IV. A Sobrevida - Capítulo I - A Saída Coletiva O Fenômeno Humano - Tradução Literunico · Capítulo 12 de 17
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IV. A Sobrevida - Capítulo I - A Saída Coletiva

## IV. A Sobrevida - Capítulo I - A Saída Coletiva

### Observação Preliminar. Um Impasse a Evitar: o Isolamento

Quando o homem, tendo reconhecido que traz em si a fortuna do Mundo, decidiu que havia diante dele um futuro sem limites, no qual não podia afundar, um primeiro reflexo muitas vezes arrisca levá-lo a procurar seu acabamento em um esforço de isolamento.

Em um primeiro caso, perigosamente favorável a nosso egoísmo privado, algum instinto nativo, justificado pela reflexão, inclina-nos a julgar que, para dar a nosso ser sua plenitude, devemos desprender-nos o máximo possível da multidão dos outros. Esse "fim de nós mesmos" que precisamos atingir não estaria na separação, ou ao menos na sujeição a nós mesmos de todo o restante? Tornando-se refletido, ensina-nos o estudo do Passado, o elemento, parcialmente liberto das servidões filéticas, começou a viver para si. Não seria na linha cada vez mais avançada dessa emancipação que devemos doravante prosseguir? Fazer-se mais só para ser mais. Semelhante, nesse caso, a alguma substância radiante, a Humanidade culminaria em uma poeira de partículas ativas, dissociadas. Não, sem dúvida, o feixe de centelhas apagando-se na noite: essa seria a Morte total cuja hipótese nossa opção fundamental acaba de eliminar definitivamente. Antes, a esperança de que, ao longo do tempo, certos raios, mais penetrantes ou mais felizes, acabariam por encontrar o caminho sempre procurado pela Consciência para sua consumação. Concentração por descentração em relação ao restante. Solitários, e à força de solidão, os elementos salváveis da Noosfera encontrariam sua salvação no limite superior, e por excesso, de sua individualização.

É raro que, ao redor de nós, o individualismo extremo ultrapasse a filosofia de uma fruição imediata, e sinta a necessidade de conciliar-se com as exigências profundas da Ação. Menos teórica e menos extrema, em contrapartida, e também muito mais insidiosa, outra doutrina de "progresso por isolamento" fascina, neste momento mesmo, largas frações de Humanidade: a da seleção e da eleição das Raças. Lisonjeiro para um egoísmo coletivo, mais vivo, mais nobre e ainda mais suscetível que qualquer amor-próprio particular, o Racismo tem a seu favor o fato de aceitar e prolongar, rigorosamente tais quais, em suas perspectivas, as linhas da Árvore da Vida. Que nos mostra, de fato, a História do Mundo animado, senão uma sucessão de leques que surgem, um após outro, um sobre o outro, pelo êxito e pela dominação de um grupo privilegiado? E por que escaparíamos a essa lei geral? Ainda agora, portanto, e mesmo entre nós, luta pela Vida, sobrevivência do mais apto. Prova de força. O Super-homem deve germinar, tal qual qualquer outro caule, a partir de um único botão de Humanidade.

Isolamento do indivíduo, ou isolamento de um grupo. Duas formas diferentes de uma mesma tática, cada uma podendo legitimar-se à primeira vista por uma extrapolação verossímil dos procedimentos seguidos até nós pela Vida em seus desenvolvimentos. Dessas teorias, cínicas e brutais, nas quais, porém, pode muitas vezes vibrar uma paixão nobre, a sequência nos mostrará de que dependem o encanto, ou a perversidade; e por que, sob um e outro desses apelos à violência, não podemos impedir-nos de ressoar às vezes até o fundo de nós mesmos. Sutil deformação de uma grande verdade.

O que importa por enquanto é ver bem que uma e outra se enganam e nos enganam, na medida em que, negligenciando um fenômeno essencial, "a confluência natural dos grãos de Pensamento", escondem ou desfiguram a nossos olhos os contornos verdadeiros da Noosfera e tornam biologicamente impossível a formação de um verdadeiro Espírito da Terra.

### 1. A Confluência de Pensamento

#### a) Coalescência Forçada

##### a) Coalescência de Elementos

Por natureza, e em todos os seus graus de complicação, os elementos do Mundo têm o poder de influenciar-se e de invadir-se mutuamente por seu Dentro, de modo a combinar em feixes suas "energias radiais". Apenas conjecturável nas moléculas e nos átomos, essa interpenetrabilidade psíquica cresce, e torna-se diretamente perceptível entre seres organizados. No Homem, finalmente, em quem os efeitos de consciência alcançam na Natureza seu máximo atual, ela é em toda parte extrema, em toda parte legível no Fenômeno Social, e por nós, aliás, diretamente sentida. Ao mesmo tempo, porém, também nesse caso, ela só opera em virtude das "energias tangenciais" de arranjo, e portanto sob certas condições de aproximação espacial.

E aqui intervém um fato de aparência banal, no qual transparece, na realidade, um dos traços mais fundamentais da estrutura cósmica: a redondez da Terra. A limitação geométrica de um astro fechado, tal qual uma gigantesca molécula, sobre si mesmo. Esse caráter já nos aparecera necessário na origem das primeiras sínteses e polimerizações sobre a Terra Juvenil. Implicitamente, sem que tivéssemos de dizê-lo, é ele que sustentou constantemente todas as diferenciações e todos os progressos da Biosfera. Que dizer, porém, de sua função na Noosfera?

Livre, por impossível, para espaçar-se e distender-se indefinidamente sobre uma superfície sem limites, isto é, abandonada ao simples jogo de suas afinidades internas, que teria sido da Humanidade? Algo inimaginável, algo certamente muito diferente do Mundo moderno, e talvez até nada, a julgar pela extrema importância tomada, em seus desenvolvimentos, pelas forças de compressão.

Na origem, e durante séculos, nada incomodou sensivelmente a expansão das vagas humanas sobre a superfície do Globo; e é até provavelmente essa uma das razões que explicam a lentidão de sua evolução social. Depois, a partir do Neolítico, nós o vimos, essas vagas começaram a refluir sobre si mesmas. Ocupado todo o espaço livre, foi preciso que os ocupantes se apertassem mais. Assim, de etapa em etapa, sob o simples efeito multiplicador das gerações, chegamos à situação presente, a de constituirmos juntos uma massa quase sólida de substância hominizada.

Ora, à medida que, sob o efeito dessa pressão, e graças a sua permeabilidade psíquica, os elementos humanos entravam mais uns nos outros, seu espírito, misteriosa coincidência, aquecia-se pela aproximação. E, tal qual dilatados sobre si mesmos, cada um deles estendia pouco a pouco o raio de sua zona de influência sobre uma Terra que, pelo próprio fato, se encontrava cada vez menor. Que vemos, de fato, produzir-se no paroxismo moderno? Já se observou muitas vezes. Pela descoberta, ontem, da ferrovia, do automóvel, do avião, a influência física de cada homem, reduzida outrora a alguns quilômetros, estende-se agora a centenas de léguas. Bem melhor: graças ao prodigioso acontecimento biológico representado pela descoberta das ondas eletromagnéticas, cada indivíduo se encontra doravante, ativa e passivamente, simultaneamente presente à totalidade do mar e dos continentes, coextensivo à Terra.

Assim, por aumento incessante do número de seus membros, e também por aumento contínuo de sua área individual de atividade, a Humanidade, sujeita que está a desenvolver-se em superfície fechada, acha-se irremediavelmente submetida a uma pressão formidável, pressão sem cessar acrescida por seu próprio jogo: pois cada grau a mais no adensamento não tem outro efeito senão exaltar um pouco mais a expansão de cada elemento.

Eis um primeiro fato cuja omissão viciaria nossas representações antecipadas de um Futuro do Mundo.

Inegavelmente, fora de qualquer hipótese, o jogo externo das forças cósmicas, combinado com a natureza eminentemente coalescível de nossas almas pensantes, trabalha no sentido de uma concentração enérgica das consciências: esforço tão poderoso que chega a fazer dobrar sob si, isto nos resta ver, as próprias construções da Filogênese.

##### b) Coalescência de Ramos

Por duas vezes já, primeiro ao fazer a teoria, depois ao descrever as fases históricas da Antropogênese, assinalei a curiosa propriedade, especial às linhagens humanas, de entrar em contato e de misturar-se, notadamente por sua bainha de psiquismo e de instituições sociais. Chegou o momento de observar o fenômeno em toda a sua generalidade e de descobrir sua significação última.

O que intriga à primeira vista o naturalista, quando tenta ver os Hominianos não apenas em si mesmos, tal qual fazem de ordinário os antropologistas, e sim por comparação com as outras formas animais, é a extraordinária elasticidade de seu grupo zoológico. Visivelmente, no Homem, a diferenciação anatômica de um tipo primitivo segue seu curso, tal qual em toda parte na Evolução. Por efeitos genéticos, mutações se produzem. Por influências climáticas e geográficas, variedades, raças, desenham-se. Somaticamente falando, o "leque" está aí, continuamente em formação, perfeitamente reconhecível. E, no entanto, fato notável, seus ramos divergentes já não conseguem separar-se. Em condições de espalhamento nas quais qualquer outro phylum inicial estaria há muito tempo dissociado em espécies distintas, o verticilo humano, ele, floresce "inteiro", tal qual uma folha gigantesca, onde as nervuras, por distintas que sejam, permanecem sempre unidas em uma malha comum. Interfecundação indefinida, em todos os graus. Mistura de genes. Anastomoses das raças em civilizações e corpos políticos. Zoologicamente considerada, a Humanidade nos apresenta o espetáculo único de uma "espécie" capaz de realizar aquilo em que toda outra espécie antes dela fracassara: não simplesmente ser cosmopolita, e sim cobrir a Terra, sem romper-se, com uma única membrana organizada.

A que atribuir essa condição estranha, senão à reversão, ou mais exatamente ao aperfeiçoamento radical das vias da Vida, pela entrada em jogo, enfim possível, de um poderoso instrumento de evolução: a coalescência sobre si mesmo de um phylum inteiro?

Na base do acontecimento, aqui ainda, os limites estreitos da Terra, sobre a qual se recurvam e se aproximam, por sua própria pressão, tal qual caules apertados de uma hera, os ramos vivos. Esse contato exterior, porém, tinha sido, e teria permanecido sempre, insuficiente para chegar a uma conjunção, sem o novo ligante conferido ao Biote humano pelo nascimento da Reflexão. Até o Homem, o máximo que a Vida pudera realizar, em matéria de associação, fora reunir socialmente sobre si mesmas, uma a uma, as extremidades mais finas de um mesmo phylum. Agrupamentos essencialmente mecânicos e familiares, realizados sobre um gesto puramente "funcional" de construção, defesa ou propagação. A colônia. A Colmeia. O formigueiro. Todos organismos com poder de aproximação limitado aos produtos de uma só mãe. A partir do Homem, graças ao quadro ou suporte universais fornecidos pelo Pensamento, é dado livre curso às forças de confluência. No seio desse novo meio, os próprios ramos de um mesmo grupo chegam a reunir-se. Ou antes, soldam-se entre si antes mesmo de terminar de separar-se.

Desse modo, no curso da filogênese humana, a diferenciação dos grupos conserva-se até certo ponto, isto é, na medida em que, criando por tateamento tipos novos, ela é uma condição biológica de descoberta e enriquecimento. Depois, porém, ou ao mesmo tempo, tal qual acontece sobre uma esfera onde os meridianos só jorram afastando-se de um polo para reencontrar-se no polo oposto, essa divergência dá lugar e se subordina a um movimento de convergência em que raças, povos e nações se consolidam e se completam por mútua fecundação.

Antropologicamente, etnicamente, socialmente, moralmente, nada se compreende do Homem, e nenhuma previsão válida se pode fazer, aqui ainda, a respeito de seus estados futuros, enquanto não se viu que, em seu caso, a "ramificação", tanto quanto subsiste, só opera para um fim, e sob formas superiores, de aglomeração e convergência. Formação dos verticilos, seleção, luta pela vida: simples funções secundárias, doravante, nele subordinadas a uma obra de coesão. O enrolamento sobre si mesmo de um feixe de espécies virtuais ao redor da superfície da Terra. Todo um novo modo de Filogênese.[1]

#### b) Megassíntese

Coalescência dos elementos e coalescência dos ramos. Esfericidade geométrica da Terra e curvatura psíquica do Espírito harmonizando-se para contrabalançar no Mundo as forças individuais e coletivas de Dispersão, e para substituí-las pela Unificação: toda a mola e todo o segredo, finalmente, da Hominização.

Por que, porém, e para que, no mundo, a Unificação?

Para ver aparecer a resposta a essa questão última, basta aproximar as duas equações que se estabeleceram gradualmente diante de nós, a partir do primeiro instante em que tentamos situar no Mundo o Fenômeno Humano.

Evolução = Subida de consciência.

Subida de consciência = Efeito de união.

A reunião geral na qual, por ações conjugadas do Fora e do Dentro da Terra, se acha engajada, neste momento, a totalidade das potências e das unidades pensantes; a aproximação em bloco de uma Humanidade cujos fragmentos se soldam e se penetram a nossos olhos, a despeito, e na própria proporção, dos esforços que fazem para se separar; tudo isso toma, até o fundo, figura inteligível assim que nele se percebe a culminação natural de um processo cósmico de organização que nunca variou desde as eras longínquas em que nosso planeta era juvenil.

Primeiro, as moléculas carbonadas, com seus milhares de átomos simetricamente agrupados. Depois, a célula, onde, sob um volume mínimo, milhares de moléculas se montam em um sistema de engrenagens figuradas. Depois, o Metazoário, onde a célula já é quase um elemento infinitesimal. Mais adiante ainda, tal qual por ilhotas, as tentativas multiformes feitas pelos Metazoários para entrar em simbiose e elevar-se a um estado biológico superior. E agora, tal qual um germe de dimensões planetárias, a nappe pensante que, em toda a sua extensão, desenvolve e entrecruza suas fibras, sem confundi-las nem neutralizá-las, a fim de reforçá-las na unidade viva de uma só malha.

Positivamente, não vejo outro modo coerente, e portanto científico, de agrupar essa imensa sucessão de fatos, senão interpretando no sentido de uma gigantesca operação psicobiológica, como uma espécie de megassíntese, o "superarranjo" ao qual todos os elementos pensantes da Terra se encontram hoje individual e coletivamente submetidos.

Megassíntese no Tangencial. E, portanto, pelo próprio fato, salto adiante das energias Radiais, segundo o eixo principal da Evolução. Sempre mais Complexidade: e portanto ainda mais Consciência.

Se é isso realmente o que se passa, que nos falta para reconhecer o erro vital escondido no fundo de toda doutrina de isolamento?

Falso e contra a natureza, o ideal egocêntrico de um futuro reservado àqueles que souberam chegar egoisticamente ao extremo do "cada um por si". Nenhum elemento poderia mover-se nem crescer senão com todos os outros e por todos os outros consigo.

Falso e contra a natureza, o ideal racista de um ramo que captasse só para si toda a seiva da Árvore e se elevasse sobre a morte dos outros ramos. Para perfurar até o sol, é necessário nada menos que o crescimento combinado da ramagem inteira.

A Saída do Mundo, as portas do Futuro, a entrada no Super-humano, não se abrem adiante a alguns privilegiados, nem a um só povo eleito entre todos os povos. Elas só cederão a uma pressão de todos juntos, em uma direção onde todos juntos[2] podem reunir-se e completar-se em uma renovação espiritual da Terra, renovação cujos modos é preciso agora precisar e cujo grau físico de realidade é preciso meditar.

### 2. O Espírito da Terra

#### a) Humanidade

Humanidade. Tal é a primeira figura sob a qual, no instante mesmo em que despertava para a ideia de Progresso, o Homem moderno teve de procurar conciliar, com as perspectivas de sua morte individual inevitável, as esperanças de futuro ilimitado das quais já não podia prescindir. Humanidade: entidade primeiro vaga, sentida mais que raciocinada, na qual um sentido obscuro de crescimento permanente se aliava a uma necessidade de fraternidade universal. Humanidade: objeto de uma fé muitas vezes ingênua, cuja magia, mais forte que todas as vicissitudes e todas as críticas, continua a agir com a mesma força de sedução tanto sobre a alma das massas atuais quanto sobre os cérebros da "intelligentzia". Que se participe de seu culto, ou que se o ridicularize, quem pode ainda hoje escapar à obsessão, ou mesmo ao domínio, da ideia de Humanidade?

Aos olhos dos "profetas" do século XVIII, o mundo na realidade só apresentava um conjunto de ligações confusas e frouxas. E era preciso de fato a adivinhação de um crente para sentir bater o coração dessa espécie de embrião. Ora, depois de menos de duzentos anos, eis-nos, quase sem nos darmos conta, engajados na realidade, ao menos material, daquilo que nossos pais esperavam. Ao redor de nós, no espaço de algumas gerações, toda espécie de vínculos econômicos e culturais se formou, multiplicando-se em progressão geométrica. Agora, além do pão que simbolizava, em sua simplicidade, o alimento de um Neolítico, todo homem exige, a cada dia, sua ração de ferro, cobre e algodão, sua ração de eletricidade, petróleo e rádio, sua ração de descobertas, cinema e notícias internacionais. Já não é um simples campo, por grande que seja, é a Terra inteira que se requer para alimentar cada um de nós. Se as palavras têm sentido, não é tal qual um grande corpo que está nascendo, com seus membros, seu sistema nervoso, seus centros perceptores, sua memória, o próprio corpo da grande Coisa que devia vir para preencher as aspirações suscitadas no ser refletido pela consciência, recém-adquirida, de que era solidário e responsável por um Todo em evolução?

Na realidade, pela própria lógica de nosso esforço para coordenar e organizar as linhas do Mundo, é de fato a perspectivas que recordam a intuição inicial dos primeiros filantropos que, pela eliminação das heresias individualista e racista, nosso pensamento se vê reconduzido. Nenhum futuro evolutivo deve ser esperado para o homem fora de sua associação com todos os outros homens. Os sonhadores de ontem o haviam entrevisto. E, em certo sentido, vemos a mesma coisa que eles. O que, melhor que eles, porque estamos "montados sobre seus ombros", temos condição de descobrir, são as raízes cósmicas; é também a substância física particular; é enfim a natureza específica dessa Humanidade que eles só podiam pressentir, e para cuja recusa, hoje, precisaríamos fechar os olhos.

Raízes cósmicas. Para os humanitários da primeira hora, o homem, reunindo-se a seus semelhantes, obedecia a um preceito natural cujas origens mal se cuidava de analisar, e portanto de medir a gravidade. Nesses tempos, não se tratava ainda a Natureza tal qual um Personagem ou uma poética Metáfora? Aquilo que a Natureza exigia de nós em tal ou tal momento, talvez ela o tivesse decidido apenas ontem, ou talvez já não o quisesse amanhã. Para nós, mais informados das dimensões e das exigências estruturais do Mundo, as forças que, acorrendo de fora ou surgindo de dentro, nos comprimem cada vez mais uns contra os outros, perdem toda aparência de arbitrário e todo perigo de instabilidade.

Construção frágil, senão fictícia, enquanto só encontrava, para enquadrar-se, um Cosmos limitado, plural e disjunto, a Humanidade ganha consistência, e ao mesmo tempo se torna verossímil, assim que, recolocada em um Espaço-Tempo biológico, aparece prolongando em sua figura as próprias linhas do Universo, entre outras realidades tão vastas quanto elas.

Substância física. Para bom número de nossos contemporâneos, a Humanidade permanece ainda coisa irreal, a menos que seja por eles absurdamente materializada. Segundo uns, ela seria apenas uma entidade abstrata, ou então um vocábulo de convenção. Para outros, torna-se agrupamento espessamente orgânico, onde o social se transcreve literalmente em termos de fisiologia e anatomia. Ideia geral, entidade jurídica, ou então animal gigantesco. Mesma impotência aqui e ali, por falta ou por excesso, para pensar corretamente os conjuntos. Para sair desse impasse, o único meio não seria introduzir resolutamente em nossos esquemas intelectuais, para uso do superindividual, uma categoria a mais? Afinal, por que não? A Geometria teria permanecido estacionária se, construída primeiro sobre as grandezas racionais, não tivesse acabado por aceitar, tão completos e inteligíveis quanto um número inteiro, o número e, π ou qualquer outro incomensurável. O Cálculo jamais teria resolvido os problemas postos pela Física moderna se não se tivesse constantemente elevado à concepção de funções novas. Por razões idênticas, a Biologia não poderia generalizar-se às dimensões da Vida total sem introduzir, na escala das grandezas que agora precisa tratar, certos estágios de ser que a experiência comum pudera até então ignorar, e justamente o do Coletivo. Sim, doravante, ao lado e além das realidades individuais, as realidades coletivas, irredutíveis ao elemento, e no entanto, à sua maneira, tão objetivas quanto ele. Não foi assim que, para traduzir em conceitos os movimentos da Vida, precisei invencivelmente falar? Phyla, nappes, ramos etc. Para o olho feito às perspectivas da Evolução, esses agrupamentos dirigidos tornam-se por força objetos tão claros, tão fisicamente reais, quanto qualquer coisa isolada. E, nessa classe particular de grandeza, a Humanidade toma naturalmente seu lugar. Para que se torne representável, basta que, por retificação ou restabelecimento mental, consigamos pensá-la diretamente tal qual ela é, sem tentar reduzi-la a algo mais simples que já conheçamos.

Natureza específica, enfim. E aqui reencontramos o problema no ponto a que o fato, devidamente constatado, da confluência dos pensamentos humanos nos havia anteriormente conduzido. Realidade coletiva, e portanto sui generis, a Humanidade só pode ser compreendida na medida em que, ultrapassando seu corpo de construções tangíveis, procurarmos determinar o tipo particular de síntese consciente que emerge de sua laboriosa e industriosa concentração. Ela não é finalmente definível senão como um Espírito.

Ora, desse ponto de vista, e no estado presente das coisas, podemos tentar imaginar de duas maneiras, por dois graus, a forma que ela pode ser levada a tomar amanhã. Ou então, e isto é mais simples, tal qual um poder ou ato comuns de conhecer e de agir. Ou então, e isto vai bem mais fundo, tal qual uma superagregação orgânica das almas. Ciência, ou Unanimidade.

#### b) Ciência

Tomada no sentido moderno pleno da palavra, a Ciência é irmã gêmea da Humanidade. Nascidas juntas, as duas ideias, ou os dois sonhos, cresceram juntas, até atingir valor quase religioso no curso do século passado. Depois conheceram ambas as mesmas desgraças. Isso não as impede, apoiadas uma na outra, de representar ainda, e mais intensamente que nunca, as forças ideais sobre as quais nossa imaginação recai cada vez que procura materializar sob forma terrestre suas razões de crer e de esperar.

O futuro da Ciência. Em primeira aproximação, ele se perfila em nosso horizonte tal qual o estabelecimento de uma perspectiva total e totalmente coerente do Universo. Houve um tempo em que o único papel suposto ao conhecimento era iluminar, para nossa alegria especulativa, objetos inteiramente feitos e inteiramente dados ao redor de nós. Hoje, graças a uma filosofia que vem dar sentido e consagração a nossa sede de pensar tudo, entrevemos que a inconsciência é uma espécie de inferioridade ou de mal ontológicos, pois o Mundo só se completa na medida em que se exprime em uma percepção sistemática e refletida. Mesmo, senão sobretudo, nas Matemáticas, "encontrar" não faz surgir ser novo? Desse ponto de vista, Descoberta e Síntese intelectuais já não são somente especulação, e sim criação. Desde então, alguma consumação física das coisas está ligada à percepção explícita que delas tomamos. E desde então têm razão, ao menos parcialmente, aqueles que colocam[3] em um ato supremo de visão coletiva, obtido por esforço pan-humano de investigação e construção, o coroamento da Evolução.[4]

Saber por saber. E também, talvez ainda mais, saber para poder.

Desde que nasceu, a Ciência cresceu sobretudo sob a excitação de algum problema da Vida a resolver; e suas teorias mais sublimes teriam sempre flutuado sem raízes sobre o Pensamento humano se não se tivessem imediatamente movido, incorporadas, para algum meio de dominar o Mundo. Por esse fato, a marcha da Humanidade, prolongando a de todas as outras formas animadas, desenvolve-se incontestavelmente no sentido de uma conquista da Matéria posta a serviço do Espírito.

Poder mais para agir mais. Finalmente e sobretudo, agir mais a fim de ser mais.

Outrora, os precursores de nossos químicos se obstinavam em encontrar a pedra filosofal. Hoje nossa ambição cresceu. Já não fazer ouro, e sim Vida. E quem ousaria dizer, ao ver o que se passa há cinquenta anos, que se trata de uma simples miragem? Pelo conhecimento dos hormônios, não estamos na véspera de pôr a mão sobre o desenvolvimento de nosso corpo, e do próprio cérebro? Pela descoberta dos genes, não iremos em breve controlar o mecanismo das hereditariedades orgânicas? E, pela síntese iminente dos albuminoides, não seremos capazes, um dia, de provocar aquilo que a Terra, entregue a si mesma, já não parece poder operar: uma nova vaga de organismos, uma Neovida, artificialmente suscitada?[5]

Na verdade, por imenso e prolongado que tenha sido, desde as origens, o tateamento universal, muitas combinações possíveis puderam escapar ao jogo das chances, e estava reservado aos passos calculados do Homem fazê-las aparecer. O Pensamento aperfeiçoando artificialmente o próprio órgão de seu pensamento. A Vida rebatendo para frente sob o efeito coletivo de sua Reflexão. Sim; o sonho de que se nutre obscuramente a Pesquisa humana é, no fundo, conseguir dominar, para além de todas as afinidades atômicas ou moleculares, a Energia de fundo da qual todas as outras energias são apenas servas: agarrar, todos juntos, a barra do Mundo, pondo a mão no próprio Motor da Evolução.

Aos que têm a coragem de confessar a si mesmos que suas esperanças vão até aí, direi que são os mais homens entre os homens, e que há menos diferença do que se pensa entre Pesquisa e Adoração. Que observem bem, porém, o ponto seguinte, cuja consideração nos encaminhará gradualmente para uma forma mais completa de conquista e adoração. Por mais longe que a Ciência leve sua descoberta do Fogo Essencial, por mais capaz que um dia se torne de remodelar e aperfeiçoar o elemento humano, ela sempre se reencontrará, ao fim das contas, diante do mesmo problema posto: como dar a todos e a cada um desses elementos seu valor final, agrupando-os na unidade de um Todo Organizado?

#### c) Unanimidade

Megassíntese, dissemos acima. Apoiados em uma melhor inteligência do Coletivo, é sem atenuação nem metáfora, parece-me, que essa palavra deve ser entendida quando a aplicamos ao conjunto de todos os humanos. O Universo é necessariamente uma grandeza homogênea em sua natureza e em suas dimensões. Ora, ainda o seria se as voltas de sua espira perdessem qualquer coisa de seu grau de realidade, de sua consistência, ao subir sempre mais alto?

Supra, e não infrafísica: tal apenas pode ser, para permanecer coerente com o restante, a Coisa ainda sem nome que deve fazer aparecer ao Mundo a combinação gradual dos indivíduos, dos povos e das raças. Mais profunda que o Ato comum de visão em que se exprime, mais importante que a Potência comum de ação da qual emerge por uma espécie de autonascimento, há, e é preciso considerar, a própria Realidade constituída pela reunião viva das partículas refletidas.

Que quer dizer isso senão isto, coisa inteiramente verossímil: a Substância do Universo, ao tornar-se pensante, ainda não concluiu seu ciclo evolutivo; por consequência, marchamos para algum novo ponto crítico, adiante. Apesar de suas ligações orgânicas, cuja existência nos apareceu por toda parte, a Biosfera ainda formava apenas um conjunto de linhas divergentes, livres nas extremidades. Sob o efeito da Reflexão, e dos redobramentos que ela acarreta, as cadeias se fecham; e a Noosfera tende a constituir-se em um único sistema fechado, onde cada elemento, por si, vê, sente, deseja e sofre as mesmas coisas que todos os outros ao mesmo tempo.

Uma coletividade harmonizada das consciências, equivalente a uma espécie de superconsciência. A Terra não apenas se cobrindo de grãos de pensamento por miríades, e sim envolvendo-se em um só envoltório pensante, até formar funcionalmente apenas um vasto Grão de Pensamento, em escala sideral. A pluralidade das reflexões individuais agrupando-se e reforçando-se no ato de uma só Reflexão unânime.

Tal é a figura geral sob a qual, por analogia e por simetria com o Passado, somos conduzidos cientificamente a representar no futuro essa Humanidade fora da qual nenhuma saída terrestre se abre às exigências terrestres de nossa Ação.

Ao "bom senso" da rua, e a certa filosofia do Mundo, para a qual nada é possível além daquilo que sempre foi, semelhantes perspectivas parecem inverossímeis. Ao espírito familiarizado com as dimensões fantásticas do Universo, elas parecem, ao contrário, inteiramente naturais, porque simplesmente proporcionadas às imensidões astrais. Na direção do Pensamento, tal qual na direção do Tempo e do Espaço, o Universo poderia terminar de outro modo que não no Desmedido?

Uma coisa é segura, em todo caso: assim que adotamos uma visão plenamente realista da Noosfera e da natureza hiperorgânica dos vínculos sociais, a situação presente do Mundo se torna mais clara; pois um sentido muito simples se descobre nas perturbações profundas que agitam neste momento a nappe humana.

A dupla crise, já seriamente iniciada no Neolítico, e que se aproxima de seu máximo sobre a Terra moderna, prende-se primeiro, como dissemos, a uma Tomada em massa, a uma "planetização", poderíamos dizer, da Humanidade: povos e civilizações chegaram a tal grau, seja de contato periférico, seja de interdependência econômica, seja de comunhão psíquica, que já não podem crescer senão interpenetrando-se. Ela se prende também ao fato de que, sob a influência combinada da Máquina e de um superaquecimento de Pensamento, assistimos a um formidável jorro de potências desocupadas. O Homem moderno já não sabe o que fazer do tempo e das forças que desencadeou entre suas mãos. Gememos diante desse excesso de riquezas. Gritamos contra o "desemprego". E, por pouco, tentaríamos recalcar essa superabundância para dentro da Matéria de onde saiu, sem perceber o que esse gesto contra a natureza teria de impossível e monstruoso.

Compressão crescente dos elementos no seio de uma energia livre que também cresce sem parar.

Como deixar de ver, nesse duplo fenômeno, os dois sintomas ligados, sempre os mesmos, de um salto no "Radial", isto é, de um novo passo na gênese do Espírito?

É em vão que procuramos, para não ter de mudar nossos hábitos, regular os conflitos internacionais por ajustes de fronteiras, ou tratar tal qual "lazeres" a distrair as atividades disponíveis da Humanidade. No ritmo em que as coisas vão, logo nos esmagaremos uns contra os outros, e algo explodirá, se nos obstinarmos em querer absorver, no cuidado dado a nossas velhas moradas, forças materiais e espirituais talhadas doravante à medida de um Mundo.

Um domínio novo de expansão psíquica: eis o que nos falta, e o que está exatamente diante de nós, se apenas levantarmos os olhos.

A paz na conquista, o trabalho na alegria: eles nos esperam, para além de todo império oposto a outros impérios, em uma totalização interior do Mundo sobre si mesmo, na edificação unânime de um Espírito da Terra.

Então, porém, como acontece que nossos primeiros esforços rumo a esse grande objetivo pareçam ter por único resultado afastar-nos dele?

## Notas

[1] É o que chamei de "a Planetização humana".

[2] Ainda que sob a influência e a condução de alguns, de uma "elite", somente.

[3] Não é esta a ideia de um Brunschvicg?

[4] Poder-se-ia dizer que, pelo fato da Reflexão humana, ao mesmo tempo individual e coletiva, a Evolução, transbordando a organização físico-química dos corpos, duplica-se, ao rebotar sobre si mesma, conforme a nota seguinte, por um novo poder de arranjo, vastamente concêntrico ao primeiro: o arranjo cognoscitivo do Universo. Pensar o Mundo, de fato, a Física começa a percebê-lo, não é apenas registrá-lo, e sim conferir-lhe uma forma de unidade da qual, se não fosse pensado, ele teria permanecido privado.

[5] É o que chamei de "o Rebote humano" da Evolução, correlativo e conjugado da Planetização.

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