Algumas Observações sobre o Lugar e a Parte do Mal em um Mundo em Evolução O Fenômeno Humano - Tradução Literunico · Capítulo 17 de 17
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Algumas Observações sobre o Lugar e a Parte do Mal em um Mundo em Evolução

## Algumas Observações sobre o Lugar e a Parte do Mal em um Mundo em Evolução

Ao longo dos longos desenvolvimentos precedentes, uma particularidade talvez tenha intrigado ou mesmo escandalizado o leitor. Em lugar algum, se não me engano, foi pronunciada a palavra dor, nem a palavra falta. Do ponto de vista em que me coloquei, o Mal e seu problema se dissipariam, ou já não contariam, portanto, na estrutura do Mundo? E, nesse caso, não seria um quadro simplificado, ou mesmo falseado, do Universo que acabou de ser apresentado aqui?

A essa censura, tantas vezes ouvida, de otimismo ingênuo ou exagerado, minha resposta, ou, se se quiser, minha desculpa, é que, ligado nesta obra ao único propósito de destacar a essência positiva do processo biológico de hominização, não julguei necessário, por razão de clareza e simplicidade, fazer o negativo da imagem que eu projetava.

Para que atrair a atenção para as sombras da paisagem, ou insistir na profundidade dos abismos que se cavam entre os cumes? Estes e aquelas não eram suficientemente evidentes? Contudo, aquilo que não disse, supus que fosse visto. E, portanto, seria nada ter compreendido da visão aqui proposta procurar nela uma espécie de idílio humano no lugar e no posto do drama cósmico que quis evocar.

O Mal, objetais, quase não é mencionado em meu livro. Explicitamente, talvez. Em compensação, esse mesmo Mal, justamente, não brota invencível e multiforme por todos os poros, por todas as junturas, por todas as articulações do sistema em que me coloquei?

Mal de desordem e de insucesso, primeiro. Até em suas zonas refletidas, nós o vimos, o Mundo procede à custa de chances, por tateamento.

Ora, só por isso, até no domínio humano, aquele em que o acaso é, contudo, mais controlado, quantos malogros para um êxito, quantas misérias para uma felicidade, quantos pecados para um só santo... Simples inarranjo ou desarranjo físico, primeiro, no nível da Matéria; depois, logo, sofrimento incrustado na Carne sensível; e, ainda mais alto, maldade ou tortura do Espírito que se analisa e escolhe: estatisticamente, em todos os graus da Evolução, sempre e por toda parte, é o Mal que se forma e se reforma, implacavelmente, em nós e ao nosso redor! "Necessarium est ut scandala eveniant".

Assim o exige, sem recurso possível, o jogo dos grandes números no seio de uma Multidão em via de organização.

Mal de decomposição, depois: simples forma do precedente, no sentido de que doença e corrupção resultam sempre de algum acaso infeliz; forma agravada, e duplamente fatal, é preciso acrescentar, na medida em que, para o vivo, morrer se tornou a condição regular e indispensável da substituição dos indivíduos uns pelos outros segundo um mesmo phylum. A morte, engrenagem essencial do mecanismo e da subida da Vida.

Mal de solidão e angústia, ainda: a grande ansiedade, bem própria do Homem, esta, de uma consciência que desperta para a reflexão num Universo obscuro, onde a luz leva séculos e séculos para lhe chegar, um Universo que ainda não conseguimos compreender bem, nem saber o que ele quer de nós...

E enfim, o menos trágico talvez, porque nos exalta, embora não seja o menos real: Mal de crescimento, pelo qual se exprime em nós, nas dores de um parto, a lei misteriosa que, do mais humilde quimismo às mais altas sínteses do espírito, faz todo progresso em direção a mais unidade traduzir-se em termos de trabalho e esforço.

Em verdade, se se observa a marcha do Mundo por esse viés, que é o de seus riscos e do esforço que ela solicita, antes que o de seus progressos, percebe-se depressa que, sob o véu de segurança e harmonia com que se envolve, vista de muito alto, a Subida humana, descobre-se um tipo particular de Cosmos em que o Mal, não por acidente, o que seria pouco, e sim pela própria estrutura do sistema, aparece necessariamente, e em quantidade ou gravidade tão grandes quanto se queira, no rastro da Evolução.

Universo que se enrola, dizia eu; Universo que se interioriza; e também, no mesmo movimento, Universo que padece, Universo que peca, Universo que sofre... Arranjo e centração: dupla operação conjugada que, semelhante à ascensão de um pico ou à conquista do ar, só pode objetivamente efetuar-se se for rigorosamente paga, por razões e segundo uma taxa tais que, se pudéssemos conhecê-las, teríamos penetrado o segredo do Mundo ao nosso redor.

Dores e faltas, lágrimas e sangue: tantos subprodutos, muitas vezes preciosos, aliás, e reutilizáveis, engendrados pelo caminho da Noogênese. Eis, portanto, em última análise, o que, num primeiro tempo de observação e reflexão, nos revela o espetáculo do Mundo em movimento.

Mas será isso realmente tudo, e não haverá outra coisa a ver? Isto é, será bem seguro que, para um olhar advertido e sensibilizado por outra luz que a da pura ciência, a quantidade e a malícia do Mal hic et nunc espalhado pelo Mundo não denuncie certo excesso, inexplicável para nossa razão se ao efeito normal da Evolução não se soma o efeito extraordinário de alguma catástrofe ou desvio primordial?...

Nesse terreno, não me sinto lealmente em condições, e aliás este não é o lugar, de tomar posição. Uma coisa, contudo, parece-me clara, e provisoriamente suficiente para orientar os espíritos: observar que, nesse caso, exatamente tal qual no da "criação" da alma humana, cf. p. 186, nota I, toda liberdade é deixada e oferecida pelo Fenômeno à Teologia para precisar e completar em profundidade, se ela se julgar obrigada a isso, os dados ou sugestões, sempre ambíguos para além de certo ponto, fornecidos pela experiência.

De uma maneira ou de outra, resta que, mesmo ao olhar do simples biólogo, nada se assemelha tanto à epopeia humana quanto um caminho da Cruz.

Roma, 28 de outubro de 1948.

P. Teilhard de Chardin

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