse caso, objetarão juntos espiritualistas e materialistas, se tudo é, no fundo, vivo, ou ao menos pré-vivo, na Natureza, como é possível que se edifique e triunfe uma ciência mecanicista da Matéria?

Determinados por fora e “livres” por dentro, seriam os objetos, por suas duas faces, irredutíveis e incomensuráveis? E, nesse caso, onde está sua solução?

A resposta a essa dificuldade já está implicitamente contida nas observações apresentadas acima sobre a diversidade das “esferas de experiências” que se superpõem no interior do Mundo. Ela aparecerá mais distintamente quando tivermos percebido segundo que leis qualitativas varia e cresce, em suas manifestações, aquilo que acabamos de chamar o Interior das Coisas.

### 2. Leis Qualitativas de Crescimento

Harmonizar os objetos no Tempo e no Espaço, sem pretender fixar as condições que podem reger seu ser profundo. Estabelecer na Natureza uma cadeia de sucessão experimental, e não uma ligação de causalidade “ontológica”. Ver, em outras palavras, e não explicar, é, não esqueçamos, o único objetivo do presente estudo.

Desse ponto de vista fenomenal, que é o ponto de vista da Ciência, há meio de ultrapassar a posição em que acaba de deter-se nossa análise do Estofo do Universo? Acabamos de reconhecer nele a existência de uma face interna consciente, que duplica necessariamente, por toda parte, a face externa, “material”, habitualmente considerada pela Ciência.

Podemos ir mais longe e definir segundo que regras essa segunda face, na maior parte das vezes escondida, começa a transparecer e depois emerge em certas regiões de nossa experiência?

Sim, ao que parece, e até de maneira muito simples, contanto que sejam postas em sequência três observações que cada um de nós pôde fazer, mas que só tomam seu verdadeiro valor quando nos lembramos de encadeá-las.

#### A) Primeira observação

Considerado em estado pré-vital, o Interior das Coisas, cuja realidade acabamos de admitir até nas formas nascentes da Matéria, não deve ser imaginado como formando uma lâmina contínua. Deve ser pensado afetado pela mesma granulação que a própria Matéria.

Teremos em breve de voltar a esse ponto capital. No ponto mais longínquo em que começamos a percebê-los, os primeiros viventes se manifestam à nossa experiência, em grandeza e número, à maneira de “mega” ou “ultramoléculas”: uma multidão vertiginosa de núcleos microscópicos. Isso quer dizer que, por razão de homogeneidade e continuidade, o pré-vivo se adivinha abaixo do horizonte como objeto participante da estrutura e das propriedades corpusculares do Mundo.

Olhemos por dentro, tanto quanto observemos por fora: o Estofo do Universo tende, portanto, a resolver-se igualmente para trás em uma poeira de partículas, perfeitamente semelhantes entre si, ao menos se observadas a grande distância; coextensivas, cada uma, à totalidade do domínio cósmico; e, enfim, misteriosamente ligadas entre si por uma Energia de conjunto. Ponto por ponto, nessas profundidades, as duas faces, externa e interna, do Mundo se correspondem.

De tal modo que se pode passar de uma à outra com a única condição de substituir “interação mecânica” por “consciência” na definição dada acima dos centros parciais do Universo.

O atomismo é uma propriedade comum ao Interior e ao Exterior das Coisas.

#### B) Segunda observação

Praticamente homogêneos entre si na origem, os elementos de Consciência, exatamente como os elementos de Matéria que os sustentam, vão pouco a pouco complicando e diferenciando sua natureza no curso da Duração. Desse ponto de vista, e considerada pelo ângulo puramente experimental, a Consciência se manifesta como propriedade cósmica de grandeza variável, submetida a uma transformação global.

Tomado em retrospecto, esse fenômeno enorme, que teremos de seguir ao longo dos crescimentos da Vida e até o Pensamento, acabou por nos parecer banal. Seguido na direção inversa, conduz-nos, como notávamos acima, à noção menos familiar de estados inferiores, cada vez mais vagos e distendidos.

Refratada para trás na Evolução, a Consciência se estende qualitativamente em um espectro de nuances variáveis, cujos termos inferiores se perdem na noite.

#### C) Terceira observação

Tomemos, por fim, em duas regiões diferentes desse espectro, duas partículas de consciência chegadas a graus desiguais de evolução. A cada uma delas corresponde, acabamos de ver, por construção, certo agrupamento material definido, do qual elas formam o Interior. Comparemos um ao outro esses dois agrupamentos externos, e perguntemo-nos de que modo se dispõem entre si e em relação à parcela de Consciência que respectivamente envolvem.

A resposta é imediata.

Qualquer que seja o caso considerado, podemos ter certeza de que à consciência mais desenvolvida corresponderá sempre uma armação mais rica e melhor organizada. O protoplasma mais simples já é uma substância de complexidade inaudita. Essa complicação aumenta, em proporção geométrica, do protozoário aos metazoários cada vez mais elevados. E assim, sempre e por toda parte, com todo o restante. Também aqui o fenômeno é tão óbvio que há muito deixamos de nos espantar com ele.

E, no entanto, sua importância é decisiva. Graças a ele, com efeito, temos um “parâmetro” tangível que permite relacionar as duas lâminas externa e interna do Mundo em posição, ponto por ponto, e ainda, verificaremos adiante, em movimento.

A concentração de uma consciência, podemos dizer, varia em razão inversa da simplicidade do composto material que ela duplica. Ou ainda: uma consciência é tanto mais acabada quanto duplica um edifício material mais rico e melhor organizado.

Perfeição espiritual, ou “centridade” consciente, e síntese material, ou complexidade, são apenas as duas faces ou partes ligadas de um mesmo fenômeno[^3].

E eis-nos chegados, ipso facto, à solução do problema colocado. Procurávamos uma lei qualitativa de desenvolvimento capaz de explicar, de esfera em esfera, primeiro a invisibilidade, depois a aparição e, por fim, a dominância gradual do Interior em relação ao Exterior das Coisas.

Essa lei se descobre por si mesma tão logo o Universo seja concebido como passando de um estado A, caracterizado por número muito grande de elementos materiais muito simples, isto é, de Interior muito pobre, a um estado B definido por número menor de agrupamentos muito complexos, isto é, de Interior mais rico.

No estado A, os centros de Consciência, porque ao mesmo tempo muito numerosos e extremamente frouxos, só se manifestam por efeitos de conjunto, submetidos a leis estatísticas. Obedecem, portanto, coletivamente, a leis matemáticas. É o domínio próprio da físico-química.

No estado B, ao contrário, esses elementos, menos numerosos[^4] e ao mesmo tempo mais individualizados, escapam pouco a pouco à escravidão dos grandes números. Deixam transparecer sua espontaneidade fundamental e não mensurável. Podemos começar a vê-los e segui-los um a um. E então ingressamos no mundo da Biologia.

Toda a sequência deste Ensaio será, em suma, nada além da história da luta travada, no Universo, entre o Múltiplo unificado e a Multidão inorganizada: aplicação, ao longo de tudo, da grande Lei de complexidade e de Consciência, lei que implica, por sua vez, uma estrutura, uma curvatura, psiquicamente convergentes do Mundo.

Não avancemos depressa demais. E, visto que aqui ainda nos ocupamos da Pré-vida, retenhamos apenas que não há, de um ponto de vista qualitativo, nenhuma contradição em admitir que um universo de aparências mecanizadas seja construído de “liberdades”, contanto que essas liberdades nele estejam contidas em estado suficientemente grande de divisão e imperfeição.

Passando agora, para terminar, ao ponto de vista, mais delicado, da quantidade, vejamos se é possível definir, sem oposição às leis admitidas pela Física, a Energia contida em tal Universo.

### 3. A Energia Espiritual

Nenhuma noção nos é mais familiar que a de Energia espiritual. E nenhuma, entretanto, permanece cientificamente mais obscura para nós. De um lado, a realidade objetiva de um esforço e de um trabalho psíquico está tão bem assegurada que sobre ela repousa toda a Ética. De outro, a natureza desse poder interior é tão impalpável que, fora dele, pôde edificar-se toda a Mecânica.

Em parte alguma se mostram mais cruamente as dificuldades em que ainda estamos de reunir, em uma mesma perspectiva racional, Espírito e Matéria. E em parte alguma se manifesta de modo mais tangível a urgência de lançar uma ponte entre as duas margens, física e moral, de nossa existência, se quisermos que uma anime a outra nas faces espiritual e material de nossa atividade.

Ligar entre si, de maneira coerente, as duas Energias do corpo e da alma: a Ciência tomou o partido de ignorar provisoriamente a questão. E seria cômodo fazer o mesmo. Por infelicidade, ou por felicidade, apanhados como estamos aqui na lógica de um sistema em que o Interior das Coisas ajusta tanto, ou até mais, valor que seu Exterior, esbarramos de frente na dificuldade. É impossível evitar o encontro. É preciso avançar.

As considerações seguintes não pretendem trazer ao problema da Energia espiritual uma solução verdadeiramente satisfatória. Seu objetivo é simplesmente mostrar, sobre um exemplo, qual deveria ser, a meu ver, a linha de pesquisa adotada, e o gênero de explicação buscado por uma ciência integral da Natureza.

#### A) O Problema das Duas Energias

Uma vez que, no próprio fundo de nossa consciência humana, a face interna do Mundo vem à luz e se reflete sobre si mesma, poderia parecer que bastaria olharmos para nós mesmos a fim de compreender em que relações dinâmicas se encontram, em qualquer ponto do Universo, o Exterior e o Interior das Coisas.

Na verdade, essa leitura é das mais difíceis.

Sentimos perfeitamente combinarem-se, em nossa ação concreta, as duas forças em presença. O motor funciona. Mas não conseguimos decifrar seu jogo, que parece contraditório. O que constitui, para nossa razão, a ponta fina e irritante do problema da Energia espiritual é o sentido agudo que carregamos sem cessar em nós da dependência e da independência simultâneas de nossa atividade em relação às potências da Matéria.

Dependência, primeiro. Ela é de uma evidência ao mesmo tempo deprimente e magnífica. “Para pensar, é preciso comer.” Nessa fórmula brutal se exprime toda uma economia que, conforme a extremidade pela qual a olhamos, faz a tirania ou, ao contrário, a potência espiritual da Matéria. A mais alta especulação e o amor mais ardente se duplicam e se pagam, sabemos bem demais, por uma despesa de energia física.

Ora será preciso pão; ora vinho; ora a infusão de um elemento químico ou de um hormônio; ora a excitação de uma cor; ora a magia de um som que, entrando por nossos ouvidos como vibração, emergirá em nosso cérebro sob forma de inspiração.

Sem dúvida alguma, por algum lado, Energia material e Energia espiritual se mantêm e se prolongam. No fundo, de certo modo, deve haver apenas uma Energia única atuando no Mundo. E a primeira ideia que vem ao espírito é representar a “alma” como um foco de transmutação onde, por todas as avenidas da Natureza, o poder dos corpos convergiria para interiorizar-se e sublimar-se em beleza e em verdade.

Ora, mal entrevista, essa ideia tão sedutora de uma transformação direta de uma Energia na outra deve ser abandonada. Pois, tão claramente quanto sua ligação, manifesta-se sua independência mútua assim que tentamos acoplá-las.

“Para pensar, é preciso comer”, ainda uma vez. Em compensação, quantos pensamentos diferentes para o mesmo pedaço de pão! Como as letras de um alfabeto, das quais podem sair tanto a incoerência quanto o poema mais belo já ouvido, as mesmas calorias parecem tão indiferentes quanto necessárias aos valores espirituais que alimentam.

As duas Energias, física e psíquica, espalhadas respectivamente sobre as duas lâminas, externa e interna, do Mundo, têm no conjunto o mesmo andamento. Estão constantemente associadas e passam, de algum modo, uma para a outra. Mas parece impossível fazer suas curvas corresponderem simplesmente. De uma parte, apenas uma fração ínfima de Energia “física” se acha utilizada pelos desenvolvimentos mais elevados da Energia espiritual.

De outra parte, essa fração mínima, uma vez absorvida, traduz-se no quadro interior pelas oscilações mais inesperadas.

Tal desproporção quantitativa basta para rejeitar a ideia simplista de “mudança de forma”, ou de transformação direta, e, em consequência, a esperança de algum dia encontrar um “equivalente mecânico” da Vontade ou do Pensamento. Entre Interior e Exterior das Coisas, as dependências energéticas são incontestáveis. É provável, contudo, que só possam traduzir-se por um simbolismo complexo, no qual figurem termos de ordens diferentes.

#### B) Uma linha de solução

Para escapar a um dualismo de fundo impossível e anticientífico, e para salvaguardar, ainda assim, a complicação natural do Estofo do Universo, proporei, portanto, a seguinte representação, que servirá de fundo a toda a sequência de nossos desenvolvimentos.

Essencialmente, admitiremos, toda energia é de natureza psíquica. Mas, em cada elemento particulado, acrescentaremos, essa energia fundamental se divide em duas componentes distintas: uma energia tangencial, que torna o elemento solidário de todos os elementos da mesma ordem, isto é, da mesma complexidade e da mesma “centridade” que ele próprio no Universo; e uma energia radial, que o atrai na direção de um estado sempre mais complexo e centrado, para diante[^5].

A partir desse estado inicial, e supondo que disponha de certa energia tangencial livre, é claro que a partícula assim constituída se encontra em condição de aumentar em certo valor sua complexidade interna ao associar-se a partículas vizinhas, e, por conseguinte, visto que sua centridade se acha automaticamente acrescida, de fazer subir na mesma medida sua energia radial. Esta, por sua vez, poderá reagir sob forma de novo arranjo no domínio tangencial. E assim sucessivamente.

Nessa perspectiva, em que a energia tangencial representa a “energia” simplesmente dita, habitualmente considerada pela Ciência, a única dificuldade é explicar o jogo dos arranjos tangenciais de acordo com as leis da termodinâmica. Ora, a esse respeito, podem-se fazer as seguintes observações.

Primeiro, a variação da energia radial em função da energia tangencial, operando-se, em virtude de nossa hipótese, por intermédio de um arranjo, segue-se que um valor tão grande quanto se queira da primeira pode estar ligado a um valor tão pequeno quanto se queira da segunda, pois um arranjo extremamente aperfeiçoado pode exigir apenas um trabalho extremamente fraco. E isso dá boa conta dos fatos constatados.

Em seguida, no sistema aqui proposto, somos levados paradoxalmente a admitir que a energia cósmica cresce constantemente, não somente sob sua forma radial, como também, coisa mais grave, sob sua forma tangencial, visto que a força de ligação entre elementos aumenta com sua própria centridade. E isso parece contradizer diretamente o princípio de Conservação da Energia no Mundo.

Observemos, porém: esse acréscimo do Tangencial, de segunda espécie, único incômodo para a Física, só se torna sensível a partir de valores radiais muito elevados, como no caso do Homem, por exemplo, e das tensões sociais. Abaixo disso, e para um número aproximadamente constante de partículas iniciais no Universo, a soma das energias tangenciais cósmicas permanece praticamente e estatisticamente invariável no curso das transformações. E isso é tudo de que a Ciência precisa.

Por fim, uma vez que, em nosso esquema, o edifício inteiro do Universo em via de centração é constantemente sustentado, em todas as suas fases, por seus arranjos primários, é evidente que seu acabamento permanece condicionado, até os andares mais elevados, por certo quantum primordial de energia tangencial livre, que se vai esgotando gradualmente, como exige a Entropia.

Considerado em seu conjunto, esse quadro satisfaz às exigências da Realidade.

Três questões, entretanto, nele permanecem sem resposta:

Primeira: em virtude de que energia especial o Universo se propaga, segundo seu eixo principal, na direção menos provável das formas mais altas de complexidade e centridade?

Segunda: há um limite e um termo definidos para o valor elementar e para a soma total das energias radiais desenvolvidas no curso da transformação?

Terceira: essa forma última e resultante das energias radiais, se existe, está sujeita e destinada a desagregar-se reversivelmente um dia, conforme as exigências da Entropia, até recair indefinidamente nos centros pré-vivos e abaixo deles, por esgotamento e nivelamento gradual da energia livre tangencial contida nos envoltórios sucessivos do Universo, dos quais emergiu?

Essas três questões só poderão receber resposta satisfatória muito mais adiante, quando o estudo do Homem nos tiver conduzido à consideração de um polo superior do Mundo, o “ponto Ômega”.

## Notas

1. Aqui, como em outros lugares deste livro, o termo “Consciência” é tomado em sua acepção mais geral, para designar toda espécie de psiquismo, desde as formas mais rudimentares concebíveis de percepção interior até o fenômeno humano do conhecimento refletido.

2. Estas páginas já estavam escritas havia muito tempo quando tive a surpresa de encontrar sua própria substância em algumas linhas magistrais escritas recentemente por J. B. S. Haldane. “Não encontramos nenhum traço evidente de pensamento nem de vida naquilo que chamamos Matéria”, diz o grande bioquímico inglês. “Por isso, estudamos de preferência essas propriedades onde elas se manifestam com mais evidência. Contudo, se as perspectivas modernas da Ciência são corretas, devemos esperar reencontrá-las finalmente, ao menos sob forma rudimentar, por todo o Universo.” E ele acrescenta até estas palavras, das quais meus leitores poderão lembrar-se quando eu fizer surgir, mais adiante, com todas as reservas e correções necessárias, a perspectiva do “ponto Ômega”: “Se a cooperação de cerca de mil milhões de células no cérebro pode produzir nossa capacidade de consciência, torna-se vastamente mais plausível a ideia de que alguma cooperação de toda a Humanidade, ou de uma fração dela, determine aquilo que Comte chamava um Grande Ser sobre-humano.” J. B. S. Haldane, The Inequality of Man, Pelican Editions, A. 12, p. 114, Science Ethics. O que digo, portanto, não é absurdo. Sem contar que todo metafísico deveria alegrar-se ao constatar que, aos próprios olhos da Física, a ideia de uma Matéria absolutamente bruta, isto é, de um puro “transiente”, é apenas uma primeira e grosseira aproximação de nossa experiência.

3. Desse ponto de vista, poder-se-ia dizer que cada ser é construído, no plano fenomenal, à maneira de uma elipse, sobre dois focos conjugados: um foco de organização material e um foco de centração psíquica, variando os dois solidariamente no mesmo sentido.

4. A despeito, veremos, do mecanismo especificamente vital da multiplicação.

5. Quanto menos centrado é um elemento, notemo-lo de passagem, isto é, quanto mais fraca é sua energia radial, mais sua energia tangencial se manifesta por efeitos mecânicos poderosos. Entre partículas fortemente centradas, isto é, de alta energia radial, o tangencial parece “interiorizar-se” e desaparecer aos olhos da Física. Há sem dúvida aí um princípio auxiliar de solução para explicar a conservação aparente da Energia no Universo.

Seria preciso distinguir sem dúvida duas espécies de energia tangencial: uma de irradiação, máxima para valores radiais muito pequenos, caso do átomo; outra de arranjo, sensível apenas para grandes valores radiais, caso dos viventes e do Homem.

1/1
Menu

Fazer anotação