II. A Vida - Capítulo II - A Expansão da Vida
## II. A Vida - Capítulo II - A Expansão da Vida
Quando um físico quer estudar o desenvolvimento de uma onda, começa por submeter ao cálculo a pulsação de uma só partícula. Depois, reduzindo o meio vibrante às suas características e direções principais de elasticidade, generaliza para a medida desse meio os resultados encontrados no caso do elemento. E assim obtém uma figura essencial, tão próxima quanto possível, do movimento de conjunto que procurava determinar.
Confrontado com a tarefa de descrever a subida da Vida, o biólogo vê-se levado a seguir, com seus meios próprios, método semelhante. Impossível pôr ordem nesse fenômeno enorme e complexo sem analisar primeiro os processos imaginados pela Vida para avançar em cada um de seus elementos tomados isoladamente.
E impossível desprender o andamento geral assumido pela multidão desses progressos individuais adicionados sem escolher, em sua resultante, os traços mais expressivos e luminosos.
Uma representação simplificada, embora estrutural, da Vida terrestre em evolução. Uma visão cuja verdade brote por puro e irresistível efeito de homogeneidade e coerência. Nem detalhes acessórios, nem discussões. Sempre e ainda uma perspectiva a ver e aceitar, ou a não ver. Eis o que me proponho desenvolver no curso dos parágrafos seguintes.
Do que quero dizer, três chefes principais contêm e definem a substância:
1. Os Movimentos elementares da Vida.
2. A Ramificação espontânea da massa viva.
3. A Árvore da Vida.
Tudo isso olhado, para começar, de fora e em superfície. Só no capítulo seguinte procuraremos penetrar até o Dentro das Coisas.
### 1. Os Movimentos Elementares da Vida
#### A) Reprodução
Na base do processo inteiro pelo qual se forma em torno da Terra o envoltório da Biosfera, coloca-se o mecanismo tipicamente vital da Reprodução. Toda célula, em certo momento, divide-se, por "cissiparidade" ou "cariocinese", e dá nascimento a uma nova célula semelhante a si mesma. Antes havia um só centro; agora há dois. Tudo, nos movimentos ulteriores da Vida, deriva desse fenômeno elementar e poderoso.
Em si, a divisão celular parece provocada pela simples necessidade em que se encontra a partícula viva de remediar sua fragilidade molecular e as dificuldades estruturais ligadas à continuidade de seus acréscimos. Rejuvenescimento e alívio. Os agrupamentos limitados de átomos, as micromoléculas, têm uma longevidade, em compensação uma fixidez, quase indefinidas. A Célula, por estar em trabalho de assimilação contínua, deve repartir-se em duas para continuar a ser.
Por esse motivo, inicialmente, a Reprodução aparece como simples processo imaginado pela Natureza para assegurar a permanência do instável no caso dos vastos edifícios moleculares.
Contudo, tal qual acontece sempre no Mundo, aquilo que na origem era apenas feliz acaso ou meio de sobrevivência se vê imediatamente transformado e utilizado como instrumento de progresso e conquista. A Vida parece, em seus começos, só ter-se reproduzido para defender-se. Por esse gesto mesmo, contudo, ela preludiava suas invasões.
#### B) Multiplicação
Pois, uma vez introduzido no Estofo do Universo, o princípio da duplicação das partículas vivas não conhece outros limites além da quantidade de Matéria oferecida a seu funcionamento. Calculou-se que, em algumas gerações, um só Infusório, por simples divisão de si mesmo e de seus descendentes, cobriria a Terra. Volume algum, por maior que seja, resiste aos efeitos de uma progressão geométrica. E isto não é pura extrapolação do espírito.
Pelo único fato de que se desdobra, e de que nada pode impedi-la de desdobrar-se continuamente, a Vida possui uma força de expansão tão invencível quanto a de um corpo que se dilata ou se vaporiza. No caso da Matéria dita inerte, o aumento em volume encontra logo seu ponto de equilíbrio; no caso da substância viva, relaxamento algum parece manifestar-se. Quanto mais o fenômeno da divisão celular se estende, mais ganha em virulência.
Uma vez desencadeado o jogo da cissiparidade, nada poderia deter por dentro, já que é espontâneo, esse fogo construtor e devorador. E nada, por conseguinte, é bastante grande por fora para extingui-lo por saciedade.
#### C) Renovação
Ora, isto ainda é apenas um primeiro resultado, e a face quantitativa da operação em curso. A Reprodução dobra a célula-mãe. Assim, por um mecanismo inverso ao da desagregação química, ela multiplica sem esfarelar. Ao mesmo tempo, por acréscimo, transforma aquilo que visava apenas prolongar. Fechado sobre si mesmo, o elemento vivo atinge mais ou menos depressa um estado de imobilidade. Fica travado e se fixa em sua evolução.
No momento, e pelo jogo da reprodução, ele reencontra a faculdade de reajustar-se interiormente e de tomar, por consequência, figura e orientação novas. Pluralização na forma, tanto quanto no número. A onda elementar de Vida saída de cada indivíduo não se estende à maneira de um círculo monótono formado por outros indivíduos inteiramente iguais a ele. Ela se difrata e se irisam nela tonalidades diversas em gama indefinida.
Centro de irresistível multiplicação, o vivente constitui-se, pelo próprio fato, em foco igualmente irresistível de diversificação.
#### D) Conjugação
E é então, ao que parece, que, para alargar a brecha assim aberta por sua primeira vaga na muralha do Inorganizado, a Vida descobriu o maravilhoso processo da Conjugação. Seria preciso uma obra inteira para determinar e admirar como cresce e se sublima, por evolução, da Célula ao Homem, a dualidade dos sexos.
Em seus começos, nos quais aqui a consideramos, o fenômeno apresenta-se sobretudo como meio de acelerar e intensificar o duplo efeito multiplicador e diversificador obtido primeiro pela reprodução assexuada, tal qual esta funciona ainda em tantos organismos inferiores e até em cada célula do nosso próprio corpo.
Pela primeira conjugação de dois elementos, por pouco diferenciados que ainda fossem em macho e fêmea, a porta estava aberta para esses modos de geração em que um só indivíduo pode pulverizar-se em uma miríade de germes. E, simultaneamente, achava-se iniciado um jogo sem fim: o das combinações de "caracteres", cuja análise é minuciosamente prosseguida pela genética moderna.
Em lugar de irradiar simplesmente a partir de cada centro em via de divisão, os raios de Vida começavam daí por diante a anastomosar-se, trocando e variando suas riquezas respectivas. Diante dessa invenção prodigiosa, não pensamos em nos espantar, assim como não pensamos em fazê-lo diante do Fogo, do Pão ou da Escrita.
E no entanto, quantos acasos e quantas tentativas; quanto tempo, por consequência, foram necessários para que amadurecesse essa descoberta fundamental de que saímos! E quanto tempo ainda para que ela encontrasse seu complemento e seu acabamento naturais na inovação, não menos revolucionária, da Associação!
#### E) Associação
Em primeira análise, e sem prejulgar fatores mais profundos, o agrupamento das partículas vivas em organismos complexos é consequência quase inevitável de sua multiplicação. As células tendem a aglomerar-se porque se apertam umas contra as outras, ou mesmo nascem em cachos. Dessa oportunidade ou necessidade puramente mecânica de aproximação acabou germinando e desprendendo-se um método definido de aperfeiçoamento biológico.
Todos os estádios parecem sobreviver sob nossos olhos, na Natureza, dessa marcha ainda não terminada rumo à unificação ou síntese dos produtos, sem cessar acrescidos, da Reprodução viva. Bem embaixo, o simples agregado, tal qual existe nas Bactérias ou nos Fungos inferiores. Em grau superior, a colônia soldada, com seus elementos mais distintamente especializados, embora ainda não centralizados: tais os Vegetais superiores, os Briozoários ou os Polipeiros.
Mais alto ainda, o Metazoário, verdadeira Célula de células, no qual, por um tipo prodigioso de transformação crítica, um centro autônomo se estabelece por excesso de estreitamento sobre o grupo organizado das partículas vivas.
E ainda mais longe, para terminar, no limite atual da nossa experiência e das experimentações da Vida, a sociedade, essas misteriosas associações de Metazoários livres, no seio das quais parece ensaiar-se, segundo linhas desigualmente felizes, a formação de unidades hipercomplexas, por "megassíntese".
A última parte deste livro será particularmente consagrada ao estudo dessa forma última e suprema de agrupamento em que talvez culmine, no Social refletido, o esforço da Matéria para organizar-se. Limitemo-nos aqui a notar que a Associação, considerada em todos os seus graus, não é, entre os seres animados, fenômeno esporádico ou acidental.
Ela representa, ao contrário, um dos mecanismos mais universais, mais constantes e, portanto, mais significativos, utilizados pela Vida para sua expansão. Duas de suas vantagens são imediatamente óbvias. Graças a ela, primeiro, a substância viva chega a constituir-se em massas suficientemente volumosas para escapar às inumeráveis servidões exteriores, adesão capilar, pressão osmótica, variação química de meio etc., que paralisam o ser microscópico.
Em biologia, tal qual em navegação, certa grandeza é fisicamente requerida para a possibilidade de certos movimentos... E graças a ela também, sempre à favor do aumento de volume que permite, o organismo encontra dentro de si o lugar necessário para alojar as múltiplas engrenagens nascidas progressivamente, aditivamente, de sua diferenciação.
#### F) Aditividade Dirigida
Reprodução, conjugação, associação... Por prolongados que sejam, esses diversos movimentos da célula só determinam, por si, um desdobramento dos organismos em superfície. Reduzida a esse único recurso, a Vida se espalharia e se diversificaria sempre no mesmo plano. Ela se pareceria com o avião que corre no solo sem poder "decolar". Não se ergueria.
É aqui que intervém, desempenhando o papel de componente vertical, o fenômeno de aditividade.
No curso da evolução biológica, sem dúvida, não faltam exemplos de transformações que operam em horizontal, por puro cruzamento de caracteres. Tais as mutações ditas "mendelianas". Contudo, de modo mais geral e mais profundo, as renovações tornadas possíveis por cada reprodução fazem algo superior a substituir-se: acrescentam-se umas às outras, sua soma crescendo em sentido determinado. Disposições que se acentuam, ou órgãos que se ajustam ou se superpõem.
Aqui diversificação, ali especialização crescentes dos termos que formam uma mesma sequência genealógica. Aparição, em outras palavras, da linhagem enquanto unidade natural distinta do indivíduo. A essa lei de complicação dirigida, na qual amadurece o próprio processo de onde, a partir das micromoléculas e depois das megamoléculas, haviam saído as primeiras células, a Biologia deu o nome de Ortogênese.[1]
A ortogênese, forma dinâmica e única completa da Hereditariedade. Que realidade, e que molas de amplitude cósmica, essa palavra dissimula? Iremos pouco a pouco descobri-lo. Desde já, um primeiro ponto aparece claramente neste estádio da nossa investigação. Graças ao poder aditivo que a caracteriza, a substância viva encontra-se, ao inverso da Matéria dos físicos, "lastrada" de complicação e de instável.
Ela cai, ou mais exatamente se eleva, rumo a formas cada vez mais improváveis.
Sem a ortogênese, haveria apenas alastramento; com a ortogênese, há invencivelmente alguma ascensão da Vida.
#### Um Corolário. As Maneiras da Vida
Detenhamo-nos agora por um momento. E, antes de procurar o que produzem, estendidas à Vida total, as diversas leis reconhecidas acima como reguladoras dos movimentos da partícula isolada, procuremos desprender quais são, em virtude mesmo dessas leis elementares, os andamentos ou atitudes gerais que, em todos os níveis e em toda ocorrência, caracterizarão a Vida em movimento.
Essas atitudes, ou maneiras de fazer, podem ser reduzidas a três: a profusão, a engenhosidade e, a julgar do nosso ponto de vista individual, a indiferença.
**a) Profusão, primeiro**, nascida do processo ilimitado da multiplicação.
A Vida procede por efeitos de massas, a golpes de multidões lançadas, ao que parece, sem ordem adiante. Bilhões de germes e milhões de adultos, empurrando-se, afastando-se, devorando-se entre si: quem ocupará o maior espaço e os melhores lugares. Todo o desperdício aparente e toda a aspereza; todo o mistério e o escândalo; ao mesmo tempo, para sermos justos, toda a eficácia biológica da luta pela Vida.
No curso do jogo implacável que confronta e força uns contra os outros os blocos de substância viva em via de irresistível dilatação, o indivíduo é certamente levado aos limites de suas possibilidades e de seu esforço. Emergência do mais apto, seleção natural: não são palavras vãs, contanto que nelas não se implique nem ideal final, nem explicação última.
Contudo, não é o indivíduo que parece contar sobretudo no fenômeno. Mais profundo que uma série de combates singulares, é um conflito de chances que se desenvolve na luta para ser. Reproduzindo-se sem contar, a Vida se encouraça contra os maus golpes. Aumenta suas chances de sobreviver. E, ao mesmo tempo, multiplica suas chances de avançar.
E eis onde prossegue e reaparece, no nível das partículas animadas, a técnica fundamental do Tateamento, essa arma específica e invencível de toda multidão em expansão. O Tateamento, em que se combinam de modo tão curioso a fantasia cega dos grandes números e a orientação precisa de um alvo perseguido. O tateamento, que não é apenas o Acaso, com o qual quiseram confundi-lo, e sim um Acaso dirigido. Encher tudo para experimentar tudo. Experimentar tudo para encontrar tudo.
O meio de desenvolver esse gesto, sempre mais enorme e mais custoso à medida que se estende, não seria isto, no fundo, aquilo que a Natureza, se podemos dizer, procura na profusão?
**b) Engenhosidade, em seguida.** Esta é a condição indispensável, ou mais precisamente a face construtora, da aditividade.
Para acumular os caracteres em montagens estáveis e coerentes, a Vida é conduzida a empregar uma habilidade prodigiosa. Precisa imaginar e combinar as engrenagens em um mínimo de espaço. Tal qual um engenheiro, deve montar maquinarias flexíveis e simples. Ora, isto implica e acarreta, para a estrutura dos organismos, quanto mais elevados eles são, uma propriedade que nunca se deve esquecer.
O que se monta se desmonta.
Em um primeiro estádio de suas descobertas, a Biologia ficou surpresa e fascinada ao constatar que os seres vivos, por mais perfeita, ou mesmo superior à perfeição, que fosse sua espontaneidade, eram sempre decomponíveis sob seus dedos em uma cadeia sem fim de mecanismos fechados. Acreditou então poder concluir por um materialismo universal. Era esquecer, porém, a diferença essencial que separa um todo natural dos produtos de sua análise.
Por construção, isto é verdadeiro, qualquer organismo é sempre e necessariamente desmontável em peças arranjadas. Dessa circunstância, porém, não se segue de modo algum que a somação dessas peças seja automática em si mesma, nem que de sua soma deixe de emergir algum valor especificamente novo. Que o "livre" se descubra, até no Homem, pan-analisável em determinismos, isto não é prova de que o Mundo não seja, tal qual aqui o sustentamos, fundado em liberdade.
É simplesmente, da parte da Vida, resultado e triunfo de engenhosidade.
**c) Indiferença, enfim, pelos indivíduos.**
Quantas vezes a Arte, a Poesia e mesmo a Filosofia não pintaram a Natureza como uma mulher de olhos vendados, pisando uma poeira de existências esmagadas... Dessa dureza aparente, uma primeira marca aparece na profusão. Tal qual os gafanhotos de Tolstói, a Vida passa sobre uma ponte de cadáveres acumulados. E isto é efeito direto da multiplicação. No mesmo sentido "inumano", porém, trabalham também, a seu modo, a ortogênese e a associação.
Pelo fenômeno de associação, a partícula viva é arrancada de si mesma. Tomada em um conjunto maior que ela própria, torna-se parcialmente escrava dele. Já não pertence a si.
E aquilo que a incorporação orgânica ou social faz para distendê-la no Espaço, seu acesso a uma linhagem realiza de modo não menos inexorável no Tempo. Pela força da ortogênese, o indivíduo passa pela fieira. De centro, torna-se intermediário, elo. Já não é: transmite. A Vida, em grau superior às vidas, pôde-se dizer...
Aqui a perda no Número. Ali o esquartejamento no Coletivo. Ali ainda, em uma terceira direção, o estiramento no Devir. Dramática e perpétua oposição entre o elemento nascido do múltiplo e o múltiplo constantemente nascendo do elemento, no curso da Evolução.
À medida que o movimento geral da Vida se regulariza, o conflito, apesar de retornos periódicos de ofensiva, tende a resolver-se. Até o fim, contudo, permanece cruelmente reconhecível. Somente a partir do Espírito, onde atinge seu paroxismo sentido, a antinomia se esclarece; e a indiferença do Mundo por seus elementos se transforma em imensa solicitude, na esfera da Pessoa.
Ainda não chegamos aí.
Profusão tateante; engenhosidade construtora; indiferença por aquilo que não é Futuro e Totalidade. Sob esses três signos, em virtude de seus mecanismos elementares, a Vida se eleva. E sob um quarto ainda, que os envolve a todos: o de uma unidade global.
Esta última condição, nós já a havíamos encontrado na Matéria originária; depois na Terra juvenil; depois na eclosão das primeiras células. Aqui ela se manifesta, sempre mais evidente, mais uma vez. Por vastas e multiformes que sejam as proliferações da Matéria animada, esses acréscimos nunca deixam de estender-se solidariamente. Um ajustamento contínuo os coadapta por fora. Um equilíbrio profundo os balança por dentro.
Tomada em sua totalidade, a substância viva espalhada sobre a Terra desenha, desde os primeiros estádios de sua evolução, os lineamentos de um único e gigantesco organismo.
À maneira de um refrão, ao termo de cada uma das etapas que nos conduzem ao Homem, repito sem cessar a mesma coisa. É que, se esquecemos essa coisa, nada compreendemos.
Recobrindo a pluralidade e a rivalidade essenciais das existências individuais, é preciso, para perceber a Vida, nunca perder de vista a unidade da Biosfera. Unidade ainda difusa nos começos. Unidade de origem, de quadro, de impulso disperso, antes que agrupamento ordenado. Contudo, unidade que, de agora em diante, à medida que a Vida sobe, não deixará de se definir, de se redobrar sobre si e finalmente de se centrar sob nossos olhos.
### 2. As Ramificações da Massa Viva
Estudemos agora, sobre a extensão total da Terra animada, os diversos movimentos cuja figura acabamos de analisar no caso das células ou dos agrupamentos de células isolados. Levados a tais dimensões, poderíamos imaginar que sua multidão irá embaralhar-se e engendrar apenas desesperadora confusão. Ou, inversamente, poderíamos esperar que sua soma criasse, harmonizando-se, uma espécie de onda contínua, semelhante à que se estende sobre uma água tranquila onde caiu uma pedra.
De fato, é uma terceira coisa que acontece. Observado sob a forma que apresenta neste momento mesmo sob nossos olhos, o front da Vida ascendente não é confuso nem contínuo. Aparece como um conjunto de fragmentos ao mesmo tempo divergentes e escalonados: Classes, Ordens, Famílias, Gêneros, Espécies. Toda a gama dos grupos por meio dos quais a Sistemática moderna tenta, por sua nomenclatura, exprimir a variedade, a ordem de grandeza e os encadeamentos.
Considerada em seu conjunto, a Vida segmenta-se avançando. Espontaneamente ela se rompe, por expansão, em largas unidades naturais hierarquizadas. Ramifica-se. Tal é o fenômeno particular, tão essencial às grandes massas animadas quanto a "cariocinese" o é às células, e chegou o momento de ocupar-nos dele.
Muitos fatores diversos contribuem, cada qual por sua parte, para desenhar ou acentuar a ramagem da Vida. Reduzi-los-ei ainda a três, que são os seguintes:
a) As agregações de crescimento, que dão nascimento aos "phyla".
b) Os desabrochamentos, ou disjunções, de maturidade, que produzem periodicamente os "verticilos".
c) Os efeitos de distância, que suprimem em aparência os "pedúnculos".
#### A) Agregações de Crescimento
Voltemos ao elemento vivo em via de reprodução e multiplicação. Em torno desse elemento como centro, vimos, irradiam, em virtude da ortogênese, diferentes linhagens, reconhecíveis cada uma pela acentuação de certos caracteres. Por construção, essas linhas divergem e tendem a separar-se. Nada, entretanto, anuncia ainda que, pelo encontro com as linhagens saídas de elementos vizinhos, elas não se misturarão até formar por sua reunião um emaranhado impenetrável.
Por "agregação de crescimento" entendo o fato, novo e inesperado, de que uma dispersão de tipo simples se produz precisamente ali onde o jogo das chances faria temer com maior razão uma trama complicada. Espalhada sobre o solo, uma lâmina de água não tarda a canalizar-se em filetes, depois em riachos definidos.
De modo semelhante, sob a influência de causas variadas, paralelismo nativo das ortogêneses elementares, atração e ajustamento mútuo das linhagens, ação seletiva do meio, as fibras de uma massa viva em curso de diversificação tendem a aproximar-se, a agrupar-se, a aglutinar-se segundo pequeno número de direções dominantes.
Tomada em seus começos, essa concentração das formas em torno de alguns eixos privilegiados é indistinta e vaga: simples acréscimo, em certos setores, do número ou da densidade das linhagens. Depois, gradualmente, o movimento se afirma. Verdadeiras nervuras se desenham, sem romper ainda o limbo da folha onde apareceram. Nesse momento, as fibras ainda conseguem escapar parcialmente à rede que procura captá-las.
De nervura em nervura, podem sempre reunir-se, anastomosar-se e cruzar-se. O agrupamento, dirá o zoólogo, ainda está no estádio da raça. E então se produzem ao mesmo tempo, segundo o ponto de vista de onde se olha, a agregação ou a disjunção final. Chegadas a certo grau de ligação mútua, as linhagens se isolam em uma gavela fechada, doravante impenetrável às gavelas vizinhas. Sua associação passará a evoluir por si, como uma coisa autônoma.
A espécie individualizou-se. O phylum nasceu.
O Phylum. O feixe vivo. A linhagem de linhagens. Muitos olhos ainda se recusam a ver, ou a considerar como real, essa malha da Vida em evolução. É que não sabem acomodar-se nem olhar como seria preciso.
O Phylum, primeiro, é uma realidade coletiva. Para distingui-lo bem, é essencial colocar-se suficientemente alto e longe. Fixado de perto demais no espaço, esfarela-se em irregularidades confusas. As árvores escondem a floresta.
O Phylum, em seguida, é coisa polimorfa e elástica. Semelhante nisso à molécula, que atinge todos os tamanhos e todos os graus de complicação, ele pode ser tão pequeno quanto uma Espécie ou tão vasto quanto um Ramo. Há phyla simples e phyla de phyla. A unidade filética é menos quantitativa que estrutural. É preciso, portanto, saber reconhecê-la em quaisquer dimensões.
O Phylum, enfim, é uma realidade de natureza dinâmica. Só aparece bem sobre certa profundidade de duração, isto é, no movimento. Imobilizado no tempo, perde sua fisionomia e, de certo modo, sua alma. O gesto morre em um instantâneo.
Olhado sem essas precauções, o Phylum parece não ser senão uma entidade artificial a mais, recortada para as necessidades da classificação no continuum vivo. Observado com o aumento e sob a luz convenientes, descobre-se, ao contrário, como realidade estrutural perfeitamente determinada.
O que define o Phylum, em primeiro lugar, é seu "ângulo inicial de divergência", isto é, a direção particular na qual se agrupa e evolui, separando-se das formas vizinhas.
O que o define, em segundo lugar, é sua "seção inicial". Sobre este último ponto, já tocado a propósito das primeiras Células e que tomará tanta importância no caso do Homem, resta-nos ainda quase tudo aprender. Uma coisa ao menos já é certa.
Assim como uma gota de água só pode condensar-se fisicamente além de certo volume, ou assim como uma transformação química só pode iniciar-se a partir de certa quantidade de matéria engajada, o phylum não chegaria biologicamente a estabelecer-se se não agrupasse em si, desde a origem, número bastante grande de potencialidades, e potencialidades bastante variadas.
Sem apresentar consistência e riqueza iniciais suficientes, e sem tomar na partida um afastamento suficiente, jamais, nós o vemos agora, um novo ramo poderia chegar a individualizar-se. A regra é nítida.
Mas, concretamente, como imaginar que a regra funciona e se exprime? Segregação difusa de uma massa no interior de uma massa? Efeito contagioso propagando-se em torno de uma área de mutação estreitamente limitada? Sob que forma representar-nos em superfície o nascimento de uma espécie? Ainda hesitamos; e a questão talvez comporte respostas variadas. Todavia, não é já quase resolver um problema poder colocá-lo claramente?
Por fim, o que acaba de definir o Phylum e, além disso, o classifica sem ambiguidade na categoria das unidades naturais do Mundo, é "seu poder e sua lei particular de desenvolvimento autônomo". Sem metáfora, embora à sua maneira, ele se comporta como coisa viva: cresce e desabrocha.
#### B) Desabrochamentos de Maturidade
Em virtude de analogias ligadas, nós o descobriremos mais adiante, a um laço profundo de natureza, o desenvolvimento de um phylum paraleliza curiosamente os estádios sucessivos cruzados por uma invenção humana. Esses estádios, conhecemo-los bem por tê-los constantemente observado, no espaço de um século, ao nosso redor. Primeiro a ideia toma corpo, aproximadamente, em uma teoria ou em um mecanismo provisório.
Vem então um período de modificações rápidas: retoques e ajustamentos contínuos do esboço, até uma regulagem quase definitiva. Chegada a esse estado de acabamento, a nova criação entra então em sua fase de expansão e equilíbrio. Qualitativamente, só muda em alguns detalhes acessórios: atinge o teto. Quantitativamente, ao contrário, espalha-se e adquire plena consistência.
Tal é a história de todas as invenções modernas, da bicicleta ao avião, da fotografia ao cinema e à radiodifusão.
Inteiramente semelhante se desenha, aos olhos do naturalista, a curva de crescimento seguida pelos ramos vivos. Na partida, o phylum corresponde à "descoberta", por tateamento, de um tipo orgânico novo, viável e vantajoso. Esse tipo, porém, não atinge de saída sua forma mais econômica nem a mais bem adaptada. Durante tempo mais ou menos longo, ele emprega, dir-se-ia, toda a sua força em tatear ainda sobre si mesmo. Os ensaios se sucedem, sem ainda serem definitivamente aceitos.
Enfim, eis que a perfeição se aproxima. A partir desse momento, o ritmo das mudanças se desacelera; e a invenção nova, chegada aos limites do que pode dar, entra em sua fase de conquista. Mais forte que seus vizinhos menos aperfeiçoados, o grupo recém-nascido se estende ao mesmo tempo que se fixa. Multiplica-se, sem continuar a diversificar-se. Acaba de entrar, simultaneamente, no máximo de seu tamanho e de sua estabilidade.
Desabrochamento do phylum por simples dilatação, ou por simples espessamento de sua haste inicial. Salvo no caso de um ramo chegado aos limites de sua potência evolutiva, esse caso elementar nunca se realiza rigorosamente.
Por decisiva e triunfante que seja a solução trazida pela nova forma aos problemas colocados pela existência, essa solução admite, de fato, certo número de variantes, as quais, porque apresentam cada uma suas vantagens próprias, não têm nenhuma razão nem nenhum poder para eliminar-se reciprocamente. Assim se explica o fato de que, à medida que cresce, o phylum tende a dissociar-se em phyla secundários, correspondendo cada um a uma variante ou harmônico do tipo fundamental.
Ele se rompe, de algum modo, ao longo de todo o seu front de alargamento. Subdivide-se qualitativamente ao mesmo tempo que, quantitativamente, se espalha. É a disjunção que recomeça. Ora as novas subdivisões parecem corresponder apenas a diversificações superficiais, efeitos de acaso ou de fantasia exuberante. Ora, ao contrário, representam acomodações precisas do tipo geral a necessidades ou habitats particulares.
Assim aparecem os raios, ou "radiações", tão nitidamente marcados, nós o veremos, no caso dos Vertebrados. Como é natural, o mecanismo tende a repetir-se, em grau mais atenuado, no interior de cada raio. Estes, por sua vez, não tardam a manifestar os indícios de uma resegmentação em leque. Teoricamente, o processo é sem fim. Na prática, a experiência prova que o fenômeno logo se amortiza.
Bastante depressa, a formação dos leques se detém; e a dilatação terminal dos ramos se produz sem nova divisão ulterior apreciável.
O aspecto mais geral apresentado por um Phylum desabrochado é finalmente o de um verticilo de formas consolidadas.
E é então que, dando o último toque ao fenômeno inteiro, se descobre, no coração de cada peça do verticilo, sua inclinação profunda para a Socialização. Da Socialização devo repetir aqui o que dizia acima, em geral, do poder vital de Associação.
Porque, na Natureza, os agrupamentos definidos de indivíduos ou conjuntos organizados e diferenciados são relativamente raros, Térmitas, Himenópteros, Homens, estaríamos expostos a ver neles apenas traço excepcional da Evolução. Contra essa impressão primeira, uma observação mais atenta não tarda a reconhecer que eles traem uma das leis mais essenciais da Matéria organizada.
Último método empregado pelo grupo vivo para aumentar, por coerência, sua resistência à destruição e seu poder de conquista? Meio útil imaginado por ele, sobretudo, para multiplicar sua riqueza interna por colocação dos recursos em comum? Seja qual for sua razão profunda, o fato está diante de nós.
Uma vez atingida, na ponta de cada raio verticilar, sua forma definitiva, os elementos de um phylum tendem tão seguramente a aproximar-se e socializar-se quanto os átomos de um corpo sólido a cristalizar.
Uma vez realizado esse último progresso no reforço e na individualização das extremidades de seu leque, pode-se dizer que o Phylum atingiu sua plena maturidade. A partir desse momento, irá durar até que, por enfraquecimento interno ou competição externa, se rarefaça e seja finalmente eliminado.
Então, se excetuamos a sobrevivência acidental de algumas linhagens para sempre fixadas, sua história está fechada, a menos que, por um fenômeno de autofecundação, ele se ponha de novo, em um ou outro de seus pontos, a lançar novo broto.
Para compreender o mecanismo dessa revivescência, é sempre preciso voltar à ideia ou símbolo do tateamento. A formação de um verticilo, dissemos, explica-se primeiro pela necessidade em que se encontra o phylum de pluralizar-se para fazer face a necessidades ou possibilidades diversas.
Mas pelo próprio fato de que o número dos raios vai crescendo, e de que cada raio que se estende aumenta por acréscimo o número dos indivíduos, são os "ensaios", as "experiências", que também vão multiplicando-se. Um leque no termo do phylum é uma floresta de antenas que exploram.
Que uma dessas antenas encontre por acaso a fissura, a fórmula, dando acesso a um novo compartimento de Vida: então, em lugar de fixar-se ou de atingir o teto em diversificações monótonas, o ramo reencontra nesse ponto toda a sua mobilidade. Entra em mutação. Pela via aberta, uma pulsação de Vida parte de novo, logo levada, sob a influência das forças combinadas de agregação e disjunção, a dividir-se por sua vez em verticilos.
É um novo phylum que aparece, cresce e, sem necessariamente sufocar nem esgotar o Ramo em que nasceu, desabrocha acima dele. À espera talvez de que dele mesmo germine um terceiro ramo, e depois um quarto, se entretanto a direção for boa, e se o equilíbrio geral da Biosfera o permitir.
#### C) Efeitos de Distância
Assim, pelo próprio ritmo de seu desenvolvimento, cada linha de Vida vai alternadamente se contraindo e dilatando. Um rosário de "nós" e "ventres", uma sequência de pedúnculos estreitos e folhas abertas: tal é sua figura.
Esse esquema, porém, ainda corresponde apenas a uma representação teórica do que se passa. Suporia, para ser visto tal qual, uma testemunha terrestre presente simultaneamente à duração inteira; e tal observador é apenas monstruosidade imaginária. Na realidade das coisas, a subida da Vida só pode aparecer a nós apreendida a partir de um instante muito curto, isto é, por uma espessura enorme de tempo escoado.
Aquilo que é dado à nossa experiência, aquilo que por conseguinte constitui "o fenômeno", não é o movimento evolutivo em si: é esse movimento, feita a correção de sua alteração pelos efeitos de distância.
Ora, como essa alteração vai traduzir-se? Muito simplesmente por acentuação, rapidamente crescente com a distância, da estrutura em leques nascida das irradiações filéticas da Vida. Isto se produz, de resto, de duas formas diferentes: primeiro por exagero da dispersão aparente dos phyla, e depois por supressão aparente de seus pedúnculos.
Exagero da dispersão aparente dos phyla. Esse primeiro jogo de perspectiva, sensível a todos os olhares, liga-se ao envelhecimento e à "decimação" dos ramos vivos sob o efeito da idade. Na natureza presente, só subsiste sob nossos olhos um número ínfimo dos organismos sucessivamente crescidos sobre o tronco da Vida. E, por diligente que seja a Paleontologia, muitas formas extintas permanecerão para sempre desconhecidas por nós.
Por efeito dessa destruição, buracos se formam continuamente na fronde das formas vegetais e animais. E esses vazios se tornam sempre mais escancarados à medida que descemos para as origens. Ramos secos que se quebram. Queda das folhas. Tantos intermediários morfológicos que desaparecem; e cuja ausência tantas vezes dá às linhagens sobreviventes o aspecto de hastes descarnadas e solitárias.
A mesma Duração que, com uma mão, multiplica suas criações para a frente, trabalha com a outra, não menos seguramente, para rarefazê-las para trás. Por esse gesto ela as separa, isola-as cada vez mais a nossos olhos, enquanto, por outro procedimento mais sutil, nos dá a ilusão de vê-las flutuar feito nuvens, sem raízes, sobre o abismo dos séculos passados.
Supressão dos pedúnculos. Desde os tempos heroicos de Lamarck e Darwin, a tática favorita empregada contra os transformistas sempre foi lembrar-lhes a impotência em que se encontram para provar, por vestígios materiais, o nascimento de uma espécie. "Sem dúvida", dizem-lhes, "vocês nos mostram no passado a sucessão de formas diversas e até, concedemos, a transformação dessas formas dentro de certos limites.
Mas, por primitivo que seja, seu primeiro Mamífero já é um Mamífero; seu primeiro Equídeo já é um cavalo; e assim o resto. Há talvez evolução dentro do tipo. Não há aparição do tipo por evolução." Assim continuam a falar os sobreviventes, sempre mais raros, da escola fixista.
Independentemente de todo argumento tirado, nós o veremos, da acumulação incessante das evidências paleontológicas, há uma resposta mais radical, ou melhor, uma recusa categórica, a opor a essa objeção: negar-lhe o pressuposto. O que os antitransformistas exigiriam, no fundo, é que se lhes fizesse ver o "pedúnculo" de um phylum. Ora, essa exigência é desarrazoada, além de inútil.
Pois, para satisfazê-la, seria preciso mudar a própria ordem do Mundo e as condições da nossa percepção.
Nada é delicado e fugitivo, por natureza, como um começo.
Enquanto um grupo zoológico é jovem, seus caracteres permanecem indecisos.
Seu edifício é tenro. Suas dimensões são fracas. Poucos indivíduos, relativamente, o compõem, e estes mudam rapidamente. Tanto no espaço quanto na duração, o pedúnculo, ou o que dá no mesmo, o broto, de um ramo vivo corresponde a um mínimo de diferenciação, expansão e resistência. Como irá então agir o Tempo sobre essa zona frágil?
Inevitavelmente, destruindo-a em seus vestígios.
Irritante, embora essencial, fragilidade das origens, cujo sentimento deveria penetrar todos aqueles que se ocupam de história!
Quando, em todos os domínios, uma coisa verdadeiramente nova começa a apontar ao nosso redor, nós não a distinguimos, pela boa razão de que seria preciso ver no futuro seu desabrochamento para notá-la em seus começos. E quando, tendo crescido essa mesma coisa, voltamo-nos para reencontrar seu germe e seus primeiros esboços, são esses estádios primeiros, por sua vez, que se escondem, destruídos ou esquecidos.
Onde estão, tão próximos de nós entretanto, os primeiros Gregos e os primeiros Latinos? Onde estão as primeiras lançadeiras, os primeiros carros e os primeiros fogos domésticos? Onde, já, os primeiros modelos de automóveis, aviões, cinemas?... Em Biologia, em Civilização, em Linguística, por toda parte: feito borracha nas mãos de um artista, o Tempo apaga cada linha fraca nos desenhos da Vida.
Por um mecanismo cujo detalhe, em cada caso, parece evitável e acidental, porém cuja universalidade prova que reflete uma condição fundamental do nosso conhecimento, embriões, pedúnculos, fases iniciais de crescimento, quaisquer que sejam, vão-se esvaindo para trás a nossos olhos. Fora dos máximos fixados, fora dos acabamentos consolidados, nada, nem sob forma de "testemunhas", nem sequer no estado de traços, subsiste daquilo que houve antes de nós.
Só os alargamentos terminais dos leques, em outras palavras, se prolongam até o presente por seus sobreviventes ou por seus fósseis.
Nada de espantoso, portanto, que as coisas, retrospectivamente, nos pareçam surgir inteiramente formadas.[2] Automaticamente, por absorção seletiva dos séculos, é o movente que tende a desaparecer de nossas perspectivas para resolver-se, no domínio inteiro do Fenômeno, em sucessão descontínua de planos e estabilidades.[3]
Assim, por efeito destrutivo de Passado superposto a um efeito construtivo de Crescimento, acabam de se desenhar e desprender, ao olhar da Ciência, as ramificações da Árvore da Vida.
Tentemos vê-la em sua realidade concreta e medi-la.
**Fig. 1. Esquema simbolizando o desenvolvimento em Nappes de Tetrápodes (Aves omitidas).** Os números à esquerda exprimem os milhões de anos. Para o detalhe, ver o texto.
### 3. A Árvore da Vida
#### A) As Grandes Linhas
**a) Uma unidade quantitativa de evolução: a Nappe dos Mamíferos.**
Das observações precedentes resulta imediatamente que, para bem perceber a Árvore da Vida, é preciso começar "fazendo os olhos" nessa porção de sua ramagem onde só se exerceu moderadamente a ação corrosiva do Tempo. Nem perto demais, para não ser perturbado pelas folhas, nem longe demais, para ainda captar ramos suficientemente fornecidos.
Onde encontrar, no seio da Natureza atual, essa região privilegiada? Muito certamente na grande família dos Mamíferos.
Sabemo-lo positivamente pela Geologia; e uma simples inspeção de sua estrutura interna bastaria para prová-lo: no conjunto, se a Humanidade representa um grupo ainda "imaturo", os Mamíferos formam um grupo ao mesmo tempo adulto e fresco. Plenamente desabrochado apenas no curso do Terciário, seu conjunto ainda deixa perceber número apreciável de seus apêndices mais delicados.
Eis por que foi desde o início, e eis por que ainda permanece, um domínio de escolha para o despertar e o desenvolvimento das ideias transformistas.
Olhemo-lo, portanto, aqui em suas grandes linhas, limitando contudo, para começar, o campo de nossas investigações à sua parte mais jovem e mais progressiva: os Mamíferos placentários.[4]
De um ponto de vista evolutivo, poder-se-ia mesmo dizer "fisiológico", os Mamíferos placentários, tomados em bloco, constituem aquilo que chamarei convencionalmente aqui de Biote. Entendo por isso um agrupamento verticilar cujos elementos não só se acham aparentados por nascimento, como ainda se sustentam e se completam mutuamente no esforço para subsistir e propagar-se.
Para começar a compreender esse ponto importante, posto com predileção em evidência pela Escola americana de Paleontologia, basta observar, sob a luz conveniente, a repartição das formas animais mais familiares a cada um de nós. Aqui os Herbívoros e os Roedores, tomando diretamente sua nutrição no ramo vegetal, e ali os Insetívoros, parasitando de maneira similar o ramo "artrópode" da Vida.
Aqui ainda os Carnívoros, subsistindo de uns e de outros, e ali os Onívoros, alimentando-se em todas as mesas ao mesmo tempo. Tais são as quatro Radiações mestras, coincidindo em substância com a divisão geralmente admitida dos phyla.
Consideremos agora esses quatro raios ou setores um após o outro, separadamente. Eles vão subdividir-se, clivar-se cada um, com perfeita facilidade, em unidades subordinadas. Tomemos, por exemplo, o mais fornecido deles em nossas perspectivas presentes: o dos Herbívoros.
Segundo dois modos diferentes escolhidos para transformar a extremidade dos membros em patas corredoras, por hiperdesenvolvimento de dois dedos ou apenas do dedo médio, vemos aparecer duas grandes famílias, os Artiodáctilos e os Perissodáctilos, cada uma formada por um feixe de largas linhagens distintas.
Aqui, entre os Perissodáctilos, a multidão obscura dos Tapirídeos; o breve, embora espantoso, ramo dos Titanotérios; os Calicotérios de garras escavadoras, que o Homem talvez ainda tenha visto; a tribo dos Rinocerotídeos, inermes ou cornudos; e enfim os Equídeos solípedes, mimados na América do Sul por um phylum inteiramente independente.
Ali, entre os Artiodáctilos, os Suídeos, os Camelídeos, os Cervídeos e os Antilopídeos, sem falar de outras hastes menos vivazes, porém igualmente individualizadas e interessantes ao olhar da Paleontologia. E nada dissemos do grupo frondoso e poderoso dos Proboscídeos... Conforme a regra de "supressão dos pedúnculos", cada uma dessas unidades afoga-se pela base nas brumas do Passado.
Uma vez aparecidas, porém, podemos também segui-las, todas e cada uma, nas fases principais de sua expansão geográfica; em suas subdivisões sucessivas em subverticilos, quase ao indefinido; e, enfim, na exageração, por ortogênese, de certos caracteres ósseos, dentários ou cranianos, que acabam habitualmente por torná-las monstruosas ou frágeis.
É tudo? Ainda não. Sobrepondo-se a essa floração de Gêneros e Espécies saídos das quatro Radiações fundamentais, distinguimos outra rede correspondente às tentativas feitas, aqui e ali, para abandonar a vida terrestre e ocupar o ar, a água ou mesmo a profundidade do solo. Ao lado das formas talhadas para a corrida, eis as formas arborícolas e até voadoras; as formas nadadoras; as formas escavadoras.
Umas, Cetáceos e Sirênios, aparentemente derivadas, com velocidade surpreendente, dos Carniceiros e dos Herbívoros. Outras, Quirópteros, Toupeiras e Ratos-toupeiras, fornecidas sobretudo pelos elementos mais antigos do grupo placentário: Insetívoros e Roedores, dois grupos tão velhos, um e outro, quanto o fim do Secundário.
Olhando apenas em si mesmo esse conjunto funcional tão elegantemente balanceado, não se pode escapar à evidência de que representa um agrupamento sui generis, orgânico e natural. Essa convicção cresce ainda quando se percebe que ele não corresponde a um caso excepcional e isolado, e sim que unidades semelhantes apareceram periodicamente no curso da História da Vida. Citemos apenas dois exemplos, sem sair ainda dos Mamíferos.
Durante o Terciário, ensina a Geologia, um fragmento do Biote placentário, então em plena evolução, achou-se cortado pelo mar e aprisionado na metade meridional do continente americano. Ora, como essa muda reagiu ao seu isolamento? Exatamente tal qual uma Planta, isto é, reproduzindo em menor escala o desenho do tronco de que se achava separada.
Pôs-se a lançar seus pseudo-Proboscídeos, seus pseudo-Roedores, seus pseudo-Cavalos, seus pseudo-Macacos, os Platirrínios... Todo um Biote em redução, um sub-Biote, dentro do primeiro!
E eis agora o segundo exemplo. É-nos fornecido pelos Marsupiais.
A julgar por seu modo relativamente primitivo de reprodução, e também por sua repartição geográfica presente, manifestamente descontínua e residual, os Marsupiais, ou Aplacentários, representam um andar à parte na base dos Mamíferos. Devem ter desabrochado mais cedo que os Placentários e formado, anteriormente a estes, seu próprio Biote.
No conjunto, salvo alguns tipos estranhos, tal como um pseudo-Machairodus recentemente encontrado fóssil na Patagônia,[5] esse Biote marsupial desapareceu sem deixar traços. Em compensação, um de seus sub-biotes, desenvolvido e conservado acidentalmente, por isolamento ainda, desde antes do Terciário, na Austrália, ainda causa maravilhamento aos naturalistas pela nitidez de seus contornos e sua perfeição.
A Austrália, quando foi descoberta pelos Europeus, era habitada, como todos sabem, apenas por Marsupiais,[6] porém por Marsupiais de todos os tamanhos, de todo habitat e de todas as formas: Marsupiais herbívoros e corredores, Marsupiais carnívoros, Marsupiais insetívoros, Marsupiais ratos, Marsupiais toupeiras etc. Impossível imaginar exemplo mais impressionante do poder inerente a todo phylum de diferenciar-se em uma espécie de organismo fechado, fisiologicamente completo.
Isto bem visto, elevemo-nos para olhar o vasto sistema fechado pelos dois Biotes, placentário e aplacentário, tomados ao mesmo tempo. Muito cedo os zoólogos notaram que, em todas as formas de que esses dois grupos se compõem, os dentes molares consistem essencialmente em três tubérculos, engrenando-se de uma mandíbula à outra, de alto a baixo. Traço insignificante em si, porém tanto mais intrigante por sua constância.
Como explicar a universalidade de um caráter tão acidental? A chave do enigma nos foi dada por uma descoberta feita em certos terrenos jurássicos da Inglaterra. No Jurássico médio, em um clarão, entrevemos uma primeira pulsação de Mamíferos, um mundo de pequenos bichos não maiores que Ratos ou Musaranhos. Pois bem, nesses animais minúsculos, já extraordinariamente variados, o tipo dentário ainda não está fixado como na Natureza atual.
Entre eles já se reconhece o tipo trituberculado. Ao lado deste, contudo, observam-se toda sorte de outras combinações diferentes no desenvolvimento e no modo de oposição dos tubérculos aos molares. E essas outras combinações foram eliminadas há muito tempo! Uma conclusão se impõe.
Salvo talvez o Ornitorrinco e a Equidna, essas formas ovíparas paradoxais nas quais se pensou encontrar um prolongamento dos "Multituberculados", os Mamíferos vivos derivam todos de um feixe estreitamente único. Tomados todos juntos, representam, em estado desabrochado, apenas um dos múltiplos raios entre os quais se dividia o verticilo jurássico dos Mamíferos: os Trituberculados.[7]
Neste ponto, quase atingimos os limites daquilo que a opacidade do Passado deixa transparecer. Mais abaixo, salvo existência provável, bem no fim do Triássico, de outro verticilo ainda ao qual se ligariam os Multituberculados, a história dos Mamíferos se perde na noite.
Ao menos, por todo o redor e para o alto, seu grupo, naturalmente isolado pela ruptura de seu pedúnculo, destaca-se com bastante nitidez e individualidade para que o tomemos como unidade prática de "massa evolutiva".
Chamemos Nappe essa unidade.
Vamos, sem demora, ter de utilizá-la.
**b) Uma Nappe de nappes: os Tetrápodes.**
Quando se trata de medir a distância das nebulosas, os astrônomos se servem de anos-luz. Se queremos, a partir dos Mamíferos, alargar e prolongar para baixo nossa visão da Árvore da Vida, é por Nappes, por nossa vez, que precisamos contar.
E, para começar, as dos Répteis do Secundário. Quando o perdemos de vista abaixo do Jurássico, o ramo dos Mamíferos não se evapora em uma espécie de vazio. Uma espessa fronde viva, de aspecto inteiramente diverso, o envolve e o recobre: Dinossaurianos, Pterossaurianos, Ictiossaurianos, Crocodilianos e tantos outros monstros menos familiares aos não iniciados em Paleontologia.
Nesse conjunto, as distâncias zoológicas entre formas são nitidamente maiores que entre Ordens de Mamíferos. Três caracteres, porém, saltam aos olhos. Primeiro, temos diante de nós um sistema ramificado. Nesse sistema, em seguida, os ramos se apresentam em estádio já avançado, ou mesmo terminal, de desabrochamento. Enfim, tomado em grosso, o grupo inteiro não representa outra coisa senão um imenso, e talvez complexo, Biote. Aqui os Herbívoros, muitas vezes gigantescos.
Ali seus satélites e seus tiranos, os Carnívoros, maciços ou saltadores. Ali ainda os Veleiros, com suas membranas de Morcego ou suas plumas de Pássaros. E, para terminar, os Nadadores, tão afinados quanto Golfinhos.
À distância, esse mundo dos Répteis nos aparece mais comprimido que o dos Mamíferos; sua longevidade, contudo, medida por sua expansão e sua complicação finais, só pode ser imaginada ao menos igual. Em todo caso, ele se desvanece, em profundidade, da mesma maneira. Por volta do meio do Triássico, os Dinossaurianos ainda se reconhecem. Mas mal emergem então de outra Nappe, quase chegada, ela, a seu declínio: a dos Répteis permianos, sobretudo caracterizada pelos Teromorfos.
Espessos e disformes, raros também em nossos museus, os Teromorfos são muito menos populares que o Diplodoco e os Iguanodontes. Isto não os impede de tomar importância sempre crescente no horizonte da Zoologia. Olhados primeiro como seres singulares e aberrantes, estreitamente confinados na África do Sul, estão agora definitivamente identificados como representantes, por si sós, de um estádio completo e particular da Vida vertebrada continental.
Em certo momento, antes dos Dinossaurianos, antes dos Mamíferos, foram eles que ocuparam e possuíram todo o solo que o mar não recobria, ou melhor, bem erguidos como já estão sobre seus membros fortemente articulados, muitas vezes providos de dentes molariformes, foram eles, é preciso dizer, os primeiros Quadrúpedes a instalar-se solidamente em terra firme.
Quando percebemos sua presença, já abundam em formas estranhas, cornudas, cristas, armadas de presas, indicando, como sempre, um grupo chegado ao termo de sua evolução. Grupo bastante monótono, na verdade, sob suas bizarrices superficiais, e no qual, por conseguinte, ainda não se distinguem claramente as nervuras de um verdadeiro Biote. Grupo fascinante, contudo, pelo alastramento e pelas potencialidades de seu verticilo. De um lado, as imutáveis Tartarugas.
E, no outro extremo, tipos extremamente progressivos por sua agilidade e pela construção de seu crânio, entre os quais temos todas as razões para pensar que jorrou a haste, longamente adormecida, dos Mamíferos.
E depois, novo "túnel". A essas distâncias, sob o Peso do Passado, as fatias de duração se estreitam rapidamente. Quando, na base e abaixo do Permiano, discernimos outra superfície da Terra habitada, esta já só é povoada por Anfíbios rastejando na lama.
Os Anfíbios: fervilhar de corpos troncudos ou serpentiformes, entre os quais é frequentemente difícil distinguir dos adultos as formas larvares; pele nua ou couraçada; vértebras tubulares, ou em mosaico de ossículos... Aqui ainda, segundo a regra geral, só conseguimos captar um mundo já altamente diferenciado, quase em vias de terminar.
Quantas Nappes, talvez ainda confundidas por nós nesse pulular, por sedimentos cuja espessura e história desmedida ainda avaliamos mal. Uma coisa ao menos é segura: nesse estádio, apreendemos um grupo animal em via de emergir das águas nutridoras onde se formara.
Ora, nesse começo extremo de sua vida subaérea, os Vertebrados se apresentam a nós com um caráter surpreendente sobre o qual precisamos refletir. Em todos, a fórmula do esqueleto é a mesma, e particularmente idêntica, deixemos de lado as maravilhosas homologias do crânio, no número e no plano dos membros marchadores. Onde encontrar uma razão para essa similitude?
Que todos os Anfíbios, Répteis e Mamíferos tenham quatro patas e apenas quatro patas poderia, a rigor, explicar-se por pura convergência para um modo particularmente simples de locomoção, embora os Insetos nunca tenham menos de seis patas... Como justificar, contudo, por meras razões mecânicas, a estrutura inteiramente semelhante desses quatro apêndices? À frente, o úmero único, depois os dois ossos do antebraço, depois os cinco raios da mão?... Não é isto, uma vez mais, uma dessas combinações acidentais que só puderam ser descobertas e realizadas uma vez? Aqui, portanto, de novo, reaparece a conclusão já imposta ao nosso espírito, no caso dos Mamíferos, pela trituberculia.
Apesar de sua extraordinária variedade, os animais terrestres pulmonados não representam outra coisa senão variações edificadas sobre uma solução inteiramente particular da Vida.
Em um raio único se redobra e se fecha, prolongado para suas origens, o imenso e complexo leque dos Vertebrados marchadores.
Um só pedúnculo para fechar e definir em sua base uma Nappe de Nappes: o mundo da Tetrapodia.
**c) O Ramo dos Vertebrados.**
No caso dos Mamíferos, pudéramos captar o verticilo de onde se isolou e lançou o raio "trituberculado". Para a origem dos Anfíbios, a Ciência está menos avançada. Não poderíamos, contudo, hesitar sobre a única região de Vida onde pôde formar-se, entre outras combinações tentadas, a Tetrapodia.
Ela deve ter germinado em algum lugar no meio dos Peixes de nadadeiras lobadas e "membriformes", cuja Nappe, outrora vivaz, só sobrevive hoje por alguns fósseis vivos: os Dipneustos, ou Peixes pulmonados, e, surpresa muito recente, um "Crossopterígio" ultimamente pescado nos mares austrais.
Superficialmente "homogeneizados" por adaptação mecânica ao nado, os Peixes, seria melhor dizer os Pisciformes, são monstruosamente complexos em seu conjunto. Quantas Nappes, aqui sobretudo, acumuladas e confundidas sob o mesmo vocábulo?... Nappes relativamente jovens, desenvolvidas nos Oceanos na mesma época em que se espalhavam nos Continentes as dos Tetrápodes.
Nappes antigas, bem mais numerosas ainda, terminando muito embaixo, por volta do Siluriano, em um verticilo fundamental de onde divergem a nossos olhos dois raios principais: os Pisciformes sem mandíbulas, de uma só narina, representados na natureza atual apenas pela Lampreia; e os Pisciformes com mandíbulas, de duas narinas, dos quais todo o resto saiu.
Depois do que disse acima sobre o encadeamento das formas terrestres, não tentarei erguer e desarticular esse outro mundo. Chamarei antes a atenção para um fato de ordem diferente, que encontramos aqui pela primeira vez. Os mais antigos Peixes que conhecemos são, na maioria, fortemente, anormalmente até, couraçados.[8]
Mas sob essa primeira tentativa, aparentemente bastante infrutífera, de consolidação pelo exterior, dissimulava-se um esqueleto ainda todo cartilaginoso. À medida que os seguimos descendo, os Vertebrados nos aparecem cada vez menos ossificados interiormente. E por isso se explica o fato de que, mesmo nos sedimentos conservados intactos ao longo das idades, percamos completamente seus vestígios. Ora, nesse caso particular encontramos um fenômeno geral, de alta importância.
Seja qual for o grupo vivo que consideremos, ele acaba sempre por afogar-se em profundidade no domínio do Mole. Maneira infalível de fazer desaparecer seu pedúnculo...
Abaixo do Devoniano, portanto, os Pisciformes entram em uma espécie de fase fetal ou larvar, não fossilizável. Sem a sobrevivência acidental do estranho Anfioxo, não teríamos nenhuma ideia dos múltiplos andares pelos quais teve de construir-se o tipo Cordado, até o ponto em que se achou pronto para encher as águas, à espera de invadir a terra.
Assim se fecha e se delimita na base, por um vazio maior, o enorme edifício de todos os Quadrúpedes e de todos os Peixes: o Ramo dos Vertebrados.
**d) O resto da Vida.**
Com o Ramo temos o mais vasto tipo de conjunto definido ainda reconhecido pela Sistemática no interior da Biosfera. Dois outros Ramos, e apenas dois, contribuem, além dos Vertebrados, para formar a ramagem mestra da Vida: o dos Vermes e Artrópodes, e o dos Vegetais. Um consolidado de quitina ou de calcário, o outro endurecido de celulose, conseguiram também forçar a prisão das águas e espalhar-se poderosamente na atmosfera.
E é assim que Plantas e Insetos se entremeiam e lutam, na Natureza atual, com os animais ósseos, disputando quem ocupará mais o Mundo.
Para cada um desses dois outros Ramos seria possível, mas posso dispensar-me disso, recomeçar o trabalho de análise empreendido, nos parágrafos precedentes, sobre os Vertebrados. Em cima, grupos frescos, ricos em leves verticilos. Mais fundo, Nappes de ramos mais acusados, porém menos fornecidos. Bem embaixo, o desvanecimento em um mundo de formas quimicamente inconsistentes. Mesma figura geral de desenvolvimento.
Mas, porque neste caso os Ramos são evidentemente mais velhos, há complicação acrescida; e, no caso dos Insetos, formas extremas de socialização.
Não parece duvidoso que, nos abismos do Tempo, essas diversas linhas convirjam para algum polo comum de dispersão.
Muito antes, porém, que se reencontrem Cordados, Anelídeos e Plantas, os dois primeiros Ramos aparentemente entre os Metazoários, e estes e as Plantas somente no nível dos seres unicelulares, seus troncos respectivos desaparecem em um complexo de formas positivamente estranhas: Espongiários, Equinodermos, Polipeiros... tantas tentativas de resposta feitas ao Problema da Vida. Um arbusto de Ramos abortados.
Tudo isso emerge certamente, sem que possamos dizer como, tão profunda se tornou a ruptura por efeito de Duração, de outro mundo inverossimilmente velho e multiforme: Infusórios, Protozoários diversos, Bactérias, células livres, nuas ou carapaçadas, nas quais os Reinos da Vida se confundem e a Sistemática já não tem domínio. Animais ou Vegetais? Essas palavras já não têm sentido.
Empilhamento de Nappes e Ramos, ou "micélio" de fibras confusas, tal qual o de um Cogumelo? Já não sabemos. Tampouco saberíamos dizer sobre que germinou tudo isso. A partir do Pré-cambriano, os Unicelulares perdem também, por sua vez, todo esqueleto de sílica ou calcário. E é, pari passu, na moleza das matérias orgânicas e na metamorfose das lamas originárias que se perde definitivamente para nosso olhar, em suas raízes, a Árvore da Vida.
#### B) As Dimensões
Eis, portanto, terminado, muito em resumo, o quadro estrutural das formas recolhidas e etiquetadas, desde Aristóteles e Lineu, pelo trabalho paciente dos naturalistas. No curso da descrição, já nos aplicamos a fazer sentir a enorme complexidade do Mundo que buscávamos ressuscitar. Dessas dimensões prodigiosas resta-nos, contudo, por último esforço de visão, tomar consciência mais explicitamente diante do conjunto inteiro.
Por si mesmo, nosso espírito inclina-se sem cessar a clarificar, que é sua função, e também a estreitar e encurtar as realidades que toca. Cede, por lassidão, sob o peso das distâncias e das multidões. Depois de ter, bem ou mal, desenhado a expansão da Vida, importa portanto restituir aos elementos do nosso esquema suas verdadeiras dimensões: tanto em número quanto em volume e em duração.
Tentemo-lo.
Em número, primeiro.
Para ser mais simples, nosso esboço do mundo animado teve de fazer-se por meio de largas fatias coletivas: Famílias, Ordens, Biotes, Nappes, Ramos... Ora, ao manejar essas diversas unidades, suspeitamos das multidões com que realmente lidávamos? Se alguém quer tentar pensar ou descrever a Evolução, que vá, antes de tudo, vaguear em um desses grandes museus, como há quatro ou cinco pelo mundo, onde, ao preço de esforços cujo heroísmo e valor espiritual acabarão sendo compreendidos um dia, uma legião de viajantes conseguiu apertar, em algumas salas, o espectro inteiro da Vida.
Entrando ali, que olhe, sem se preocupar com os nomes, apenas para deixar-se impregnar pelo que o cerca. Aqui, o universo dos Insetos, em que as "boas" espécies se contam por dezenas de milhares. Ali, os Moluscos, outros milhares, inesgotavelmente diversos em suas marmorações e seus enrolamentos. Depois os Peixes, inesperados, caprichosos e matizados tanto quanto as Borboletas. Depois os Pássaros, apenas menos fantasiosos, de todos os cortes, de todos os bicos, de todas as cores.
Depois as Antílopes, de todas as pelagens, de todos os portes, de todos os diademas. Etc. Etc. Sob cada uma das palavras que evocavam à nossa imaginação apenas uma dúzia de formas bem comportadas, que multiplicidade, que impulso, que efervescência! E ainda só temos diante dos olhos sobreviventes. Que seria se pudéssemos ver também o resto... Em todas as épocas da Terra, em todos os andares da Evolução, outros Museus teriam registrado o mesmo fervilhar, a mesma luxuriância.
Postos ponta a ponta, as centenas de milhares de nomes inscritos nos catálogos da nossa Sistemática não representam a milionésima parte das folhas crescidas até hoje sobre a Árvore da Vida.
Em volume, agora. Qual é, quero dizer com isso, a importância relativa, em quantidade, dos diversos grupos zoológicos e botânicos na natureza? Que parte cabe materialmente a cada um deles no conjunto geral dos seres organizados?
Para dar uma ideia sumária dessa proporção, reproduzo aqui (Fig. 2) o expressivo quadro em que um mestre naturalista, M. Cuénot, compraz-se em traçar, segundo os dados mais recentes da Ciência, uma carta do Reino animal, com seus principais departamentos. Carta de posição, antes que de estrutura, porém que responde exatamente à questão que coloco.
Olhemos esse esquema. Não é, no primeiro golpe de vista, um choque para nosso espírito, a espécie de choque que sentimos quando um astrônomo nos mostra o sistema solar como simples estrela, e todas as nossas estrelas como uma única Via Láctea, e nossa Via Láctea como um átomo entre outras Galáxias?... Os Mamíferos, nos quais ordinariamente se resumem para nós a ideia e a imagem da "besta"? Um pobre pequeno lobo, tardiamente eclodido no tronco da Vida.
E em torno deles, em compensação? E ao lado? E abaixo?... Que abundância de tipos rivais, dos quais não suspeitávamos nem a existência, nem a grandeza, nem a multidão! Seres misteriosos que pudemos ver, por acaso, saltitar entre as folhas secas ou arrastar-se por uma praia, sem jamais nos perguntarmos o que significavam, nem de onde vinham. Seres insignificantes pelo tamanho, e hoje talvez pelo número... Essas formas desdenhadas nos aparecem agora sob sua verdadeira luz.
**Fig. 2. A "Árvore da Vida", segundo Cuénot. (Masson e Cia., ed.)** Nesta figura simbólica, cada lobo principal, ou cacho, equivale a uma "Nappe" ao menos tão importante, morfológica e quantitativamente, quanto aquela formada pelos Mamíferos tomados todos em conjunto. Abaixo da linha AB, as formas são aquáticas; acima, vivem ao ar livre.
Pela riqueza de suas modalidades, pelo tempo que foi necessário à Natureza para produzi-las, cada uma delas representa um Mundo tão importante quanto o nosso. Quantitativamente, sublinho, nós somos apenas uma delas, e a última chegada.
Em duração, para terminar. E isto é, como de costume, o restabelecimento difícil para nossa imaginação. Mais invencivelmente ainda que os horizontes do Espaço, eu já notava, os planos do Passado se apertam e se "telescopam" em nossas perspectivas. Como conseguir separá-los?
Para dar às profundezas da Vida seu verdadeiro relevo, servir-nos-á, para começar, voltar àquilo que chamei acima de Nappe dos Mamíferos. Porque essa Nappe é relativamente jovem, temos alguma ideia do tempo requerido para seu desenvolvimento, a partir do momento em que emerge francamente acima dos Répteis, no fim do Cretáceo. Todo o Terciário e um pouco mais. Aqui, uns 80 milhões de anos.
Admitamos agora que, sobre o eixo de um mesmo Ramo zoológico, as Nappes se formem periodicamente, tal qual os ramos ao longo do tronco de uma Conífera; de modo que seus máximos de desabrochamento, os únicos claramente registráveis, sucedam-se, no caso dos Vertebrados, a 80 milhões de anos de distância.
Bastar-nos-á, para obter, em ordem de grandeza, a duração de um intervalo zoológico, multiplicar por 80 milhões de anos o número de Nappes observadas no intervalo considerado: três Nappes, por exemplo, no mínimo, entre os Mamíferos e a base dos Tetrápodes. Os números tornam-se impressionantes. Coincidem, porém, bastante bem com as ideias que a Geologia tende a fazer da imensidade do Triássico, do Permiano e do Carbonífero.
Mais aproximadamente, de Ramo a Ramo, pode-se tentar seguir outro método. No interior de uma mesma Nappe, retomemos a dos Mamíferos, somos capazes de apreciar confusamente o afastamento médio das formas entre si, dispersão que requereu, repitamo-lo, uns 80 milhões de anos para produzir-se. Feito isso, comparemos uns aos outros Mamíferos, Insetos e Plantas superiores.
A menos, coisa possível, que os três Ramos nas pontas dos quais esses três grupos florescem não divirjam exatamente de uma mesma cepa, e sim tenham germinado separadamente sobre um mesmo "micélio", que duração foi necessária, que acumulação de períodos, para criar, de um tipo a outro, essas gigantescas fissuras! Aqui, é a Zoologia cujos números parecem querer desafiar os dados fornecidos pela Geologia.
Mil e quinhentos milhões de anos somente desde os mais antigos traços de Carbono nos sedimentos, decidem os físicos, depois de medir a porcentagem de Chumbo em um mineral radífero do Pré-cambriano.
Mas os primeiros organismos não seriam ainda anteriores a esses primeiros vestígios? E depois, em caso de conflito, em qual dos dois cronômetros confiaremos para contar os anos da Terra: na lentidão de desagregação do Rádio ou na lentidão de agregação da Matéria viva?
Se são necessários cinco mil anos para que uma simples Sequoia alcance seu pleno crescimento, e ninguém ainda viu uma Sequoia morrer de sua morte natural, qual pode ser a idade total da Árvore da Vida...
#### C) A Evidência
E agora essa Árvore está aí, plantada diante de nós. Árvore estranha, sem dúvida. Negativo de árvore, poderíamos dizer, pois, ao inverso do que se passa com os gigantes de nossas florestas, seus galhos e seu tronco só se manifestam a nossos olhos por vazios de diâmetro crescente. Árvore também fixa, em aparência, de tanto que nos parecem longos a desabrochar os brotos que jamais conhecemos senão entreabertos.
Árvore claramente desenhada, contudo, pela cabeleira escalonada de sua folhagem de espécies visíveis. Em suas grandes linhas, em suas dimensões, ela se ergue a nossos olhos cobrindo a Terra. Antes de procurar penetrar no segredo de sua vida, olhemo-la bem. Pois, da simples contemplação de suas formas exteriores, resta-nos tirar uma lição e uma força: o sentimento de sua evidência.
Existem ainda, pelo mundo, alguns espíritos que permaneceram desconfiados ou céticos em matéria de Evolução. Conhecendo a natureza e os naturalistas apenas pelos livros, creem que a batalha transformista prossegue sempre como no tempo de Darwin. E, porque a Biologia continua a discutir os mecanismos pelos quais as Espécies puderam formar-se, imaginam que ela hesita, ou mesmo que ainda poderia hesitar, sem suicídio, sobre o fato e a realidade de tal desenvolvimento.
Inteiramente outra já é a situação.
No curso deste capítulo, consagrado aos encadeamentos do mundo organizado, talvez alguém tenha estranhado que eu ainda não tenha feito menção alguma às querelas, sempre vivas, sobre a distinção do "soma" e do "germen", sobre a existência e a função dos "genes", sobre a transmissão ou não transmissão dos caracteres adquiridos... É que, no ponto em que estou da minha investigação, essas questões não me interessam diretamente.
Para preparar um quadro natural à Antropogênese, e ao Homem um berço, para garantir, quero dizer, a objetividade substancial de uma Evolução, uma só coisa é de fato necessária e suficiente: que uma filogênese geral da Vida, quaisquer que sejam de resto seu processo e sua mola, seja para nós tão claramente reconhecível quanto a Ortogênese individual pela qual vemos, sem espanto, passar cada vivente.
Ora, dessa crescimento global da Biosfera, uma prova quase mecânica se forma em nosso espírito, sem escapatória possível, pelo desenho material ao qual chegamos inevitavelmente a cada novo esforço tentado para fixar, ponto por ponto, os contornos e as nervuras do mundo organizado.
Não ocorreria a ninguém pôr em dúvida a origem giratória das nebulosas espirais; ou a sucessiva agregação das partículas no seio de um cristal ou de uma estalagmite; ou a concrescência dos feixes lenhosos em torno do eixo de uma haste. Certas disposições geométricas, perfeitamente estáveis a nossos olhos, são o traço e o sinal irrefutável de uma Cinemática. Como poderíamos hesitar, nem por um instante, sobre as origens evolutivas da cobertura viva da Terra?
Sob nosso esforço de análise, a Vida se descasca. Desarticula-se, ao infinito, em um sistema anatômica e fisiologicamente coerente de leques encaixados.[9] Microleques, apenas desenhados, das Subespécies e das Raças. Leques, já mais largos, das Espécies e dos Gêneros. Leques, cada vez mais desmedidos, dos Biotes, depois das Nappes e depois dos Ramos.
E, para terminar, o conjunto inteiro, animal e vegetal, formando por associação um só gigantesco Biote, enraizando-se, talvez como simples raio, em algum verticilo afogado no fundo do mundo megamolecular. A Vida, um simples Ramo, sobre outra coisa...
De alto a baixo, do maior ao menor, uma mesma estrutura visível, cujo desenho, reforçado pela própria distribuição das sombras e dos vazios, se acentua e se prolonga, fora de toda hipótese, pelo arranjo quase espontâneo dos elementos imprevistos que cada dia traz. Cada nova forma descoberta encontra seu lugar natural; nenhuma, em realidade, é absolutamente "nova" no quadro traçado.
Que nos falta a mais para ficarmos convencidos de que tudo isso nasceu, de que tudo isso cresceu?...
Depois disso, podemos continuar, durante anos ainda, a disputar sobre a maneira pela qual pôde surgir esse organismo enorme. À medida que nos aparece melhor a assustadora complexidade de suas engrenagens, a vertigem nos toma.
Como conciliar esse crescimento persistente com o determinismo das moléculas, com o jogo cego dos cromossomos, com a incapacidade aparente das conquistas individuais para transmitir-se por geração? Como, em outras palavras, conciliar a evolução externa, "finalista", dos fenótipos com a evolução interna, mecanicista, dos genótipos?... Não conseguimos mais compreender, de tanto desmontá-la, como a máquina pode avançar. Talvez.
Entretanto, por ora, a máquina está diante de nós e anda. Porque a Química ainda balbucia sobre a maneira pela qual os granitos puderam formar-se, podemos contestar que os continentes vão sem cessar se granitizando?...
Tal qual todas as coisas em um Universo no qual o Tempo se instalou definitivamente, voltarei a isso, a título de quarta dimensão, a Vida é, e só pode ser, uma grandeza de natureza ou dimensões evolutivas. Física e historicamente, corresponde a certa função X, definindo no Espaço, na Duração e na Forma a posição de cada vivente.
Eis o fato fundamental, que requer explicação, embora sua evidência esteja doravante acima de toda verificação, assim como ao abrigo de todo desmentido ulterior da experiência.
Nesse grau de generalidade, pode-se dizer que a "questão transformista" já não existe. Está definitivamente resolvida. Para abalar doravante nossa convicção na realidade de uma Biogênese, seria preciso, minando a estrutura inteira do Mundo, desenraizar a Árvore da Vida.[10]
## Notas
[1] Sob pretexto de que esse termo, "ortogênese", foi empregado em diversos sentidos discutíveis ou restritos, ou então de que tem sabor metafísico, certos biólogos gostariam que fosse simplesmente suprimido. Minha convicção bem assentada é, ao contrário, que a palavra é essencial e insubstituível para marcar e afirmar a propriedade manifesta que possui a Matéria viva de formar um sistema "no seio do qual os termos se sucedem experimentalmente segundo valores constantemente crescentes de centro-complexidade".
[2] Se nossos aparelhos, automóveis, aviões etc., se achassem sepultados e "fossilizados" por algum cataclismo, os geólogos futuros, ao descobri-los, teriam a mesma impressão que temos diante de um Pterodáctilo: representados unicamente por suas marcas últimas, esses produtos da nossa invenção lhes pareceriam ter sido criados sem fase evolutiva de tateamento, acabados e fixados de primeira.
[3] Assim como noto mais adiante (p. 206, nota 1) a propósito do "monogenismo", há a impossibilidade não fortuita em que nos encontramos, por razões cada vez fortuitas, Cf. Cournot, de ultrapassar certo limite de precisão, de "separação", em nossa percepção do grandíssimo Passado. Em todos os sentidos, para o muito antigo e o muito pequeno, mas também para o muito grande e o muito lento, nossa vista se embota; e, além de certo raio, já não distinguimos nada.
[4] Chamam-se assim, por oposição aos Aplacentários, ou Marsupiais, os Mamíferos em que o embrião, protegido e nutrido pela membrana especial chamada placenta, pode permanecer até a maturidade completa no seio de sua mãe.
[5] Machairodus, ou "Tigre de dentes de sabre". Esse grande felino, muito comum no fim do Terciário e nos começos do Quaternário, é estranhamente mimado pelo Marsupial carnívoro, plioceno, da América do Sul.
[6] Fora um grupo de roedores e, últimos chegados, o Homem e seu Cão.
[7] Que se poderiam ainda chamar os "septem-vertebrados", já que, por coincidência igualmente inesperada e significativa, todos têm sete vértebras cervicais, qualquer que seja o comprimento de seu pescoço.
[8] Sem esses tegumentos ossificados, justamente, nada teriam deixado de si mesmos, e nós não os conheceríamos.
[9] Seria evidentemente possível, nesse jogo de leques, traçar as ligações de outra forma que não a que fiz, notadamente dando lugar mais largo aos paralelismos e à convergência. Por exemplo, os Tetrápodes poderiam ser olhados como um feixe composto de vários raios, saídos de diferentes verticilos, mas tendo igualmente chegado à fórmula quadrúpede. Esse esquema polifilético dá conta dos fatos, a meu ver, em grau menor. Não alteraria em nada, contudo, minha tese fundamental: a saber, que a Vida se apresenta como um conjunto organicamente articulado, traindo manifestamente um fenômeno de crescimento.
[10] De fato, na medida em que exprime simplesmente a impossibilidade em que estamos de perceber experimentalmente qualquer ser, vivo ou não vivo, senão engajado em uma série temporo-espacial, o evolucionismo há muito deixou de ser hipótese, para tornar-se uma condição, dimensional, a que devem doravante satisfazer, em Física e em Biologia, todas as hipóteses. Presentemente, biólogos e paleontologistas ainda disputam sobre as modalidades, e sobretudo sobre o mecanismo das transformações da Vida: preponderância, neodarwiniana, do Acaso, ou jogo, neolamarckiano, da invenção, na aparição dos caracteres novos. Mas, sobre o fato geral e fundamental de que há evolução orgânica tanto no caso da Vida considerada globalmente quanto no de qualquer vivente tomado em particular, sobre esse ponto, digo, todos os sábios estão hoje de acordo; e pela boa razão de que não poderiam fazer ciência se pensassem de outro modo... Tudo o que se pode lamentar aqui, não sem espanto, é que, apesar da clareza dos fatos, a unanimidade ainda não chegue a reconhecer que a "galáxia" das formas vivas desenha, tal como admitido nestas páginas, um vasto movimento "ortogenético" de enrolamento, sobre sempre mais complexidade e consciência (ver a conclusão, no fim da obra).