I. A Pré-vida - Capítulo I - A Matéria do Universo O Fenômeno Humano - Tradução Literunico · Capítulo 3 de 17
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I. A Pré-vida - Capítulo I - A Matéria do Universo

## I. A Pré-vida - Capítulo I - A Matéria do Universo

Deslocar um objeto para trás no Passado equivale a reduzi-lo aos seus elementos mais simples. Seguidas tão longe quanto possível na direção de suas origens, as últimas fibras do composto humano confundem-se, para nosso olhar, com a própria matéria do Universo.

A matéria do Universo: esse resíduo último das análises cada vez mais avançadas da Ciência. Não desenvolvi com ela, para saber descrevê-la dignamente, esse contato direto e familiar que, entre o homem que leu e o homem que experimentou, faz toda a diferença. Sei também o perigo que há em tomar, como materiais de uma construção que se desejaria duradoura, hipóteses que, na própria ideia daqueles que as lançam, talvez devam durar apenas uma manhã.

Em larga medida, as representações atualmente admitidas do átomo são, nas mãos do sábio, um simples meio gráfico e transitório de operar o agrupamento e verificar a não contradição dos “efeitos” cada vez mais numerosos manifestados pela Matéria, efeitos dos quais muitos, além disso, ainda não apresentam prolongamento reconhecível no Homem.

Naturalista mais que físico, evitarei naturalmente estender-me e apoiar-me de modo indevido nessas arquiteturas complicadas e frágeis. Em compensação, sob a variedade das teorias que se recobrem umas às outras, certo número de caracteres vem à luz e reaparece obrigatoriamente em qualquer das explicações propostas para o Universo. É desse “imposto” definitivo, na medida em que exprime condições inerentes a toda transformação natural, inclusive viva, que deve necessariamente partir, e sobre o qual pode decentemente falar o naturalista empenhado em um estudo geral do Fenômeno humano.

### 1. A matéria elementar

Observada sob esse ângulo particular, e tomada para começar no estado elementar, entendo com isso em um momento, em um ponto e sob um volume qualquer, a matéria das coisas tangíveis revela-se a nós, com insistência crescente, radicalmente particulada, essencialmente ligada e, por fim, prodigiosamente ativa.

Pluralidade, unidade, energia: as três faces da Matéria.

#### A) Pluralidade

A profunda atomicidade do Universo aflora sob forma visível no domínio da experiência comum. Ela se exprime nas gotas de chuva e na areia das praias. Prolonga-se na multidão dos viventes e dos astros. Lê-se até mesmo na cinza dos mortos. O Homem não precisou do microscópio, nem da análise eletrônica, para suspeitar que vivia cercado e sustentado por poeira.

Mas, para contar e descrever os grãos dessa poeira, era necessária nada menos que a paciente sagacidade da Ciência moderna. Os átomos de Epicuro eram inertes e indivisíveis. E os mundos ínfimos de Pascal ainda podiam ter seus ácaros. Agora ultrapassamos de longe, em certeza e precisão, esse estágio da adivinhação instintiva ou genial. Ilimitado em degradação.

Semelhante a essas minúsculas carapaças de diatomáceas cujo desenho se resolve quase indefinidamente, sob aumentos mais fortes, em desenho novo, cada unidade menor de matéria tende a reduzir-se, sob a análise de nossos físicos, a algo mais finamente granulado que ela mesma. E, a cada novo degrau assim descido rumo à diminuição no maior número, a figura total do Mundo se renova e se esfuma.

Passado certo grau de profundidade e diluição, as propriedades mais familiares de nossos corpos, luz, cor, calor, impenetrabilidade, perdem o sentido. De fato, nossa experiência sensível se condensa e flutua sobre um enxame de indefinível. Vertiginoso em número e pequenez, o substrato do Universo tangível vai se desagregando sem limites para baixo.

#### B) Unidade

Ora, quanto mais clivamos e pulverizamos artificialmente a Matéria, mais se deixa ver sua unidade fundamental. Sob sua forma mais imperfeita, embora a mais simples de imaginar, essa unidade se traduz por uma espantosa similitude dos elementos encontrados. Moléculas, átomos, elétrons, essas entidades minúsculas, qualquer que seja sua ordem de grandeza e seu nome, manifestam, ao menos à distância em que as observamos, perfeita identidade de massa e comportamento. Em suas dimensões e operações, parecem espantosamente calibradas e monótonas.

Dir-se-ia que todos os cintilamentos de superfície pelos quais nossas vidas se encantam tendem a apagar-se em profundidade. Dir-se-ia também que a matéria de toda matéria se reconduz a uma forma simples e única de substância.

Unidade de homogeneidade, portanto. Aos corpúsculos cósmicos, acharíamos natural atribuir um raio de ação individual tão limitado quanto suas próprias dimensões. Ora, torna-se evidente, ao contrário, que cada um deles só é definível em função de sua influência sobre tudo o que está ao redor. Qualquer que seja o espaço em que o suponhamos situado, cada elemento cósmico preenche inteiramente esse próprio volume com sua radiação.

Por mais estreitamente circunscrito que seja o “coração” de um átomo, seu domínio é coextensivo, ao menos virtualmente, ao de qualquer outro átomo. Estranha propriedade que reencontraremos mais adiante até na molécula humana.

E, acrescentamos, unidade coletiva. Os focos incontáveis que partilham em comum um dado volume de Matéria nem por isso são independentes entre si. Algo os liga uns aos outros e os torna solidários. Longe de comportar-se como receptáculo inerte, o espaço preenchido por sua multidão age sobre ela à maneira de um meio ativo de direção e transmissão, no seio do qual sua pluralidade se organiza.

Simplesmente somados ou justapostos, os átomos ainda não fazem a Matéria. Uma misteriosa identidade os engloba e cimenta, contra a qual nosso espírito se choca, embora afinal seja forçado a ceder. A esfera acima dos centros, envolvendo-os.

Ao longo destas páginas, a cada nova fase da Antropogênese, nos reencontraremos diante da inimaginável realidade das ligações coletivas, e contra elas teremos de lutar sem cessar, até chegarmos a reconhecer e definir sua verdadeira natureza. Basta-nos, neste começo, englobá-las sob o nome empírico que a Ciência dá ao seu princípio inicial comum: a Energia.

#### C) Energia

A Energia é a terceira das faces da Matéria. Sob essa palavra, que traduz o sentido psicológico do esforço, a Física introduziu a expressão precisa de uma capacidade de ação, ou, mais exatamente, de interação. A energia é a medida daquilo que passa de um átomo a outro no curso de suas transformações. Poder de ligação, portanto; e também, porque o átomo parece enriquecer-se ou esgotar-se durante a troca, valor de constituição.

Do ponto de vista energético, renovado pelos fenômenos de radioatividade, os corpúsculos materiais podem agora ser tratados como reservatórios passageiros de uma potência concentrada. Jamais apreendida, de fato, em estado puro, e sempre mais ou menos granulada, até na luz, a Energia representa atualmente para a Ciência a forma mais primitiva da Matéria universal.

Daí uma tendência instintiva de nossas imaginações a encará-la como uma espécie de fluxo homogêneo e primordial, do qual tudo o que existe de figurado no Mundo seria apenas “turbilhão” fugitivo. O Universo, desse ponto de vista, encontraria sua consistência e sua unidade final no termo de sua decomposição. Ele se sustentaria por baixo.

Retenhamos as constatações e as medidas indiscutíveis da Física. Evitemos, contudo, prender-nos à perspectiva de equilíbrio final que elas parecem sugerir. Uma observação mais completa dos movimentos do Mundo nos obrigará pouco a pouco a invertê-la, isto é, a descobrir que, se as coisas se sustentam e se mantêm, isso ocorre apenas por força de complexidade, por cima.

### 2. A matéria total

Até aqui olhamos a Matéria “em si”, isto é, em suas qualidades e sob um volume qualquer, supondo-nos autorizados a destacar dela um fragmento e estudar essa amostra à parte do resto. É tempo de observar que esse procedimento é puro artifício do espírito. Considerada em sua realidade física e concreta, a Matéria do Universo não pode ser rasgada.

Mas, espécie de “átomo” gigantesco, é ela, tomada em sua totalidade, que forma, fora do Pensamento, onde se centra e se concentra no outro extremo, o único real Indivisível.

A história e o lugar da Consciência no Mundo permanecem incompreensíveis para quem não tiver visto, previamente, que o Cosmos no qual o Homem se encontra engajado constitui, pela integridade inatacável de seu conjunto, um Sistema, um Totum e um Quantum: Sistema por sua Multiplicidade, Totum por sua Unidade, Quantum por sua Energia, todos os três, aliás, no interior de um contorno ilimitado.

Procuremos fazê-lo compreender.

#### A) O Sistema

No Mundo, o “Sistema” é imediatamente perceptível a qualquer observador da Natureza. O arranjo das partes do Universo sempre foi para os homens motivo de maravilhamento. Ora, esse agenciamento se revela cada dia mais espantoso, à medida que um estudo mais preciso e penetrante dos fatos se torna possível à nossa Ciência. Quanto mais, por meios de potência crescente, penetramos longe e fundo na Matéria, mais a interligação de suas partes nos desconcerta.

Cada elemento do Cosmos é positivamente composto de todos os outros: abaixo de si mesmo, pelo misterioso fenômeno da “composição”, que o faz subsistir pela ponta de um conjunto organizado; acima, pela influência sofrida das unidades de ordem superior que o englobam e dominam para seus próprios fins.

Impossível cortar essa rede, isolar-lhe uma peça, sem que essa peça se desfaça por todos os bordos. Até onde a vista alcança, ao nosso redor, o Universo se mantém por seu conjunto. E só há uma maneira realmente possível de considerá-lo: tomá-lo como um bloco, inteiro.

#### B) O Totum

Ora, nesse bloco, se o consideramos com mais atenção, vemos rapidamente que há algo bem diverso de um simples emaranhado de ligações articuladas.

Quem diz trama, rede, pensa em um laço homogêneo de unidades semelhantes, talvez impossível de seccionar de fato, porém suficiente, uma vez reconhecido o elemento e definida a lei, para comandar o conjunto e imaginar sua sequência por repetição: cristal ou arabesco, lei de preenchimento válida para todo um espaço, mas já inteira e recolhida em uma única malha.

Nada de comum entre essa estrutura e a da Matéria.

Em ordens diversas de grandeza, a Matéria nunca se repete em suas combinações. Por expediente e simplicidade, às vezes gostamos de figurar o Mundo como uma série de sistemas planetários superpostos uns aos outros, escalonando-se do infinitamente pequeno ao infinitamente grande: outra vez, os dois abismos de Pascal. Isso é apenas uma ilusão. Os envoltórios de que a Matéria se compõe são fundamentalmente heterogêneos uns em relação aos outros.

Círculo, ainda nebuloso, dos elétrons e outras unidades inferiores. Círculo, mais definido, dos corpos simples, onde os elementos se distribuem em função periódica do átomo de hidrogênio. Círculo, mais adiante, das inesgotáveis combinações moleculares. Enfim, por salto ou reversão do ínfimo ao imenso, círculo dos astros e das galáxias. Essas múltiplas zonas do Cosmos se englobam sem se imitar, de modo que não saberíamos passar de uma a outra por simples mudança de coeficientes.

Aqui, não há reprodução do mesmo motivo em escala diferente. A ordem, o desenho, só aparecem no conjunto. A malha do Universo é o próprio Universo. Afirmar que a Matéria faz bloco ou conjunto, portanto, ainda é dizer pouco.

Formada de uma só peça, segundo um só e mesmo processo[^1], embora de ponto a ponto nunca se repita, a Matéria do Universo corresponde a uma única figura: forma estruturalmente um Todo.

#### C) O Quantum

E agora, se a unidade natural de espaço concreto se confunde bem com a totalidade do próprio Espaço, é em relação ao Espaço inteiro que devemos tentar redefinir a Energia. Isso nos leva a duas conclusões.

A primeira é que o raio de ação próprio a cada elemento cósmico deve ser prolongado, de direito, até os limites últimos do Mundo. Uma vez que o átomo, dizíamos acima, é naturalmente coextensivo a todo espaço em que se situa, e uma vez que, por outro lado, acabamos de ver que o espaço universal é o único que existe, somos forçados a admitir que essa imensidão representa o domínio comum de ação de todos os átomos.

Cada um deles tem por volume o volume do Universo. O átomo já não é o mundo microscópico e fechado que talvez imaginássemos. Ele é centro infinitesimal do próprio Mundo.

Estendamos, por outro lado, nosso olhar ao conjunto dos centros infinitesimais que partilham a esfera universal. Por mais indefinível que seja seu número, eles constituem, por sua multidão, um agrupamento de efeitos precisos. Pois o Todo, visto que existe, deve exprimir-se em uma capacidade global de ação, cuja resultante parcial encontramos, aliás, em cada um de nós. Assim somos levados a encarar e conceber uma medida dinâmica do Mundo.

Sem dúvida, o Mundo tem contornos aparentemente ilimitados. Para empregar imagens diversas, ele se comporta para nossos sentidos ora como um meio progressivamente atenuado, que se esvai sem superfície-limite por algum infinito degradado, ora como um domínio curvo e fechado no seio do qual todas as linhas de nossa experiência se enrolam sobre si mesmas. Nesse caso, a Matéria só nos pareceria sem bordas porque não podemos emergir dela.

Isso não é razão para lhe recusar um Quantum de Energia, que os físicos, incidentalmente, já se creem em condição de medir. Mas esse Quantum só toma plenamente seu sentido se procuramos defini-lo em relação a um movimento natural concreto, isto é, na Duração.

### 3. A evolução da matéria

A Física nasceu, no século passado, sob o duplo signo da fixidez e da geometria. Teve como ideal, em sua juventude, encontrar uma explicação matemática de um Mundo concebido à maneira de um sistema de elementos estáveis em equilíbrio fechado. Depois, como aconteceu a toda ciência do real, viu-se irresistivelmente arrastada, por seus próprios progressos, a tornar-se uma História. Hoje, o conhecimento positivo das coisas se identifica com o estudo de seu desenvolvimento.

Mais adiante, no capítulo do Pensamento, teremos de descrever e interpretar a revolução vital operada na consciência humana pela descoberta, inteiramente moderna, da Duração. Perguntemo-nos apenas aqui quais ampliações traz às nossas visões sobre a Matéria a introdução dessa dimensão nova.

Essencialmente, a mudança trazida à nossa experiência pela aparição daquilo que em breve chamaremos Espaço-Tempo consiste nisto: tudo o que até então olhávamos e tratávamos como pontos em nossas construções cosmológicas torna-se a seção instantânea de fibras temporais indefinidas. Aos nossos olhos desvendados, cada elemento das coisas prolonga-se agora para trás, e tende a prosseguir para a frente, sem termo visível.

De tal modo que a imensidão espacial inteira já não é senão o corte, “no tempo t”, de um tronco cujas raízes mergulham no abismo de um Passado insondável, e cujos ramos sobem, em algum lugar, para um Futuro à primeira vista ilimitado. Nessa perspectiva nova, o Mundo aparece como massa em curso de transformação. O Totum e o Quantum universais tendem a exprimir-se e definir-se em Cosmogênese.

Quais são, neste momento, aos olhos dos físicos, a figura assumida qualitativamente e as regras seguidas quantitativamente por essa Evolução da Matéria?

#### A) A Figura

Observada em sua parte central, a mais clara, a Evolução da Matéria se reduz, nas teorias atuais, à edificação gradual, por complicação crescente, dos diversos elementos reconhecidos pela físico-química. Muito abaixo, para começar, há uma simplicidade ainda irresolvida, indefinível em termos de figuras, de natureza luminosa.

Depois, bruscamente (?)[^2], um fervilhamento de corpúsculos elementares, positivos e negativos, prótons, nêutrons, elétrons, fótons, cuja lista não cessa de crescer. Depois a série harmônica dos corpos simples, estendida do Hidrogênio ao Urânio sobre as notas da gama atômica. E, em seguida, a variedade imensa dos corpos compostos, cujas massas moleculares vão se elevando até certo valor crítico, acima do qual, veremos, passa-se à Vida.

Não há um só termo dessa longa série que não deva ser considerado, sobre boas provas experimentais, como composto de núcleos e elétrons. Essa descoberta fundamental, segundo a qual todos os corpos derivam por arranjo de um único tipo corpuscular inicial, é o clarão que ilumina aos nossos olhos a história do Universo. À sua maneira, a Matéria obedece, desde a origem, à grande lei biológica, à qual teremos de voltar sem cessar, da “complexificação”.

À sua maneira, disse eu; pois, no estágio do átomo, muitos pontos ainda nos escapam na história do Mundo. Primeiro, para elevar-se na série dos corpos simples, devem os elementos transpor sucessivamente todos os graus da escala, do mais simples ao mais complexo, por uma espécie de onto ou filogênese? Ou os números atômicos representam apenas uma série rítmica de estados de equilíbrio, espécies de compartimentos onde núcleos e elétrons caem bruscamente reunidos?

E ainda, em um caso como no outro, devemos representar as diversas combinações de núcleos como imediata e igualmente possíveis? Ou, ao contrário, devemos imaginar que, no conjunto e estatisticamente, os átomos pesados só aparecem depois dos átomos leves, segundo uma ordem determinada?

A essas perguntas, como a outras semelhantes, não parece que a Ciência possa responder ainda de modo definitivo. Sobre a evolução ascendente, não digo a “desintegração”, dos átomos, estamos menos informados, neste momento, que sobre a evolução das moléculas pré-vivas e vivas.

Resta, entretanto, e este é, para o assunto que nos ocupa, o único ponto verdadeiramente importante, que, desde suas formulações mais longínquas, a Matéria se descobre a nós em estado de gênese; essa gênese deixa perceber dois dos aspectos que melhor a caracterizam em seus períodos ulteriores. Primeiro, o fato de começar por uma fase crítica: a da granulação, dando origem de modo brusco, uma vez por todas talvez, aos constituintes do átomo, e talvez ao próprio átomo.

Depois, ao menos a partir das moléculas, o fato de prosseguir aditivamente segundo um processo de complexidade crescente. Nem tudo se faz continuamente, a qualquer momento, no Universo. Nem tudo se faz, tampouco, em toda parte.

Acabamos de resumir em poucas linhas a ideia que a Ciência aceita hoje das transformações da Matéria, considerando-as simplesmente em sua sequência temporal e sem ainda situá-las em lugar algum da extensão cósmica. Historicamente, a matéria do Universo vai se concentrando em formas cada vez mais organizadas de Matéria.

Mas onde se passam essas metamorfoses, ao menos a partir do andaime das moléculas? Seria indiferentemente em qualquer lugar do Espaço? De modo algum, todos nós o sabemos, e sim apenas no coração e na superfície das estrelas. Ter considerado os infinitamente pequenos elementares nos força a erguer bruscamente os olhos para o infinitamente grande das massas siderais.

As massas siderais. Nossa Ciência fica perturbada, ao mesmo tempo que seduzida, por essas unidades colossais que se comportam de certo modo como átomos, embora sua constituição nos desconcerte por sua enorme e, em aparência, irregular complexidade. Talvez chegue o dia em que algum arranjo ou periodicidade apareça na distribuição dos astros, tanto em composição quanto em posição.

Alguma “estratigrafia” e alguma “química” dos céus não prolongam inevitavelmente a história dos átomos?

Não precisamos nos engajar nessas perspectivas ainda brumosas. Por mais fascinantes que sejam, elas envolvem o Homem em vez de conduzir a ele. Em compensação, devemos notar e registrar, porque ela traz consequências até na gênese do Espírito, a ligação certa que associa geneticamente o átomo à estrela. Por muito tempo ainda a Física poderá hesitar quanto à estrutura a atribuir às imensidões astrais.

Enquanto isso, uma coisa está assegurada, e basta para guiar nossos passos nas vias da Antropogênese: a fabricação dos compostos materiais elevados só pode operar-se graças a uma concentração prévia da Matéria do Universo em nebulosas e sóis. Qualquer que seja a figura global dos Mundos, a função química de cada um deles já tem para nós um sentido definível.

Os astros são os laboratórios onde prossegue, na direção das grandes moléculas, a Evolução da Matéria, e isso, aliás, segundo regras quantitativas determinadas, das quais chegou o momento de nos ocuparmos.

#### B) As leis numéricas

Aquilo que o pensamento antigo havia entrevisto e imaginado como uma harmonia natural dos Números, a Ciência moderna apreendeu e realizou na precisão de fórmulas fundadas sobre a Medida. É de fato a medidas cada vez mais minuciosas, bem antes que a observações diretas, que devemos o conhecimento da micro e da macroestrutura do Universo.

E são medidas ainda, cada vez mais audaciosas, que nos revelaram as condições calculáveis às quais se encontra submetida, na potência que põe em jogo, toda transformação da Matéria.

Não tenho de entrar aqui em uma discussão crítica das leis da Energética. Resumamos simplesmente essas leis naquilo que têm de acessível e indispensável a todo historiador do Mundo. Consideradas sob essa face biológica, elas podem ser reconduzidas, maciçamente, a dois princípios, que são os seguintes.

Primeiro princípio. No curso das transformações de natureza físico-química, não constatamos nenhuma aparição mensurável de energia nova.

Toda síntese custa. Essa é uma condição fundamental das coisas, que persiste, nós o sabemos, até nas zonas espirituais do ser. Em todos os domínios, o progresso exige, para se realizar, um acréscimo de esforço e, portanto, de potência. Ora, de onde vem esse acréscimo?

Abstratamente, poderíamos imaginar, suprindo as necessidades crescentes da Evolução, um aumento interno dos recursos do Mundo, um aumento absoluto de riqueza mecânica no curso das eras. De fato, as coisas parecem passar-se de outro modo. Em nenhum caso a energia de síntese parece cifrar-se pela entrada de um capital novo, e sim por uma despesa. O que se ganha de um lado se perde de outro. Nada se constrói senão ao preço de uma destruição equivalente.

Experimentalmente e à primeira vista, o Universo considerado em seu funcionamento mecânico não se apresenta a nós como um Quantum aberto, capaz de abarcar em seu ângulo um Real sempre maior, e sim como um Quantum fechado, no seio do qual nada progride a não ser por troca daquilo que foi inicialmente dado.

Essa é uma primeira aparência.

Segundo princípio. Mas há algo a mais. No curso de toda transformação físico-química, acrescenta a Termodinâmica, uma fração de energia utilizável é irremediavelmente “entropizada”, isto é, perdida sob forma de calor. É possível, sem dúvida, conservar simbolicamente essa fração degradada nas equações, de maneira a exprimir que nada se perde, assim como nada se cria, nas operações da Matéria. Isso é puro artifício matemático.

De fato, do ponto de vista evolutivo real, alguma coisa, no curso de toda síntese, é definitivamente queimada para pagar essa síntese. Quanto mais o Quantum energético do Mundo funciona, mais se desgasta. Tomado no campo de nossa experiência, o Universo material concreto não parece poder continuar indefinidamente sua corrida. Em vez de mover-se indefinidamente segundo um ciclo fechável, descreve irreversivelmente um ramo de desenvolvimento limitado.

E por isso se separa das grandezas abstratas para alinhar-se entre as realidades que nascem, crescem e morrem. Do Tempo, passa à Duração; e escapa definitivamente à Geometria para tornar-se dramaticamente, por sua totalidade e por seus elementos, objeto de História.

Traduzamos de maneira figurada a significação natural desses dois princípios da Conservação e da Degradação da Energia.

Qualitativamente, dizíamos acima, a Evolução da Matéria manifesta-se a nós, aqui e agora, como um processo no curso do qual se ultracondensam e se intercombinam os constituintes do átomo. Quantitativamente, essa transformação nos aparece agora como uma operação definida, embora custosa, na qual se esgota lentamente um impulso original. Laboriosamente, de grau em grau, os edifícios atômicos e moleculares se complicam e se elevam. Mas a força ascensional se perde no caminho.

Além disso, no interior dos termos de síntese, e tanto mais depressa quanto mais elevados são esses termos, age o mesmo desgaste que mina o Cosmos em sua totalidade. Pouco a pouco, as combinações improváveis que eles representam se desfazem de novo em elementos mais simples, que recaem e se desagregam no amorfo das distribuições prováveis.

Um foguete que sobe segundo a flecha do Tempo e só desabrocha para apagar-se; um redemoinho ascendente no seio de uma corrente que desce: tal seria, portanto, a figura do Mundo.

Assim fala a Ciência. E eu creio na Ciência. Mas terá a Ciência algum dia se dado o trabalho, até aqui, de olhar o Mundo por outro ângulo que não seja o Exterior das coisas?

## Notas

1. Aquilo que chamaremos mais adiante “a lei de consciência e complexidade”.

2. Há alguns anos, esse primeiro nascimento dos corpúsculos era antes imaginado sob forma de condensação brusca, como em meio saturado, de uma substância primordial difusa através de um espaço ilimitado.

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