I. A Pré-vida - Capítulo III - A Terra Juvenil
## I. A Pré-vida - Capítulo III - A Terra Juvenil
Há alguns milhares de milhões de anos, não por um processo regular de evolução estelar, ao que parece, e sim em consequência de algum acaso inacreditável, passagem rasante de estrelas ou ruptura interna, um fragmento de matéria formado por átomos particularmente estáveis desprendia-se da superfície do Sol.
E, sem cortar os laços que o ligavam ao restante das coisas, colocado à distância exata do astro-pai para sentir sua radiação com intensidade média, esse fragmento aglomerava-se, enrolava-se sobre si mesmo, tomava figura[^1].
Aprisionando em seu globo e em seu movimento o futuro humano, mais um astro, desta vez um planeta, acabava de nascer.
Até aqui deixamos nossos olhos vagarem sobre as extensões ilimitadas em que se desdobra o Estofo do Universo.
Limitemos e concentremos agora nossa atenção sobre o objeto mínimo, obscuro, mas fascinante, que acaba de aparecer. Ele é o único ponto do Mundo onde ainda nos é dado seguir, em suas fases últimas e até nós mesmos, a evolução da Matéria.
Toda fresca e carregada de poderes nascentes, olhemos balançar-se, nas profundezas do Passado, a Terra juvenil.
### 1. O Exterior
Aquilo que, nesse globo recém-nascido, ao que parece por um golpe de acaso na massa cósmica, desperta o interesse do físico é a presença, em nenhum outro lugar observável[^2], de corpos quimicamente compostos. Nas temperaturas extremas que reinam nas estrelas, a Matéria só pode subsistir em seus estados mais dissociados. Apenas os corpos simples existem nesses astros incandescentes.
Na Terra, essa simplicidade dos elementos ainda se mantém na periferia, nos gases mais ou menos ionizados da Atmosfera e da Estratosfera, e provavelmente também, bem no fundo, nos metais da “Barisfera”. Mas, entre esses dois extremos, uma longa série de substâncias complexas, hóspedes e produtos exclusivos dos astros “apagados”, escalona-se por zonas sucessivas, manifestando, desde seu início, as potências de síntese incluídas no Universo.
Zona da Sílica, primeiro, preparando a armadura sólida do planeta. E zona da água e do ácido carbônico, em seguida, envolvendo os silicatos em uma camada instável, penetrante e móvel.
Barisfera, Litosfera, Hidrosfera, Atmosfera, Estratosfera.
Essa composição fundamental pôde variar e complicar-se muito nos detalhes. Mas, tomada em suas grandes linhas, deve ter-se estabelecido desde as origens. E é a partir dela que se desenvolverão, em duas direções diferentes, os progressos da Geoquímica.
#### A) O Mundo que Cristaliza
Em uma primeira direção, a mais comum de longe, a energia terrestre tendeu, desde o princípio, a exalar-se e libertar-se. Sílica, Água, Gás carbônico: esses óxidos essenciais haviam-se formado queimando e neutralizando, sozinhos ou em associação com outros corpos simples, as afinidades de seus elementos. Segundo esse esquema prolongado nasceu progressivamente a rica variedade do “Mundo Mineral”.
O Mundo Mineral.
Mundo muito mais flexível e móvel do que podia suspeitar a antiga Ciência: vagamente simétrica à metamorfose dos seres vivos, conhecemos agora, nas rochas mais sólidas, uma perpétua transformação das espécies minerais.
Mas Mundo relativamente pobre em suas combinações, pois conhecemos ao todo, no último recenseamento, apenas algumas centenas de silicatos na Natureza, porque é estreitamente limitado na arquitetura interna de seus elementos.
O que caracteriza, “biologicamente” poderíamos dizer, as espécies minerais é terem tomado, semelhantes nisso a tantos organismos incuravelmente fixados, um caminho que as fechava prematuramente sobre si mesmas. Por estrutura nativa, suas moléculas são incapazes de crescer. Para crescer e estender-se, devem portanto, de algum modo, sair de si mesmas e recorrer a um subterfúgio puramente externo de associação: colar-se e encadear-se átomo a átomo, sem se fundirem nem se unirem verdadeiramente.
Ora se dispõem em filas, como no jade. Ora se estendem em planos, como na mica. Ora formam quincôncios sólidos, como na granada.
Assim nascem agrupamentos regulares, de composição muitas vezes muito elevada, e que, no entanto, não correspondem a nenhuma unidade propriamente centrada. Simples justaposição, sobre uma rede geométrica, de átomos ou agrupamentos atômicos relativamente pouco complicados. Um mosaico indefinido de pequenos elementos, tal é a estrutura do cristal, agora legível, graças aos raios X, na fotografia.
E tal é a organização, simples e estável, que a Matéria condensada que nos cerca deve ter adotado, desde a origem, em seu conjunto.
Considerada em sua massa principal, a Terra, tão longe quanto possamos vê-la para trás, vela-se de geometria. Ela cristaliza.
Mas não por inteiro.
#### B) O Mundo que se Polimeriza
No curso, e em virtude mesmo, da marcha inicial dos elementos terrestres rumo ao estado cristalino, uma energia se desprendia constantemente e se tornava livre, exatamente como acontece ao nosso redor na Humanidade, neste momento, sob o efeito da máquina. Essa energia se acrescentava à que é continuamente fornecida pela decomposição atômica das substâncias radioativas. Crescia sem cessar com aquela derramada pelos raios solares.
Para onde podia passar essa potência tornada disponível na superfície da Terra juvenil? Perdia-se simplesmente ao redor do globo em eflúvios obscuros?
Outra hipótese, muito mais provável, é sugerida pelo espetáculo do Mundo presente. Fraca demais, daí em diante, para escapar em incandescência, a energia livre da Terra nascente tornara-se, em compensação, capaz de redobrar-se sobre si mesma em uma obra de síntese.
Era portanto que então, como hoje, ela passava, com absorção de calor, à edificação de certos compostos carbonados, hidrogenados ou hidratados, nitrogenados, semelhantes àqueles que nos maravilham por seu poder de aumentar indefinidamente a complicação e a instabilidade de seus elementos.
Reino da polimerização[^3], em que as partículas se encadeiam, agrupam-se e trocam-se, como nos cristais, nos vértices de redes teoricamente sem fim, mas desta vez molécula a molécula, e de modo a formar, a cada vez, por associação fechada ou ao menos limitada, uma molécula sempre maior e mais complexa.
Esse mundo dos “compostos orgânicos”, somos construídos dele e nele. E adquirimos o hábito de considerá-lo apenas em ligação direta com a Vida já constituída, porque a ela ele se acha, sob nossos olhos, intimamente associado.
Além disso, porque sua incrível riqueza de formas, que deixa muito atrás de si a variedade dos compostos minerais, interessa apenas uma porção mínima da substância terrestre, somos instintivamente levados a lhe atribuir uma posição e uma significação subordinadas na Geoquímica, como à Amônia e aos óxidos de que se envolve o raio.
Parece-me essencial, se quisermos mais tarde fixar o lugar do Homem na Natureza, restituir ao fenômeno sua antiguidade e sua fisionomia verdadeiras.
Quimismo mineral e quimismo orgânico. Qualquer que seja a desproporção quantitativa das massas que respectivamente afetam, essas duas funções são e só podem ser as duas faces inseparáveis de uma mesma operação telúrica total. Tão bem quanto a primeira, por conseguinte, a segunda deve ser considerada como tendo-se iniciado desde a primavera da Terra.
E aqui se faz ouvir o motivo sobre o qual todo este livro é construído: “No Mundo, nada poderia irromper um dia como final, através dos diversos limiares, por críticos que sejam, sucessivamente transpostos pela Evolução, se antes não tivesse sido obscuramente primordial”. Se, desde o primeiro instante em que era possível, o orgânico não tivesse começado a existir na Terra, jamais teria começado mais tarde.
Ao redor de nosso planeta nascente, além dos primeiros esboços de uma Barisfera metálica, de uma Litosfera silicatada, de uma Hidrosfera e de uma Atmosfera, há portanto lugar para considerar os lineamentos de uma camada especial, antítese, poderíamos dizer, das quatro primeiras: zona temperada da polimerização, onde Água, Amônia e Ácido carbônico já flutuam, banhada pelos raios solares. Negligenciar essa névoa tênue seria privar o astro juvenil de sua parure mais essencial.
Pois é nela que gradualmente, se confiamos nas perspectivas que desenvolvi um pouco acima, logo se concentrará “o Interior da Terra”.
### 2. O Interior
Por “Interior da Terra” não quero dizer aqui, entenda-se bem, as profundezas materiais onde, a alguns quilômetros sob nossos pés, se esconde um dos mais irritantes mistérios da Ciência: a natureza química e as condições físicas exatas das regiões internas do Globo. Por essa expressão designo, como no capítulo precedente, a face “psíquica” da porção de Estofo cósmico encerrada, no começo dos tempos, pelo raio estreito da Terra juvenil.
No fragmento de substância sideral que acaba de isolar-se, tanto quanto em qualquer outro lugar do Universo, um mundo interior duplica inevitavelmente, ponto por ponto, o exterior das coisas. Isso já mostramos. Mas aqui as condições se tornaram diferentes. A Matéria já não se estende sob nossos olhos em extensões indefiníveis e difusas. Envolveu-se sobre si mesma em volume fechado. Como sua lâmina interna reagirá a esse redobramento?
Um primeiro ponto a considerar é que, pelo próprio fato da individualização de nosso planeta, certa massa de consciência elementar se acha aprisionada, nas origens, na Matéria terrestre. Alguns sábios julgaram-se forçados a atribuir a certos germes interestelares o poder de semear os astros resfriados. Essa hipótese desfigura, sem explicar nada, a grandeza do fenômeno vivo e também a de seu nobre corolário, o fenômeno humano. Na verdade, ela é perfeitamente inútil.
Por que procuraríamos no espaço, para nosso planeta, princípios incompreensíveis de fecundação? A Terra juvenil, por sua composição química inicial, é ela própria, em sua totalidade, o germe incrivelmente complexo de que precisamos. Congenitamente, ousaria dizer, ela trazia a Pré-vida em si, e esta em quantidade definida. Toda a questão é precisar como, a partir desse quantum primitivo, essencialmente elástico, todo o restante saiu.
Para conceber as primeiras fases dessa evolução, bastará comparar entre si, termo a termo, de um lado as leis gerais que julgamos poder fixar aos desenvolvimentos da Energia espiritual, e, de outro, as condições físico-químicas reconhecidas há pouco na Terra nova.
Por natureza, dissemos, a Energia espiritual cresce positivamente, absolutamente e sem limite determinável, em valor “radial”, segundo a complexidade química crescente dos elementos dos quais representa a duplicação interna. Ora, acabamos justamente de reconhecer no parágrafo precedente que a complexidade química da Terra aumenta, em conformidade com as leis da termodinâmica, na zona particular, superficial, onde seus elementos se polimerizam.
Aproximemos essas duas proposições. Elas se recortam e se iluminam sem ambiguidade. Mal encerrada na Terra nascente, dizem-nos elas de acordo, a Pré-vida sai da torpor em que parecia condenada por sua difusão no Espaço. Suas atividades, até então adormecidas, põem-se em movimento pari passu com o despertar das forças de síntese incluídas na Matéria.
E, ao mesmo tempo, em toda a periferia do Globo recém-formado, é a força das liberdades internas que começa a subir.
Olhemos mais atentamente essa superfície misteriosa.
Um primeiro caráter deve ser notado nela. É a extrema pequenez e o número incalculável das partículas em que se resolve. Ao longo de quilômetros de espessura, na água, no ar, nas lamas que se depositam, grãos ultramicroscópicos de proteínas cobrem densamente a superfície da Terra. Nossa imaginação recua diante da ideia de contar os flocos dessa neve.
E, no entanto, se compreendemos que a Pré-vida já emergiu no átomo, não era a essas miríades de grandes moléculas que deveríamos esperar?
Há, porém, ainda outra coisa a considerar.
Mais notável ainda em certo sentido, e igualmente importante de reter para os desenvolvimentos futuros, é a unidade que liga entre si, por sua própria gênese, a poeira primordial das consciências. O que deixa crescer as liberdades elementares, repito, é essencialmente o crescimento em síntese das moléculas que elas sustentam.
Mas essa síntese, repito também, não se operaria se o Globo, em seu conjunto, não redobrasse para dentro de uma superfície fechada as extensões de sua substância.
Assim, qualquer que seja o ponto considerado na Terra, o crescimento de Interior só se produz graças a um duplo enrolamento conjugado: enrolamento da molécula sobre si mesma e enrolamento do planeta sobre si mesmo[^4]. O quantum inicial de consciência contido em nosso Mundo terrestre não é simplesmente formado por um agregado de parcelas tomadas fortuitamente na mesma rede.
Representa uma massa solidária de centros infinitesimais estruturalmente ligados entre si por suas condições de origem e desenvolvimento.
Aqui de novo, mas descobrindo-se desta vez em domínio mais definido e elevada a uma ordem nova, reaparece a condição fundamental que já caracterizava a Matéria originária: unidade de pluralidade. A Terra nasceu provavelmente de um acaso. Mas, conforme uma das leis mais gerais da Evolução, esse acaso, mal aparecido, foi imediatamente utilizado, refundido em algo naturalmente dirigido.
Pelo próprio mecanismo de seu nascimento, a película em que se concentra e se aprofunda o Interior da Terra emerge, aos nossos olhos, sob forma de um Todo orgânico do qual já não se poderia separar nenhum elemento dos outros elementos que o cercam. Novo indivisível aparecido no coração do Grande Indivisível que é o Universo. Em plena verdade, uma Pré-biosfera.
É dessa camada que doravante nos ocuparemos, só dela e dela por inteiro.
Ainda inclinados sobre os abismos do Passado, observemos sua cor mudar.
De idade em idade, a tonalidade sobe. Alguma coisa vai irromper na Terra juvenil.
A Vida! Eis a Vida!
## Notas
1. De novo, os astrônomos parecem retornar à ideia mais laplaciana de planetas que nascem, por efeito de “nós e ventres”, no seio da nuvem de poeira cósmica que flutua originariamente em torno de cada estrela.
2. Exceto, de modo muito fugidio, na atmosfera dos planetas mais próximos do nosso.
3. Que me desculpem aqui, como mais adiante, no caso de Ortogênese, por tomar esse termo em sentido francamente generalizado: isto é, cobrindo, além da polimerização no sentido estrito dos químicos, o processo inteiro de “complexificação aditiva” que dá origem às grandes moléculas.
4. Exatamente as condições que reencontraremos muito mais adiante, na outra ponta da Evolução, presidindo à Gênese da “Noosfera”.