IV. A Sobrevida - Capítulo III - A Terra Final
## IV. A Sobrevida - Capítulo III - A Terra Final
Sem redobramento sobre si da Matéria, reconhecemos, isto é, sem o quimismo fechado das moléculas, das células e dos ramos filéticos, jamais teria havido Biosfera nem Noosfera.
Em sua aparição e em seu desenvolvimento, Vida e Pensamento estão ligados, por sua estrutura e não apenas por acidente, aos contornos e ao destino da massa terrestre.
E, em sentido contrário, eis que agora, à frente, para sustentar e equilibrar o impulso das consciências, apareceu para nós um Centro psíquico de deriva universal, transcendente ao Tempo e ao Espaço, e por isso essencialmente extraplanetário.
Noogênese que sobe irreversivelmente para Ômega dentro do ciclo estreitamente limitado de uma Geogênese...
Em certo momento do futuro, sob alguma influência ligada a uma das curvas, ou às duas ao mesmo tempo, é fatal que os dois ramos se separem.
Por convergente que seja, a Evolução só pode completar-se na Terra por meio de um ponto de dissociação.
Assim se introduz naturalmente, e tende a ganhar forma em nossas perspectivas, o acontecimento fantástico e inevitável do qual cada dia passado nos aproxima: o fim de toda Vida em nosso globo, a morte do Planeta, a fase última do Fenômeno humano.
O que será, em suas aparências finais, a Noosfera, ninguém ousaria representar para si, por pouco que tenha entrevisto o incrível potencial de inesperado acumulado no Espírito da Terra.
O fim do Mundo é inimaginável.
No entanto, aquilo que seria insensato querer descrever, podemos, até certo ponto, usando as linhas de aproximação construídas antes, prever em sua significação e circunscrever em suas formas.
O que, num Universo de substância consciente, a Terra final não poderia ser; como ela se delineará; que possibilidades ela tem de ser. Eis o que, fria e logicamente, sem Apocalipse, eu gostaria de sugerir, bem menos para afirmar seja o que for que para fazer pensar.
### 1. Prognósticos a Afastar
Quando se fala do fim do Mundo, é sempre a ideia de infortúnio que nos vem de imediato ao espírito.
Cataclismo sideral, na maioria das vezes. Tantos astros que circulam e nos roçam. Esses mundos que explodem no horizonte... Por força do jogo implacável das probabilidades, não chegará a nossa vez de sermos atingidos e mortos?
Ao menos uma morte lenta em nossa prisão. Esta parece inevitável. Desde que a Física descobriu que toda energia se degrada, parece que sentimos, no Mundo, o calor baixar ao nosso redor. Desse resfriamento ao qual estamos condenados, outra descoberta, a radioatividade, veio felizmente compensar o efeito e adiar a iminência. Os astrônomos nos prometem agora, se tudo correr bem, algumas boas centenas de milhões de anos. Respiramos. Mas, enquanto isso, se o vencimento foi empurrado para longe, a sombra continua a subir.
E estaremos nós sequer aqui para ver chegar a tarde?...
Até lá, sem falar dos azares cósmicos que nos espreitam, que se passará na camada viva da Terra? Com a complicação e com a idade, as ameaças internas se multiplicam no seio da Biosfera e da Noosfera. Invasões microbianas. Contraevoluções orgânicas. Esterilidade. Guerras. Revoluções. Quantas maneiras possíveis de acabar, e que, no fim das contas, talvez ainda valessem mais que uma longa senescência.
Essas diversas eventualidades, nós as conhecemos bem. Pensamos nelas. Lemos suas descrições antecipadas nos romances dos Goncourt, de Benson, de Wells, ou em obras científicas assinadas por nomes ilustres. Cada uma delas é perfeitamente verossímil. Podemos ser esmagados, a cada instante, por um enorme bólido. Isto é verdade. Amanhã a Terra pode tremer e fugir sob nossos pés. Também é verdade. Tomada isoladamente, cada vontade humana pode recusar a tarefa de subir a um grau superior de união. Admito também isso.
E, no entanto, na medida em que implicam uma ideia de acidente prematuro ou de decadência, creio poder dizer, apoiando-me em tudo o que o passado da Evolução nos ensina, que não temos a temer nenhum desses múltiplos desastres. Por possíveis que sejam em teoria, podemos estar certos, por uma razão superior, de que eles não acontecerão.
Eis por quê.
Catástrofes cósmicas, desagregações biológicas, ou simplesmente parada de crescimento ou envelhecimento, as representações pessimistas dos últimos dias da Terra têm isto em comum: estendem sem correção à Vida inteira as características e as condições de nossos fins individuais e elementares. Quebras, doenças ou decrepitude. Tal a morte do homem, tal a morte da Humanidade.
Mas temos mesmo o direito de generalizar de maneira tão simples?
Quando um indivíduo desaparece, ainda que antes da idade, outro indivíduo se encontra sempre ali para substituí-lo. Sua perda, para a continuação da Vida, não é irreparável. Mas que dizer no caso da Humanidade?...
Em algum lugar de um de seus livros, o grande paleontólogo Matthew sugeriu que, se o ramo humano viesse a desaparecer, outro ramo pensante não tardaria a sucedê-lo. Mas ele se guarda bem, e sem dúvida ficaria muito embaraçado, de dizer onde poderia aparecer esse misterioso broto na Árvore da Vida tal como a conhecemos.
Outra, inteiramente outra, quando se considera o conjunto da história, parece-me ser a situação biológica.
Uma vez, e uma vez somente, ao longo de sua existência planetária, a Terra pôde envolver-se de Vida. Do mesmo modo, uma vez e uma vez somente, a Vida se mostrou capaz de transpor o passo da Reflexão. Uma única estação para o Pensamento, tal como uma única estação para a Vida. Desde esse momento o Homem forma a flecha da Árvore, não o esqueçamos. Nele, enquanto tal, com exclusão de todo o resto, concentram-se doravante as esperanças de futuro da Noosfera, isto é, da Biogênese, isto é, finalmente, da Cosmogênese.
Como, então, poderia ele terminar antes do tempo, ou parar, ou decair, a menos que ao mesmo tempo, o que decidimos absurdo, o Universo abortasse sobre si mesmo?
Em seu estado atual, o Mundo não se compreenderia, e a presença nele do Refletido seria inexplicável, se não supuséssemos uma secreta cumplicidade do imenso e do Ínfimo para aquecer, nutrir e sustentar até o fim, à força de acasos, contingências e liberdades utilizadas, a Consciência aparecida entre ambos.
É com essa cumplicidade que precisamos contar. O Homem é insubstituível. Portanto, por inverossímil que seja a perspectiva, é preciso que ele chegue a termo, talvez sem necessidade mecânica, porém infalivelmente.
Nenhuma parada, seja qual for sua forma; antes, um último progresso, vindo em sua hora biológica.
Uma maturação e um paroxismo.
Sempre mais alto no improvável de onde saímos.
É nessa direção que devemos, se queremos prever o Fim do Mundo, extrapolar o Homem e a Hominização.
### 2. As Aproximações
Sem ultrapassar os limites das probabilidades científicas, podemos dizer que a Vida dispõe ainda, para desenvolver-se, de longos períodos geológicos. Além disso, observada sob sua forma pensante, ela ainda dá todos os sinais de uma energia em plena expansão. De um lado, com efeito, comparada às lâminas zoológicas que a precedem, cuja vida média é ao menos da ordem de 80 milhões de anos, a Humanidade é tão jovem que se pode dizê-la apenas nascida. De outro, ao observar os rápidos desenvolvimentos do Pensamento no estreito intervalo de algumas dezenas de séculos, essa juventude traz em si os indícios e as promessas de um ciclo biológico inteiramente novo.
Entre a Terra final e nossa Terra moderna estende-se, portanto, verossimilmente, uma duração imensa, marcada não por um retardamento, e sim por uma aceleração, e pelo florescimento definitivo, segundo a flecha humana, das forças da Evolução.
Sob que forma e ao longo de que linhas, na única hipótese aceitável de um êxito, podemos imaginar que, nesse espaço, se desenvolverá o Progresso?
Antes de tudo, sob uma forma coletiva e espiritual. Desde a aparição do Homem, pudemos notar certo retardamento das transformações passivas e somáticas do organismo em proveito das metamorfoses conscientes e ativas do indivíduo tomado em sociedade. O artificial substitui o natural. A transmissão oral ou escrita se sobrepõe às formas genéticas, ou cromossômicas, da hereditariedade.
Sem negar a possibilidade, ou mesmo a probabilidade, de certo prolongamento em nossos membros, e mais especialmente em nosso sistema nervoso, dos processos passados da ortogênese[1], eu tenderia a pensar que sua influência, praticamente insensível desde a emersão do Homo sapiens, está destinada a amortecer-se cada vez mais.
Dir-se-ia que, reguladas por uma espécie de lei quântica em sua distribuição, as energias da Vida não podem estender-se a uma região ou tomar uma forma nova sem baixar ao redor dela. Desde que o Homem apareceu, a pressão evolutiva parece ter caído em todos os ramos não humanos da Árvore da Vida.
E agora que, ao Homem tornado adulto, se abriu o campo das transformações mentais e sociais, os corpos já não mudam de modo apreciável. Já não têm de mudar, no ramo humano; ou, se ainda mudarem, será apenas sob nosso industrioso controle.
Pode ser que, em suas capacidades e em sua penetração individuais, nosso cérebro tenha atingido seus limites orgânicos. Mas o movimento não se detém por isso. Do Ocidente ao Oriente, a Evolução ocupa-se doravante em outro lugar, num domínio mais rico e mais complexo, construindo, com todos os espíritos postos em conjunto, o Espírito. Para além das nações e das raças, a tomada em bloco, inevitável e já em curso, da Humanidade.
Posto isso, a partir do patamar planetário de totalização psíquica e de rebote evolutivo ao qual estamos ascendendo, segundo que linhas de ataque, entre outras, a julgar pelo estado presente da Noosfera, parece que estamos destinados a marchar?
Distingo três principais, nas quais reaparecem os prognósticos a que já nos havia conduzido a análise das ideias de Ciência e de Humanidade: a organização da Pesquisa; a concentração desta sobre o objeto humano; a conjunção da Ciência e da Religião.
Três termos naturais de uma mesma progressão.
#### a) A Organização da Pesquisa
Nós ousamos muito nos vangloriar de ser uma era da Ciência. E, até certo ponto, se quisermos falar apenas de aurora, em comparação com a noite que precede, temos razão. Algo enorme nasceu no Universo, com nossas descobertas e com nossos métodos de procurar. Algo, estou convencido, que já não se deterá.
Mas, se exaltamos a Pesquisa e dela tiramos proveito, com que mesquinharia de espírito e de meios, e em que desordem, ainda pesquisamos hoje!
Já pensamos seriamente nessa situação de miséria?
Tal como a Arte, e quase se poderia dizer tal como o Pensamento, a Ciência nasceu sob as aparências de uma superfluidade, de uma fantasia. Exuberância de atividade interna acima das necessidades materiais da Vida. Curiosidade de sonhadores e desocupados. Pouco a pouco, sua importância e sua eficiência lhe deram direito de cidade. Vivendo num Mundo do qual é justo dizer que ela o revolucionou, aceitamos seu papel social, até mesmo seu culto.
E, no entanto, continuamos ainda a deixá-la crescer ao acaso, quase sem cuidado, à maneira dessas plantas selvagens cujos frutos os povos primitivos colhem na floresta.
Tudo para a produção. Tudo para os armamentos. Para o sábio e o laboratório que decuplicam nossas forças, ainda nada, ou quase nada.
Pareceria realmente que as descobertas devem cair periodicamente do céu, já prontas, tal como o sol ou a chuva, e que o Homem ainda não tivesse nada melhor a fazer na Terra do que se entre matar ou comer!
Tentemos apenas estabelecer a proporção das energias humanas empregadas, hic et nunc, na busca da verdade. Ainda mais materialmente, façamos a porcentagem do dinheiro reservado, nos orçamentos de Estado, à investigação de problemas claramente postos, cuja solução seria vital para o mundo. Ficaremos assustados.
Menos para o consumo anual da pesquisa mundial do que para um couraçado! Terão nossos bisnetos razão em pensar que éramos bárbaros?
A verdade é que, situados numa época de transição, ainda não temos nem a plena consciência nem o pleno governo das potências novas que se desencadearam. Fiéis a antigas rotinas, continuamos a ver na Ciência apenas um meio novo de obter com mais facilidade as mesmas velhas coisas: solo e pão.
Pomos Pégaso no tiro. E Pégaso definha, a menos que dispare com o arado.
Chegará o momento, e ele deve necessariamente chegar, em que o Homem, forçado pela desproporção evidente do atrelamento, reconhecerá que a Ciência não é para ele uma ocupação acessória, e sim uma forma essencial da ação, derivativo natural, de fato, aberto ao excedente das energias constantemente liberadas pela Máquina.
Uma Terra cujos "lazeres" sempre crescentes e cujo interesse sempre mais suspenso encontrarão sua saída vital no ato de aprofundar tudo, tentar tudo, prolongar tudo.
Uma Terra onde os telescópios gigantes e os trituradores de átomos absorverão mais ouro e suscitarão mais admiração espontânea que todas as bombas e todos os canhões.
Uma Terra onde, não só para o exército agrupado e subvencionado dos pesquisadores, também para o homem da rua, o problema do dia será a conquista de mais um segredo e de mais um poder arrancados aos corpúsculos, aos astros ou à matéria organizada.
Uma Terra onde, tal como já acontece, será para saber e ser, antes que para possuir, que se dará a própria vida.
Eis o que ao nosso redor, quando se medem as forças presentes[2], se prepara inevitavelmente.
Tal como ocorre nesses organismos inferiores em que a retina se acha espalhada pela superfície do corpo inteiro, a visão humana ainda se exerce de maneira difusa, misturada aos trabalhos da indústria e da guerra. Biologicamente, ela exige individualizar-se em função independente, com seus órgãos distintos.
Ainda um pouco, e a Noosfera terá encontrado seus olhos.
#### b) A Descoberta do Objeto Humano
Quando a Humanidade tiver reconhecido que sua primeira função é penetrar, unificar intelectualmente e captar, para compreender e dominar ainda mais longe, as energias que a cercam, não haverá perigo algum de que ela se choque contra um limite exterior em seus florescimentos.
Um mercado comercial pode encher-se. Acabaremos algum dia, ainda que substituindo por outra coisa, por esvaziar nossas minas e nossos poços de petróleo. Nada, aparentemente, poderia sobre a Terra saturar nossa necessidade de saber, nem esgotar nosso poder de inventar. Pois de uma coisa e da outra se pode dizer: crescit eundo.
Isto, contudo, não significa que a Ciência deva propagar-se indiferentemente em todas as direções ao mesmo tempo, à maneira de uma onda em meio isotrópico.
Quanto mais se olha, mais se vê. Porém também se vê melhor para onde é preciso olhar.
Se a Vida pôde avançar, foi porque, à força de tatear, encontrou sucessivamente os pontos de menor resistência onde o Real cedia sob seu esforço. Do mesmo modo, se a Pesquisa deve progredir amanhã, será amplamente por localizar as zonas centrais, as zonas sensíveis, as zonas vivas, cuja conquista assegurará sem esforço o domínio de todo o resto.
Desse ponto de vista, pode-se predizer que, se vamos rumo a uma era humana da Ciência, essa era será eminentemente uma era da Ciência humana: o Homem que conhece percebendo enfim que o Homem, "objeto de conhecimento", é a chave de toda Ciência da Natureza.
O Homem, esse desconhecido, disse Carrel. E o Homem, é preciso acrescentar, essa solução de tudo o que podemos conhecer...
Até aqui, por preconceito ou por temor, a Ciência girou constantemente ao redor do Objeto humano sem ousar abordá-lo de frente. Materialmente, nosso corpo parece tão insignificante, tão acidental, tão transitório, tão frágil... Por que ocupar-se dele?
Psicologicamente, nossa alma é tão incrivelmente sutil e complexa. Como ligá-la a um Mundo de leis e fórmulas?...
Ora, quanto mais fazemos esforço para evitar o Homem em nossas teorias, mais os círculos que descrevemos ao redor dele se apertam, tal qual se fôssemos captados por seu turbilhão.
No extremo de suas análises, eu o recordava em meu Prefácio, a Física já não sabe muito bem se conserva em mãos a Energia pura, ou se, ao contrário, é o Pensamento que lhe resta.
No termo de suas construções, a Biologia, se obedece à lógica de suas descobertas, vê-se conduzida a reconhecer, no conjunto dos seres pensantes, a forma atualmente terminal das construções da Evolução.
O Homem embaixo; o Homem no alto; e o Homem no centro, sobretudo: aquele que vive, se estende, luta tão terrivelmente em nós e ao nosso redor. Será mesmo necessário acabar por ocupar-se dele.
O que faz, para a Ciência, o valor único do objeto humano é, se não errei nestas páginas, o duplo fato: 1) representar, individual e socialmente, o estado mais sintético sob o qual nos é acessível a Substância do Universo; e 2) correlativamente, ser o ponto atualmente mais móvel dessa Substância em curso de transformação.
A esse duplo título, decifrar o Homem é essencialmente procurar saber como o Mundo se fez e como deve continuar a fazer-se.
Ciência do Homem: Ciência teórica e prática da Hominização. Aprofundamento do Passado e das Origens. Mas, em grau ainda maior, experimentação construtiva prosseguindo sobre um objeto continuamente renovado.
O programa é imenso, e sem outro fim que o do futuro.
Cuidados e acabamento do corpo humano, em primeiro lugar.
Vigor e saúde do organismo. Enquanto dura sua fase de imersão no "tangencial", o Pensamento só pode elevar-se sobre essas bases materiais. Ora, no tumulto das ideias que acompanha o despertar do espírito, não estaremos fisicamente degenerando?
Deveríamos corar, já se disse, comparando nossa Humanidade, tão cheia de sujeitos malformados, com essas sociedades animais em que, entre centenas de milhares de indivíduos, não falta um artigo sequer a uma única antena...
Em si, essa perfeição geométrica não está na linha de nossa evolução, toda orientada para a flexibilidade e a liberdade. Contudo, convenientemente subordinada a outros valores, não será ela uma indicação e uma lição?
Certamente deixamos até aqui nossa raça crescer ao acaso, e refletimos insuficientemente sobre o problema de saber por quais fatores médicos e morais é necessário, caso as suprimamos, substituir as forças brutais da seleção natural.
Ao longo dos séculos vindouros, é indispensável que se descubra e se desenvolva, à medida de nossas pessoas, uma forma de eugenismo nobremente humana.
Eugenismo dos indivíduos, e por consequência também eugenismo da sociedade.
Deste grande corpo, feito de todos os nossos corpos, acharíamos mais cômodo, e até nos inclinaríamos a julgar mais seguro, deixar que os contornos se determinem sozinhos, pelo jogo automático das fantasias e dos impulsos individuais.
Não interferir com as forças do Mundo!... Sempre a miragem do instinto e da pretensa infalibilidade da Natureza.
Mas não é justamente o Mundo que, chegando ao Pensamento, espera que repensemos, para aperfeiçoá-los, os passos instintivos da Natureza?
À substância refletida, arranjos refletidos.
Se há um futuro para a Humanidade, esse futuro só pode ser imaginado na direção de alguma conciliação harmoniosa do Livre com o Planejado e o Totalizado.
Distribuição dos recursos do globo. Regulação do Impulso rumo aos espaços livres. Uso ótimo das potências liberadas pela Máquina. Fisiologia das nações e das raças. Geoeconomia, geopolítica, geodemografia.
A organização da Pesquisa alargando-se numa organização racional da Terra.
Queiramos ou não, todos os indícios e todas as nossas necessidades convergem no mesmo sentido: é preciso, e estamos irresistivelmente edificando, por meio e para além de toda Física, de toda Biologia e de toda Psicologia, uma Energética humana.
E é no curso dessa construção já obscuramente começada que nossa Ciência, por ter sido levada a concentrar-se sobre o Homem, vai encontrar-se cada vez mais face a face com a Religião.
#### c) A Conjunção Ciência-Religião
Em aparência, a Terra Moderna nasceu de um movimento antirreligioso. O Homem bastando a si mesmo. A Razão substituindo a Crença. Nossa geração, e as duas precedentes, quase só ouviram falar de conflito entre Fé e Ciência. A ponto de ter parecido, por um momento, que esta era definitivamente chamada a substituir aquela.
Ora, à medida que a pressão se prolonga, é visivelmente sob uma forma inteiramente diferente de equilíbrio, não eliminação, nem dualidade, e sim síntese, que o conflito parece dever resolver-se.
Depois de quase dois séculos de lutas apaixonadas, nem a Ciência nem a Fé conseguiram diminuir uma à outra. Ao contrário, torna-se manifesto que, uma sem a outra, elas não poderiam desenvolver-se normalmente, pela simples razão de que uma mesma vida anima ambas.
Nem em seu impulso, com efeito, nem em suas construções, a Ciência pode ir até os próprios limites sem colorir-se de mística e carregar-se de Fé.
Em seu impulso, primeiro. Tocamos esse ponto ao tratar do problema da Ação. O Homem só continuará a trabalhar e a pesquisar se conservar o gosto apaixonado de fazê-lo. Ora, esse gosto está inteiramente suspenso à convicção, estritamente indemonstrável para a Ciência, de que o Universo tem um sentido, e de que ele pode, ou mesmo deve, chegar, se formos fiéis, a alguma perfeição irreversível.
Fé no progresso.
Em suas construções, depois. Podemos considerar cientificamente uma melhoria quase indefinida do organismo humano e da sociedade humana. Mas, logo que se trata de materializar praticamente nossos sonhos, constatamos que o problema permanece indeterminado, ou mesmo insolúvel, a menos que admitamos, por uma intuição parcialmente suprarracional, as propriedades convergentes do Mundo ao qual pertencemos.
Fé na Unidade.
Mais ainda. Se nos decidimos, sob a pressão dos fatos, por um otimismo de unificação, encontramos tecnicamente a necessidade de descobrir, além do impulso necessário para nos levar adiante, além do objetivo particular que deve fixar nossa marcha, o ligante ou cimento especial que associará vitalmente nossas vidas sem falseá-las nem diminuí-las.
Fé num centro soberanamente atraente de personalidade.
Em suma, tão logo, superando o estágio inferior e preliminar das investigações analíticas, a Ciência passa à síntese, uma síntese que culmina naturalmente na realização de algum estado superior de Humanidade, ela se vê conduzida a antecipar e a apostar no Futuro e no Todo; e, no mesmo movimento, superando a si mesma, emerge em Opção e em Adoração.
Renan e o século XIX, portanto, não se enganavam ao falar de uma Religião da Ciência. Seu erro foi não ver que seu culto da Humanidade implicava a reintegração, sob uma forma renovada, das próprias forças espirituais das quais pretendiam livrar-se.
Quando, no Universo móvel ao qual acabamos de despertar, olhamos as séries temporais e espaciais divergir e desfazer seus nós ao redor de nós e para trás, tal como as lâminas de um cone, talvez façamos Ciência pura. Mas, quando nos voltamos para o lado do Cume, para a Totalidade e o Futuro, é forçoso fazermos também Religião.
Religião e Ciência: as duas faces ou fases conjugadas de um mesmo ato completo de conhecimento, o único capaz de abraçar, para contemplá-los, medi-los e completá-los, o Passado e o Futuro da Evolução.
No reforço mútuo dessas duas potências ainda antagonistas, na conjunção da Razão e da Mística, o Espírito humano, pela própria natureza de seu desenvolvimento, está destinado a encontrar o extremo de sua penetração, com o máximo de sua força viva.
### 3. O Termo
Sempre avançando nas três direções que acabamos de indicar, e dispondo da enorme duração que ainda lhe resta viver, a Humanidade tem diante de si possibilidades imensas.
Até o Homem, a Vida, rapidamente detida e compartimentada pelas especializações nas quais era forçada a moldar-se para agir, fixava-se e se dispersava a cada salto adiante. Desde o passo da Reflexão, graças às propriedades surpreendentes do "artificial", que, separando o instrumento do órgão, permite ao mesmo ser intensificar e variar indefinidamente as modalidades de sua ação sem nada perder de sua liberdade, e graças ao mesmo tempo ao prodigioso poder que tem o Pensamento de aproximar e combinar, num mesmo esforço consciente, todas as partículas humanas, entramos num domínio completamente novo da Evolução.
De fato, se o estudo do Passado nos permite certa apreciação dos recursos possuídos pela Matéria organizada em estado disperso, ainda não temos nenhuma ideia da grandeza possível dos efeitos "noosféricos".
A ressonância de vibrações humanas aos milhões!
Toda uma lâmina de consciência pressionando ao mesmo tempo sobre o Futuro!
O produto coletivo e aditivo de um milhão de anos de Pensamento!...
Já tentamos imaginar o que essas grandezas representam[3]?
Nessa linha, o mais inesperado talvez seja aquilo que há de se esperar com maior razão.
Sob a pressão crescente do Espírito à superfície do Globo, pode-se primeiro perguntar seriamente se a Vida não chegará um dia a forçar engenhosamente as barreiras de sua prisão terrestre, seja encontrando o meio de invadir outros astros desabitados, seja, acontecimento ainda mais vertiginoso, estabelecendo uma ligação psíquica com outros focos de consciência pelo espaço.
O encontro e a fecundação mútua de duas Noosferas...
Suposição que à primeira vista pode parecer insensata, mas que, afinal, apenas estende ao Psíquico uma escala de grandeza cuja validade ninguém mais pensa em contestar para a Matéria.
A Consciência construindo-se finalmente por síntese de unidades planetárias. Por que não, num Universo em que a unidade astral é a galáxia?
Sem querer de modo algum desencorajar essas hipóteses, cuja eventualidade, observemos, ampliaria incrivelmente as dimensões, mas nada mudaria na forma convergente, nem por consequência na duração finita da Noogênese, julgo, porém, sua probabilidade demasiado fraca para valer a pena considerá-las.
Extraordinária complicação e sensibilidade do organismo humano, tão adaptado às condições terrestres que mal se entrevê, ainda que fosse capaz de vencer os espaços interplanetários, como poderia aclimatar-se em outro astro.
Imensidade das durações siderais, tão vastas que não se vê bem como, em duas regiões diversas do céu, dois Pensamentos poderiam coexistir e coincidir em fases comparáveis de seu desenvolvimento.
Por essas duas razões, entre outras, imagino que nossa Noosfera está destinada a fechar-se isolada sobre si mesma, e que é numa direção psíquica, sem caráter espacial, que ela encontrará, sem ter de deixar nem transbordar a Terra, a linha de sua evasão.
E aqui reaparece, de modo inteiramente natural, a noção de mudança de estado.
Em nós e por nós vai subindo constantemente a Noogênese. Desse movimento reconhecemos as características principais: aproximação dos grãos de Pensamento; sínteses de indivíduos e sínteses de nações ou de raças; necessidade de um Foco pessoal autônomo e supremo para ligar, sem deformá-las, numa atmosfera de simpatia ativa, as personalidades elementares.
Tudo isso, uma vez mais, sob o efeito combinado de duas curvaturas: a esfericidade da Terra e a convergência cósmica do Espírito, conforme a lei de Complexidade e Consciência.
Pois bem, quando, por aglomeração suficiente de um número suficiente de elementos, esse movimento de natureza essencialmente convergente tiver atingido tal intensidade e tal qualidade que, para unificar-se ainda mais, a Humanidade, tomada em seu conjunto, deverá, tal como acontecera às forças individuais do instinto, refletir-se por sua vez "pontualmente" sobre si mesma[4], isto é, nesse caso, abandonar seu suporte organoplanetário para excêntrar-se sobre o Centro transcendente de sua concentração crescente, então, para o Espírito da Terra, isso será o fim e o coroamento.
O fim do Mundo: retorno interno em bloco, sobre si mesma, da Noosfera, chegada simultaneamente ao extremo de sua complexidade e de sua centração.
O fim do Mundo: inversão de equilíbrio, destacando o Espírito, enfim acabado, de sua matriz material, para fazê-lo repousar doravante, com todo o seu peso, sobre Deus-Ômega.
O fim do Mundo: ponto crítico, ao mesmo tempo, de emergência e emersão, de maturação e evasão.
Sobre o estado físico e psíquico em que se encontrará nosso planeta nas aproximações de sua maturação[5], podemos fazer dois tipos de suposições, quase contrárias.
Numa primeira hipótese, exprimindo esperanças para as quais convém em todo caso orientar nossos esforços tal como para um ideal, o Mal, na Terra que finda, conhecerá um mínimo.
Vencidas pela Ciência, já não teremos a temer, sob suas formas agudas, nem a doença nem a fome. E, vencidos pelo sentido da Terra e pelo Sentido humano, o Ódio e as Lutas internas terão desaparecido sob os raios cada vez mais quentes de Ômega.
Alguma unanimidade reinando sobre a massa inteira da Noosfera.
A convergência final operando-se na paz[6].
Tal saída, sem dúvida, seria a mais harmoniosamente conforme à teoria.
Mas pode ocorrer também que, seguindo uma lei à qual nada no Passado escapou até agora, o Mal, crescendo ao mesmo tempo que o Bem, alcance no fim seu paroxismo, também ele sob forma especificamente nova.
Não há cumes sem abismos.
Imensas serão as potências desprendidas na Humanidade pelo jogo interno de sua coesão. Ainda assim, pode acontecer que amanhã, tal como ontem e hoje, essa energia opere de modo discordante.
Sinergia mecanizante, sob a força brutal? Ou sinergia na simpatia?
O Homem buscando acabar-se coletivamente sobre si? Ou pessoalmente sobre um maior que ele mesmo?
Recusa ou aceitação de Ômega?...
Um conflito pode nascer.
Nesse caso, no curso e pela própria virtude do processo que a reúne, a Noosfera, chegada a seu ponto de unificação, se clivaria em duas zonas, respectivamente atraídas para dois polos antagonistas de adoração.
O Pensamento jamais completamente unido aqui embaixo sobre si mesmo. O amor universal vivificando e destacando finalmente, para consumá-la, apenas uma fração da Noosfera, aquela que se decidirá a "dar o passo" para fora de si no Outro.
Uma última vez ainda, a ramificação.
Nessa segunda hipótese, esta mais conforme aos Apocalipses tradicionais, três curvas, talvez, ao nosso redor, subiriam ao mesmo tempo no futuro: redução inevitável das possibilidades orgânicas da Terra; cisma interno da Consciência, cada vez mais dividida entre dois ideais opostos de evolução; atração positiva do Centro dos centros no coração daqueles que se voltarão para ele.
E a Terra terminaria no ponto triplo onde, por uma coincidência bem conforme aos modos da Vida, essas três curvas se encontrariam e alcançariam, exatamente ao mesmo tempo, seu máximo.
Morte do planeta, materialmente esgotado; dilaceramento da Noosfera dividida quanto à forma a dar à sua unidade; e simultaneamente, dando toda a sua significação e todo o seu valor ao acontecimento, libertação da porcentagem de Universo que terá conseguido, por meio do Tempo, do Espaço e do Mal, sintetizar-se laboriosamente até o fim.
Não um progresso indefinido, hipótese contradita pela natureza convergente da Noogênese, e sim um êxtase, fora das dimensões e dos quadros do Universo visível.
O êxtase na Concórdia ou na discórdia; num caso e no outro, porém, por excesso interior de pressão.
A única saída biológica conveniente e concebível para o Fenômeno humano.
... Entre aqueles que tiverem tentado ler até o fim estas páginas, muitos fecharão o livro insatisfeitos e pensativos, perguntando-se se eu os conduzi pelos fatos, pela metafísica ou pelo sonho.
Mas terão compreendido bem, aqueles que hesitarem assim, as condições salutarmente rigorosas que a coerência do Universo, agora admitida por todos, impõe à nossa razão?
Uma mancha aparecendo num filme. Um eletroscópio que se descarrega indevidamente. É bastante para que a Física se veja forçada a aceitar no átomo poderes fantásticos.
Do mesmo modo, o Homem, se tentamos enquadrá-lo totalmente, corpo e alma, no experimental, obriga-nos a reajustar por inteiro, à sua medida, as lâminas do Tempo e do Espaço.
Para dar lugar ao Pensamento no Mundo, precisei interiorizar a Matéria; imaginar uma energética do Espírito; conceber, em sentido inverso à Entropia, uma Noogênese ascendente; dar um sentido, uma flecha e pontos críticos à Evolução; fazer com que finalmente todas as coisas se redobrem em Alguém.
Nesse rearranjo dos valores, posso ter-me enganado em muitos pontos.
Que outros procurem fazer melhor.
Tudo o que eu gostaria é de ter feito sentir, com a realidade, a dificuldade e a urgência do problema, a ordem de grandeza e a forma das quais a solução não pode escapar.
Capaz de conter a pessoa humana, só poderia haver um Universo irreversivelmente personalizante.
## Notas
[1] Retomados e prolongados reflexivamente, artificialmente, quem sabe?, pela Biologia: domínio das leis e molas da hereditariedade, uso dos hormônios etc. Cf. p. 277.
[2] Forças exteriores de compressão planetária obrigando a Humanidade a totalizar-se organicamente sobre si mesma; e, desencadeadas ou exaltadas pela totalização técnico-social, forças interiores, ascensionais e propulsivas, de espiritualização.
[3] Além do valor intelectual das unidades humanas isoladas, há portanto lugar para considerar a exaltação coletiva, por arcobotante ou ressonância, dessas unidades convenientemente arranjadas. Seria difícil dizer se ainda há, na Terra, Aristóteles, Platões ou Agostinhos, pois como prová-lo? E, aliás, por que não? O claro é que, apoiadas umas nas outras, dispostas numa só abóbada ou num só espelho, nossas almas modernas veem e sentem hoje um Mundo que, em dimensões, ligações e virtualidades, escapava a todos os grandes homens de outrora. Ora, a esse progresso na consciência, ousar-se-ia objetar que não corresponde nenhum avanço na estrutura profunda do ser?
[4] O que equivaleria a dizer que a história humana se desenvolve entre dois pontos críticos de Reflexão: um inferior e individual, outro superior e coletivo.
[5] Sobre o grau de "inevitabilidade" dessa maturação de uma massa livre, ver abaixo, Conclusão p. 344.
[6] E entretanto, ao mesmo tempo, já que se trata da aproximação de um ponto crítico, em uma pressão extrema. Nada em comum entre essas perspectivas e os velhos sonhos milenaristas de um período terrestre paradisíaco no fim dos tempos.