II. A Vida - Capítulo I - A Aparição da Vida O Fenômeno Humano - Tradução Literunico · Capítulo 6 de 17
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II. A Vida - Capítulo I - A Aparição da Vida

## II. A Vida - Capítulo I - A Aparição da Vida

Depois do que acabamos de admitir sobre as potências germinais da Terra juvenil, poderia parecer, e alguém poderia objetar ao título deste novo capítulo, que nada resta na Natureza para marcar um começo da Vida.

Mundo mineral e Mundo animado: duas criações antagônicas, se as olhamos em bloco, sob suas formas extremas, na escala média dos nossos organismos humanos; uma única massa, porém, fundindo-se gradualmente em si mesma, se nos forçamos, por análise espacial ou, o que dá no mesmo, por recuo temporal, até a escala do microscópico e, abaixo ainda, do ínfimo.

Nessas profundidades, todas as diferenças acabam por se atenuar? Limite nítido algum, nós já o sabíamos havia muito, entre animal e vegetal no nível dos seres unicelulares. E cada vez menos alguma barreira segura, nós o recordaremos adiante, entre o protoplasma "vivo" e as proteínas "mortas" no nível dos grandes agregados moleculares.

"Mortas", ainda se chamam essas substâncias inclassificadas... Entretanto já reconhecemos que elas seriam incompreensíveis se, por dentro, não possuíssem alguma psique rudimentar.

Em certo sentido, portanto, isto é verdadeiro. Nem à Vida nem a qualquer outra realidade experimental podemos doravante fixar, tal qual julgávamos outrora poder fazer, um zero temporal absoluto. Para um Universo dado, e para cada um de seus elementos, há, no plano da experiência e do fenômeno, uma só e mesma duração possível, e ela sem margem para trás.

Cada coisa, assim, por aquilo que a torna mais ela mesma, prolonga sua estrutura, empurra suas raízes para um Passado sempre mais distante. Tudo, por alguma extensão muito atenuada de si próprio, começou desde as origens. Nada há a fazer diretamente contra essa condição basal do nosso conhecimento.

Reconhecer bem e aceitar definitivamente, para todo ser novo, a necessidade e o fato de uma embriogênese cósmica em nada suprime, contudo, para esse ser, a realidade de um nascimento histórico.

Em todos os domínios, quando uma grandeza cresceu o suficiente, ela muda bruscamente de aspecto, de estado ou de natureza.

A curva se recurva; a superfície se reduz a um ponto; o sólido desaba; o líquido ferve; o ovo se segmenta; a intuição irrompe sobre os fatos acumulados... Pontos críticos, mudanças de estado, patamares na ladeira, saltos de toda espécie no curso do desenvolvimento: eis o único modo, doravante, e ainda assim um modo verdadeiro, pelo qual a Ciência pode conceber e surpreender "um primeiro instante".

Nesse sentido elaborado e novo, mesmo depois, justamente depois, do que dissemos da Pré-vida, resta-nos considerar e definir um começo da Vida.

Durante durações que não saberíamos precisar, embora certamente imensas, a Terra, já fria o bastante para que pudessem formar-se e subsistir em sua superfície as cadeias de moléculas carbonadas, a Terra, provavelmente envolta por uma toalha de água da qual emergiam apenas os primeiros brotos dos futuros continentes, teria parecido deserta e inanimada a um observador munido dos nossos instrumentos de pesquisa mais modernos.

Recolhidas nessa época, suas águas não teriam entregue nenhuma partícula móvel aos nossos filtros mais cerrados. Elas teriam deixado ver apenas agregados inertes no campo dos nossos aumentos mais fortes.

Ora, em certo momento, mais tarde, depois de um tempo suficientemente longo, essas mesmas águas começaram certamente, em certos lugares, a fervilhar de seres minúsculos. E desse primeiro fervilhar saiu a massa espantosa de matéria organizada cuja rede complexa constitui hoje a última, ou melhor, a penúltima, das coberturas do nosso planeta: a Biosfera.

Provavelmente nunca saberemos, a menos que, por sorte, a Ciência de amanhã consiga fazer o fenômeno repetir-se em laboratório, e a História, em todo caso, nunca reencontrará diretamente os vestígios materiais dessa emersão do microscópico para fora do molecular, do orgânico para fora do químico, do vivo para fora do pré-vivo. Uma coisa, porém, é certa: semelhante metamorfose não poderia explicar-se por um processo simplesmente contínuo.

Por analogia com tudo o que nos ensina o estudo comparado dos desenvolvimentos naturais, é preciso colocar nesse momento particular da evolução terrestre uma maturação, uma muda, um limiar, uma crise de primeira grandeza: o começo de uma ordem nova.

Tentemos determinar quais tiveram de ser, por um lado, a natureza, e por outro, as modalidades espaciais e temporais dessa passagem, de modo a satisfazer ao mesmo tempo as condições presumidas da Terra juvenil e as exigências contidas na Terra moderna.

### 1. O Passo da Vida

Materialmente, e olhando de fora, o melhor que podemos dizer neste momento é que a Vida propriamente dita começa com a célula. Quanto mais a Ciência concentra, há um século, seus esforços sobre essa unidade química e estruturalmente ultracomplexa, mais se torna evidente que aí se esconde o segredo cuja posse estabeleceria a ligação, pressentida, porém ainda não realizada, entre os dois mundos da Física e da Biologia.

A célula, grão natural de Vida, tal qual o átomo é o grão natural da Matéria inorganizada. É certamente a célula que nos cumpre tentar compreender se quisermos medir em que consiste, especificamente, o Passo da Vida.

Mas, para compreender, como devemos olhar?

Já se escreveram volumes sobre a célula. Bibliotecas inteiras já não bastam para conter as observações minuciosamente acumuladas sobre sua textura, sobre as funções relativas de seu "citoplasma" e de seu núcleo, sobre o mecanismo de sua divisão, sobre suas relações com a hereditariedade. E, no entanto, tomada em si, ela permanece a nossos olhos tão enigmática e tão fechada quanto sempre foi.

Parece que, tendo chegado a certa profundidade de explicação, giramos, sem avançar, em torno de algum reduto impenetrável.

Não seria porque os métodos histológicos e fisiológicos de análise já deram, no presente, aquilo que podíamos esperar deles, e o ataque, para progredir, precisa ser retomado sob um ângulo novo?

De fato, e por razões óbvias, a Citologia construiu-se quase inteira, até aqui, a partir de um ponto de vista biológico: a célula considerada como um micro-organismo ou um proto-vivente que se tratava de interpretar em relação a suas formas e associações mais elevadas. Ora, procedendo desse modo, deixamos simplesmente na sombra metade do problema.

À maneira de um planeta em seu primeiro quarto, o objeto das nossas pesquisas iluminou-se pela face que volta para os cumes da Vida. Sobre as zonas inferiores daquilo que chamamos Pré-vida, porém, ele continua flutuando na noite. É provavelmente isso que, cientificamente falando, prolonga indevidamente para nós o seu mistério.

Nem a célula, nem coisa alguma no Mundo, por mais maravilhosa que ela nos pareça em seu isolamento entre as outras construções da Matéria, pode ser compreendida, isto é, incorporada a um sistema coerente do Universo, senão recolocada entre um Futuro e um Passado, sobre uma linha de evolução. Ocupamo-nos muito de suas diferenciações, de seu desenvolvimento.

É para suas origens, isto é, para as raízes que ela lança no inorganizado, que convém agora fazer convergir nossas pesquisas, se queremos tocar a verdadeira essência da sua novidade.

Em oposição ao que a experiência nos ensinava em todos os outros domínios, habituamo-nos demais, ou resignamo-nos, a pensar a célula como um objeto sem antecedentes. Procuremos ver o que ela se torna se a olhamos e tratamos, tal como convém, na condição de coisa ao mesmo tempo longamente preparada e profundamente original, isto é, como coisa nascida.

#### A) Micro-organismos e Megamoléculas

E antes de tudo, a preparação.

Um primeiro resultado a que chega todo esforço para observar a Vida inicial em relação ao que a precede, antes que em relação ao que a segue, é fazer aparecer uma particularidade que estranhamente feriu pouco os nossos olhos: a saber, que, na célula e por ela, é o Mundo molecular "em pessoa", se posso dizer assim, que aflora, passa e se perde no seio das construções mais elevadas da Vida.

Explico-me.

Pensamos sempre nas Plantas e nos Animais superiores quando olhamos uma Bactéria. E é isso que nos ofusca. Procedamos de outro modo. Fechemos os olhos às formas mais avançadas da Natureza viva. Deixemos igualmente de lado, como convém, a maioria dos protozoários, quase tão diferenciados em suas linhas quanto os Metazoários. E, nos Metazoários, esqueçamos as células nervosas, musculares, reprodutoras, muitas vezes gigantes e, em todo caso, superespecializadas.

Limitemos assim o olhar a esses elementos mais ou menos independentes, exteriormente amorfos ou polimorfos, que fervilham nas fermentações naturais, que circulam em nossas veias, que se acumulam em nossos órgãos sob a forma de matérias conjuntivas. Restrinjamos, em outras palavras, o campo da nossa visão à célula tomada sob as aparências mais simples, e portanto mais primitivas, que ainda podemos observar na Natureza atual.

E depois, feito isso, olhemos essa massa corpuscular em relação com a Matéria que ela recobre. Pergunto: poderíamos hesitar por um instante em reconhecer o parentesco evidente que liga, em sua composição e em seus modos, o mundo dos proto-viventes ao mundo da Físico-química?... Essa simplicidade na forma celular. Essa simetria na estrutura.

Essas dimensões minúsculas... Essa identidade exterior dos caracteres e dos comportamentos na Multidão... Não são esses, impossíveis de desconhecer, os traços e os hábitos do Granular? Isto é, não estamos ainda, nesse primeiro patamar da Vida, se não no centro, ao menos em plena borda da "Matéria"?

Sem exagero, exatamente assim como o Homem se funde, anatomicamente, aos olhos dos paleontólogos, na massa de Mamíferos que o precedem, assim a célula, tomada em descida, submerge qualitativa e quantitativamente no mundo dos edifícios químicos. Prolongada imediatamente para trás de si mesma, ela converge visivelmente para a Molécula.

Ora, essa evidência já deixou de ser uma simples intuição intelectual.

Há apenas alguns anos, o que acabo de dizer aqui sobre a passagem gradual do Grão de Matéria ao Grão de Vida poderia ter parecido tão sugestivo, porém tão gratuito, quanto as primeiras dissertações de Darwin ou de Lamarck sobre o transformismo. Mas eis que as coisas estão mudando. Desde os tempos de Darwin e Lamarck, numerosas descobertas vieram estabelecer a existência das formas de passagem postuladas pela teoria da Evolução.

De modo semelhante, os últimos progressos da Química biológica começam a estabelecer a realidade de agregados moleculares que parecem reduzir e balizar o abismo supostamente aberto entre o protoplasma e a Matéria mineral.

Se certas medidas, ainda indiretas, é verdade, são admitidas como corretas, é por milhões talvez que devem estimar-se os pesos moleculares de certas substâncias proteicas naturais, tais como os "vírus", tão misteriosamente associados às doenças microbianas nas Plantas e nos Animais.

Bem menores que todas as Bactérias, tão pequenas, de fato, que nenhum filtro ainda consegue retê-las, as partículas que formam essas substâncias são, contudo, colossais quando comparadas às moléculas ordinariamente tratadas pela química do Carbono. E é profundamente sugestivo constatar que, se ainda não se pode confundi-las com uma célula, certas propriedades suas, notadamente o poder de multiplicar-se em contato com matéria viva, já anunciam as dos seres propriamente organizados.[1]

Graças à descoberta desses corpúsculos gigantes, a existência prevista de estados intermediários entre os viventes microscópicos e o "inanimado" ultramicroscópico entra no domínio da experimentação direta.

Desde já, portanto, não só por necessidade intelectual de continuidade, e sim por indícios positivos, é possível afirmá-lo: conforme nossas antecipações teóricas sobre a realidade de uma Pré-vida, alguma função natural liga realmente, em sua aparição sucessiva e em sua existência presente, o Micro-orgânico ao Megamolecular.

E eis que essa primeira constatação nos leva a dar um passo a mais rumo a uma compreensão melhor das preparações e, por conseguinte, das origens da Vida.

#### B) Uma Era Esquecida

Não estou em condições de apreciar, do ponto de vista matemático, nem o fundamento nem os limites da Física relativista. Mas, falando como naturalista, devo reconhecer que a consideração de um meio dimensional em que Espaço e Tempo se combinam organicamente é o único meio que encontramos até agora para explicar a distribuição das substâncias materiais e vivas ao nosso redor.

Com efeito, quanto mais progride nosso conhecimento da História Natural do Mundo, mais descobrimos que a repartição dos objetos e das formas em determinado momento só se justifica por um processo cuja extensão temporal varia em razão direta da dispersão espacial, ou morfológica, dos seres considerados. Toda distância espacial, todo afastamento morfológico, supõe e exprime uma duração.

Tomemos o caso, particularmente simples, dos Vertebrados atualmente vivos. Desde o tempo de Lineu, a classificação desses animais estava suficientemente avançada para que seu conjunto manifestasse uma estrutura definida, exprimindo-se em Ordens, Famílias, Gêneros etc. Desse arranjo, contudo, os naturalistas de então não davam nenhuma razão científica.

Hoje sabemos que a Sistemática lineana representa simplesmente a seção feita no tempo presente em um feixe divergente de linhagens, ou phyla, sucessivamente aparecidas no curso dos séculos,[2] de sorte que o afastamento zoológico dos diversos tipos vivos sob nossos olhos trai e mede, em cada caso, uma diferença de idade. Na constelação das Espécies, toda existência e toda posição implicam assim certo Passado, certa Gênese.

Em particular, todo encontro feito pelo zoólogo com um tipo mais primitivo que aqueles até então conhecidos por ele, digamos o Anfioxo, tem por resultado algo além de estender um pouco a gama das formas animais. Tal descoberta implica, ipso facto, um estádio, um verticilo, um anel a mais no tronco da Evolução.

Ao Anfioxo, por exemplo, só podemos dar seu lugar na Natureza atual imaginando no Passado, abaixo dos Peixes, uma fase inteira de Vida "protovertebrada".

No Espaço-Tempo dos biólogos, a introdução de um termo ou estádio morfológico suplementar pede imediatamente tradução em um alongamento correlativo do eixo das durações.

Guardemos esse princípio. E voltemos à consideração das moléculas gigantes cuja existência a Ciência acaba de surpreender.

É possível, embora pouco provável, que essas partículas enormes formem hoje na Natureza apenas um grupo excepcional e relativamente restrito. Contudo, por raras que as suponhamos, por modificadas mesmo que as imaginemos por associação secundária com as matérias vivas que parasitam, não há razão para fazer delas seres monstruosos ou aberrantes.

Tudo leva, ao contrário, a vê-las como representantes, ainda que em estado de sobrevivência e resíduo, de um andar particular nas construções da Matéria terrestre.

Por força, então, uma zona do Megamolecular se insinua entre as zonas que supúnhamos limítrofes do Molecular e do Celular. Com isso, pelo próprio fato, em virtude das relações reconhecidas acima entre Espaço e Duração, é um período suplementar que se descobre e se insere, para trás de nós, na história da Terra. Um círculo a mais no tronco, portanto um intervalo a mais a contar para a vida do Universo.

A descoberta dos vírus ou de outros elementos semelhantes não enriquece apenas com um termo importante nossa série dos estados ou formas da Matéria. Ela nos obriga a intercalar uma era até então esquecida, uma era do "sub-vivo", na série das idades que medem o Passado do nosso planeta.

Assim reencontramos, sob uma forma terminal bem definida, partindo e descendo da Vida inicial, essa fase e essa face da Terra juvenil que fomos levados a conjecturar mais acima, quando subíamos as inclinações do múltiplo elementar.

Sobre a extensão de Tempo requerida para o estabelecimento desse mundo megamolecular na Terra, evidentemente nada sabemos ainda dizer de preciso. Mas, se não podemos sonhar em dar-lhe uma cifra, algumas considerações existem para nos orientar rumo a certa apreciação de sua ordem de grandeza. Por três razões, entre outras, o fenômeno considerado teve de proceder com extrema lentidão.

Em primeiro lugar, ele se achava estreitamente dependente, em sua aparição e em seus desenvolvimentos, da transformação geral das condições químicas e térmicas na superfície do planeta. Diferentemente da Vida, que parece propagar-se com velocidade própria em um meio material tornado praticamente estável em relação a ela, as megamoléculas só puderam formar-se no ritmo sideral, isto é, incrivelmente pouco rápido, da Terra.

Em segundo lugar, a transformação, uma vez iniciada, teve de estender-se, antes de formar a base necessária a uma emersão da Vida, a uma massa de Matéria suficientemente importante e suficientemente ampla para constituir uma zona ou invólucro de dimensões telúricas. E isto também deve ter exigido muito tempo.

Em terceiro lugar, as megamoléculas carregam provavelmente em si o vestígio de uma longa história. Como imaginar, de fato, que elas tenham podido, à maneira de corpúsculos mais simples, edificar-se bruscamente e permanecer tais, de uma vez por todas? Sua complicação e sua instabilidade sugerem antes, um pouco à semelhança da Vida, um longo processo aditivo, prosseguido por acréscimos sucessivos, sobre uma série de gerações.

Por esse tríplice motivo, podemos julgar, em linhas gerais, que uma duração talvez superior à de todos os tempos geológicos desde o Cambriano representa o tempo necessário à formação das proteínas sobre a superfície terrestre.

Assim se aprofunda de um plano, para trás de nós, esse abismo do Passado que uma invencível fraqueza intelectual nos levaria a comprimir em uma fatia sempre mais fina de Duração, ao passo que a Ciência nos força, por suas análises, a distendê-lo sempre mais.

E assim se fornece, para a continuação das nossas representações, uma base necessária.

Sem um longo período de maturação, nenhuma mudança profunda pode produzir-se na Natureza. Em compensação, dado esse período, é fatal que o inteiramente novo se produza. Uma Era terrestre da Megamolécula não é apenas um termo suplementar acrescentado ao nosso quadro das durações. É ainda, e em grau muito superior, a exigência de um ponto crítico que venha concluí-la e fechá-la.

Exatamente aquilo de que precisávamos para justificar a ideia de que um corte evolutivo de primeira ordem se coloca no nível marcado pela aparição das primeiras células.

Mas, afinal, como podemos imaginar a natureza desse corte?

#### C) A Revolução Celular

**1. Revolução externa.** De um ponto de vista exterior, aquele em que se coloca ordinariamente a Biologia, a originalidade essencial da Célula parece consistir em ter encontrado um método novo para englobar unitariamente uma massa maior de Matéria. Descoberta longamente preparada, sem dúvida, pelos tateios dos quais pouco a pouco saíram as Megamoléculas. Descoberta, porém, bastante brusca e revolucionária para ter encontrado imediatamente na Natureza um sucesso prodigioso.

Ainda estamos longe de poder definir o próprio princípio, sem dúvida luminosamente simples, da organização celular. Dela, contudo, aprendemos o suficiente para medir a extraordinária complexidade de sua estrutura e a fixidez não menos extraordinária de seu tipo fundamental.

Complexidade, primeiro. Na base do edifício celular, ensina-nos a Química, encontram-se albuminoides, substâncias orgânicas nitrogenadas, "aminoácidos", de pesos moleculares enormes, até 10.000 e além.

Associados a corpos graxos, água, fósforo e toda sorte de sais minerais, potassa, soda, magnésia, compostos metálicos diversos, esses albuminoides constituem um "protoplasma", esponja organizada de partículas inumeráveis, onde começam a atuar apreciavelmente as forças de viscosidade, osmose e catálise, características da Matéria chegada a seus graus superiores de agrupamentos moleculares. E ainda não é tudo.

No seio desse conjunto, na maioria dos casos, um núcleo, encerrando os "cromossomos", se destaca sobre um fundo de "citoplasma", talvez composto ele próprio de fibras ou bastonetes, "mitocôndrias". Quanto mais os microscópios aumentam, e quanto mais os corantes separam, mais também os novos elementos estruturais aparecem nesse complexo, seja em altura, seja em profundidade. Um triunfo de multiplicidade organicamente reunida em um mínimo de espaço.

Fixidez, em seguida. Por indefinidas que sejam as modulações possíveis do seu tema fundamental, por inesgotavelmente variadas que sejam as formas de que ela de fato se reveste na Natureza, a Célula permanece, em todos os casos, essencialmente semelhante a si mesma. Já o dizíamos acima. Diante dela, nosso pensamento hesita em buscar suas analogias no mundo do "animado" ou no do "inanimado".

As Células não se assemelham entre si à maneira das moléculas, mais que à dos animais?... Nós as olhamos com razão como as primeiras formas vivas. Mas será igualmente justo considerá-las como representantes de outro estado da Matéria: algo tão original, em sua ordem, quanto o eletrônico, o atômico, o cristalino ou o polímero? Um tipo novo de material, para um novo andar do Universo?

Na Célula, ao mesmo tempo tão una, tão uniforme e tão complicada, é em suma o Estofo do Universo que reaparece com todos os seus caracteres, agora, contudo, elevado a um patamar ulterior de complexidade e, por conseguinte, ao mesmo tempo, se a hipótese que nos guia no curso destas páginas é válida, a um grau superior de interioridade, isto é, de consciência.

**2. Revolução interna.** É com os começos da Vida organizada, isto é, com a aparição da Célula, que se costuma fazer "começar" a vida psíquica no Mundo. Reencontro, portanto, aqui, as perspectivas e a maneira comum de falar, colocando nesse estádio particular da Evolução um passo decisivo nos progressos da Consciência sobre a Terra.

Mas, por ter admitido uma origem muito mais antiga, e a bem dizer primordial, para os primeiros lineamentos da imanência dentro da Matéria, cabe-me explicar em que pode consistir a modificação específica de energia interna, "radial", correspondente ao estabelecimento externo, "tangencial", da unidade celular.

Se, na longa cadeia dos átomos, depois das moléculas, depois das megamoléculas, já situamos as obscuras e longínquas raízes de uma atividade livre elementar, é por uma metamorfose, e não por um começo total, que a revolução celular deve exprimir-se psiquicamente.

Mas como representar para nós o salto, e até onde abrir lugar para um salto, do pré-consciente incluído na Pré-vida ao consciente, por elementar que este seja, do primeiro vivo verdadeiro? Haveria então várias maneiras de um ser possuir um Dentro?

Nesse ponto, confesso, é difícil ser claro. Mais adiante, no caso do Pensamento, uma definição psíquica do "ponto crítico humano" aparecerá de início como possível, porque o Passo da Reflexão traz em si algo de definitivo, e também porque, para medi-lo, basta-nos ler no fundo de nós mesmos. No caso da Célula, ao contrário, comparada aos seres que a precedem, a introspecção só pode guiar-nos por analogias repetidas e distantes.

Que sabemos da "alma" dos animais, mesmo dos mais próximos de nós? A semelhantes distâncias abaixo e atrás, é preciso resignar-nos ao vago em nossas especulações.

Nessas condições de obscuridade e nessa margem de aproximação, três constatações ao menos permanecem possíveis, suficientes para fixar de maneira útil e coerente a posição do despertar celular na série das transformações psíquicas que preparam sobre a Terra a aparição do fenômeno humano.

Mesmo, e acrescentarei, sobretudo nas perspectivas aqui aceitas, a saber, que uma espécie de consciência rudimentar precede a eclosão da Vida, tal despertar ou salto 1) pôde, melhor ainda, 2) teve de produzir-se; e assim 3) fica parcialmente explicada uma das mais extraordinárias renovações historicamente sofridas pela face da Terra.

Antes de tudo, que um salto essencial seja possível entre dois estados ou formas, mesmo inferiores, de consciência, isto é perfeitamente concebível. Para retomar e inverter, em seus próprios termos, a dúvida formulada acima, há efetivamente, eu diria, muitas maneiras diferentes de um ser possuir um Dentro. Uma superfície fechada, a princípio irregular, pode tornar-se centrada. Um círculo pode aumentar sua ordem de simetria tornando-se esfera.

Seja por arranjo das partes, seja por aquisição de uma dimensão a mais, nada impede que o grau de interioridade próprio a um elemento cósmico varie a ponto de elevar-se bruscamente a um patamar novo.

Ora, que semelhante mutação psíquica tenha precisamente acompanhado a descoberta da combinação celular, eis o que resulta imediatamente da lei reconhecida mais acima como reguladora das relações mútuas entre o Dentro e o Fora das Coisas. Aumento do estado sintético da Matéria: logo, correlativamente, dizíamos nós, aumento de consciência para o meio sintetizado.

Transformação crítica no arranjo íntimo dos elementos, devemos acrescentar agora: logo, ipso facto, mudança de natureza no estado de consciência das parcelas do Universo.

E agora olhemos de novo, à luz desses princípios, o espetáculo surpreendente apresentado pela eclosão definitiva da Vida na superfície da Terra juvenil. Esse jato adiante na espontaneidade. Esse desencadeamento luxuriante de criações fantasiosas. Essa expansão desenfreada. Esse salto no improvável... Não é exatamente esse o acontecimento que a teoria podia levar-nos a esperar? A explosão de energia interna consecutiva e proporcionada a uma superorganização fundamental da Matéria?

Realização externa de um tipo essencialmente novo de agrupamento corpuscular, permitindo a organização mais flexível e mais bem centrada de um número ilimitado de substâncias tomadas em todos os graus de grandezas particulares; e, simultaneamente, aparição interna de um tipo novo de atividade e de determinação conscientes: por essa dupla e radical metamorfose podemos definir razoavelmente, naquilo que há de especificamente original, a passagem crítica da Molécula à Célula, o Passo da Vida.

Desse passo nos resta, antes de abordar as consequências para a continuação da Evolução, estudar de perto as condições de realização histórica: no espaço, primeiro, e depois no tempo.

Tal será o objeto dos dois parágrafos seguintes.

### 2. As Aparências Iniciais da Vida

Já que a aparição da Célula é um acontecimento que se passou nas fronteiras do ínfimo, e já que operou sobre elementos extremamente delicados, hoje dissolvidos em sedimentos há muito transformados, não há chance alguma, eu o disse, de que encontremos algum dia seus rastros.

Assim nos chocamos, desde o início, com essa condição fundamental da experiência em virtude da qual os começos de todas as coisas tendem a tornar-se materialmente inapreensíveis: a lei universalmente encontrada na História, e que mais adiante chamaremos "supressão automática dos pedúnculos evolutivos".

Há, felizmente para nosso espírito, diversas maneiras de atingir o Real. Aquilo que escapa à intuição dos nossos sentidos ainda pode ser cercado e definido aproximadamente por uma série de procedimentos indiretos. Queremos, seguindo essa via desviada, a única aberta, aproximar-nos de uma representação possível da Vida recém-nascida? Então podemos proceder da maneira e pelas etapas seguintes.

#### A) O Meio

Para começar, é preciso, por um recuo que pode atingir mil milhões de anos, apagar a maior parte das superestruturas materiais que dão hoje sua fisionomia particular à superfície da Terra. Os geólogos estão longe de concordar sobre o aspecto que nosso planeta podia apresentar nessas épocas remotas.

De minha parte, gosto de figurá-lo como envolto por um oceano sem margens, do qual nosso Pacífico acaso não seria vestígio?, e de onde apenas começavam, em alguns pontos isolados, a emergir, por pululações vulcânicas, as protuberâncias continentais. Essas águas eram sem dúvida mais tépidas que as de hoje, e também mais carregadas de todos os quimismos livres que as idades deviam progressivamente absorver e fixar.

É em tal licor, pesado e ativo, e inevitavelmente, em todo caso, em um meio líquido, que as primeiras células tiveram de formar-se. Tentemos distingui-las.

A essa distância, sua forma só nos aparece de maneira confusa. Grãos de protoplasma, com ou sem núcleo individualizado: por analogia com aquilo que, na Natureza atual, parece representar seus vestígios menos alterados, é tudo o que podemos encontrar para imaginar os traços dessa geração primordial.

Mas, se os contornos e a armação individual permanecem indecifráveis, certos caracteres de outro gênero afirmam-se com precisão; embora quantitativos, eles conservam valor. Refiro-me a uma pequenez incrível e, por consequência natural, a um número assombroso.

#### B) A Pequenez e o Número

Chegados a este ponto, é necessário que nos exercitemos em um desses "esforços para ver" de que falava meu Prefácio. Podemos, durante anos, olhar o céu estrelado sem tentar, sequer uma vez, figurar verdadeiramente a distância e, por conseguinte, a enormidade das massas siderais.

De modo semelhante, por familiares que estejam nossos olhos com o campo de um microscópio, corremos o risco de nunca "realizar" a desconcertante queda de dimensões que separa um do outro o mundo da Humanidade e o mundo de uma gota d'água. Falamos com exatidão de seres mensuráveis em centésimos de milímetro.

Mas já tentamos recolocá-los em sua escala no quadro em que vivemos? Esse esforço de perspectiva é indispensável se quisermos penetrar nos segredos, ou simplesmente no "espaço" da Vida nascente, a qual não pôde ser outra coisa senão uma Vida granular.

Que as primeiras células tenham sido minúsculas, não podemos duvidar. Assim exige seu modo de origem a partir das megamoléculas. E assim estabelece diretamente a inspeção dos seres mais simples que ainda encontramos no mundo vivo. As Bactérias, quando as perdemos de vista, medem apenas 0,2 milésimo de milímetro de comprimento!

Ora, uma relação de natureza parece positivamente existir, no Universo, entre tamanho e número. Seja por efeito de um espaço relativamente maior aberto diante deles, seja por efeito de uma diminuição a compensar em seu raio efetivo de ação individual, quanto menores são os seres, em multidões mais densas eles surgem.

Mensuráveis em micra, as primeiras células tiveram de contar-se por miríades... Por mais perto que as apertemos de seu ponto de saída, a Vida manifesta-se portanto a nós, simultaneamente, como microscópica e inumerável.

Em si, esse duplo caráter nada tem que deva surpreender-nos. Emergindo justamente da Matéria, acaso não é natural que a Vida se apresente ainda escorrendo do estado molecular?

Mas já não nos basta olhar para trás.

É o funcionamento e o futuro do mundo organizado que queremos agora compreender. Na fonte desses progressos encontramos o Número, um número imenso. Como figurar para nós as modalidades históricas e a estrutura evolutiva dessa multiplicidade nativa?

#### C) A Origem do Número

Mal nascida, à distância de onde a olhamos, a Vida já fervilha.

Para explicar tal pluralidade no próprio ponto de partida da evolução dos seres animados, e também para precisar sua natureza, duas linhas de pensamento se abrem diante do nosso espírito.

Podemos primeiro supor que, tendo as primeiras células aparecido em um só ponto, ou em pequeno número de pontos, elas se tenham ainda assim multiplicado quase instantaneamente, tal qual a cristalização se propaga em solução supersaturada. A Terra juvenil não estaria em um estado de sobrepressão biológica?

Por outro lado, a partir das mesmas condições de instabilidade inicial e em virtude delas, podemos também conceber que a passagem das Megamoléculas à Célula se tenha efetuado quase simultaneamente em grande número de pontos. Não é assim que se fazem, na própria Humanidade, as grandes descobertas?

"Monofilético" ou "polifilético"? Muito estreito e simples na origem, porém desabrochando com rapidez extrema? Relativamente largo e complexo, ao contrário, desde o começo, embora se dilatando depois com velocidade média? Como convém representar, na base, o feixe dos seres vivos?

Ao longo de toda a história dos organismos terrestres, na origem de cada grupo zoológico, encontra-se no fundo o mesmo problema: singularidade de uma haste? Ou feixe de linhas paralelas? E justamente porque os começos sempre escapam à nossa visão direta, experimentamos sem cessar a mesma dificuldade para optar entre duas hipóteses quase igualmente plausíveis.

Essa hesitação nos incomoda e nos irrita.

Mas, afinal, há realmente motivo, aqui ao menos, para escolher? Por mais delgado que se suponha o pedúnculo inicial da Vida terrestre, ele teve de conter um número apreciável de fibras mergulhando na enormidade do mundo molecular. E, por mais larga inversamente que imaginemos sua seção, ele deve ter apresentado, como toda realidade física nascente, uma aptidão excepcional para desabrochar em formas novas.

No fundo, as duas perspectivas só diferem pela importância relativa concedida a um ou a outro dos dois fatores, complexidade e "expansibilidade" iniciais, que, nos dois casos, são os mesmos. As duas implicam, além disso, entre os primeiros vivos, um estreito parentesco evolutivo no seio da Terra juvenil. Deixemos, portanto, suas oposições secundárias para concentrar nossa atenção no fato essencial que ambas iluminam em comum.

Esse fato, a meu ver, pode exprimir-se assim:

"De qualquer lado que se olhe, o Mundo celular nascente se descobre já infinitamente complexo. Seja por causa da multiplicidade dos seus pontos de origem, seja por efeito de uma diversificação rápida a partir de alguns focos de emersão, seja ainda, cumpre acrescentar, em razão de diferenças regionais, climáticas ou químicas, no envoltório aquoso da Terra, somos levados a compreender a Vida tomada em seu estádio protocelular como um enorme feixe de fibras polimorfas.

Mesmo e já nessas profundidades, o fenômeno vital só pode ser tratado a fundo como um problema orgânico de massas moventes."

Problema orgânico de massas ou multidões, digo bem; e não simples problema estatístico de grandes números. Que significa essa diferença?

#### D) As Ligações e a Figura

Aqui reaparece, na escala do coletivo, o limiar erguido entre os dois mundos da Física e da Biologia. Enquanto se tratava apenas de revolver as moléculas e os átomos, podíamos, para dar conta dos comportamentos da Matéria, servir-nos das leis numéricas de probabilidade e contentar-nos com elas.

A partir do momento em que, adquirindo as dimensões e a espontaneidade superior da Célula, a mônada tende a individualizar-se no seio da plêiade, desenha-se no Estofo do Universo um arranjo mais complicado. Por ao menos dois títulos seria insuficiente e falso imaginar a Vida, mesmo tomada em seu estádio granular, como uma espécie de fervilhar fortuito e amorfo.

Em primeiro lugar, a massa inicial das células teve de achar-se submetida por dentro, desde o primeiro instante, a uma forma de interdependência que já não fosse simples ajustamento mecânico, e sim um começo de "simbiose", ou vida em comum. Por mais fino que tenha sido, o primeiro véu de matéria orgânica estendido sobre a Terra não poderia estabelecer-se nem manter-se sem alguma rede de influência e trocas que fizesse dele um conjunto biologicamente ligado.

Desde a origem, portanto, a nebulosa celular representou necessariamente, apesar de sua multiplicidade interna, uma espécie de superorganismo difuso. Não apenas uma espuma de vidas, e sim, até certo ponto, uma película viva. Simples reaparição, afinal, sob uma forma e em uma ordem mais elevadas, de condições muito mais antigas que já presidiam, nós o vimos, ao nascimento e ao equilíbrio das primeiras substâncias polimerizadas na superfície da Terra juvenil.

E simples prelúdio também da solidariedade evolutiva, muito mais avançada, cuja existência, tão manifesta entre os Viventes superiores, nos obrigará sempre mais a admitir a natureza propriamente orgânica das ligações que os reúnem em um todo no seio da Biosfera.

Em segundo lugar, e isto é mais surpreendente, os inumeráveis elementos que compunham, em seus começos, a película viva da Terra não parecem ter sido tomados nem reunidos exaustivamente ou ao acaso. Sua admissão nesse envoltório primordial dá antes a impressão de ter sido guiada por uma misteriosa seleção ou dicotomia prévias.

Os biólogos o fizeram notar: segundo o grupo químico a que pertencem, as moléculas incorporadas na matéria animada são todas assimétricas da mesma maneira; isto é, se um feixe de luz polarizada as cruza, todas fazem girar o plano desse feixe no mesmo sentido. São todas dextrógiras, ou todas levógiras, conforme os casos.

Ainda mais notável: todos os seres vivos, desde as mais humildes Bactérias até o Homem, contêm exatamente, entre tantas formas quimicamente possíveis, os mesmos tipos complicados de vitaminas e enzimas. Tal qual os Mamíferos superiores, todos "trituberculados". Ou tal qual os Vertebrados marchadores, todos "tetrápodes".

Pois bem, semelhante similitude da substância viva em disposições que não parecem necessárias não sugere em sua origem uma escolha ou uma triagem? Nessa uniformidade química dos protoplasmas sobre pontos acidentais, quis-se encontrar a prova de que todos os organismos atuais descendem de um agrupamento ancestral único, caso do cristal caindo em meio supersaturado.

Sem ir tão longe, poderíamos dizer que ela estabelece apenas o fato de certa clivagem inicial, entre dextrógiras e levógiras, por exemplo, conforme os casos, na massa enorme de Matéria carbonada chegada ao limiar da vida, caso da descoberta em n pontos ao mesmo tempo. Pouco importa, em suma.

O interessante é que, nas duas hipóteses, o mundo terrestre vivo assume a mesma e curiosa aparência de uma Totalidade reformada a partir de um agrupamento parcial: qualquer que tenha sido a complexidade de seu jato originário, ele esgota apenas uma parte do que poderia ter sido! Tomada em seu conjunto, a Biosfera representaria assim um simples ramo no meio e acima de outras proliferações menos progressivas ou menos felizes da Pré-vida.

Que significa isto, senão que, considerada globalmente, a aparição das primeiras células já põe os mesmos problemas que a origem de cada uma dessas hastes mais tardias que chamaremos "phylum". O Universo já havia começado a ramificar-se, e sem dúvida prossegue ramificando-se indefinidamente, abaixo mesmo da Árvore da Vida!

Multidão variegada de elementos microscópicos, multidão bastante grande para envolver a Terra e, no entanto, suficientemente aparentada e selecionada para formar um Todo estrutural e geneticamente solidário: tal nos aparece, vista a longa distância, a Vida elementar.

Essas determinações, repitamo-lo, incidem exclusivamente sobre traços gerais, sobre caracteres de conjunto. Devemos resignar-nos a isso, e era de esperar. Segundo todas as dimensões do Universo, uma mesma lei de perspectiva esfuma inevitavelmente, no campo da nossa visão, as profundidades do Passado e os planos de fundo do Espaço. O que é muito distante e muito pequeno só pode ser difuso.

Para que nosso olhar penetrasse mais adiante no segredo dos fenômenos que acompanharam sua aparição, seria preciso[3] que a Vida continuasse, em algum lugar da Terra, a brotar sob nossos olhos.

Ora, e este é um último ponto a considerar antes de encerrar o presente capítulo, essa chance precisamente não nos é dada.

### 3. A Estação da Vida

A priori, seria perfeitamente imaginável que, nos limites do microscópico e do ínfimo, a misteriosa transformação das megamoléculas em células, iniciada há milhões de anos, prosseguisse ainda, despercebida, ao nosso redor. Quantas forças não julgávamos adormecidas para sempre na Natureza, e uma análise mais minuciosa provou que continuavam em ação! A crosta terrestre não terminou de se elevar ou de baixar sob nossos pés.

As cadeias de montanhas ainda se erguem em nosso horizonte. Os granitos continuam a nutrir e a alargar o soco dos continentes. O próprio mundo orgânico não cessa, na superfície de sua enorme ramagem, de abrir novos brotos.

Aquilo que uma extrema lentidão consegue fazer para dissimular um movimento, por que uma extrema pequenez não o realizaria também? Nada se oporia, em si, a que, por massas infinitesimais, a substância viva ainda estivesse nascendo sob nossos olhos.

Nada, de fato, parece indicá-lo; ao contrário, tudo parece desviar-nos de pensar que seja assim.

Cada um conhece a famosa controvérsia que opôs, há quase um século, partidários e adversários da "geração espontânea". Dos resultados da batalha parece que se quis tirar, na época, conclusão excessiva: tal qual se a derrota de Pouchet fechasse cientificamente toda esperança de dar uma explicação evolutiva às primeiras origens da Vida.

Ora, todos hoje concordam neste ponto: do fato de que, no seio de um meio previamente desembaraçado de todo germe, a Vida nunca aparece em laboratório, não se poderia concluir, contra toda sorte de evidências gerais, que, em outras condições e em outras épocas, o fenômeno não se tenha produzido. As experiências de Pasteur não podiam nem podem provar coisa alguma contra um nascimento passado das células em nosso planeta.

Em compensação, seu sucesso, inesgotavelmente confirmado por um uso universal dos métodos de esterilização, parece demonstrar bem uma coisa: a saber, que, no campo e nos limites das nossas investigações, o protoplasma não se forma mais diretamente hoje a partir das substâncias inorganizadas da Terra.[4]

E isto nos obriga, para começar, a revisar certas ideias absolutas demais que poderíamos nutrir sobre o valor e o uso, em Ciências, das explicações "pelas Causas atuais".

Eu o recordava há apenas um instante. Muitas transformações terrestres que teríamos jurado interrompidas, e desde muito tempo, prolongam-se ainda no Mundo que nos cerca. Sob a influência dessa constatação inesperada, que vem favorecer nossa preferência natural pelas formas palpáveis e manejáveis da experiência, nossos espíritos inclinam-se suavemente a pensar que jamais houve no Passado, assim como jamais poderia haver no Futuro, algo de absolutamente novo sob o sol.

Mais um pouco, e reservaríamos apenas aos acontecimentos do Presente a plena realidade do Conhecimento. No fundo, tudo não é simplesmente "conjectura" fora do Atual?

É preciso reagir a todo custo contra essa limitação instintiva dos direitos e do domínio da Ciência.

O Mundo justamente deixaria de satisfazer às condições impostas pelo Atual; deixaria de ser o grande Mundo da Mecânica e da Biologia, se nele não estivéssemos perdidos tal qual esses insetos cuja existência efêmera ignora tudo o que excede os limites de uma estação. No Universo, em virtude das próprias dimensões que a medida do Presente lhe descobre, toda sorte de coisas teve de passar-se sem que o Homem a testemunhasse.

Muito antes do despertar do Pensamento na Terra, manifestações da Energia cósmica tiveram de produzir-se, sem exemplo neste momento.

Ao lado do grupo dos fenômenos imediatamente registráveis, há portanto, para a Ciência, uma classe particular de fatos a considerar no Mundo, os mais importantes, neste caso, porque os mais significativos e raros: aqueles que não pertencem nem à observação nem à experimentação diretas, e que só podem ser revelados por esse ramo, muito autêntico, da "Física", que é a Descoberta do Passado.

E a primeira aparição dos corpos vivos, a julgar por nossos repetidos fracassos em reencontrar ao nosso redor seus equivalentes, ou em reproduzi-la, aparece precisamente como um dos mais sensacionais desses acontecimentos.

Posto isto, avancemos um pouco mais. Há duas maneiras possíveis de uma coisa não coincidir no Tempo com nossa visão. Ou a perdemos porque só se reproduz em intervalos tão longos que nossa existência inteira cabe entre duas de suas aparições. Ou ela nos escapa ainda mais radicalmente porque, uma vez posta, não se repete jamais.

Fenômeno cíclico, de período muito longo, tal qual a Astronomia conhece tantos, ou fenômeno propriamente singular, tais como seriam Sócrates ou Augusto na história humana? Em qual dessas duas categorias do inexperimental, ou melhor, do preterexperimental, convém classificar, depois das descobertas pasteurianas, a formação inicial das células a partir da Matéria, o Nascimento da Vida?

Em favor da ideia de que a Matéria organizada germinaria periodicamente sobre a Terra, não faltam fatos a apresentar. Mais adiante, quando eu desenhar a Árvore da Vida, terei de mencionar a coexistência, em nosso Mundo vivo, de certos grandes conjuntos, os Protozoários, as Plantas, os Pólipos, os Insetos, os Vertebrados, cujos contatos mal fundidos se explicariam muito bem por uma origem heterogênea.

Algo semelhante a essas intrusões sucessivas, subidas em diferentes idades, de um mesmo magma, cujos veios entrelaçados formam o complexo eruptivo de uma mesma montanha... A hipótese de pulsações vitais independentes justificaria comodamente a diversidade morfológica dos principais Ramos reconhecidos pela Sistemática. E, de fato, ela não encontraria dificuldade alguma do lado da Cronologia.

Em todo caso, a extensão de tempo que separa as origens históricas de dois Ramos sucessivos é amplamente superior à que mede a idade da Humanidade. Nada de espantoso, portanto, que vivamos na ilusão de que nada mais se passa. A Matéria parece morta. Contudo, na realidade, a próxima pulsação não se estaria preparando lentamente, por toda parte ao nosso redor?

Eu devia assinalar e, até certo ponto, defender essa concepção de um nascimento espasmódico da Vida. Isso, entretanto, não para nela me fixar. Contra a tese de vários impulsos vitais, sucessivos e diferentes na superfície da Terra, ergue-se de fato, como objeção decisiva, a similitude fundamental dos seres organizados.

Já mencionamos, no presente capítulo, esse fato tão curioso: todas as moléculas de substâncias vivas são assimétricas da mesma maneira e contêm exatamente as mesmas vitaminas. Pois bem, quanto mais os organismos se complicam, mais se torna evidente seu parentesco nativo. Ele se trai na uniformidade absoluta e universal do tipo celular.

Aparece, sobretudo nos Animais, nas soluções idênticas dadas aos diversos problemas da percepção, da nutrição, da reprodução: por toda parte sistemas vasculares e nervosos; por toda parte alguma forma de sangue; por toda parte gônadas; por toda parte olhos... Prossegue na similitude dos métodos empregados pelos indivíduos para associar-se em organismos superiores ou para socializar-se.

Por fim irrompe nas leis gerais de desenvolvimento, "ontogênese" e "filogênese", que dão ao Mundo vivo, tomado em seu conjunto, a coerência de um único jorro.

Ainda que esta ou aquela dessas múltiplas analogias seja explicável pelo ajustamento de um mesmo "magma pré-vivo" a condições terrestres idênticas, não parece que se possa considerar seu feixe reunido como expressão de simples paralelismo ou simples "convergência".

Mesmo que o problema físico e fisiológico da Vida comporte uma única solução geral sobre a Terra, essa solução de conjunto deixa forçosamente indecisa uma multidão de determinações acidentais, particulares, das quais parece vedado pensar que se tenham encontrado iguais duas vezes. Ora, é até nessas modalidades acessórias que, mesmo entre grupos muito distantes, todos os vivos se assemelham.

Por esse motivo, as oposições atualmente observáveis entre Ramos zoológicos perdem muito de sua importância, não resultariam elas simplesmente de um efeito de perspectiva, combinado com um isolamento progressivo dos phyla vivos?, e cresce no naturalista a convicção de que a eclosão da Vida na Terra pertence à categoria dos acontecimentos absolutamente únicos, que, uma vez postos, não se repetem.

Hipótese menos inverossímil do que poderia parecer a princípio, contanto que se faça uma ideia conveniente daquilo que se oculta sob a história do nosso planeta.

Em Geologia e em Geofísica, a moda hoje é atribuir importância preponderante aos fenômenos periódicos. Os mares que avançam e recuam. As plataformas continentais que sobem e descem. As montanhas que crescem e se nivelam. Os gelos que avançam e recuam. O calor de radioatividade que se acumula em profundidade e depois se derrama em superfície... Já não se fala senão desses majestosos "vai e vens" nos tratados que descrevem as peripécias da Terra.

Essa predileção pela Rítmica nos acontecimentos anda junto com a preferência pelo Atual nas causas. E, tal qual esta, ela se explica por necessidades racionais precisas. O que se repete permanece, ao menos virtualmente, observável. Podemos fazer dele objeto de uma lei. Nele encontramos pontos de referência para medir o tempo. Sou o primeiro a reconhecer a qualidade científica dessas vantagens.

Mas não posso deixar de pensar que uma análise exclusiva das oscilações registradas pela crosta terrestre ou pelos movimentos da Vida deixaria precisamente fora de suas pesquisas o objeto principal da Geologia.

Pois, afinal, a Terra deixou de ser simplesmente uma espécie de grande corpo que respira. Ela se ergue e se abaixa... Contudo, ainda mais importante, teve de começar em algum momento; passa por uma série ligada de equilíbrios móveis; tende verossimilmente para algum estado final. Tem um nascimento, um desenvolvimento e sem dúvida uma morte adiante.

Deve haver, portanto, em curso ao nosso redor, mais profundo que qualquer pulsação exprimível em eras geológicas, um processo de conjunto, não periódico, que define a evolução total do planeta: algo quimicamente mais complicado e mais íntimo à Matéria que o "resfriamento" de que se falava outrora, porém algo ainda assim irreversível e contínuo. Uma curva que não desce novamente, e cujos pontos de transformação, por conseguinte, não se reiteram.

Uma só maré montante, sob o ritmo das idades... Pois bem, é nessa curva essencial, é em relação a essa subida de fundo, que o fenômeno vital pede, imagino eu, para ser situado.

Se a Vida, um dia, pôde isolar-se no Oceano primitivo, foi sem dúvida porque a Terra, e justamente nisso ela era juvenil, encontrava-se então, pela distribuição e pela complexidade global de seus elementos, em um estado geral privilegiado que permitia e favorecia a edificação dos protoplasmas.

E se a Vida, por consequência, já não se forma diretamente hoje a partir dos elementos contidos na Litosfera ou na Hidrosfera, é aparentemente porque o próprio fato da aparição de uma Biosfera perturbou, empobreceu e distendeu de tal modo o quimismo primordial do nosso fragmento de Universo que, talvez salvo artificialmente, o fenômeno não se repetirá jamais.

Desse ponto de vista, que me parece o bom, a "revolução celular" se descobriria portanto como expressão, sobre a curva da evolução telúrica, de um ponto crítico e singular de germinação, um momento sem par. Uma só vez na Terra do protoplasma, tal qual uma só vez no Cosmos dos núcleos e dos elétrons.

Essa hipótese tem a vantagem de fornecer uma razão à similitude orgânica, profunda, que marca, da Bactéria ao Homem, todos os seres vivos, ao mesmo tempo que explica por que, em lugar algum e jamais, surpreendemos a formação do menor grão vivo senão por geração. E esse era o problema.

Mas ela tem ainda, para a Ciência, duas outras consequências notáveis.

Primeiro, destacando o fenômeno vital da multidão dos outros acontecimentos terrestres periódicos e secundários, para fazer dele um dos principais pontos de referência, ou parâmetros, da evolução sideral do globo, ela retifica nosso senso das proporções e dos valores, e renova assim nossa perspectiva do Mundo.

Depois, pelo próprio fato de nos mostrar a origem dos corpos organizados como ligada a uma transformação química sem precedentes e sem réplica no curso da história terrestre, ela nos inclina a olhar a energia contida na película viva do nosso planeta na qualidade de força que se desenvolve a partir e no interior de uma espécie de "quantum" fechado, definido pela amplitude dessa emissão primordial.

A Vida nasceu e se propaga sobre a Terra como uma pulsação solitária.

É dessa onda única que se trata agora de seguir, até o Homem, e se possível até além do Homem, a propagação.

## Notas

[1] Desde que, aos poderosos aumentos do microscópio eletrônico, os vírus foram vistos como finos bastonetes, assimetricamente ativos em suas duas extremidades, a opinião parece ter prevalecido de que era preciso classificá-los entre as Bactérias, antes que entre as "moléculas". Mas o estudo das enzimas e de outras substâncias químicas complexas não começa justamente a provar que as moléculas têm uma forma e até uma grande diversidade de formas?

[2] Ver adiante o que diremos a esse respeito no capítulo da "Árvore da Vida".

[3] À espera, quem sabe?, de que os químicos consigam provocar a reprodução do fenômeno em laboratório.

[4] Às experiências de Pasteur poder-se-ia, contudo, objetar que a esterilização, por sua brutalidade, arrisca destruir, além dos germes vivos que procura eliminar, os germes "pré-vivos" dos quais somente poderia sair a Vida. No fundo, a melhor prova de que a Vida apareceu uma só vez na Terra parece-me ser fornecida pela unidade estrutural profunda da Árvore da Vida (Cf. infra).

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