III. O Pensamento - Capítulo III - A Terra Moderna O Fenômeno Humano - Tradução Literunico · Capítulo 11 de 17
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III. O Pensamento - Capítulo III - A Terra Moderna

## III. O Pensamento - Capítulo III - A Terra Moderna

### Mudança de Idade

Em todas as épocas, o Homem acreditou encontrar-se em uma "virada da História". E, até certo ponto, preso a uma espira ascendente, ele se enganava pouco. Há momentos, porém, em que essa impressão de transformação se torna mais forte e se mostra particularmente justificada. E certamente não exageramos a importância de nossas existências contemporâneas ao estimar que sobre elas se opera uma curva profunda do Mundo, a ponto de esmagá-las.

Quando começou essa curva? Impossível, evidentemente, defini-lo com exatidão. Tal qual um grande navio, a massa humana só modifica gradualmente seu curso; por isso nos é permitido seguir muito baixo, até a Renascença pelo menos, os primeiros estremecimentos que indicavam a mudança de rota. Uma coisa, ao menos, é clara. No fim do século XVIII, a guinada estava francamente dada no Ocidente. E, desde então, apesar de nossa obstinação ocasional em nos declararmos os mesmos, foi em um mundo novo que entramos.

Mudanças econômicas, antes de tudo. Por evoluída que fosse, nossa civilização, apenas duzentos anos atrás, ainda estava, fundamentalmente, modelada sobre o solo e sobre a partilha do solo. O tipo do "bem", o núcleo da família, o protótipo do Estado, e até do Universo, ainda era, tal qual nos primeiros tempos da Sociedade, o campo cultivado, a base territorial. Ora, pouco a pouco, nestes últimos tempos, em consequência da "dinamização" do dinheiro, a propriedade evaporou-se em coisa fluida e impessoal, tão móvel que a fortuna das próprias nações já quase nada tem em comum com suas fronteiras.

Mudanças industriais, depois. Até o século XVIII, apesar de muitos aperfeiçoamentos introduzidos, sempre uma única energia química conhecida, o Fogo; e sempre uma única energia mecânica utilizada: os músculos dos humanos e dos animais, multiplicados pela máquina. Desde então, que mudança. Mudanças sociais, enfim. O despertar das massas.

Apenas pela observação desses sinais exteriores, como deixar de suspeitar que a grande desordem em que, desde a tempestade da Revolução Francesa, vivemos no Oeste, tem uma causa mais profunda e mais nobre que as dificuldades de um mundo à procura de algum antigo equilíbrio perdido? Um naufrágio? Ah, certamente não. Trata-se da grande vaga de um mar desconhecido em que mal começamos a entrar, ao sair do cabo que nos abrigava. Tal qual me dizia um dia Henri Breuil, com sua brusca intuição costumeira, aquilo que nos agita neste momento, intelectual, política e até espiritualmente, é bem simples: "Acabamos apenas de soltar as últimas amarras que ainda nos prendiam ao Neolítico." Fórmula paradoxal, porém luminosa. Quanto mais refleti depois sobre essa palavra, tanto mais acreditei ver que Breuil tinha razão.

Passamos, neste momento mesmo, por uma mudança de Idade. Idade da Indústria. Idade do Petróleo, da Eletricidade e do Átomo. Idade da Máquina. Idade das grandes coletividades e da Ciência. O futuro decidirá qual o melhor nome para qualificar esta era em que entramos. O termo importa pouco. O que conta, em contrapartida, é o fato de podermos dizer a nós mesmos que, ao preço daquilo que suportamos, um passo a mais, um passo decisivo da Vida, está sendo dado em nós e ao redor de nós. Depois da longa maturação prosseguida sob a fixidez aparente dos séculos agrícolas, a hora acabou por chegar, marcada pelas angústias inevitáveis de outra mudança de estado. Houve primeiros Homens para ver nossas origens. Haverá outros para assistir às grandes cenas do Fim. A sorte, e a honra, de nossas breves existências é coincidir com uma muda da Noosfera.

Nestas zonas confusas e carregadas, onde o Presente se mistura ao Futuro, em um Mundo em ebulição, estamos face a face com toda a grandeza, uma grandeza jamais atingida, do Fenômeno humano. Aqui ou em parte alguma, agora ou nunca, neste máximo e nesta proximidade, podemos esperar, melhor que qualquer dos espíritos que nos precederam, medir a importância e apreciar o sentido da Hominização. Olhemos bem, e tentemos compreender. Para isso, deixando a superfície, procuremos decifrar a forma particular de Espírito que nasce no seio da Terra Moderna.

Terra fumegante de fábricas. Terra trepidante de negócios. Terra vibrante de cem radiações novas. Este grande organismo só vive, em definitivo, para uma alma nova e por ela. Sob a mudança de Idade, uma mudança de Pensamento. Ora, onde procurar, onde colocar essa alteração renovadora e sutil, que, sem modificar de modo apreciável nossos corpos, fez de nós seres novos? Em nenhum outro lugar senão em uma intuição nova, modificando na totalidade a fisionomia do Universo em que nos movíamos; em um despertar, dito de outro modo.

Aquilo que, no espaço de quatro ou cinco gerações, fez de nós, digam o que disserem, seres tão diferentes de nossos antepassados, tão ambiciosos e também tão ansiosos, certamente não foi simplesmente haver descoberto e dominado outras forças da Natureza. Bem no fundo, se não me engano, foi termos tomado consciência do movimento que nos arrasta, e por aí termos percebido os problemas temíveis postos pelo exercício refletido do Esforço humano.

### 1. A Descoberta da Evolução

#### a) A Percepção do Espaço-Tempo

Cada um de nós perdeu a lembrança do momento em que, abrindo os olhos pela primeira vez, viu luz e objetos precipitarem-se em confusão dentro dele, tudo em um mesmo plano. É preciso um grande esforço para figurarmos o tempo em que ainda não sabíamos ler; ou ainda para nos recolocarmos na época em que o mundo, para nós, não passava dos muros da casa e do círculo familiar.

De modo semelhante, parece-nos incrível que homens tenham podido viver sem suspeitar que as estrelas balançam acima de nós a séculos de luz, nem que os contornos da Vida se recortam milhões de anos para trás, nos limites de nosso horizonte. E, no entanto, basta abrir qualquer dos livros, mal amarelecidos, em que os autores do século XVI, e mesmo ainda do século XVIII, gostavam de discorrer sobre a estrutura dos mundos, para constatar com espanto que nossos trisavós espirituais tinham a impressão de estar perfeitamente à vontade em um espaço cúbico, onde os astros giravam em círculo em torno da Terra havia menos de seis milênios. Em uma atmosfera cósmica que nos asfixiaria no primeiro instante, em perspectivas nas quais nos é fisicamente impossível reentrar, eles respiravam sem o menor embaraço, senão a plenos pulmões.

Entre eles e nós, que se passou então?

Não conheço cena mais comovente, nem mais reveladora da realidade biológica de uma Noogênese, do que a da inteligência aplicada, desde as origens, a vencer, passo a passo, a ilusão circundante da Proximidade.

No curso dessa luta pelo domínio das dimensões e do relevo do Universo, foi o Espaço que cedeu primeiro: naturalmente, por ser mais tangível. De fato, a primeira rodada, nesse terreno, foi ganha quando, há muito tempo, um homem, algum Grego sem dúvida, antes de Aristóteles, dobrando sobre si mesma a planura aparente das coisas, teve a intuição de que havia Antípodas. Desde então, em torno da Terra redonda, o próprio firmamento se enrolou.

O foco das esferas, porém, estava mal colocado. Por sua situação, paralisava de modo incurável a elasticidade do sistema. Só nos tempos de Galileu, pela ruptura do antigo geocentrismo, os céus ficaram realmente livres para as expansões intermináveis que desde então lhes reconhecemos. A Terra, simples grão da poeira sideral. O Imenso se tornava possível, e por consequência o ínfimo jorrava simetricamente.

Muito mais lenta de perceber, por falta de pontos aparentes de referência, mostrou-se a profundidade dos séculos. Movimento dos astros, forma das montanhas, natureza química dos corpos: toda a Matéria não parecia exprimir em suas linhas um contínuo presente? A Física do século XVII era impotente para fazer Pascal sentir o abismo do Passado. Para descobrir a idade real da Terra, e depois a dos elementos, era preciso que o Homem se interessasse fortuitamente por um objeto de mobilidade média: a Vida, por exemplo, ou mesmo os vulcões. Foi, portanto, por uma fenda estreita, a da "História natural", recém-nascida, que a luz, a partir do século XVIII, começou a filtrar nos grandes fundos, sob nossos pés. Muito modesta ainda, nesses começos, era a duração estimada necessária para a formação do Mundo. Ao menos o impulso estava dado, a saída aberta. Depois das muralhas do Espaço, abaladas pela Renascença, era o chão, e por consequência o teto, do Tempo que, a partir de Buffon, se tornava móvel. Desde então, sob a pressão incessante dos fatos, o processo só fez acelerar-se. Há quase duzentos anos que a distensão se opera, sem ter conseguido ainda afrouxar as espiras do Mundo. Sempre mais distância entre as voltas, e sempre outras voltas aparecendo mais profundas.

Ora, nesses primeiros estágios do despertar humano às imensidões cósmicas, Espaço e Tempo permaneciam ainda, por maiores que fossem, homogêneos em si e independentes um do outro. Dois receptáculos separados, cada vez mais vastos sem dúvida, nos quais as coisas se acumulavam e flutuavam sem ordem fisicamente definida. Os dois compartimentos haviam se alargado sem medida. No interior de cada um deles, contudo, os objetos pareciam tão livremente transponíveis quanto antes. Indiferentemente, não poderiam ser colocados aqui ou ali? adiantados, recuados, até suprimidos, à vontade? Ainda que ninguém se arriscasse formalmente a esse jogo de pensamento, ao menos não se concebia claramente em que medida, nem por que, ele era impossível. Uma questão que sequer se colocava.

Só em pleno século XIX, sob a influência ainda da Biologia, a luz começou enfim a jorrar, descobrindo a coerência irreversível de tudo o que existe. Os encadeamentos da Vida, e, logo depois, os encadeamentos da Matéria. A menor molécula de carbono, função, por natureza e posição, do processo sideral total; e o menor Protozoário tão estruturalmente misturado à trama da Vida que sua existência não poderia ser anulada, por hipótese, sem que se desfizesse ipso facto a rede inteira da Biosfera. A distribuição, a sucessão e a solidariedade dos seres nascendo de sua concrescência em uma gênese comum. O Tempo e o Espaço reunindo-se organicamente para formar, juntos, a substância do Universo. Eis onde estamos, eis o que percebemos hoje.

Psicologicamente, o que se esconde sob essa iniciação?

Se a História não estivesse inteira aí para nos garantir que uma verdade, desde que vista uma vez, ainda que por um só espírito, acaba sempre por impor-se à totalidade da consciência humana, haveria motivo para perder ânimo ou paciência ao constatar quantas inteligências, mesmo nada medíocres, permanecem ainda hoje fechadas à ideia de evolução. Para muita gente, a Evolução ainda não passa de Transformismo; e o próprio Transformismo não passa de uma velha hipótese darwiniana, tão local e caduca quanto a concepção laplaciana do sistema solar ou a deriva wegeneriana dos continentes. São verdadeiramente cegos os que não veem a amplitude de um movimento cuja órbita, ultrapassando infinitamente as Ciências naturais, ganhou e invadiu sucessivamente ao redor deles a Química, a Física, a Sociologia, e até as Matemáticas e a história das Religiões. Um após outro, todos os domínios do conhecimento humano se abalam, arrastados juntos, por uma mesma corrente de fundo, para o estudo de algum desenvolvimento.

Uma teoria, um sistema, uma hipótese, a Evolução? De modo nenhum: trata-se de algo bem maior, uma condição geral à qual devem dobrar-se e satisfazer, doravante, para serem pensáveis e verdadeiros, todas as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas. Uma luz iluminando todos os fatos, uma curvatura que todos os traços devem acompanhar: eis o que é a Evolução.

Em nossos espíritos, há um século e meio, o acontecimento mais prodigioso talvez jamais registrado pela História desde o passo da Reflexão está em vias de realizar-se: o acesso, para sempre, da Consciência a um quadro de dimensões novas; e, por consequência, o nascimento de um Universo inteiramente renovado, sem mudança de linhas nem de dobras, por simples transformação de sua substância íntima. Até então, o Mundo parecia repousar, estático e divisível, sobre os três eixos de sua geometria. Agora ele só se mantém por uma única corrente.

Aquilo que faz e classifica um homem "moderno", e nesse sentido uma multidão de nossos contemporâneos ainda não são modernos, é ter-se tornado capaz de ver, não só no Espaço, não só no Tempo, e sim na Duração, ou, o que vem a ser o mesmo, no Espaço-Tempo biológico; e é encontrar-se, além disso, incapaz de ver qualquer coisa de outro modo, nada, a começar por si mesmo.

Último passo que nos faz entrar no coração da metamorfose.

#### b) O Envolvimento na Duração

O Homem evidentemente não podia perceber em torno de si a Evolução sem sentir-se, em algum grau, erguido por ela. E Darwin o mostrou bem. Todavia, ao observar o progresso das visões transformistas desde o século passado, ficamos surpresos ao constatar quão ingenuamente naturalistas e físicos puderam imaginar, de início, escapar eles próprios à corrente universal que acabavam de surpreender. Quase incuravelmente, sujeito e objeto tendem a separar-se um do outro no ato de conhecer.

Das coisas e dos acontecimentos que nos cercam, somos continuamente inclinados a nos isolar, tal qual se os olhássemos de fora, bem abrigados em um observatório onde não poderiam nos atingir: espectadores, em vez de elementos daquilo que se passa. Assim se explica que, uma vez posta pelos encadeamentos da Vida, a questão das origens humanas se tenha limitado por tanto tempo a sua face somática, corporal. Uma longa hereditariedade animal podia muito bem ter construído nossos membros. Nosso espírito, por sua vez, emergia sempre do jogo cujos lances contava. Por materialistas que fossem os primeiros evolucionistas, não lhes vinha à ideia que sua inteligência de sábios tivesse algo a ver, nela mesma, com a Evolução.

Ora, nesse estágio, eles ainda permaneciam a meio caminho de sua verdade.

Desde a primeira destas páginas, não fiz outra coisa senão tentar mostrá-lo: bem mais profundas que a carne e os ossos, por invencíveis razões de homogeneidade e de coerência, as fibras da Cosmogênese pedem para prolongar-se em nós. No corrente vital, nós não somos apenas sacudidos, arrastados, pela superfície material de nosso ser. Tal qual um fluido sutil, o Espaço-Tempo, depois de submergir nossos corpos, penetra até nossa alma. Ele a enche. Ele a impregna. Mistura-se a suas potências, a ponto de ela logo não saber mais distingui-lo de seus próprios pensamentos. A esse fluxo, porque só é definível por acréscimos de consciência, nada escapa mais, para quem sabe ver, ainda que se esteja no cume de nosso ser.

O próprio ato pelo qual a ponta fina de nosso espírito penetra no absoluto não será um fenômeno de emergência? Em suma, reconhecida primeiro em um único ponto das coisas, depois estendida por força a todo o volume, inorgânico e orgânico, da Matéria, a Evolução está ganhando, queiramos ou não, as zonas psíquicas do Mundo, transferindo às construções espirituais da Vida não só a substância, e também a "primazia" cósmica até aqui reservada pela Ciência aos enredamentos turbilhonares do antigo "éter".

Como, de fato, incorporar o Pensamento ao fluxo orgânico do Espaço-Tempo sem ser forçado a conceder-lhe, no processo, o primeiro lugar? Como imaginar uma Cosmogênese estendida ao Espírito sem encontrar-se ao mesmo tempo diante de uma Noogênese? O Pensamento fazendo parte da Evolução a título de anomalia ou de epifenômeno apenas não basta: a Evolução se mostra tão redutível e identificável a uma marcha para o Pensamento que o movimento de nossa alma exprime e mede os próprios progressos da Evolução. O Homem descobre, segundo a forte expressão de Julian Huxley, que ele não é outra coisa senão a Evolução tornada consciente de si mesma. Enquanto não estiverem estabelecidos nessa perspectiva, jamais, parece-me, nossos espíritos modernos, porque modernos e enquanto modernos, encontrarão repouso. Pois nesse cume, e só nesse cume, os esperam o repouso e a iluminação.

#### c) A Iluminação

Em nossa consciência, em cada um de nós, é a Evolução que se percebe a si mesma ao refletir-se.

Dessa visão muito simples, destinada, imagino, a tornar-se tão instintiva e familiar a nossos descendentes quanto, para um bebê, a percepção da terceira dimensão do espaço, uma claridade nova, inesgotavelmente ordenada, recai sobre o mundo, irradiando a partir de nós.

Passo a passo, desde a "Terra Juvenil", seguimos, remontando, os progressos sucessivos da Consciência na Matéria em via de organização. Chegados ao cimo, podemos agora nos voltar e procurar, por um olhar lançado para trás, abranger, de uma só vista descendente, o arranjo total. Em verdade, a contraprova é decisiva e a harmonia perfeita. De qualquer outro ponto de vista, algo destoa, algo "range": pois o pensamento humano não encontra lugar natural, um lugar genético, na paisagem. Aqui, de alto a baixo, a partir de nossa alma inclusive, as linhas se continuam ou recuam, sem torção nem ruptura. De alto a baixo, uma tripla unidade prossegue e se desenvolve: unidade de estrutura, unidade de mecanismo, unidade de movimento.

#### a) Unidade de Estrutura

O "verticilo", o "leque".

Em todas as escalas, esse desenho nos havia aparecido na Árvore da Vida. Ele se reencontrara nas origens da Humanidade e das principais vagas humanas. Prosseguira, sob nosso olhar, até nas ramificações, de natureza complexa, em que hoje se misturam as nações e as raças. Agora nosso olho, mais sensível e melhor acomodado, chega a discernir o mesmo motivo, sempre o mesmo, sob formas cada vez mais imateriais e próximas.

Por hábito, separamos nosso mundo humano em compartimentos de "realidades" diferentes: o natural e o artificial; o físico e o moral; o orgânico e o jurídico. Em um Espaço-Tempo legitimamente e obrigatoriamente estendido aos movimentos do espírito em nós, as fronteiras tendem a apagar-se entre termos opostos de cada um desses pares. Que diferença tão grande existe, de fato, do ponto de vista das expansões da Vida, entre o Vertebrado que estende ou empluma seus membros e o aviador que desliza sobre asas engenhosamente acrescentadas por ele? Em que o jogo temível e inelutável das energias do coração é menos fisicamente real que a atração universal? E, enfim, o que representam, na verdade, por convencionais e mutáveis que sejam na superfície, as intricações de nossos quadros sociais, senão o esforço para desprender pouco a pouco aquilo que um dia deve tornar-se as leis estruturais da Noosfera? Em sua essência, e desde que mantenham suas conexões vitais com a corrente que sobe das profundezas passadas, artificial, moral e jurídico não seriam simplesmente o natural, o físico, o orgânico hominizados?

Desse ponto de vista, que é o da futura História Natural do Mundo, as distinções que ainda mantemos por hábito, com o risco de compartimentar indevidamente o Mundo, perdem seu valor. E desde então o leque evolutivo reaparece; ele se continua, chegando até nós, em mil fenômenos sociais que jamais teríamos suposto tão estreitamente ligados à Biologia: na formação e na disseminação das línguas; no desenvolvimento e na diferenciação das indústrias novas; no estabelecimento e na propagação das doutrinas filosóficas e religiosas. Em todos esses feixes de atividade humana, um olhar superficial verá apenas uma réplica enfraquecida e acidental dos passos da Vida. Registrará sem discussão o estranho paralelismo, ou o colocará verbalmente por conta de alguma necessidade abstrata.

Para um espírito desperto ao sentido completo da Evolução, a similitude inexplicável resolve-se em identidade: identidade de uma estrutura que, sob formas diferentes, se prolonga de baixo a alto, de limiar em limiar, desde as raízes até a flor, por continuidade orgânica de Movimento, ou, o que vem a ser o mesmo, por unidade orgânica de Meio.

O Fenômeno Social: culminação, e não atenuação, do Fenômeno Biológico.

#### b) Unidade de Mecanismo

"Tateamento" e "invenção".

Foi a essas palavras que recorremos instintivamente quando, descrevendo a aparição sucessiva dos grupos zoológicos, nos chocamos com os fatos de "mutações".

Mas que valiam exatamente essas expressões, talvez todas carregadas de antropomorfismo?

Na origem dos leques de instituições e de ideias que se cruzam para formar a sociedade humana, a mutação reaparece, inegável. Em toda parte ao nosso redor, constantemente, ela surge, justamente sob as duas formas que a Biologia adivinha e entre as quais hesita: aqui, mutações estreitamente limitadas em torno de um foco único; ali, "mutações de massas", arrastando de repente, tal qual uma corrente, blocos inteiros de Humanidade. Aqui, porém, porque o fenômeno se passa em nós mesmos e o vemos em pleno funcionamento, a luz se torna decisiva. Podemos constatar, então, que, ao interpretar de maneira ativa e finalista os saltos progressivos da Vida, não nos enganávamos. Pois, enfim, se nossas construções "artificiais" realmente não são outra coisa senão a sequência legítima de nossa filogênese, legitimamente também a invenção, esse ato revolucionário do qual emergem uma após outra as criações de nosso pensamento, pode ser considerada prolongamento, sob forma refletida, do mecanismo obscuro pelo qual toda forma nova germinou no tronco da Vida.

Não metáfora, e sim analogia fundada na natureza. A mesma coisa aqui e lá, simplesmente melhor definível no estado hominizado.

E por esse título, aqui ainda, é a luz, refletida sobre si mesma, que parte de novo e, de um só traço, desce até os limites inferiores do Passado. Desta vez, contudo, aquilo que seu feixe ilumina, desde nós mesmos até o mais baixo, já não é um jogo sem fim de verticilos emaranhados: é uma longa esteira de descobertas. Sobre uma mesma trajetória de fogo, os tateamentos instintivos da primeira célula reencontram os tateamentos sábios de nossos laboratórios. Inclinemo-nos, portanto, com respeito sob o sopro que infla nossos corações para as ansiedades e alegrias de "tudo tentar e tudo encontrar". A onda que sentimos passar não se formou em nós mesmos. Chega-nos de muito longe, partida ao mesmo tempo que a luz das primeiras estrelas. Alcança-nos depois de ter criado tudo no caminho. O espírito de pesquisa e de conquista é a alma permanente da Evolução.

#### c) E, Por Consequência, ao Longo dos Tempos, Unidade de Movimento

"Subida e expansão de consciência."

O Homem, não centro do Universo, tal qual havíamos acreditado ingenuamente, e sim, o que é muito mais belo, o Homem como seta ascendente da grande síntese biológica. O Homem constituindo, sozinho, a mais recém-nascida, a mais fresca, a mais complicada, a mais matizada das Nappes sucessivas da Vida.

Isto não é outra coisa senão a visão fundamental. E não voltarei a ela.

Mas essa visão, cuidemos disso, só toma seu pleno valor, ou mesmo só é defensável, por iluminação simultânea em nós mesmos das leis e condições da Hereditariedade.

A Hereditariedade.

No segredo dos germes orgânicos, já tive ocasião de dizer, ainda ignoramos de que modo se formam, se acumulam e se transmitem os caracteres. Ou antes, enquanto se trata de Plantas e Animais, a Biologia ainda não consegue combinar a atividade espontânea dos indivíduos com o determinismo cego dos genes, na gênese dos phyla. De tal modo que, em sua impotência para reconciliar os dois termos, ela tenderia a fazer do vivente a testemunha passiva e impotente de transformações que ele sofre sem ser responsável por elas e sem poder influenciá-las.

Então, porém, e este é o lugar de resolver de uma vez a questão, que se torna, na filogênese humana, o papel, tão evidente, das forças de invenção?

Aquilo que a Evolução percebe de si mesma no Homem, refletindo-se nele, basta para dissipar, ou ao menos corrigir, essas aparências paradoxais. No fundo de nosso ser, é claro, todos sentimos o peso ou a reserva de potências obscuras, boas ou más, espécie de "quantum" definido e imutável, recebido uma vez por todas do Passado. Porém o que vemos com não menor clareza é também que do uso mais ou menos industrioso dessas energias depende a progressão ulterior da onda vital adiante de nós. Como duvidaríamos disso quando, diretamente sob nossos olhos, nós as vemos, por todos os canais da "tradição", armazenar-se irreversivelmente na mais alta forma de Vida acessível à nossa experiência, quero dizer, na Memória e na Inteligência coletivas do Biote humano? Tradição, Instrução, Educação.

Sempre sob a influência de nosso menosprezo pelo "artificial", consideramos instintivamente essas funções sociais imagens atenuadas, quase paródias, daquilo que ocorre na formação natural das Espécies. Se a Noosfera não é uma ilusão, não será muito mais justo reconhecer nessas comunicações e trocas de ideias a forma superior em que chegam a fixar-se entre nós modos menos flexíveis de enriquecimentos biológicos por aditividade? Em suma, quanto mais, pelo brilho próprio de sua consciência, o vivente emerge das massas anônimas, maior se faz, por via de educação e imitação, a parte transmissível, salvável, de sua atividade. Desse ponto de vista, o Homem representa apenas um caso extremo de transformação.

Transportada pelo Homem para a zona pensante da Terra, a hereditariedade, sem deixar de ser germinal, ou cromossômica, no indivíduo, emigra, pelo vivo de si mesma, para um organismo refletido, coletivo e permanente, no qual a filogênese se confunde com a ontogênese. Da cadeia das células, passa às nappes circum-terrestres da Noosfera. Nada de estranho que, a partir desse momento, e graças aos caracteres desse novo meio, ela se reduza, em sua flor, à transmissão pura e simples dos tesouros espirituais adquiridos. De passiva que talvez fosse antes da Reflexão, a Hereditariedade jorra supremamente ativa, sob sua forma "noosférica", ao hominizar-se.

Portanto, já não era bastante dizer, tal qual fizemos, que, tornando-se consciente de si mesma no fundo de nós mesmos, a Evolução só precisa olhar-se ao espelho para perceber-se até em suas profundezas e para decifrar-se. Ela se torna, além disso, livre para dispor de si mesma, para dar-se ou recusar-se. Não lemos apenas em nossos menores atos o segredo de seus passos. Por uma parte elementar, nós a temos nas mãos: responsáveis por seu passado diante de seu futuro.

Grandeza ou servidão?

Todo o problema da Ação.

### 2. O Problema da Ação

#### a) A Inquietação Moderna

Impossível aceder a um meio fundamentalmente novo sem passar pelas angústias interiores de uma metamorfose. A criança não fica aterrada quando abre os olhos pela primeira vez? Para ajustar-se a linhas e horizontes desmesuradamente crescidos, nosso espírito deve renunciar ao conforto das estreitezas familiares. Deve recriar um equilíbrio para tudo o que havia sabiamente ordenado no fundo de seu pequeno interior. Deslumbramento ao sair de um confinamento escuro. Comoção ao emergir bruscamente no alto de uma torre. Vertigem e desorientação. Toda a psicologia da inquietação moderna ligada a seu confronto brusco com o Espaço-Tempo.

Que, sob uma forma primordial, a ansiedade humana esteja ligada à própria aparição da Reflexão, e portanto seja tão antiga quanto o próprio Homem, isto é um fato evidente. Porém que, sob o efeito de uma Reflexão que se socializa, os homens de hoje estejam particularmente inquietos, mais inquietos do que estiveram em qualquer momento da História, disso também não penso que se possa seriamente duvidar. Consciente ou inconfessada, a angústia, uma angústia fundamental do ser, aflora, apesar dos sorrisos, no fundo dos corações, ao termo de todas as conversas. Falta muito, entretanto, para que, entre nós, a raiz dessa ansiedade seja distintamente reconhecida. Algo nos ameaça, algo nos falta em grau inédito, sem que saibamos exatamente o quê.

Procuremos, portanto, de próximo em próximo, localizar a origem do mal-estar, afastando as causas ilegítimas de perturbação, até descobrir o ponto doloroso onde deve aplicar-se o remédio, se houver algum.

Em um primeiro grau, o mais habitual, o "mal do Espaço-Tempo" manifesta-se por uma impressão de esmagamento e inutilidade diante das enormidades cósmicas. Enormidade do Espaço, mais tangível e portanto mais impressionante. Quem de nós ousou, uma única vez na vida, olhar de frente e tentar "viver" um Universo formado por galáxias separadas por centenas de milhares de anos-luz? Quem, tendo-o tentado, não saiu dele abalado em uma ou outra de suas crenças? E quem, mesmo quando procurava fechar os olhos para aquilo que os astrônomos nos descobrem implacavelmente, não sentiu confusamente uma sombra gigante passar sobre a serenidade de suas alegrias? Enormidade da Duração, também: ora agindo por efeito de abismo sobre aqueles, pouco numerosos, que conseguem vê-la; ora, mais comumente, sobre aqueles que a veem mal, trabalhando por efeito desesperador de estabilidade e monotonia. Acontecimentos que se sucedem em círculo, caminhos indefinidos que se cruzam sem levar a parte alguma. Enormidade enfim, correlativa, do Número: número enlouquecedor de tudo o que foi, de tudo o que é, de tudo o que será necessário para preencher o Espaço e o Tempo. Oceano em que temos a impressão de dissolver-nos tanto mais irresistivelmente quanto mais lucidamente vivos somos. O exercício de nos colocarmos conscientemente em um bilhão de homens, ou simplesmente em uma multidão.

Mal da multidão e da imensidão.

Para superar essa primeira forma de sua inquietação, estimo que o mundo moderno só tem uma coisa a fazer: ir sem hesitação até o fim de sua intuição.

Imóveis ou cegos, enquanto acreditamos vê-los imóveis ou cegos, Tempo e Espaço são justamente assustadores. O que poderia tornar perigosa nossa iniciação às dimensões verdadeiras do Mundo é que ela permanecesse inacabada, privada de seu complemento e de seu corretivo necessário: a percepção de uma Evolução que os anima. Que importam, ao contrário, a pluralidade vertiginosa e o espaçamento fantástico das estrelas, se esse Imenso, simétrico do ínfimo, não tem outra função senão equilibrar a zona intermediária onde, e somente onde, no Médio, pode edificar-se quimicamente a Vida? Que importam os milhões de anos e os bilhões de seres que nos precedem, se essas gotas inumeráveis formam uma corrente que nos leva adiante? Nossa consciência se evaporaria, anulada, nas expansões sem limites de um Universo estático ou eternamente móvel. Ela se reforça sobre si mesma em um fluxo que, por inverossimilmente vasto que seja, não é apenas devir, e sim gênese, o que é bem diferente. Em verdade, Tempo e Espaço se humanizam assim que aparece um movimento definido que lhes dá uma fisionomia.

"Nada jamais mudou sob o sol", dizem os desesperados. Então, Homem, Homem pensante, como te encontras, a menos que renegues teu pensamento, emergido um dia acima da animalidade? "Nada, em todo caso, mudou, nada muda mais, desde a origem da História." Então, Homem do século XX, como acontece que despertes para horizontes, e por isso para temores, que teus pais jamais conheceram?

Verdadeiramente, metade do mal-estar presente se transformaria em alegria se apenas nos decidíssemos, dóceis aos fatos, a colocar em uma Noogênese a essência e a medida de nossas cosmogonias modernas. Ao longo desse eixo, dúvida alguma é possível. O Universo sempre se moveu, e neste momento mesmo continua a mover-se.

Amanhã, porém, ele ainda se moverá?

Só aqui, nesse ponto de reversão onde o futuro se substitui ao presente, as constatações da Ciência devem ceder lugar às antecipações de uma fé; só aqui podem e devem começar legitimamente nossas perplexidades. Amanhã? Mas quem pode nos garantir um amanhã? E, sem a garantia de que esse amanhã existe, podemos continuar a viver, nós em quem, pela primeira vez talvez no Universo, despertou o terrível dom de ver adiante?

Mal do impasse, angústia de sentir-se encerrado.

Desta vez, enfim, pusemos o dedo no ponto doloroso.

O que torna especificamente moderno o mundo em que vivemos é, eu disse, haver descoberto em torno de si e em si a Evolução. O que, na raiz, inquieta o mundo moderno, posso agora acrescentar, é ele não estar seguro, nem ver como poderia algum dia estar seguro, de que há uma saída, a saída conveniente, para essa Evolução.

Ora, que deve ser o futuro para que tenhamos a força, ou mesmo a alegria, de aceitar-lhe as perspectivas e carregar-lhe o peso?

Para apertar de perto o problema e ver se há remédio, examinemos o conjunto da situação.

#### b) Exigências de Futuro

Houve um tempo em que a Vida só governava escravos ou crianças. Para avançar, bastava-lhe nutrir instintos obscuros. O chamariz da alimentação. Os cuidados da reprodução. Uma luta semiconfusa para manter-se à luz, içando-se acima dos outros, mesmo ao preço de sufocá-los. O conjunto se elevava então, automaticamente e docilmente, tal qual a resultante de uma imensa soma de egoísmos utilizados. Houve também um tempo, quase o conhecemos, em que trabalhadores e deserdados aceitavam sem refletir a sorte que os submetia ao restante da sociedade.

Ora, com a primeira centelha de Pensamento surgida sobre a Terra, a Vida viu-se tendo posto no mundo um poder capaz de criticá-la e de julgá-la. Risco formidável, longamente adormecido, porém cujos perigos explodem com nosso primeiro despertar à ideia de evolução. Tal qual filhos tornados grandes, tal qual operários tornados "conscientes", estamos descobrindo que Alguma Coisa se desenvolve no Mundo por meio de nós, talvez às nossas custas. E, o que é ainda mais grave, percebemos que, na grande partida engajada, somos os jogadores, ao mesmo tempo que as cartas e a aposta. Nada continuará se abandonarmos a mesa. E nada tampouco pode nos forçar a permanecer sentados a ela. O jogo vale a pena? ou somos enganados? Pergunta ainda mal formulada no coração do Homem, habituado há centenas de séculos a "marchar". Pergunta, entretanto, cujo simples murmúrio, já perceptível, anuncia infalivelmente os próximos estrondos. O último século conheceu as primeiras greves sistemáticas nas fábricas. O próximo certamente não se encerrará sem ameaças de greve na Noosfera.

Os elementos do Mundo recusando-se a servir o Mundo porque pensam. Mais exatamente ainda, o Mundo recusando-se a si mesmo ao perceber-se por Reflexão. Eis o perigo. O que se forma e cresce sob a inquietação moderna é nada menos que uma crise orgânica da Evolução.

E agora, por qual preço, sobre quais bases contratuais, a ordem será restaurada? Evidentemente, o centro do problema está aí.

Nas disposições críticas de espírito em que doravante estamos, um ponto aparece, claro. À tarefa entregue em nossas mãos de levar mais longe a Noogênese, nunca mais nos dobraremos senão sob uma condição: que o esforço pedido a nós tenha chances de sucesso e nos leve o mais longe possível. O animal pode lançar-se de corpo inteiro em um impasse ou na direção de um precipício. O Homem nunca dará um passo em uma direção que sabe estar fechada. E eis precisamente o mal que nos perturba.

Posto isto, que é necessário, no mínimo, para que, adiante de nós, a via possa ser dita aberta? Uma só coisa, que é tudo. Que nos sejam assegurados o espaço e as chances de nos realizar, isto é, de chegar, progredindo, direta ou indiretamente, individual ou coletivamente, até o fim de nós mesmos. Pedido elementar, salário de base, e que recobre, no entanto, uma exigência enorme. O fim do Pensamento, de qualquer modo que seja: não será o limite superior ainda inimaginável de uma sequência convergente que se propaga interminavelmente mais alto? O fim do Pensamento, não será justamente não ter nenhum? Única entre todas as energias do Universo, a Consciência é uma grandeza da qual é inconcebível, contraditório mesmo, supor que possa esbarrar em um teto ou curvar-se sobre si mesma. Pontos críticos no caminho, quantos se quiser. A parada ou a reversão, porém, impossível: e isto pela simples razão de que todo acréscimo de visão interna é essencialmente o germe de uma nova visão que inclui todas as outras e leva ainda mais longe.

Daí essa situação notável: nosso espírito, pelo próprio fato de poder descobrir adiante de si horizontes infinitos, já só consegue mover-se pela esperança de chegar, por alguma coisa de si mesmo, a uma consumação suprema; sem ela, ele se sentiria, e legitimamente, truncado, falho, enganado. Pela natureza da obra, e correlativamente pela exigência do operário, uma Morte total, um Muro intransponível, onde se chocasse e desaparecesse definitivamente a Consciência, são portanto "incompossíveis" com o mecanismo, cujo motor se quebraria imediatamente, da atividade refletida.

Quanto mais o Homem se tornar Homem, menos aceitará mover-se senão para o interminavelmente e o indestrutivelmente novo. Algum "absoluto" está implicado no próprio jogo de sua operação.

Depois disso, espíritos "positivos e críticos" podem muito bem dizer por aí que a geração nova, menos cândida que a antiga, já não crê em um futuro e em um aperfeiçoamento do Mundo. Terão ao menos pensado, aqueles que escrevem ou repetem essas coisas, que, se tivessem razão, todo movimento espiritual sobre a Terra se encontraria virtualmente detido? Privada da luz, da esperança, da atração de um futuro inesgotável, eles parecem acreditar que a Vida continuaria pacificamente seu ciclo. Erro. Flores e frutos, talvez, por hábito, durante alguns anos ainda. Dessas raízes, entretanto, o tronco se encontraria de fato cortado. Mesmo sobre montões de energia material, mesmo sob o aguilhão do medo ou de um desejo imediato, a Humanidade, sem o gosto de viver, logo cessaria de inventar e de criar para uma obra que saberia de antemão condenada. E, atingida na própria fonte do impulso que a sustenta, por náusea ou por revolta, ela se desagregaria e cairia em poeira.

Assim como nossa inteligência não poderia escapar às perspectivas entrevistas do Espaço-Tempo, também nossos lábios não poderiam esquecer, depois de tê-lo provado uma vez, o sabor de um Progresso universal e durável.

Se o Progresso é um mito, isto é, se diante do trabalho podemos dizer: "Para quê?", nosso esforço recai, arrastando em sua queda, já que nós a somos, toda a Evolução.[1]

#### c) O Dilema e a Opção

Eis-nos, pelo próprio fato de termos medido a gravidade verdadeiramente cósmica do mal que nos perturba, em posse do remédio que pode curar nossa ansiedade. "Depois de mover-se até o Homem, o Mundo não se deteve? Ou, se ainda nos movemos, não estamos em roda presa?"

A resposta a essa inquietação do Mundo moderno jorra sozinha, por simples formulação do dilema em que a análise de nossa Ação acaba de nos encerrar.

"Ou a Natureza está fechada a nossas exigências de futuro: e então o Pensamento, fruto de milhões de anos de esforço, sufoca natimorto, em um Universo absurdo, abortando sobre si mesmo. Ou existe uma abertura, a supra-alma acima de nossas almas: então essa saída, para que consintamos em nos engajar nela, deve abrir-se sem restrições sobre espaços psíquicos que nada limita, em um Universo ao qual possamos confiar-nos perdidamente."

Otimismo ou pessimismo absolutos. E, entre os dois, nenhuma solução média, porque por natureza o Progresso é tudo ou nada. Duas direções, e duas direções somente, uma para o alto, outra para baixo, sem possibilidade de ficar preso a meio caminho.

Nem em um sentido, nem no outro, aliás, uma evidência tangível. Para esperar, contudo, há os convites racionais a um ato de fé.

Nessa bifurcação onde, impelidos pela Vida, não podemos parar para esperar, forçados a tomar posição se queremos continuar a fazer qualquer coisa, o que decidiremos livremente?

Para fixar a escolha do Homem, em sua famosa aposta, Pascal viciava os dados pelo atrativo de um tudo a ganhar. Aqui, quando um dos dois termos da alternativa está carregado pela lógica e, de algum modo, pelas promessas de um Mundo inteiro, ainda se pode falar de simples jogo de chances? Temos o direito de hesitar?

Em verdade, o Mundo é um assunto grande demais. Desde as origens, para nos gerar, ele jogou miraculosamente com demasiados improváveis para que arrisquemos qualquer coisa ao nos engajar mais longe, até o fim, em sua sequência. Se empreendeu a obra, é porque pode concluí-la, segundo os mesmos métodos e com a mesma infalibilidade com que a começou. No fundo, a melhor garantia de que uma coisa deve acontecer é que ela nos apareça vitalmente necessária.

Acabamos de constatar que a Vida, levada a seu grau pensante, não pode continuar sem exigir, por estrutura, subir sempre mais alto.

Isto basta para nos assegurar dos dois pontos de que nossa ação precisa imediatamente:

O primeiro é que há para nós, no futuro, sob alguma forma, ao menos coletiva, não só sobrevivência, e sim sobrevida.

E o segundo é que, para imaginar, descobrir e atingir essa forma superior de existência, só temos de pensar e marchar, sempre mais adiante, nas direções em que as linhas passadas da Evolução tomam seu máximo de coerência.

## Nota

[1] Não há, diga-se o que se disser, "energia do desespero". O que essas palavras significam, na verdade, é um paroxismo de esperança acuada. Toda energia consciente é, tal qual o amor, e porque amor, à base de esperança.

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