Epílogo - O Fenômeno Cristão O Fenômeno Humano - Tradução Literunico · Capítulo 15 de 17
Obra Menu

Epílogo - O Fenômeno Cristão

## Epílogo - O Fenômeno Cristão

Nem no jogo de suas atividades elementares, que só a esperança de um imperecível pode pôr em movimento; nem no jogo de suas afinidades coletivas, que exigem, para se ligar, a ação de um amor vencedor, a Vida refletida pode continuar a funcionar e a progredir, a menos que brilhe acima dela um polo supremo de atração e consistência.

Nem individualmente nem socialmente, a Noosfera, por sua estrutura, poderia fechar-se de outro modo senão sob a influência de um Centro Ômega.

Tal é o postulado ao qual nos conduziu logicamente a aplicação integral ao Homem das leis experimentais da Evolução.

Mas dessa conclusão, toda teórica em primeira aproximação, quem não vê a repercussão possível, ou mesmo provável, sobre a experiência?

Se Ômega fosse apenas o foco longínquo e ideal destinado a emergir, no fim dos tempos, da convergência das consciências terrestres, nada, fora dessa própria convergência, poderia ainda denunciá-lo ao nosso olhar. Na hora que vivemos, nenhuma outra energia de natureza pessoal seria reconhecível sobre a Terra além daquela representada pela soma das pessoas humanas.

Se, ao contrário, tal como admitimos, Ômega se encontra atualmente já existente e operante no mais profundo da massa pensante, então parece inevitável que sua existência, por alguns indícios, se manifeste desde agora à nossa observação.

Para animar a Evolução ao longo de seus estágios inferiores, o polo consciente do Mundo só podia agir, é natural, velado pela Biologia, sob forma impessoal.

Sobre a coisa pensante que nos tornamos por hominização, agora lhe é possível irradiar de Centro a centros, pessoalmente. Seria verossímil que ele não o fizesse?...

Ou toda a construção do Mundo aqui apresentada é ideologia vã. Ou então, em algum lugar ao nosso redor, sob uma forma ou sob outra, algum excesso de energia pessoal, extra-humana, deve ser discernível, traindo a grande Presença... se olharmos bem.

E aqui se descobre a importância, para a Ciência, do Fenômeno cristão.

O Fenômeno cristão.

No termo de um estudo sobre o Fenômeno humano, essa expressão não é tomada ao acaso, nem por simples simetria de palavras. Ela procura definir sem equívoco o espírito no qual quero falar.

Vivendo no coração do Cristianismo, eu poderia ser suspeito de querer introduzir artificialmente uma apologia. Ora, aqui ainda, e tanto quanto um homem pode separar em si diversos planos de conhecimento, não é o crente convicto que fala; é o naturalista, e ele pede para ser ouvido.

O fato cristão está diante de nós. Tem seu lugar entre as outras realidades do Mundo.

Como, pela substância de seu Credo primeiro, por seu valor de existência depois, por seu extraordinário poder de crescimento enfim, ele me parece trazer às perspectivas de um Universo dominado por energias de natureza pessoal a confirmação crucial de que precisamos: eis o que eu gostaria de mostrar.

### 1. Eixos de Crença

Aos que o conhecem apenas de fora, o Cristianismo parece desesperadamente cerrado. Na realidade, considerado em suas linhas mestras, ele contém uma solução do Mundo extremamente simples e espantosamente audaz.

No centro, e tão aparente que desconcerta, a afirmação intransigente de um Deus pessoal: Deus-Providência, conduzindo o Universo com solicitude, e Deus-Revelador, comunicando-se ao Homem no plano e pelas vias da inteligência. Desse personalismo tenaz, ainda há pouco visto como obsoleto e condenado, ser-me-á fácil, depois de tudo o que disse, fazer sentir em instantes o preço e a atualidade.

O que importa notar aqui é quanto, no coração dos fiéis, tal atitude deixa lugar, e se alia sem esforço, a tudo o que há de grande e são no Universal.

Tomado no curso da fase judaica, o Cristianismo pôde crer-se religião particular de um povo. Mais tarde, submetido às condições gerais do conhecimento humano, pôde imaginar o Mundo muito pequeno ao seu redor. Pelo menos, mal constituído, sempre tendeu a englobar em suas construções e conquistas a totalidade do sistema que conseguia representar para si.

Personalismo e universalismo.

Sob que forma esses dois caracteres encontraram meio de unir-se em sua teologia?

Por razões de comodidade prática, e talvez também de timidez intelectual, a Cidade de Deus é descrita com demasiada frequência, nas obras piedosas, em termos convencionais e puramente morais. Deus e o Mundo que ele governa: uma vasta associação de essência jurídica, concebida à maneira de uma família ou de um governo.

Inteiramente outra é a perspectiva de fundo da qual se alimenta e de onde jorra, desde as origens, a seiva cristã.

Por falso evangelismo, acredita-se muitas vezes honrar o Cristianismo reduzindo-o a alguma doce filantropia. É nada compreender de seus "mistérios" deixar de ver neles a mais realista e a mais cósmica das fés e das esperanças.

Uma grande família, o Reino de Deus? Sim, em certo sentido. Em outro sentido também, uma prodigiosa operação biológica: a da Encarnação redentora.

Criar, completar e purificar o Mundo, lemos já em Paulo e João, é para Deus unificá-lo, unindo-o organicamente a si[1].

Ora, como ele o unifica? Imergindo parcialmente nas coisas, fazendo-se "elemento"; e depois, graças a esse ponto de apoio encontrado interiormente no coração da Matéria, tomando a direção e a chefia daquilo que agora chamamos Evolução.

Princípio de vitalidade universal, o Cristo, porque surgiu homem entre os homens, pôs-se em posição, e desde sempre está em vias, de curvar sob si, depurar, dirigir e sobreanimar a subida geral das consciências na qual se inseriu.

Por uma ação perene de comunhão e sublimação, ele agrega a si o psiquismo total da Terra.

E, quando tiver assim reunido e transformado tudo, reencontrando, num gesto final, o foco divino do qual jamais saiu, ele se fechará sobre si e sobre sua conquista. Então, diz-nos São Paulo, "não haverá senão Deus, tudo em todos".

Forma superior de "panteísmo", na verdade[2], sem traço envenenado de mistura nem de aniquilamento. Espera de unidade perfeita, na qual, ao ser mergulhado, cada elemento encontrará, ao mesmo tempo que o Universo, sua consumação.

O Universo completando-se numa síntese de centros, em conformidade perfeita com as leis da União.

Deus, Centro de centros.

Nessa visão final culmina o dogma cristão. Exatamente, e tão bem, o ponto Ômega, que sem dúvida eu jamais teria ousado considerar ou formular racionalmente sua hipótese se, em minha consciência de crente, não tivesse encontrado nele, junto do modelo especulativo, a realidade viva.

### 2. Valor de Existência

É relativamente fácil armar uma teoria do Mundo. Mas está além das forças individuais forçar artificialmente o nascimento de uma religião.

Platão, Spinoza, Hegel puderam desenvolver visões que rivalizam em amplitude com as perspectivas da Encarnação. E, no entanto, nenhuma dessas metafísicas conseguiu ultrapassar os limites da ideologia. Uma após outra, talvez tenham iluminado os espíritos, sem jamais conseguirem engendrar a Vida.

O que, aos olhos de um "naturalista", faz a importância e o enigma do Fenômeno cristão é seu valor de existência e de realidade.

Real, o Cristianismo o é, em primeiro lugar, pela amplitude espontânea do movimento que conseguiu criar na Humanidade. Dirigindo-se ao homem inteiro e a todas as classes de homens, tomou desde logo seu lugar entre as correntes mais vigorosas e mais fecundas que a história da Noosfera registrou até aqui. Que se adira a ele ou que dele se separe, sua marca e sua influência persistente não são sensíveis por toda a Terra moderna?

Valor quantitativo de vida, sem dúvida, medido pela grandeza do raio de ação. Mas valor qualitativo sobretudo, acrescentarei, exprimindo-se, tal como no caso de todo progresso biológico, pela aparição de um estado de consciência especificamente novo.

E aqui penso no amor cristão.

O amor cristão, coisa incompreensível para aqueles que não o provaram.

Que o infinito e o intangível possam ser amáveis; que o coração humano possa bater por seu próximo com uma caridade verdadeira: isto parece, a muitos que conheço, simplesmente impossível, quase monstruoso.

E, no entanto, fundado ou não sobre uma ilusão, tal sentimento existe e é mesmo anormalmente poderoso. Como duvidar disso, bastando registrar brutalmente os resultados que ele não cessa de produzir ao nosso redor?

Não é um fato positivo que, há vinte séculos, milhares de místicos colheram em sua chama ardores tão apaixonados que deixam longe atrás de si, em brilho e pureza, os impulsos e as devoções de qualquer amor humano?

Não é ainda um fato que, por tê-lo experimentado, outros milhares de homens e mulheres renunciam todos os dias a qualquer outra ambição e a qualquer outra alegria que a de entregar-se laboriosamente a ele cada vez mais?

E não é enfim um fato, este eu garanto, que, se o amor de Deus viesse a apagar-se na alma dos fiéis, o enorme edifício de ritos, hierarquia e doutrinas que a Igreja representa cairia instantaneamente de volta ao pó de onde saiu?

Em verdade, que, sobre uma região apreciável da Terra, uma zona de pensamento tenha aparecido e crescido, na qual um verdadeiro amor universal tenha sido concebido e pregado, e também se tenha revelado psicologicamente possível e praticamente operante, eis para a Ciência do Homem um fenômeno de importância capital, tanto mais capital quanto o movimento, longe de amortecer-se, parece querer ganhar ainda velocidade e intensidade.

### 3. Poder de Crescimento

Para a quase totalidade das antigas religiões, a renovação das visões cósmicas que caracteriza o "espírito moderno" foi uma crise da qual, se elas ainda não morreram, pode-se prever que não se reerguerão. Estreitamente ligadas a mitos insustentáveis, ou engajadas numa mística de pessimismo e passividade, é-lhes impossível ajustar-se às imensidades precisas e às exigências construtivas do Espaço-Tempo.

Elas já não respondem às condições nem de nossa Ciência nem de nossa Ação.

Ora, sob o choque que faz desaparecer rapidamente suas rivais, o Cristianismo, que a princípio se poderia ter crido também abalado, dá todos os sinais, ao contrário, de ricochetear para diante.

Pois, pelo próprio fato das novas dimensões assumidas pelo Universo aos nossos olhos, ele se descobre ao mesmo tempo mais vigoroso em si e mais necessário ao Mundo do que jamais foi.

Mais vigoroso. Para viver e desenvolver-se, as visões cristãs precisam de uma atmosfera de grandeza e ligação.

Quanto mais vasto for o Mundo, quanto mais orgânicas forem suas conexões interiores, tanto mais triunfarão as perspectivas da Encarnação.

E é justamente isto que os crentes começam a descobrir, não sem surpresa. Assustado por um instante com a Evolução, o cristão percebe agora que ela lhe traz simplesmente um meio magnífico de sentir-se e de entregar-se mais a Deus.

Numa Natureza de substância pluralista e estática, a dominação universal do Cristo ainda podia, em rigor, confundir-se com um poder extrínseco e sobreposto.

Que urgência, que intensidade não reveste essa energia crística num Mundo espiritualmente convergente?

Se o Mundo é convergente, e se o Cristo ocupa seu centro, então a Cristogênese de São Paulo e de São João não é outra coisa, nem coisa menor, que o prolongamento ao mesmo tempo esperado e inesperado da Noogênese na qual, para nossa experiência, culmina a Cosmogênese.

O Cristo se reveste organicamente da própria majestade de sua criação.

E, por isso, é sem metáfora, por toda a extensão, espessura e profundidade do Mundo em movimento, que o homem se vê capaz de suportar e descobrir seu Deus.

Poder dizer literalmente a Deus que o amamos, não apenas com todo o corpo, todo o coração, toda a alma, também com todo o Universo em via de unificação: eis uma oração que só pode fazer-se no Espaço-Tempo.

Mais necessário.

Dizer do Cristianismo que, apesar de todas as aparências contrárias, ele se aclimata e cresce num Mundo prodigiosamente ampliado pela Ciência seria ver apenas metade do que se passa.

A Evolução vem infundir, de certo modo, sangue novo nas perspectivas e nas aspirações cristãs. Em retorno, a fé cristã não estará destinada, não se prepara, para salvar, ou mesmo para substituir, a Evolução?

Não há progresso a esperar sobre a Terra, tentei mostrar, sem primado e triunfo do Pessoal no cume do Espírito.

Ora, na hora presente, sobre a superfície inteira da Noosfera, o Cristianismo representa a Única corrente de Pensamento bastante audaz e bastante progressiva para abraçar praticamente e eficazmente o Mundo num gesto completo, e indefinidamente perfectível, no qual a fé e a esperança se consomam numa caridade.

Sozinho, absolutamente sozinho sobre a Terra moderna, ele se mostra capaz de sintetizar, num só ato vital, o Todo e a Pessoa. Só ele pode nos inclinar, não apenas a servir, também a amar o formidável movimento que nos leva.

Que significa isso, senão que ele preenche todas as condições que temos o direito de esperar de uma Religião do Futuro, e portanto que por ele, doravante, passa verdadeiramente, tal como afirma, o eixo principal da Evolução?

E agora resumamos a situação.

1) Considerado objetivamente, a título de fenômeno, o movimento cristão, por seu enraizamento no Passado e por seus desenvolvimentos incessantes, apresenta os caracteres de um phylum.

2) Recolocado numa Evolução interpretada como uma subida de Consciência, esse phylum, por sua orientação para uma síntese à base de amor, progride exatamente na direção presumida para a flecha da Biogênese.

3) No impulso que guia e sustenta sua marcha para diante, essa flecha ascendente implica essencialmente a consciência de encontrar-se em relação atual com um Polo espiritual e transcendente de convergência universal.

Para confirmar a presença, à frente do Mundo, daquilo que chamamos ponto Ômega[3], não é exatamente esta a contraprova que esperávamos?

O raio de sol perfurando as nuvens?

A Reflexão, sobre aquilo que sobe, daquilo que já está no alto?

A ruptura de nossa solidão?

A influência perceptível em nosso Mundo de outro e supremo Alguém?...

Será que o Fenômeno cristão, surgindo no coração do Fenômeno social, não seria justamente isso?...

Em presença de tanta perfeição na coincidência, mesmo fora da fé cristã e apenas como homem de ciência, creio que me faria a pergunta.

Pequim, de junho de 1938 a junho de 1940.

## Notas

[1] Segundo o pensamento grego, já, e segundo todo pensamento, "ser" e "ser um" não são identicamente a mesma coisa?

[2] "En pâsi panta Theos."

[3] Ou ao menos, fórmula mais exata, "para confirmar a presença, à frente do Mundo, de algo ainda mais elevado, em sua linha, que o ponto Ômega". Isto para respeitar a tese teológica do "Sobrenatural", segundo a qual o contato unitivo hic et nunc iniciado entre Deus e o Mundo atinge uma superintimidade, e portanto uma supergratuidade, à qual o Homem não podia sonhar nem pretender em virtude das simples exigências de sua "natureza".

1/1
Menu

Fazer anotação